O Racismo politicamente correcto
1. A inteligência
do Dr. Watson
A história é curta e correu mundo. Para os distraídos:
o Dr. James Watson – eminente cientista nobelado em Medicina em 1953
devido à sua pesquisa sobre mutações induzidas e mundialmente
famoso pelo seu trabalho e descoberta (co-autor) da famosa «dupla hélice» do
ADN – terá afirmado em entrevista ao Sunday Times, estar pessimista
quanto às perspectivas sobre África, porque todas as políticas
sociais seriam baseadas na convicção de que a inteligência
dos africanos seria a mesma que a nossa (dos iguais a ele, brancos, ocidentais,
provavelmente), enquanto que todos os testes diriam que não é assim.
De acordo com o mesmo prémio Nobel, seria desejável que todos
fôssemos iguais, mas pessoas que têm que lidar com empregados
negros saberiam bem que não é assim.
Em consequência desta entrevista, levantou-se um coro de protestos, não apenas de africanos e afro-descendentes, mas de forma generalizada de toda a comunidade científica e políticos. O Museu de Ciências de Londres, onde o cientista iria proferir uma palestra, antecipadamente esgotada, decidiu prudentemente cancelá-la invocando a «infelicidade» das palavras do cientista. Esta conferência serviria de abertura para uma campanha promocional de lançamento editorial do seu mais recente livro «Avoid Boring People: Lessons From a Life in Science». Todas as conferências e acções de promoção foram canceladas. Também o laboratório onde James Watson tem responsabilidades de direcção - Cold Spring Harbor Laboratory Board of Trustees - decidiram suspendê-lo preventivamente das suas funções até decisão da direcção.
Alguns dias depois, perante a contestação generalizada, o cientista ainda tentou emendar a mão entre um diz que disse mas não disse e não queria dizer e o jornalista é que percebeu mal, acabando por pedir desculpas públicas aos africanos, corrigindo as afirmações anteriores afirmando agora não haver bases científicas para afirmar a diferença entre africanos e «nós».
O episódio conta-se por si só e aparentemente não necessita de mais palha para arder, nem argumentos para contrariar tamanha imbecilidade, e apenas mereceu atenção devido à boca que a proferiu.
2. Os jornalistas politicamente
correctos
Curiosamente, no meio da chuva de protestos, também nacionais, duas
vozes supostamente esclarecidas e autorizadas, me chamaram a atenção:
o José Manuel Fernandes (Público, 21 de Outubro) e João
Pereira Coutinho (Expresso, 27 de Outubro). Dizia o Editorial de José Manuel
Fernandes, e passo a transcrever: «Vem isto a propósito do cancelamento
de uma conferência de James Watson - um dos dois cientistas que descobriram
a estrutura do ADN - por delito de opinião. Watson pode ter chocado
muita gente ao dizer ao Sunday Times que os negros serão menos inteligentes
que os brancos - mas como qualquer cidadão, mesmo sendo cientista,
tem direito à opinião e ao disparate. Já os que a seguir
lhe cortaram a palavra não se ficaram pelo disparate: impediram que
o debate prosseguisse.». Afirmando mais à frente não
subscrever as teses de Watson, o director do Público invoca a voz
de Sue Blackmore do The Guardian para clamar contra a censura: « Na
verdade, e regresso a Blackmore, "a vida seria mais simples, a sociedade
seria mais justa, o racismo seria mais fácil de combater, se não
existissem diferenças entre os homens. Mas há milhares de estudos
(...) que mostraram que essas diferenças existem num conjunto vasto
de características". É a inteligência uma delas?
Goste-se ou não, os estudos existentes são demasiado controversos
para se ter a arrogância de, em nome do politicamente correcto, afastar
de vez essa hipótese.». E remantando: «O tema não é a
especialidade de Watson e usou argumentos deploráveis. Mas calá-lo é pior.
E declarar que a investigação sobre as diferenças existentes
entre os vários grupos humanos é uma área tabu e interdita,
por suspeita de motivações racistas, é estúpido
e contraproducente... Por isso, não se podendo subscrever as teses
de Watson, e condenando-as na sua formulação, impõe-se
contrariar todos os que apenas desejem silenciá-las.».
No mesmo sentido vai a crónica de João Pereira Coutinho: «Mas eu teria gostado de ouvir Watson sobre a matéria, caso o Museu da Ciência de Londres não tivesse apontado uma arma à própria cabeça da instituição, calando o homem perante as fogueiras das patrulhas. O gesto, pelos vistos, encheu de gozo alguns zelotes que, confrontados com as ideias mais polémicas ou ultrajantes, não estão dispostos a debatê-las ou a refutá-las; mas a mandar chamar o pelotão de fuzilamento, provavelmente por temerem que elas possam ser verdade. Pobre gente.».
Mas discutamos então. Claro que seria fácil começar por questionar a inteligência dos dois jornalistas, auto-constituídos zelotes da civilização ocidental e do direito de toda a gente de dizer publicamente toda a espécie de bacoradas, mesmo quando elas são insultuosas. Mas esta era demasiado fácil. Vejamos de mais perto.
3. Censura ou bom senso?
Em primeiro lugar ninguém censurou o Dr. Watson. Ninguém
o fuzilou nem sequer ninguém o calou. O que o Museu da Ciência
fez foi, num acto de bom senso, simplesmente cancelar a palestra do Dr. Watson.
Ele poderia ir palestrar para outro qualquer lado, mas o Museu – supostamente
um depositório de Ciência e não verdades de carroceiro
- não estava naturalmente disposto a ter uma palestra de promoção
de um livro (onde o orador/escritor perdeu a credibilidade), transformada
numa babel. Ou será que alguém pensa que os cientistas negros
que provavelmente iriam assistir, iriam ficar calados perante um indivíduo
que os considera inferiores? E suponham lá os senhores jornalistas
que um cientista de uma qualquer cor os convida para uma conferência
onde os senhores saão tomados por menos inteligentes. Caladinhos e contentes.
Poixx.
Tudo deve ser debatido e merece ser debatido, estamos todos de acordo. Mas tudo tem o seu tempo e o seu lugar e quem não sabe do que fala, mais lhe valera estar calado. Ademais quando o que diz pode ser ofensivo. No caso, é abertamente racista, como afinal são racistas os argumentos dos jornalistas. «Pobre gente»? Ou não serão racistas e apenas parvos? Ora aqui está um bom tema de debate!
Sabendo que existem ainda hoje indivíduos que afirmam que a terra é plana, porque é que os nossos jornalistas não defendem abertamente a necessidade de prosseguir o debate? Ou sabendo como os criacionistas defendem que a Terra tem pouco mais de cinco mil anos, será que eles estão interessados em discutir o assunto? Ah!, mas esses não têm argumentos científicos, dirão os nossos inteligentes e argutos jornalistas! Pois não, mas o Senhor Doutor Watson também não tem e nem sequer é um entendido em matéria de inteligência. A sua demolidora tese científica baseou-se na observação dos seus empregados negros, e é isso que eles querem discutir. Supostamente tratar-se-ia de um acto censório dos «politicamente correctos». Eu diria que perante uma observação digna de fila (bicha) de urinol de centro comercial não há argumentos, mas os senhores jornalistas lá sabem (que eles devem ser bem mais inteligentes que eu que não consigo atingir a coisa)...
4. A (in)utilidade do
debate
Enfim, as afirmações «infelizes» do Dr. Watson
não serviram para que a comunidade científica avançasse
fosse no que fosse, mas obrigou-a a afirmar-se publicamente contra ele e,
esse sim, teve o mérito de fazer luz sobre o passado – afinal
bronco - do dito elementar Doutor. Especialistas da neurobiologia, fisiologia,
genética, medicina, antropologia e outras disciplinas, contrariaram
abertamente as suas afirmações por todo o mundo. No semanário
Expresso de sábado passado, Luisa Pereira doutorada em Genética
Populacional, Cláudia Sousa doutorada em Antropobiologia e Sandra
Beleza doutorada em Diversidade Genética questionaram as afirmações
de James Watson, num artigo de Valdemar Cruz e Virgílio Azevedo: (As
declarações de James Watson) «são mais comentários
pessoais de pendor racista do que uma opinião científica», «não
há genes típicos de uma população que não
existam noutras populações», «não» (é possível
classificar um grupo em termos de inteligência), são respostas
de Luisa Pereira.
Noutra área, o antropólogo social Miguel Vale de Almeida no seu blog (blog.miguelvaledealmeida.net) termina assim o texto «De Watson a Fernandes»: «Uma ciência sem auto-consciência não é ciência, é uma mecânica utilitarista. Uma ciência sem consciência social não é ciência, é uma monstruosidade positivista (e já vimos no que isso deu nos anos 30 e 40 europeus, ou será que não vimos?). Uma comunicação social que não pára um segundo, antes de escrever, para se perguntar o que, se algo, constitui a "essência" de "raça" ou de "pretos" ou de "brancos", o que constitui a ciência, ou quais os efeitos do que diz sobre a desigualdade já existente, não é comunicação social – é , na "melhor" das hipóteses, uma caixa de ressonância do senso comum ou, na pior, um instrumento de propaganda.».
5. As manifestações do
racismo que não existe
Não conheço ninguém que se afirme explicitamente racista.
Existe, com certeza, mas eu não conheço. É um adquirido
científico que apenas existe uma raça humana, que se disseminou
desde há dezenas de milhares de anos a partir
de um «berço» comum,
em África, por todo o planeta, tendo-se adaptado com bastante sucesso às
diferentes condições físicas e geográficas. Mesmo
apesar de algumas descobertas questionaram a origem exacta ou a forma de
distribuição pelos continentes, ou as descobertas em genética,
o paradigma subsiste: existe apenas uma raça humana. A frase «todos
diferentes, todos iguais» concentra um pensamento moderno que é científico
e que é também ético e compreende que todos os indivíduos
são iguais, na diferença. E será então por esta
razão, pela «razão científica», que ninguém
se afirma racista.
O racismo é uma coisa complicada. Remete para processos de identificação e diferenciação individuais e colectivos, associados a factores territoriais, económicos, de classe, religiosos, culturais e societais complexos e produz manifestações também elas complexas, bastante diversas, de tipo diferente até do ponto de vista da afirmação, positiva ou negativa: há indivíduos e grupos que se consideram superiores e outros que se consideram a si mesmos inferiores; pelo menos nalguns aspectos.
O racismo existe? Claro que existe! Mesmo numa sociedade considerada não racista «pelo seu peculiar passado colonial» como a portuguesa, o racismo persiste, mas manifesta-se de forma subtil. Tome-se como exemplo o caso do PNR, um partido claramente xenófobo e racista. Na sua propaganda o PNR não se afirma racista; apenas «contra os estrangeiros». Claro que num país de emigração e imigração, ex-potência colonial, com naturais e descendentes espalhados pelos cinco continentes como Portugal, explicar o que é um estrangeiro ou um nacional, dá água pela barba. Por outro lado as amizades privilegiadas com nacionalistas de outros países, com quem não têm nenhuma afinidade que não ideológica, desmascara a verdadeira natureza política racista, xenófoba, caceteira, de ultra-direita do PNR. Mas não me vou deter sobre as propostas ou a natureza do PNR, demasiado evidentes para merecer a minha atenção.
Há não muito tempo manifestei-me aqui neste mesmo site a propósito
de uma frase também ela «infeliz», da tia Zézinha,
uma pessoa com responsabilidades e ambições políticas.
O problema da baixa de Lisboa seria, para a senhora, as lojas chinesas. Não
as lojas de trezentos que existem há muito mais que as chinesas, não
os bancos que ocuparam os lugares dos cafés e dos retroseiros e que
esburacam o frágil subsolo, não os pronto-a-vestir que substituíram
os alfaiates, não as tradicionais tascas imundas que persistem, não
a desertificação de almas, não os come-em-pé em
vez dos restaurantes, nada. São os chineses. Entre as coisas boas
que acabaram e as coisas más que subsistem, a tia escolheu os chineses.
Claro, os chineses são esquisitos, são baixinhos, todos iguais
e falam uma língua esquisita. Não que ela seja racista, mas
os chineses é que são os culpados. Porque será? Ora
aqui está também uma boa oportunidade para reavaliar a actividade
da senhora e a sua suposta competência técnica... E moral. E ética.
6. Racismo ou parvoíce?
Poderíamos trazer para aqui um sem número de exemplos
deste perfume subtil do racismo, mas creio que os textos dos nossos dois
jornalistas
são um remate esclarecedor. Claro que muitos dirão que se trata
apenas de parvoíce simples ou, mais rebuscado mas também com
alguma dose de verdade, de uma atitude muito muito pós-pós-moderna
e muito politicamente correcta que é não ser politicamente
correcto. De preferência provocador, que é muito mais lido.
Nos últimos
tempos temos assistido a uma enxurrada de opinantes peritos em provocar e
dizer mal do politicamente correcto. E isso passou a ser o politicamente
correcto.
Mas o meu assunto hoje não é isso e eu escuso-me
de trazer mais exemplos que este: O Dr. Watson que não sabe assumidamente
nada sobre inteligência e que terá tido um desaguisado com a
empregada negra que insiste em lhe passar os colarinhos das camisas para
o outro lado, foi queixar-se ao Sunday Times e estes dois senhores jornalistas
acham que «se deve continuar o debate». Qual debate? Todos os
especialistas nesta área dizem que existem três tipos de inteligência,
física, emocional e social e por isso preferem falar em capacidades
cognitivas e que elas dependem do contexto cultural, social e ambiental em
que crescemos (citado directamente da boca da Dra. Cláudia Sousa,
no Expresso de sábado, leiam por favor, srs. jornalistas). Todos os
especialistas, em todo o mundo.
O jornalista João Pereira Coutinho não pede ao seu canalizador
que opine sobre o sistema eléctrico da sua casa, nem o jornalista
José Manuel Fernandes quer dar tempo de antena ao seu merceeiro
para ouvir o que ele tem a dizer sobre os quadros do Berardo no CCB.
Porque quererão
saber então
a opinião
de um não especialista sobre uma qualquer outra matéria? E
porque é que eles acham que é preciso continuar o debate? Qual
debate? O de a Terra ser plana? O de o Homem ter aparecido na Terra há apenas
cinco mil anos? Porquê a inteligência de uma raça? Qual
raça? Todos, todos os especialistas dizem que há apenas uma
raça humana. Porque é que as afirmações de um
idiota senil a propósito de coisas de que não sabe devem ser
discutidas? Ninguém
as quer censurar; mas quem é que quer pagar para as ouvir? Apenas os
felizes pobres de espírito
(os tais que irão ganhar o reino dos céus) ou os mal intencionados,
podem querer elevar uma afirmação de caserna a verdade científica
discutível.
Se isto não é uma manifestação subtil de racismo
travestida de politicamente correcto (do politicamente correcto new wave de
que falei atrás), então é parvoíce chapada, motivada
por aquela necessidade de se afirmar radical e provocador anti-politicamente
correcto para arranjar leitores.
Mas para mim é claro: é racismo. Não que
eles se importem, claro está. Os seus colegas jornalistas negros é que
talvez não
achem muita graça e é bom que eles o saibam.
No meu entender é grave. E não é grave por toda a gente
ter o direito de dizer parvoíces. Claro que tem! Mas jornalistas são
pessoas que nós, os humanos cá de baixo, pensamos sempre ser
pessoas que sabem o que dizem. «Se vem no jornal, é porque é verdade»,
diz o povo. Mas não é. Infelizmente. Nem todos os jornalistas
têm princípios éticos e morais e muitos até têm
uma grande queda para o disparate. E, à semelhança das afirmações
de uma pessoa que tem a autoridade moral de «ser um cientista»,
que faz com que os mortais confiem no que ele diz, também pelas mesmas
razões
passa a ser grave quando um jornalista o escreve no jornal.
Ora, parvoíce ou racismo, prossigamos então o debate!