Kurt
Elling by Jorge Monjardino
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Angra Jazz
2011
Kurt Elling (
)
Foi no momento exacto em que Kurt Elling atacou o clássico “Stardust” que
soube que estávamos perante uma noite inesquecível. Foram duas
horas em que os standards se cruzaram com John Coltrane ou os Beatles, Dorival
Caymmi e um comovedor “Luíza” de Tom Jobim, terminando com
Stevie Wonder e “Golden Lady”.
O que faz de Kurt Elling um músico de excepção é a
conjugação de uma técnica vocal inexcedível com
uma entrega em palco que se revela na roupa que lhe transpira, mas que é apenas
o sinal mais exterior da emoção que comunica.
Kurt Elling não é um crooner, apesar de o concerto conter em
si bastante de espectacular, mas isso não decorre de artifícios
exteriores à música, mas da sua expressividade. Do ponto de vista
técnico, ele junta uma voz grave de tenor com alguns artifícios
que usa, ainda assim de forma parcimoniosa. Ele usa o scat ou o vocalese, como
manipula o microfone ou usa o corpo, mas os artifícios são apenas
o suporte para um discurso que se vai construindo na desconstrução/
construção das canções, revelado na alteração
da métrica, nas súbitas síncopes, na modificação
das notas. Tudo em que toca (canta), Elling transforma em Jazz, e ele fá-lo
de forma natural como respira.
Kurt Elling surge-nos ora forte ora pateticamente frágil, ridente ou
desesperado, num turbilhão de emoções que nos vai quebrando
as defesas, que nos faz chorar e rir, que nos deslumbra e surpreende e que
nos comove.
Uma nota final para a banda, irrepreensível e inspirada (onde nem se
notou a substituição do contrabaixo). Em destaque o baterista,
Ulisses Owens, veludo puro, mas sobretudo um pianista, também director
artístico de Elling, Laurence Hobgood, subtil e rigoroso.
Alguém me dizia no final do concerto que esta era uma boa bitola: quem
não ama um concerto destes, quem não ama um cantor destes, deve
desistir de ouvir Jazz e entreter-se com outras coisas. Nada mais acertado!
O AngraJazz viveu uma das suas mais memoráveis noites e este humilde
escriba teve a felicidade de estar presente.
Orquestra AngraJazz (
)
O arranque do festival teve lugar no dia anterior com o concerto da Orquestra
AngraJazz.
Tive no ano passado oportunidade de expor o meu descontentamento pelo descaminho
da orquestra, mas é preciso reconhecer agora os méritos do que
foi feito desde então. Ao contrário de 2010, ela apresentou este
ano vários solistas e um nível apreciável de jovens músicos. É verdade
que muitos solos se revelaram limitados e alguns não serão mesmo
mais que simples transcrições de pautas, mas é bom que
os jovens músicos aprendam primeiro a tocar certo, para depois poder
tocar errado. Pedro Moreira e Claus Nymark, acertadamente, fizeram o que era
preciso fazer: deixar os miúdos tocar! Eles abstiveram-se de brilhar,
e bem: afinal o espectáculo é da orquestra! Claus Nymark escreveu
vários temas expressamente para a orquestra (alguns deles claramente
inspirados em clássicos), justificados pela admissão dos novos
recrutas, que se somaram aos standards que já fazem parte do reportório
da orquestra.
Por último, uma boa surpresa foi a voz do jovem convidado Manuel Linhares
que revelou voz, postura e acerto na interpretação dos crooners,
com especial destaque para a evocação de Frank Sinatra. A Orquestra
AngraJazz tem um longo caminho a percorrer, mas hoje ela provou que era possível.
José Ribeiro Pinto, o histórico apresentador e um dos directores
do festival confidenciou que estão na calha vários projectos
para a orquestra, entre os quais a apresentação de um concerto
de Natal. Isso é fundamental. É fundamental que a orquestra ganhe
utilidade e visibilidade, e permitir-me-ia sugerir a introdução
de vozes (eventualmente convidados) que poderiam enriquecer o programa: existe
uma longa tradição de concertos de Jazz de Natal e as vozes são
aqui importantes.
É
fundamental que os membros da orquestra se sintam úteis e estimulados
e que o público da Terceira a conheça. Uma única apresentação
anual é um dos factores da desmotivação dos músicos.
Não há segredos nisto: é preciso trabalhar, trabalhar,
trabalhar, e é preciso que a orquestra se torne visível. É preciso
mostrar resultados à cidade e à ilha, é preciso virar
a orquestra para fora. Creio que isso começou a ser feito quando a orquestra
começou a angariar jovens entre as filarmónicas. O maior problema
da orquestra é a sua insularidade, e os músicos e a sua direcção
têm de trabalhar o dobro para obter os mesmos resultados que outras orquestras
onde os seus membros têm a oportunidade de trocar experiências.
Mas hoje todos vimos que isso era possível! É preciso não
desarmar, é preciso continuar!
A Orquestra AngraJazz é a menina dos olhos do festival e um dos seus
projectos mais interessantes. Por si só, ela faz do AngraJazz um dos
mais importantes festivais nacionais.
Night
of Jazz Guitars featuring Larry Coryell (
)
O segundo concerto do AngraJazz 2011 foi um desastre. Um ensemble de guitarras é sempre
um espectáculo perigoso. O risco decorre do exibicionismo gratuito a
que ele é propenso, mas ainda assim existem alguns exemplos bem sucedidos,
pelo menos no que toca ao espectáculo. Mas, por estranho que pareça,
nem isso aconteceu: nenhum dos músicos revelou dotes extraordinários
e mesmo o virtuoso Larry Coryell pareceu ausente, e até o seu “Bolero
de Ravel” nos deixou indiferentes. Claramente um «erro de casting».
Enfim, o dia dois do festival fez-nos esquecer o episódio menor do fim do dia anterior, e já vos dei conta do que foi o memorável concerto de Kurt Elling. Mas antes ainda assistimos ao concerto do trio de Bill Carrothers.
Bill Carrothers Trio (
)
Carrothers não veio a Angra apresentar nenhum novo disco, tendo percorrido
vários dos seus trabalhos, entre o mais recente «Excelsior», «Joy
Spring» e o longínquo «The Blues and the Greys».
O seu estilo não parece revelar filiação directa nalgum
outro pianista, e claramente não pode ser associado a Keith Jarrett,
Brad Mehldau ou Esbjorn Svensson. Claro que foi possível no concerto
encontrar referências ou citações, Tristano, Monk, e ele
terminou o concerto com um rápido bop, mas a sua marca distintiva é um
profundo melodismo que nada tem de xaroposo, com uma utilização
dramática do silêncio. Bonomia, virtuosismo e poesia andaram de
mãos dadas no concerto de Bill Carrothers.
Carrothers trouxe a Angra um dos seus trios europeus, dois músicos irlandeses
que, após alguma hesitação inicial acabaram por cumprir
com eficiência, embora sem rasgos.
Júlio
Resende International
Quartet (
)
A
representação nacional completou-se com o
Júlio Resende
International Quartet, com Ole Morten Vagan no contrabaixo, Will Vinson no
saxofone e Joel Silva na bateria.
Júlio Resende é um dos nossos mais sólidos e profícuos
pianistas, com três discos gravados e um sem número de colaborações
em projectos diversos. O concerto começou
com “Silêncio for the Fado” retirado de «You Taste
Like a Song», passando a «Da Alma» e «Jazzatustra»,
numa demonstração do eclectismo e da sua solidez como instrumentista.
O momento alto do concerto foi “Hip-Hop Du-Bop”, claramente inspirado
nas complexas estruturas rítmicas de Steve Coleman, e onde Joel Silva
esteve em destaque. Aliás o baterista foi claramente o músico
da noite, rigoroso, subtil, eficiente e criativo; confirmando em Angra o que
já tínhamos notado, como um dos grandes bateristas da nova geração,
a seguir com atenção.
![]() |
Brass
Ecstasy by Jorge Monjardino
|
Dave Douglas Brass Ecstasy (
)
O
encerramento do Angra Jazz 2011 foi feito com chave de ouro pela Brass Ecstasy
de Dave Douglas, um projecto inspirado nas brass band de
New Orleans e na Brass
Fantasy de Lester Bowie. De facto a Brass Ecstasy não copia o modelo
de Bowie, revelando-se em especial nos tempos lentos uma versão erudita
da banda de Bowie. E nisso perdeu alguma da espectacularidade que a música
desbragada de Bowie tinha, mesmo se, no detalhe, ela é com frequência
bastante mais rica. Douglas é um músico exigente, um chefe de
fila do Jazz contemporâneo, instrumentista virtuoso, compositor, também
líder e produtor. Todos os músicos que tocam com ele possuem
um nível excepcional como foi evidente em Angra; e como foi notório
também na substituição do baterista regular da banda,
Nasheet Waits por Joey Baron, a portar-se bastante bem. Foi um concerto bastante
descontraído, onde fantasia combinou com erudição, com
largos espaços para a improvisação.
Os momentos altos do concerto, que não os mais espectaculares, foram
o clássico “Lush Life”; “Safeway”, um tema de
Aaron Copland; e o hit country “I'm So Lonesome I Could Cry”. Brilharam
Marcus Rojas nos impossíveis solos de tuba, Vincent Chancey no lânguido
country e ele mesmo em abrasivos solos. Uma muito física homenagem a
Lester Bowie rematou o 13.º Angra Jazz com a noite já longa.
Cumpriu-se assim mais um AngraJazz, confirmando o seu lugar cimeiro entre os
festivais de Jazz nacionais.
NOTA FINAL:
Têm sido feitas críticas ao Angra Jazz apresentando a necessidade
de reformular o seu modelo. Creio que as críticas, que se baseiam nalguns
aspectos menores que importa corrigir ou melhorar, ou em imponderáveis,
são injustas e não são inocentes.
O modelo do festival assenta em três dias de concertos duplos com pelo
menos quatro concertos internacionais, um outro de uma banda nacional e ainda
um concerto da Orquestra AngraJazz. Este modelo tem tido bastante êxito,
mercê de uma programação criteriosa e diversificada que
conjuga a tradição com a inovação, mas também
espectáculo com exigência. Foi assim que assistimos em Angra a
concertos memoráveis – que colocaram o AngraJazz na primeira fila
dos festivais nacionais - a começar pelo Kurt Elling deste ano, mas
também Charles Lloyd, Henri Texier, Benny Wallace ou Martial Solal,
entre inúmeros outros.
À
margem dos concertos tem sido organizada uma «feira do disco»,
exposições e ocasionalmente conferências. A Orquestra AngraJazz
merece-me uma reflexão mais profunda, mas do modelo do festival a minha única
observação assenta apenas no desejável de fazer sair (ou
melhor, extravasar) o AngraJazz do Centro de Congressos; quer dizer, atribuir-lhe
uma maior visibilidade exterior; levar o festival à cidade e porque
não, à ilha. Isto não é fácil, mas parece-me
interessante recuperar algumas das experiências dos primeiros tempos
dos concertos de rua. As possibilidades são imensas, entre bandas de
rua e concertos deslocados pela cidade. Assim haja financiamento, que quando
a crise se abate, a cultura é sempre a primeira a pagar.
25 Outubro 2011
Qui
6-Out
|
Angra
do Heroísmo
|
Centro
de Congressos
|
21.30
|
Orquestra
Angra Jazz
|
Pedro Moreira (dir) Claus Nymark (dir), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Telmo Aguiar (st), José Pedro Pires (clb), Rodrigo Lima (f), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Edgar Marques (trom), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat) | |
Night
of Jazz Guitars featuring Larry Coryell
|
Larry Coryell (g), Helmut Kagerer (g), Paulo Morello (g), Andreas Dombert (g) | |||||
Sex
7-Out
|
21.30
|
Bill
Carrothers Trio
|
Bill Carrothers (p), Dave Redmond (b), Kevin Brady (bat) | |||
Kurt
Elling Quintet
|
Kurt Elling (voz), Laurence Hobgood (p), John McLean (g), Harish Raghavan (b), Ulysses Owens (bat) | |||||
Sáb
8-Out
|
21.30
|
Julio
Resend Internacional Quintet
|
Julio Resende (p), Will Vinson (sa), Ole Morten Vagan (b), Joel Silva (bat) | |||
Dave
Douglas Brass Ecstasy
|
Dave Douglas (t), Vincent Chancey (flis), Luis Bonilla (trb), Marcus Rojas (tu), Joey Baron (bat) |
JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do AngraJazz.
2010
A insularidade nunca foi desculpa para o grupo de homens que fazem o Angra Jazz e uma vez mais o festival se confirmou como um dos mais importantes festivais de Jazz nacionais, na ambição e na teimosia, na programação, na escolha criteriosa dos grupos, nos eventos paralelos e na organização. Eficaz mesmo nos detalhes, nada é deixado ao acaso na organização do melhor festival de Jazz do Atlântico. Em destaque estará sempre a Orquestra Angra Jazz, a menina dos olhos do festival. A sua existência ao fim de tantos anos é ela própria uma razão do seu triunfo e da necessidade da sua continuação. A sua importância revela-se até nos eventos paralelos, como por exemplo a organização de conferências e debates: inserido na programação do 12º Angra Jazz decorreu ainda um colóquio subordinado ao tema “O jazz e a música étnica”. Os conferencistas convidados foram o italiano Libero Farnè da Musica Jazz e Jazz.it, Paulo Barbosa (Jazz XXI) e Leonel Santos (JazzLogical). O colóquio decorreu no domingo à tarde, dia 03 de Outubro no Centro de Congressos e foi seguido de um debate moderado por José Ribeiro Pinto. O título da conferência do Libero Farnè foi “To Jazz or not to Jazz? The origin of Ethno-Jazz”.
Orquestra
AngraJazz + Luís Cunha![]()
O orquestra esteve sempre
bem, mas não «voou». A ausência de solistas trouxe a nu o que já se
vem fazendo notar: a falta de contacto com outros músicos tende a estrangulá -la.
Eu creio que a direcção de Pedro Moreira
e Claus Nymark não está a fazer o seu trabalho: essa ausência
corresponde a uma regressão,
e a sua substituição pelos directores Moreira - Nymark, é apenas
a face mais evidente deste facto. A orquestra precisa de mais trabalho, de
trocar experiências com outros músicos rompendo a insularidade,
mais agilidade; mas precisa também de uma direcção renovada
e mais atenta. Creio que Pedro Moreira e Claus Nymark deveriam ceder o lugar
a outros: cumpriram uma função e cumpriram-na bem. Mas agora
eles parecem não ser capazes de fazer melhor. Por outro lado, tenho
vindo a dizer, a orquestra deveria encarar com seriedade a possibilidade
da troca de experiências mais prolongadas com outros músicos.
As modalidades são muitas e o dinheiro é escasso, mas é necessário
encontrar uma solução. Levar alguns músicos a outras
escolas no continente, organizar workshops regulares na ilha com músicos
do continente (mais do que um fim-de-semana) ou mesmo estrangeiros; é necessário.
Enfim, ainda assim e apesar das minhas observações, a orquestra
comportou-se - no reportório clássico - com correcção
no serviço aos solistas Luís Cunha (em evidência), Pedro
Moreira e Claus Nymark.
Mingus Dinasty Septet![]()
O
Mingus Dinasty Septet é uma
forma condensada da Mingus Dinasty Big Band que desde há anos, impulsionada
pela viúva de Charlie Mingus, Sue Mingus, tem revolteado o espólio
do contrabaixista e percorrido o mundo na sua divulgação. A
formação que actuou em Angra era constituída por quatro
sopros mais secção rítmica.
O repertório do concerto baseou-se em clássicos, sem grandes novidades.
Frank Lacy tocou e cantou, sem – felizmente – os excessos que se
lhe conhecem, e esteve até bastante bem (contido) na interpretação
do célebre (Mingus/ Joni Mitchell) Good Bye Pork Pie Hat. A dupla Sipiagin/
Kozlov, que se vêm fazendo notar como os verdadeiros motores da orquestra,
com responsabilidade também nos arranjos e na direcção,
voltou a confirmar-se em Angra, com um Sipiagin tremendo no controle do instrumento,
mesmo se até mais discreto que outros sopradores. O solo da noite coube
a Escovery em Good Bye…, superando um menos interessante Abraham Burton
(que parece confirmar a sua desadequação no tenor). Secção
rítmica eficaz.
Música apelativa, de elevado nível como estamos habituados, com
equivalente aceitação do público, em especial nos temas
mais angulosos do tipo do hit Fables of Faubus, ou nas vocalizações
de Frank Lacy.
Stefano Bollani Trio![]()
O
trio dinamarquês é o mais
conservador dos projectos de Stephano Bollani, mas nem por isso O menos exigente.
O pianista revela em palco um sentido melódico apurado, que se esconde
por detrás de um humor por vezes excessivo.
Stephano Bollani tocou Stone In The Water, um disco onde explora uma faceta
melódica
que o próprio alinhamento proporciona, e onde não faltam o recurso
ao Brasil de Jobim e Caetano Veloso, a par de outros temas mais intrigantes como
Joker In The Village ou Il Cervello del Pavone. Mais contido do que no concerto
de Lisboa (Janeiro, Culturgest), Bollani não consegue resistir a algumas
chalaças, que contêm a virtude e o defeito de camuflar alguma da
melancolia que a audição do disco nos tinha revelado, mas encobre
da mesma forma a complexidade das peças.
Apesar da origem diferente dos músicos – dois dinamarqueses e um
italiano -, o trio funcionou sempre como uma máquina bem oleada, com acerto
e eficácia.
Paula Oliveira + Lisbones![]()
Paula
Oliveira é um ícone
do Angra Jazz e não será surpresa pois que ela tenha escolhido
o festival para apresentar Raça, o seu novo disco para a Universal.
A expectativa era grande, dado o invulgar acompanhamento - o quarteto de
saxofones Lisbones mais secção rítmica, com direcção
e arranjos de Lars Arens, mas ela foi defraudada.
Começo por dizer que não gosto dos temas e da forma como a Paula
Oliveira canta em português, excessivamente contaminada pelo fado com traços
pesados da música ligeira portuguesa. Prefiro-a a cantar Jazz, onde é indiscutivelmente
a melhor.
Mas se o reportório me colocou interrogações, a verdade é que
o que à partida parecia uma brilhante ideia se gorou em arranjos destemperados:
Lars Aren, de quem conhecemos excelentes trabalhos para orquestra, nunca ousou
levantar voo, incapaz de resolver o problema (por si mesmo colocado) de quatro
instrumentos solistas de timbres iguais (ou próximos), cuja missão
era suposto ser em primeiro lugar desenhar a tela onde a voz se espraia e não
a teia onde se emaranha. Concerto morno, com a cantora a comunicar o seu evidente
desconforto numa roupa que lhe não pertencia.
Para o encore a cantora escolheu Gloomy Sunday, um dos estandartes de Billie
Holiday, que acabou por ser o melhor da noite, pela voz da cantora e pelo engenho
de Arens. Contou Paula Olivereira que Gloomy Sunday não foi incluído
no disco devido aos arranjos muito ousados. Esclarecedor! Faltou realmente ousadia
a Lars Arens e Paula Oliveira.
Orchestre National de Jazz de France![]()
A
ONJ é uma grande formação
francesa suportada financeiramente pelo Estado, e que tem, de acordo com
os seus próprios estatutos, direcções temporárias,
inteiramente responsáveis pelas formações e pelos reportórios.
Por ela passaram no passado Laurent Cugny, Claude Barthélemy, Franck
Tortiller, entre outros directores, e dela saíram grandes discos e
grandes projectos. O director actual é Daniel Yvinec, que apresentou
em Angra o espectáculo Broadway in Satin - Billie Holiday Revisited.
O resultado foi bastante interessante, se bem que desigual.
Creio que terá causado alguma estranheza a abordagem irreverente do universo
de Billie Holiday, a que a ONJ procurou esvaziar da carga dramática mais
pesada. O estranho reside na forma como Billie cantava, sempre carregada de emoção,
que no fim da vida acabou por quase se substituir à voz. Imaginar Billie
sem emoção é quase inconcebível, e foi este o desafio
que Yvinec e a ONJ tomaram em mãos. A verdade é que abordar a temática
de Billie Holiday é sempre um risco e, ou se procura copiar, e o melhor
que é possível fazer, fá-lo Madeleine Peyroux, ou se reinventa
tudo (há uma terceira hipótese que é Abbey Lincoln, mas
isso é outra história).
O risco era enorme: a ONJ envolveu as canções de Billie Holiday
de rebuscados arranjos onde não faltou electricidade e energia, mas eu
diria que apesar de tudo com carinho e respeito, num movimentado palco onde a
orquestra e dois cantores recriaram tudo ou quase tudo no universo Billie. Mesmo
as vozes estavam nos antípodas de Bille Holiday: Karen Lano possui a frieza
do cristal de Judy Collins, enquanto Ian Siegal cultiva a voz rouca (e também
algo da pose) de Tom Waits!
O concerto valeu também pela ousadia e o risco colocado, com um resultado
final a superar confortavelmente a linha de água.
Henri Texier Transatlantik Quartet![]()
Quando
no meio dos anos 90 me chegaram às
mãos três discos de Henry Texier, fiquei tão entusiasmado
que propus ao meu editor dedicar-lhes duas páginas no suplemento musical
do Diário de Notícias onde na altura escrevia. Acontecia que
por esse tempo a distribuição dos discos da Label Bleu era
bastante irregular e poucos ouvidos os conheceriam. Um dos discos era Izlaz,
onde se estreava o Transatlantik Quartet, e recordo que nele me excitou especialmente
a contribuição de Steve Swallow no baixo a competir com Texier.
Aconteceu que, apesar das diversas passagens do contrabaixista por território
nacional, nunca tinha assistido à actuação do quarteto ao
vivo e foi pois com entusiasmo que me dispus a assistir ao concerto de encerramento
do Angra Jazz 2010.
Tratava-se em primeiro lugar de um encontro de verdadeiras estrelas do universo
Jazz, quatro veteranos com provas dadas ao longo de décadas e prémios
em todos os círculos da crítica especializada em todo o mundo.
Mas nestas coisas, nada como assistir para comprovar, até porque a experiência
nos diz que o resultado de um encontro de estrelas nem sempre corresponde à soma
das parcelas. Creio que este quarteto não terá tido muitas oportunidades
de tocar ao longo dos seus mais de vinte anos, mas as minhas preocupações
foram vãs: à alegria da aventura (desses idos dias dos finais dos
anos 80), os quatro músicos ajuntavam agora muitos anos de amizade e uma
longa experiência.
De forma algo diferente do que recordava dos discos, um exuberante Joe Lovano
esteve em evidência, mesmo se a peculiaridade na formação
do grupo (refiro-me obviamente aos dois baixos) foi sempre um dos motivos de
interesse do concerto, com Swallow que é obrigado a subir para os agudos
e a funcionar como uma guitarra, não perde oportunidade de se intrometer
na área do contrabaixo, mais grave, mas mais lento que o ágil baixo
eléctrico. Mas talvez que a nota dominante em todo o concerto tenha sido
a bonomia, a cumplicidade entre os músicos e a alegria de tocar (Jazz).
(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)
Sex
1-Out
|
Angra
do Heroísmo
|
Centro
Cultural e de Congressos
|
21.30 |
Orquestra
AngraJazz + Luís Cunha
|
Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir), Luis Cunha (trb), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Telmo Aguiar (st), José Pedro Pires (clb), Rodrigo Lima (f), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Edgar Marques (trom), Antonella Barletta (p), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat) |
Mingus
Dinasty Septeto
|
Abraham Burton (sa), Wayne Escoffery (st), Alex Sipiagin (t), Ku-umba Frank Lacy (trb), Boris Kozlov (ctb), Orrin Evans (p), Donald Edwards (bat) | ||||
| Sáb 2-Out | Stefano Bollani
Trio
|
Stefano Bollani (p), Jesper Bodilsen (ctb), Morten Lund (bat) | |||
Paula
Oliveira + Lisbonnes
|
Paula Oliveira (voz), Leo Tardin (p), Bernardo Moreira (ctb), Bruno Pedroso (bat), Lars Arens (trb), Claus Nymark (trb), Luis Cunha (trb), Rui Bandeira (trb) | ||||
Seg
4-Out
|
Orchestre
National de Jazz de France
|
Daniel Yvinec (dir), Eve Risser (p, f), Vincent Lafont (sint, elec), Antonin-Tri Hoang (sa, cl), Matthieu Metzger (s, elec), Joce Mienniel (f, elec), Rémi Dumoulin (s, cl), Guillaume Poncelet (t, p, elec), Pierre Perchaud (g, bjo), Sylvain Daniel (b-el), Yoann Serra (bat), Karen Lano (voz), Ian Siegal (voz) |
|||
Henri
Texier Transatlantik Quartet
|
Henri Texier (ctb), Joe Lovano (s), Steve Swallow (b-el), Aldo Romano (bat) |
2009
A diversidade no Jazz (e em Angra do Heroísmo)
Bastante de acordo com a linha de
força do discurso do jornalista e
crítico do Jazz Magazine Thierry Quenun que observava que a característica
principal do Jazz contemporâneo é a diversidade, eu creio (apesar
de nem sempre de acordo com as suas observações) que a palavra
que melhor define a edição 2009 do Angra Jazz seja exactamente «diversidade». É verdade
que o Angra Jazz tem procurado desde sempre a diversidade, mas este terá sido
o melhor exemplo dessa realidade: seis concertos, seis propostas estéticas
tão diferentes que observadas por outra perspectiva, melhor se diriam
adversas. Em primeiro lugar uma orquestra portuguesa (e insular) que pratica
o Jazz mais tradicional e conservador e pró-americano do que foi possível
observar. Em segundo uma cantora americana – Jane Monheit – numa
fuga acelerada para fora do Jazz, num movimento há muito sugerido por
muitas cantoras (e cantores) que oferecem a técnica e maneirismos jazzy
ao canto pop ligeiro. Num outro patamar, um grande pianista – Mário
Laginha –, que cruza o lirismo e a vertigem de Bach, a música
popular (um pouco de Brasil também) e o fascínio por Keith Jarrett.
Chano Dominguez, outro grande pianista, andaluz, que introduz num discurso
tipicamente jazzístico elementos estranhos do folclore flamenco. Henri
Texier, contrabaixista gaulês que – na tradição do
Jazz comprometido de Charles Mingus – leva a política ao Jazz,
sob uma forma de composições pouco ortodoxas (de Jazz falando)
que transportam consigo a virulência do free jazz, mas também
os olores das mais insuspeitas paisagens de um mundo globalizado. E finalmente
Charles Lloyd, um dos últimos moicanos do saxofone, um verdadeiro guerreiro
que vai beber a sua inspiração à derradeira fase mística
de Coltrane; um músico ímpar na entrega, intenso e emocionante.
De diversidade falando, estaremos conversados; mas o Angra Jazz 2009 mereceu
a observação pela criteriosa selecção, mesmo se
nem tudo corre sempre pelo melhor.
O momento menos interessante foi protagonizado, como antecipei, pela voz de
Jane Monheit. Não que ela cante mal; bem pelo contrário. Mas
o repertório trânsfuga, o aligeiramento das formas e alguns tiques
raiando o piroso realmente incomodaram com frequência estes olhos e ouvidos.
Acredito que numa audiência mais intimista a cantora opte por uma temática
mais jazzy, mas resta saber se não esqueceu.
É
sempre um prazer regressar à menina dos olhos do festival, a Orquestra
Angra Jazz. O solista convidado deste ano, Hugo Alves, integrou-se à perfeição
no tutti instrumental, e alguns dos arranjos preparados, muito em especial
logo o primeiro, o clássico Freddie Freeloader, foi executado de forma
particularmente conseguida.
Já toda a gente referiu os problemas da insularidade da orquestra; mas
deverá ser questionado se não será altura de repensar
o modelo que vem sendo sustentado, já que apesar do seu razoável
nível, ela não parece evoluir substancialmente (e tudo o que
não evolui tem tendência a estagnar, dizem). Apesar da evolução,
falta à orquestra uma secção rítmica condutora,
faltam solistas e falta alguma dinâmica que apenas o confronto quotidiano
com outros músicos e outros conceitos estéticos podem resolver.
O reportório excessivamente bop não ajuda.
Escrevi no ano passado e gostaria de me repetir: «Com o diagnóstico
completo, a solução seria óbvia: é necessário
pôr os músicos a tocar com outros músicos e a trabalhar
com outros professores (se possível até estrangeiros), em regime
de tempo inteiro.
E já que Maomé não vai à montanha… Não
será fácil porque a orquestra é constituída em
grande medida por músicos não profissionais e porque as deslocações
e outras despesas associadas não são irrelevantes, mas uma primeira
solução será começar a trabalhar no sentido de
organizar workshops de duas ou pelo menos uma semana, duas ou três num
ano, organizado pela escola do Hot ou outra, onde os músicos, todos
de uma vez ou rodando, possam tocar nas condições que referi:
trocar experiências e trabalhar intensivamente com outros professores
e músicos. É uma aposta cara e eu estou a falar sem saber números
e se realmente será possível. Mas é necessário.».
Melhor correu como era esperado o concerto de Mário
Laginha. Laginha
tem desde há muito a minha admiração e o trio que dirige é uma
máquina imparável, mas a formação que Laginha levou
a Angra estava acrescida da guitarra de Sérgio Pelágio. Não
haverá nenhum reparo à guitarra; apenas que ela me pareceu com
frequência redundante: os arranjos estão feitos para o trio de
piano-baixo-bateria e a guitarra pareceu com frequência sobrar. Laginha
cresceu muito desde há dez anos e a sua música não parece
admitir um outro instrumento harmónico, a não ser que ele se
reinvente. A forma muito Jim Hall de Pelágio não me parece a
adequada.
Chano Dominguez esteve excelente. A singularidade de Chano (mais uma vez parecendo
confirmar a teoria de Quenun que afirma a riqueza e a diversidade do Jazz europeu
a partir da procura das origens folclóricas remotas dos músicos)
advém da integração feliz do flamenco no Jazz. A bateria
sem bombo nem tímbalos substituídos pelo cajón explicitava
a fonte, mas o discurso fluente e sincopado do pianista andaluz é verdadeiramente
jazzístico. Chano realmente não inventou nada; é conhecida
a atracção de Miles, por exemplo, pelo flamenco. Chano Dominguez
apenas vem explorando com felicidade e engenho a fórmula.
Quase não se notou a ausência do trombonista no Strada Sextet
transformado em quinteto de Henri Texier. Sob a batuta do veterano contrabaixo,
o grupo confirmou-se como um dos mais poderosos e estáveis grupos da
Europa. As raízes do Jazz de Texier reportam ao free jazz e ao hardbop
dos anos 60 e 70, mas também à tradição clássica
europeia, aos folclores do mundo e à pop anglo-saxónica. O reportório
do concerto incluiu alguns temas antigos de (V)ivre, alguns do novo CD
Alerte à l'eau e alguns originais. Talvez menos provocador
e politizado que em digressão
anterior a que assisti, ainda assim a música do Strada é volumosa
e intensa, e assim foi também em Angra.
Sem surpresas Charles Lloyd fez o melhor concerto do festival; ele que já tinha
feito também o melhor disco de 2008, com esta formação,
com a única substituição do baterista de Eric Harland
por Nasheet Waits.
O som de Charles Lloyd é verdadeiramente caloroso e expressivo. Não
sendo propriamente um original, ele soube matizar um saxofonismo que era o
mainstream dos anos 70 com motivos folclóricos que sugerem um desejo
de oriente e que se revela com mais clareza na utilização da
flauta e do tarogato. Nos últimos anos, como foi evidente em Angra,
a música de Charles Lloyd revela enfim a sua verdadeira influência,
e que não é outra que o saxofone derradeiro espiritual e místico
de John Coltrane. Por detrás do som enorme está uma figura frágil
e sensível, que parece revelar-se cada vez mais. Essa sensibilidade
fá-lo chorar em palco pela partida do amigo Billy Higgins, mas revela-se
também na forma como reage aos aplausos do público e que o fez
tocar duas horas seguidas em Angra. A música de Charles Lloyd toca-nos
como poucos são capazes. Ao lado dele estiveram três grandes músicos:
um Jason Moran que é tudo menos um mero sideman e que revela toda a
sua grandeza de igual forma na subtileza das intrusões ou nos solos;
um jovem Reuben Rogers que parece crescer todos os dias, absolutamente irrepreensível;
e Nasheet Waits que é só um dos grandes bateristas da actualidade.
Um última palavra para a conferência
de Thierry Quenun: já referi
estar de acordo com o crítico quanto à característica
principal do Jazz contemporâneo: a diversidade, que alguns outros melhor
denominam talvez de fragmentação estética, e que advém
da própria natureza do Jazz que o faz absorver características,
sinaléticas e linguagens de outras correntes musicais; tornando
mesmo qualquer definição de Jazz transitória. Mas Quenun
que bem observa que o Jazz se soube apropriar das referências estéticas
de outras culturas, sugwer que o centro da «vanguarda» do
Jazz se terá mudado para a Europa, a partir da maior diversidade cultural europeia.
Pondo de lado a
hipótese da arrogância gaulesa que se gosta de colocar no centro
do Universo, e reconhecendo que essa arrogância existe de igual forma
do outro lado do Atlântico onde os velhos boppers se intitulam os donos
do Jazz; eu creio que o discurso de Quenun revela uma parcial observação
dos factos, já que ignora por exemplo as correntes revivalistas que
recuperam para o Jazz valores considerados acabados, mas que persistem em oferecer
ao Jazz a emoção e a criatividade que a anopsia intelectual gosta
de ignorar. Que se revela na colaboração entre músicos
mainstream e vanguardistas, mas por vezes também entre músicos
clássicos e pop que a crítica pura e simplesmente desconhece;
e também os movimentos centrífugos e centrípetos que o
Jazz gera desde os primórdios. Prova da vitalidade do Jazz é igualmente
o bop evoluído de Miguel Zénon, os desvios country de Bill Frisell,
a interpretação de Monk pelo Kronos Quartet, o Jazz pop dos nórdicos
EST e o Jazz pop dos The Bad Plus, os inúmeros projectos de Dave Douglas,
o poderoso saxofone de Donny McCaslin e o Jazz clássico de Uri Caine,
a erudição de John Taylor e Maria Schneider, John Hollenbeck,
Joe Lovano, Bill Carrothers, e claro o Jazz sublime e emotivo de Charles Lloyd,
a par do flamenco de Chano Dominguez, o bop da Orquestra Angra Jazz, o lirismo
de Mário Laginha, o poderoso Jazz europeu de Henri Texier e enfim também
o Jazz que já esteve na voz de Jane Monheit. O Jazz é uma música
em movimento e a diversidade que é sua característica é também
a sua força. O centro? O Jazz não tem centro.
Uma organização irrepreensível, uma feira do disco, uma
conferência, a gravação do concerto pela televisão
e a reportagem em directo pela RDP, e ainda a presença da imprensa,
contribuíram para fazer do 11.º Angra Jazz um dos melhores de sempre;
mas confirmou-se uma outra vez como um dos grandes festivais nacionais.
21 Outubro 2009
(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)
Sex
2-Out
|
Angra
do Heroísmo
|
Centro
Cultural e de Congressos
|
21.30
|
Orquestra
Angra Jazz + Hugo Alves
|
Pedro
Moreira (dir), Klaus Nymark (dir), Hugo Alves (t), Luis Sousa (sa),
Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Francisco Leal
(sb),
José
Pires (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio
Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb),
Evandro Machado (trb), Nuno Mendonça (trb), Antero Ávila
(tu), Paulo Cunha (g), Eduardo
Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat),
|
|
Jane
Monheit Qrt
|
Jane
Monheit (voz),
Michael
Kanan
(p),
Neal
Miner
(ctb),
Rixck
Montalbano
(bat)
|
|||||
Sáb
3-Out
|
Mário
Laginha Qrt
|
Mário
Laginha
(p),
Sérgio
Pelágio
(g),
Bernardo
Moreira
(ctb),
Alexandre
Frazão
(bat)
|
||||
Henri Texier
Strada Quintet
|
Henri Texier (ctb), Sébastien Texier (sa, cla, cl), Manu Codjia (g), François Corneloup (ss, sb), Christophe Marguet (bat) | |||||
Dom
4-Out
|
Chano Dominguez
Trio
|
Chano Dominguez (p), Mario Rossi (ctb), Israel Suarez (bat) | ||||
Charles
Lloyd Qrt (c/ Jason Moran)
|
Charles Lloyd (s, tarogato), Jason Moran (p), Reuben Rogers (ctb), Nasheet Waits (bat) |

A décima primeira edição
do Angra Jazz principia com a prata da casa, quer dizer, a Orquestra Angra Jazz, que este ano tem como
convidado Hugo Alves, um homem
habituado a escrever, e a dirigir, (para) grandes formações, ele que é o
mentor da activa Orquestra de Jazz de Lagos.
E a terminar a noite de 2 de Outubro teremos a elegante e sensual voz de Jane
Monheit.
O segundo dia começa bem, logo a partir do Quarteto
de Mário
Laginha que conta com a guitarra de Sérgio Pelágio,
além
dos insubtituíveis contrabaixo e bateria de Bernardo Moreira e Alexandre
Frazão; recuperando um quarteto que não se reunia há dez anos. Por
muitos o melhor pianista português,
Laginha deverá apresentar
em Angra «material
novo».
Mas a noite promete ainda emoções fortes com a apresentação
do Henri Texier Strada Sextet.
Henri Texier é um dos mais sólidos
músicos de Jazz europeus, contrabaixista, compositor e líder
desde há mais de quarenta anos. As raízes do Jazz de Texier remontam
ao hard bop, pois claro, mas cruzam com o free jazz que acompanhou de perto
e ainda uma miríade de influências que vão da tradição
clássica europeia ao rock e às músicas folclóricas,
mas também à política. Nos últimos anos tem sido
notada a crescente presença de motivos exóticos, «orientais»,
na música de Henri Texier.
O Strada Sextet que já roda há perto de uma década fez-se
notar como um «pianoless combo»: dois saxofones, trombone, guitarra,
contrabaixo e bateria. O Strada, que vi tocar em 2006 em Portalegre, pratica
uma música voluptuosa e irresistivelmente modernista. O Strada é composto
de seis irredutíveis gauleses, ou melhor cinco gauleses e um búlgaro
(o trombonista Gueorgui Kornazov). O concerto que o Henri Texier Strada Sextet
fez em Portalegre foi considerado pela crítica nacional reunida em JazzLogical
o melhor concerto (ex aequo com Keith Jarrett no CCB) de Jazz de 2006.
O elevado nível do festival prossegue até ao fim com o concerto
do trio de Chano Dominguez. Chano
Dominguez é um
virtuoso e um singular pianista andaluz com um discurso que cruza a vertigem
bop com o peculiar stride de Thelonious
Monk e o flamenco. Aqui tão perto, não se percebe porque é que
Chano Dominguez não é mais ouvido em Portugal. Angra do Heroísmo
parece querer corrigir esse erro.
Pouco haverá a dizer de Charles Lloyd que
não tenha já sido
dito; ele que é um dos últimos guerreiros do Jazz, que viu passar
ante si várias gerações de músicos, que viveu intensamente
os últimos 50 anos do Jazz, e que tudo isso transmite, por vezes de
forma sofrida, no seu «saxofonismo». Este quarteto que irá tocar
no Angra Jazz é composto dos melhores músicos do mundo: Charles
Lloyd, Jason Moran, Reuben Rogers e Nasheet Waits; e é o mesmo que fez
Rabo de Nube, o disco que a crítica nacional e JazzLogical considerou
o melhor CD de 2008.
Inequivocamente o 11.º Angra Jazz promete ser um dos melhores de sempre.
12 de Setembro de 2009
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Fotos por Jorge Monjardino |
|
2008
Coube ao quinteto de Tom Harrell a honra de abrir as portas do X Angra Jazz. Harrell é um trompetista educado na exigente escola do bop, que tocou nos anos 70 com Phil Woods, Horace Silver, Woody Herman ou George Russell. Ao longo dos últimos 40 anos ele desenvolveu uma forma de bop culto, rigoroso e sofisticado. O sólido grupo que o acompanhou esteve à altura do líder, com destaque para a jovem estrela Wayne Escoffery no saxofone tenor e Ugonna Okegwo no contrabaixo, com quem o trompetista realizou um dos momentos mais bonitos da noite; uma interpretação sublime de Body And Soul.
O segundo concerto da noite
esteve por conta da Orquestra Angra Jazz,
projecto acarinhado desde a primeira hora pela Associação Angra
Jazz. O convidado deste ano foi o baterista Mário Barreiros, mas na
celebração dos dez anos do festival, a organização
decidiu estender o convite aos convidados dos anos anteriores, Mário
Laginha, Paula Oliveira, Zé Eduardo e Afonso Pais, além dos
directores Pedro Moreira e Claus Nymark. Alguns temas novos e solos de alguns
dos membros da orquestra foram a novidade deste ano. A noite acabou de forma
agradável, com todos os convidados em palco.
São conhecidas as dificuldades da orquestra que paga caro a insularidade,
e desse ponto de vista não é possível exigir-se mais à orquestra.
Isolada a 1500 Km dos músicos de Jazz mais próximos, com contactos
apenas mensais com os directores, o colectivo faz realmente milagres. Mas ela
tem realmente tudo contra ela, e creio que nestas condições é natural
que a partir de agora a evolução seja lenta. Com o diagnóstico
completo, a solução seria óbvia: é necessário
pôr os músicos a tocar com outros músicos e a trabalhar
com outros professores (se possível até estrangeiros), em regime
de tempo inteiro.
E já que Maomé não vai à montanha… Não
será fácil porque a orquestra é constituída em
grande medida por músicos não profissionais e porque as deslocações
e outras despesas associadas não são irrelevantes, mas uma primeira
solução será começar a trabalhar no sentido de
organizar workshops de duas ou pelo menos uma semana, duas ou três num
ano, organizado pela escola do Hot ou outra, onde os músicos, todos
de uma vez ou rodando, possam tocar nas condições que referi:
trocar experiências e trabalhar intensivamente com outros professores
e músicos. É uma aposta cara e eu estou a falar sem saber números
e se realmente será possível. Mas é necessário.
O Sexteto de Mário Barreiros abriu a noite de sexta-feira com um Jazz possante e escorreito. De entre os solistas destacou-se talvez Mário Santos, mas todos os membros da banda demonstraram um bom nível. Este é um colectivo experiente, como combo ou ao nível individual, fazendo dele um dos melhores grupos de jazz nacional.
Com o ambiente preparado,
abria-se o palco para o melhor do festival na pessoa do grupo de Bennie
Wallace numa homenagem a Coleman Hawkins consagrada no CD
Disorder At The Border.
Bennie Wallace é um verdadeiro monstro do saxofone, realmente digno
da herança de Hawkins. Poderoso, sensual, vibrante, ele foi mais que
convincente à frente de um noneto de notáveis onde se destacou
o irreverente Ray Anderson e a luminosidade do sax alto do veterano Jerry Dodgion.
Nota menos positiva para a amplificação dos sopros que já havíamos
notado no dia anterior e que seria algo corrigida no sábado.
O alinhamento percorreu todos os temas do disco, acrescido de uma deliciosa
versão do clássico de Duke Ellington, Caravan. Momentos altos
foram ainda a interpretação de Honeysuckle Rose e ainda de La
Rosita, antecedida da história de como Bennie Wallace e Ray Anderson
conheceram o tema em Portugal, interpretado por Hawkins e Ben Webster, no aniversário
do programa de rádio AbandaJazz, em 1981.
Sábado principiou
com o trio de Bobo Stenson,
conhecido por muitos como «o pianista de Charles Lloyd». Mas
o pianista sueco é bem mais que um simples sideman (mesmo se ser sideman é uma
arte). E ele é realmente um líder e compositor. O seu mais
famoso trio diferiu da composição que se apresentou em Angra
no baterista, que já foi Jon Christensen ou Paul Motian, e que agora é o
jovem Jon Falt, enquanto que no contrabaixo permanece o amigo de longa data
Anders Jormin.
Stenson possui um estilo verdadeiramente luminoso (não sei porquê veio-me à cabeça
António Pinho Vargas), mesmo se por definição o trio de
piano tende a ser intimista. Ele possui algo da densidade de Keith Jarrett,
que já foi há muitos anos a sua influência principal (mas
Jarrett foi a influência principal de quase todos os pianistas), e será óbvio
que a sua formação é clássica e não bop.
Ainda assim, ele é um sólido pianista de Jazz, como o demonstrou
(se necessário fosse) em Angra. Enquanto Jormin esteve igual a si próprio,
irrepreensível, permito-me questionar algumas opções «pop» da
bateria, mais dadas ao espectáculo, muito na linha do que faz Magnus Öström,
o baterista do malogrado Esbjorn Svensson. Mas a verdade é que anda
toda a gente a fazer o mesmo…
Enfim, apesar da minha observação, este foi também um
dos grandes momentos do festival.
A música de William
Parker, que tocou no fim da noite de sábado, possui
qualquer coisa da festa dos Art Ensemble of Chicago, como também
de Sun Ra nos apelos à energia cósmica da cantora Leena
Conquest; mas creio que acima de todos eles esteve sempre a personalidade
avassaladora de Charles Mingus, no som denso do contrabaixo em jeito
de bússola, e no dramatismo das peças. Não foi free
jazz o que Parker tocou; ele parece retomar a forma do que foi a New
Thing dos anos 60, bem ancorado na tradição e sem grandes
devaneios vanguardistas. Para o espectáculo, Parker conta com
a cantora bailarina Leena Conquest, cuja voz grave e bem modulada me
parece inspirar-se mais na soul music que na tradição Jazz,
embora isso não seja necessariamente defeito… Como bailarina
no entanto, ele esgotou-se ao fim do primeiro tema, tendo-se repetido
algo excessivamente. Curiosamente, o repertório é constituído
por verdadeiras canções, à medida da voz de Conquest.
Bom concerto com nota alta para as prestações de Rob Brown e
Hamid Drake.
O festival encerrou com
o concerto do vencedor de um Grammy em 2007, Herbie
Hancock. Herbie Hancock é uma verdadeira estrela pop,
um músico bastante popular entre ouvintes de vários géneros.
Ele esteve este ano em Portugal em vários concertos a apresentar o
disco de homenagem a Joni Mitchel (Rivers) (com que ganhou o Grammy), bastante
próximo do cool Jazz; obviamente muito bem feito e agradável,
ou não fosse ele Herbie Hancock.
A formação que esteve no Angra Jazz foi no entanto diferente,
bastante mais jazzy, com Terence Blanchard no trompete e James Genus no contrabaixo,
para além do incontornável Lionel Loueke na guitarra, a harmónica
de Gregoire Maret e Kendrick Scott na bateria. A parafernália no palco
não enganava, anunciando um concerto eléctrico, e foi isso mesmo
que aconteceu: entre os temas popularizados pelos Headhunters, alguns clássicos «travestidos» e
alguns outros mais modernos à medida do guitarrista do Benin, o espectáculo
rolou sem quaisquer engulhos. Herbie Hancock é um bom comunicador e
demonstrou como a velha raposa ainda reina. Depois de um tema inicial dos Headhunters,
o pianista atacou Speak Like a Child com um arranjo milesiano do tipo Pharaoh’s
Dance, para passar a um tema mais Weather Report onde não faltou a voz
sintetizada, depois um solo excessivo (mas esse é o privilégio
dos virtuosos) de Lionel Loueke, em Seventeens, seguido de um solo de piano
acústico por ele próprio e de novo o regresso aos Headhunters.
Apreciei em especial os solos de Terence Blanchard, de Maret e de Genus, mas
esta é uma banda superlativa e o público obrigou o sexteto a
regressar ao palco para um encore.
A jornalista da RDP Açores Elsa Soares perguntou-me qual tinha sido na minha opinião a evolução do Angra Jazz ao longo destes dez anos. Nenhuma, respondi-lhe; o Angra Jazz é desde a primeira edição um dos melhores festivais nacionais, com uma programação equilibrada e ecléctica, entre a tradição e o Jazz moderno, aliando a qualidade e o espectáculo. A décima edição do Angra Jazz foi nesse sentido exemplar.
8 de Outubro de 2008
(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)
Qui
2-Out
|
Angra
do Heroísmo |
Centro Cultural e
de Congressos |
21.30
|
Tom Harrell Quinteto
|
TH (t, flis), Wayne Escoffery (st),
Danny Grissett (p), Ugonna Okegwo (ctb), Johnathan Blake (bat)
|
|
Orquestra Angrajazz
com Mário Barreiros
|
Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide
Corvelo (st), Tomás Leal (sb), Paulo Almeida (cl), Márcio
Cota (t), Paulo Borges (t), Tony Barcelos (t), Bráulio Brito
(t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb),
Adriano Ormonde (trb), Antero Ávila (tu), Paulo Cunha (g), Eduardo
Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat), Pedro Moreira (dir), Claus Nymark
(dir) + Paula Oliveira (voz), Mário Laginha (p), Zé Eduardo
(ctb), Afonso Pais (g), Mário Barreiros (bat)
|
|||||
| Sex 3-Out | 21.30
|
Sexteto de Mário
Barreiros
|
MB (bat), Pedro Guedes (p), Pedro
Barreiros (ctb), Mário Santos (st, cl-b), José Luis Rego
(sa, ss), José Pedro Coelho (st)
|
|||
Benny Wallace’s “Disorder
At The Border”
|
BW (st), Jesse Davis (sa), Jerry
Dodgion (sa), Adam Schroeder (sb), Ray Anderson (trb), Joe Magnarelli
(t), Donald Veja (p), Bill Huntington (ctb), Quincy Davis (bat)
|
|||||
| Sáb 4 Out | 21.30
|
Bobo Stenson Trio
|
BS (p), Anders Jormin (ctb), Jon
Fält (bat)
|
|||
William Parker’s “Raining
On The Moon”
|
WP (ctb), Leena Conquest (voz, dança),
Lewis Barnes (t), Rob Brown (sa), Eri Yamamoto (p), Hamid Drake (bat)
|
|||||
Dom
5-Out
|
21.30
|
Herbie Hancock Sexteto
|
Herbie Hancock (p), Terence Blanchard
(t), James Genus (ctb), Lionel Loueke (g), Gregoire Maret (harm), Kendrick
Scott (bat)
|
Dez anos é muito tempo...
A décima edição do Angra Jazz começa já
na quinta 2 com o quarteto de Tom Harrell, um sofisticado bopper trompetista
cujas formas combinam uma espécie de bop evoluído com um imaginoso e sofisticado
melodismo. Tom Harrell é uma figura impar no Jazz: a esquizofrenia que lhe
é atribuída revela-se no individualismo e na criatividade das suas intervenções.
À frente de uma banda de primeira água Tom Harrell promete inaugurar da melhor
forma o festival.
Essa mesma primeira noite completa-se com a coqueluche do festival: a Orquestra
Angra Jazz que este ano tem como convidado especial Mário Barreiros. Mas
não só porque a acompanhar a «improvável orquestra» também lá estarão no
palco Mário Laginha, Pedro Moreira, Claus Nymark, Paula Oliveira, Zé Eduardo
e Afonso Pais, que nos últimos anos foram os convidados de honra da orquestra.
A noite de sexta inicia-se com toda a energia do Jazz inequívoco do sexteto
de Mário Barreiros e completa-se com um verdadeiro monstro do saxofone que
é
Bennie
Wallace.
Bennie Wallace leva a Angra a música do disco de homenagem a um dos grandes
saxofonistas da história do Jazz que foi Coleman Hawkins, e que marca o seu
regresso aos lugares cimeiros da cena internacional. «Disorder At The Border»,
que será apresentado em Angra em noneto, numa formação próxima do original,
e que conta com músicos tão extraordinários quanto Ray Anderson, seu amigo
de longa data, ou ainda Jesse Davis ou Joe Magnarelli. Um grande concerto
em perspectiva.
A noite de sábado abre com o Jazz sofisticado do trio de Bobo Stenson. Bastaria
talvez dizer que ele foi durante largos anos o pianista de Jan Garbarek e Charles
Lloyd para ilustrar a sua estatura, mas Stenson é também
um autor e um líder digno desse estatuto, e desde há muito uma das grandes
referências da etiqueta ECM.
O sábado termina com o Jazz de alto risco do sexteto de William Parker. “Raining
On The Moon” é o sugestivo nome do projecto que irá apresentar, e que
conta na formação com radicais como Rob Brown e Hamid
Drake e ainda a cantora/bailarina Leena Conquest. Free Jazz erudito, Jazz progressivo,
algures para lá dos Art Ensemble of Chicago e Sun Ra, música para os ouvidos
e os olhos.
Dez anos é muito tempo e o Angra Jazz não deixa os
seus créditos em mãos alheias: o novo Herbie
Hancock Sexteto, com Terence Blanchard no trompete é grupo que
encerra o festival deste ano. Depois do desvio pop de «River», este pode ser
o regresso ao grande Jazz da velha raposa. Assim o esperamos. No domingo.
1 de Outubro de 2008
2007
Reviver o passado em Angra
De forma algo diferente das edições anteriores, o Angra Jazz 2007 teve como linha de força o elogio do passado. Como fiz notar na apresentação do festival, três nomes sonantes de três épocas estavam representados na primeira pessoa: o grande Jim Hall - mais do que um estilo, um instrumento! -, o hard-bop de Benny Golson e o free-jazz europeu de Alexander von Schlippenbach. Mas a verdade é que os três outros concertos agendados se enquadravam também eles dentro da tradição; seja pela grandiloquente voz de Roberta Gambarini na interpretação dos standards, seja pela evocação de Chet Baker pela voz e trompete de Laurent Filipe, seja enfim pelo explícito referencial temático e estético da Orquestra AngraJazz.
Começando pela Orquestra
Angra Jazz, sabe bem dizer que é notória
a evolução da secção rítmica, a avaliar
pela única coisa que dela tinha ouvido, o disco em que participa Paula
Oliveira, de que tive oportunidade de falar. A orquestra é uma máquina
bem oleada e realizou um concerto muito agradável. A sua maior debilidade
reside agora na quase ausência de solistas e improvisadores, e é para
aqui que os directores Pedro Moreira e Claus Nymark deverão dirigir
a atenção. Outro aspecto a considerar talvez, será o do
alargamento do repertório, demasiado tradicional.
A Orquestra Angra Jazz é um
projecto que é preciso
acarinhar. Sabidas as dificuldades que existem em manter em actividade grandes
formações
em Portugal, é até surpreendente como ela subsiste. A persistência
(carolice!) dos seus membros, da Associação Angra Jazz e da Câmara,
merece todos os louvores. É preciso saber-se que a orquestra apenas
toca uma vez por mês, quando os directores se podem deslocar a Angra. É obra!
Tocar, tocar, tocar, agora é a receita. É necessário criar
as oportunidades.
O outro momento nacional, o projecto de homenagem
a Chet Baker, era à partida
um número ganhador: Laurent Filipe recria com inteligência os
ambientes melancólicos de Chet Baker e a banda é constituída
por músicos competentes. Nada é deixado ao acaso, entre o som
do trompete e o timbre e colocação da voz, à própria
postura em palco. Laurent senta-se na boca do palco à frente do público
como se fosse contar uma história e não tocar trompete, mas foi
exactamente assim que tocou em 1981 no Cascais Jazz, num concerto absolutamente
inolvidável.
Laurent Filipe
fez um bom espectáculo e o público não
lhe regateou aplausos.
A revelação
do festival foi Roberta
Gambarini que pisava os palcos
nacionais pela primeira vez.
O repertório foi exclusivamente clássico,
I Hadn't Anyone Till You, No More Blues, On The Sunny
Side Of The Street, C.C.
Rider, o imortal Good Morning Heartache ou Easy To Love, mostrando-se igualmente à vontade
nos blues, nas baladas ou nos tempos rápidos. Ela possui uma colocação
de voz e uma alegria que lembra a grande Ella, mas também uma grande
intuição e toda a técnica jazzística das grandes
cantoras (sem no entanto jamais sair do campo «restrito» do Jazz
mainstream). Infelizmente uma perturbação nas cordas vocais impedia-a
de dar algumas notas, maculando o concerto. Ainda assim, um grande profissionalismo
permitiu-lhe minorar o acidente e Gambarini realizou um verdadeiro gran
finale coroado com um eloquente Estate.
A banda de suporte de Gambarini esteve irrepreensível. Kirk Lightsey é daqueles
pianistas sólidos capazes de acompanhar qualquer músico e tocou com alegria
e elegância. Reggie Johnson que no dia seguinte acompanharia também Benny Golson
foi outro músico inspirado, como Douglas Sides, de um swing a toda a prova.
Na banda de Benny
Golson, tudo rolou sobre esferas.
Apesar dos seus 78 anos de idade, o velho saxofonista ainda realmente é capaz de soprar mas,
como previ na antecipação do concerto, a vedeta é Eddie
Henderson. O outro trompete, Philip Harper, acrescentou densidade ao todo e
a secção rítmica – todos eles – solam com
fluidez.
O «caso» da noite, quase estragou o concerto, quando o saxofonista
logo no início da sua actuação, obrigou a equipa da Euronews
a desligar a câmara, sem perceber que ela estava apenas a gravar os 10
minutos contratuais. É bastante comum esta paranóia norte-americana
que radica no abuso que muitos produtores exerceram sobre os músicos
até aos anos 60, que os espoliavam de direitos, quantas vezes de forma
dramática. Mas o episódio marcou negativamente o concerto.
Solos de Bennie Golson em I Remember Clifford, e principalmente A
Protrait of Jennie de Eddie Henderson destacaram-se pela positiva numa banda experimentada
e eficiente.
Mais desequilibrado foi o Monk's
Casino de Alexander von Schlippenbach, se bem que com uma actuação bem mais convincente que o desastrado
episódio de Lisboa que referi noutro dia.
As
composições-arranjos de AvS revelaram-se interessantes -
na engenhosa construção - desconstrução das figuras,
nos contrapontos e até no cruzamento dos temas - e durante a primeira
metade do concerto ajustados, a revelar conhecimento da obra de Monk. Mas o
mesmo não se poderá dizer das desiguais interpretações
e da opção acústica, que resultou (apesar das excelentes
qualidades acústicas da sala) no «apagamento» do piano e
do contrabaixo no turbilhão dos sopros e da bateria.
Nem
todos os músicos revelaram iguais qualificações:
um baterista demasiado rígido, o trompete de Axel Doener a confirmar
a sua origem clássica e incapacidade de solar (Jazz; habituado a outros
ambientes mais abstractos), um pianista equívoco, um contrabaixista
regular (quando se ouviu) e um excelente clarinetista em dia de excessos.
Curiosamente
(enquanto pianista) o ícone do free Schlippenbach exibe
uma formação bop (Bud Powell, não Monk), mas acusa ausência
de personalidade, entre a exposição «à Monk» e
um desenvolvimento ora bop (Powell) ora tayloriano. Ora o estilo de piano de
Monk era único e estava intimamente associado à própria
composição. Nem todos os pianistas compreendem isso.
Rudy
Mahall é o músico de Jazz de Monk's Casino e o líder
visível. Ao fim de algum tempo a fórmula estava gasta e Mahall
vai progressivamente assumindo as rédeas do concerto. Ele é o
grande solista da noite, estimulando o grupo e o público, mesmo se também
ele contribuiu para o espectáculo de circo em que por vezes o Casino
se tornou.
Nota alta para as composições/ arranjos de Schlippenbach, apesar
de algumas soluções circense mais forçadas e para a prestação
de Rudy Mahall, o verdadeiro líder da banda.
Jim Hall,
um dos mais influentes guitarristas
de todos os tempos, realizou o concerto que se esperava. Ele que sempre foi
um músico discreto e
acertivo, mantém todo o acerto da técnica irrepreensível,
mas já não está propriamente na flor da idade. Aguardava-se
um concerto celebratório e foi isso que aconteceu: durante hora e meia
desfilaram alguns clássicos do cancioneiro americano com um delicioso
Skylark ou All The Things You Are, standards como St.
Thomas de Sonny Rollins
ou originais como Ouagadougou. Jim Hall sempre foi um músico sofisticado
e elegante e a sua música possui já arestas e rugas e ternura
que se confundem em harmonias sob o peso da idade. O público rendeu-se à sua
arte e exigiu o regresso para um encore, Americana (de Scott Colley), «dedicated
to Peace». Jim Hall aproveitou para fazer um pouco de política
pedindo desculpa pela política ambiental do Sr. Bush e pela guerra.
Scott
Colley e Geof Keezer estiveram bem. Discreto em demasia para o meu gosto Colley;
ele que é um dos grandes contrabaixistas da actualidade, provavelmente
de forma deliberada deixando o mestre brilhar; mais intrusivo Keezer, autorizado
talvez pelo disco recente que gravou em diálogo com o velho guitarrista.
O melhor concerto do festival.
Como é tradição no Angra Jazz, a organização do festival esteve sempre irrepreensível e atenta aos mínimos pormenores. Ambiente algo informal (diria familiar) que a sala permite e a direcção do Angra Jazz alimenta, três editoras na feira do disco, uma exposição de fotografias, excelentes! de António Araújo dedicadas ao Angra Jazz e vários eventos paralelos completaram a edição de 2007. Para o ano promete-se mais e melhor.
15 de Outubro de 2007
(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)
O Angra Jazz em antecipação
Esta semana decorre
um dois mais interessantes festivais de Jazz nacionais, o Angra Jazz. A programação é,
como vem sendo hábito, criteriosa e ecléctica, combinando géneros,
fórmulas e formas, o velho e o novo: o Jazz, todo.
Históricos são Jim Hall, Bennie
Golson e Alexander von Schlippenbach,
que trazem consigo «jovens turcos» como Scott Colley, Eddie Henderson
ou Rudi Mahall (enfim, Eddie Henderson já não é bem um
jovem...). E mais jovem é a estrela em ascensão Roberta
Gambarini sobre quem a crítica internacional tem os olhos postos.
A representação
nacional está a cargo do mais que competente Laurent
Filipe e o mais
acarinhado projecto do festival, a «improvável» Orquestra
AngraJazz. De Sábado para Quinta:
Sábado
6
Quando se fala de Jim Hall, fala-se de um dos mais influentes guitarristas
da história do Jazz; o Sr. Discreto, cujo som atravessou longitudinalmente
todo o Jazz desde os anos 50. Sem jamais se apresentar como um virtuoso,
o mais melodioso dos guitarristas foi o companheiro de aventuras de toda
a gente entre Jimmy Giuffre, Bill Evans, Sonny Rollins, Art Farmer, Chico
Hamilton, Paul Desmond, Gerry Mulligan, Ron Carter, Michel Petrucciani, e
a lista é praticamente interminável. Digamos que metade da
história do Jazz da segunda metade do século XX teve a participação
de Jim Hall. Mário Delgado refere-o como «o Picasso da guitarra» e
Nuno Ferreira assume explicitamente a sua influência: «É o
meu guitarrista favorito, um mentor musical». Ele é o guitarrista
perfeito, tecnicamente insuperável, inventor de uma sonoridade única.
A
preferência de Jim Hall foram desde sempre as pequenas formações,
os diálogos a dois ou a três e são inúmeros os exemplos
deste tipo de colaborações na sua discografia. Apesar dos seus
quase 80 anos de idade, Jim Hall continua a ser uma das grandes referências
do Jazz e a fazer grandes discos: Duologues, de 2005, com Enrico Pieranunzi,
Free Association, com Geoffrey Keezer, também de 2005, Magic
Meeting,
de 2004, com Scott Colley e Lewis Nash, Jim Hall & Basses, duos
com Scott Colley, Charlie Haden, Dave Holland, Christian McBride e George Mraz,
de 2001
ou ainda Jim Hall & Pat Metheny, de 1998, foram justamente aclamados
toda a crítica e pelo público. No início de 2008 será editada
a colaboração de Jim Hall com Bill Frisell, outro dos insuspeitados
discípulos do velho guitarrista.
Em Angra do Heroísmo, no próximo sábado, Jim Hall apresentar-se-á com
dois músicos que conhece bem: Geoffrey Keezer, um pianista que temperou
as suas formas com Art Blakey, e o voluntarioso e virtuoso Scott Colley, que
muitos comparam, sem favor, a Dave Holland.
Mas a noite continua com o Monk's Casino de Alexander
von Schlippenbach. Schlippenbach
tornou-se célebre nos anos 70 pela direcção da mais exemplar
orquestra de free-jazz europeu. A Globe Unity, assim se chamava, tocou em 1979
na Gulbenkian, integrada nos célebre ciclos de música contemporânea
(ainda antes do início dos Jazz em Agosto), num concerto absolutamente
memorável. A sua reactivação recente é uma confirmação
da frase daquele filósofo que dizia que a história acontecia
sempre duas vezes; a primeira como drama e a segunda como comédia.
O Monk’s Casino de Schlippenbach está bastante longe dessas experiências
idas e explora a música do grande Thelonious Monk. A apresentação
que o pianista fez em Lisboa do projecto apresentou-se apenas sofrível,
apesar dos arranjos interessantes; mas a inqualificável acústica
do Teatro Variedades do Parque Mayer liquida qualquer concerto. Notável
foi a prestação de Rudi Mahall, um dos grandes músicos
de Jazz europeus, um louco furioso do clarinete-baixo.
A música de Thelonious Monk permanece uma das mais estimulantes e são
inúmeros os músicos a perseguir o mais intrigante dos pianistas
de Jazz de sempre. Espera-se que a excelente sala do Centro Cultural e de Congressos
de Angra do Heroísmo ofereça a Alexander von Schlippenbach a
oportunidade para a explorar. E atenção a Rudi Mahall.
Sexta 5
No dia anterior tocará outro veterano: o grande Benny
Golson. Apesar
de profusamente gravado, a maior parte dos amantes do Jazz conhecem-no não
como músico, mas como autor de de algumas dos mais imortais dos standards
do Jazz: I Remember Clifford ou Whisper Not. Mas a história do saxofonista
atravessa também ela a história do Jazz do pós-guerra,
tornando-se um dos expoentes do bop e do hard bop. Com Dizzy Gillespie, Tadd
Dameron, Clifford Brown, Art Blakey ou Roland Kirk atravessou os anos 50 e
70. Com o passar dos anos o saxofone tenor de Golson foi-se tornando mais rude
e denso, perdendo alguma maleabilidade que o distinguia, mas oferecendo-lhe
profundidade e emoção. Sem nunca ter deixado de tocar e gravar,
Golson mantém-se eficaz nas baladas e no funky que o celebrizou. No
sexteto que reuniu conta com outros nomes seguros como Eddie Henderson no trompete
e Carl Allen na bateria. De notar que o grupo tem dois trompetistas. Promete-se
uma noite de Jazz inequívoco, com swing a rodos.
Antes disso toca na Sexta a coqueluche do festival: a Orquestra
AngraJazz.
Contou Claus Nymark num dos textos de apresentação do CD da
orquestra (ver texto abaixo »A Orquestra Improvável») que Sheila Jordan se
espantou com a existência
de uma orquestra de Jazz num tão recôndito e improvável
lugar como a ilha Terceira, e com o seu nível. A improbabilidade da
sua existência
espanta ainda mais todos quantos à ilha se deslocam, pela alegria
e intensidade que ela comunica. A orquestra é dirigida por Nymark
e Pedro Moreira que se deslocam regularmente à ilha, que este ano
contará ainda
com a presença do aclamado Afonso Pais.
Quinta 4
O festival abre na Quinta-Feira 3 com o quinteto de Laurent
Filipe. É provável que Laurent vá tocar a
música de
Chet Baker onde se vem especializando. Em 2006, Laurent gravou um (excelente)
disco com o nome Ode To Chet. Chet Baker é um
dos mais populares músicos de Jazz de sempre e Laurent explora a
sua dupla personalidade de trompetista-cantor. Todo o grupo toca com grande
eficácia
e Laurent é convincente
no seu papel.
Mais à noite
teremos outra voz, esta ainda quase nada conhecida do público
nacional, Roberta Gambarini.
Nascida em Turim, em Italia, ouviu Jazz toda a sua juventude. Depois de
rodar por alguns clubes de Jazz de Italia, Roberta decidiu estudar nos
Estados Unidos. Desde então, a sua esplêndida voz de
alto tem convencido inúmeros músicos como Hank Jones, o desaparecido
Michael Brecker, James Moody, Ron Carter, Herbie Hancock, Slide Hampton
ou Roy Hargrove. Apesar disso a oportunidade de gravar só surgiu
no ano passado quando ela já era uma espécie de cantora de
culto, um segredo dos jazz-fans.
O disco de apresentação revela uma voz madura com matizes de
Ella Fitzgerald, perfeita como Sarah Vaughan. Gambarini tem uma colocação
de voz irrepreensível, tem swing e conhecimento da tradição.
Easy To Love que presumivelmente irá tocar em Angra percorre catorze
standards do Jazz entre os quais um tocante I Loves You Porgy ou um rápido
On The Sunny Side Of The Street, a atestar a sua versatilidade e eloquência.
Com ela vai estar uma banda de luxo com o inventivo e subtil Kirk Lightsey à cabeça,
aliás, ao piano; Reggie Johnson, um contrabaixista capaz de acompanhar
com a mesmo destreza Sonny Rollins, Sun Ra ou Gambarini e Alvin Queen,
um baterista igualmente eficaz, à-vontade na marcação
dos tempos ao lado de uma cantora ou numa orquestra.
25 Set 2007
| Qui | 4-Out | Angra do Heroísmo | Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo | 21.30 | Angra Jazz | Laurent Filipe Quinteto - LF (t, voz), Bruno Santos (g), Filipe Melo (p), João Custódio (ctb), Paulo Bandeira (bat) |
| Angra do Heroísmo | 23.30 | Angra Jazz | Roberta Gambarini Quarteto - RG (voz), Kirk Lightsey (p), Reggie Johnson (ctb), Alvin Queen (bat) | |||
| Sex | 5-Out | Angra do Heroísmo | 21.30 | Angra Jazz | Orquestra Angra Jazz c/ Afonso Pais - Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir), Afonso Pais (g), Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Mónica Goulart (sb), Paulo Almeida (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Tony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Antero Ávila (tub), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat) | |
| Angra do Heroísmo | 23.30 | Angra Jazz | Benny Golson Sexteto - BG (s), Eddie Henderson (t), Philip Harper (t), Mike LeDonne (p), Reggie Johnson (ctb), Carl Allen (bat) | |||
| Sáb | 6-Out | Angra do Heroísmo | 21.30 | Angra Jazz | Jim Hall Trio - JH (g), Geoffrey Keezer (p), Scott Colley (ctb) | |
| Angra do Heroísmo | 23.30 | Angra Jazz | Monk's Casino - Alexander von Schlippenbach (p), Jan Roder (ctb), Uli Jenessen (bat), Axel Doerner (t), Rudi Mahall (cl-b) |
www.angrajazz.com/
Nome: Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo - ANGRA JAZZ
Localidade: Angra do Heroísmo
Sala dos Espectáculos: Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo
Morada: Rua da Madre de Deus, 9700-130 Angra do Heroísmo
Telefone: 295 218 490 - Fax. 295 218 490
Período do ano: 1ª Semana de Outubro
Programador/ Director Artístico Actual: Associação Cultural Angra Jazz
Anteriores Programadores: Associação Cultural Angra Jazz
Organização/ Proprietário- Associação Cultural Angra Jazz
Apoios: Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Direcção Regional da Cultura, Direcção Regional do Turismo, Privados
Festivais: Músicos que já tocaram (por edições, se possível) Programa extenso disponível no site próprio.
A programação é apenas Jazz? SIM
Outra informação que considerem pertinente.
E-mail: info@angrajazz.com Website: www.angrajazz.com
A
Orquestra Improvável
Conta Claus Nymark num dos textos de apresentação do CD da Orquestra
AngraJazz que Sheila Jordan se espantou com a existência de uma orquestra
de Jazz num tão recôndito e improvável lugar como a ilha
Terceira, e com o seu nível. Nascida das mesmas mentes visionárias
que deram vida ao festival, a Orquestra AngraJazz é hoje mais do que
um sonho que importa alimentar.
No disco que me chegou às mãos, gravado há um ano atrás
por ocasião do festival, o repertório da orquestra foi quase
integralmente composto por clássicos pré-bebop, entre os quais
vários temas escritos ou popularizados por Duke Ellington: The Mooche,
Embraceable You, Black And Tan Fantasy, How Long Has This Been Going On, Take
The “A” Train, ou Don’t Get Around Much Anymore. A tarefa
não é fácil, ao contrário do que podem crer alguns
juízos mais apressados – Duke Ellington não foi um escritor
fácil, bem pelo contrário – e orquestra que não
saiba tocar Take The “A” Train (João Moreira é o
trompetista convidado) não será digna desse nome. É com
prazer que ouvimos os velhos temas ganharem novas roupagens, que contemplam
também o ícone do bop Night In Tunísia ou a fusão
mais moderna de Birdland (Joe Zawinul).
A improvável orquestra tem swing! As debilidades da orquestra resultam,
como será evidente, da insularidade. Elas notam-se talvez mais na secção
rítmica (e curiosamente mais nos tempos lentos), mas mesmo nas prestações
solistas mais ingénuas se denota uma energia e um entusiasmo que apenas
podem ser auspiciosos. E diga-se que este entusiasmo tocou por decerto a voz
da diva Paula Oliveira que tem aqui alguns momentos absolutamente soberbos.
A sua voz é ora vigorosa ora terna, subtil, sempre expressiva, a comprovar
porque ela é uma das melhores vozes nacionais – talvez a melhor! – a
cantar Jazz. (obs: Há algum tempo expressei algumas interrogações
sobre o repertório “nacional” da cantora. Perdoem-me mas
eu prefiro cem vezes a Paula Oliveira a cantar standards! É aqui que
ela se revela, que ela é realmente a maior!)
O convidado este ano é o Zé Eduardo. Zé Eduardo é um
veterano, pedagogo, contrabaixista e um jazzman completo, puro e duro. Creio
que poderá oferecer à Orquestra AngraJazz uma mais valia muito
interessante. Porque se as fraquezas da orquestra resultam apenas do seu isolamento,
o único medicamento certo é tocar tocar tocar e o encontro com
músicos como Zé Eduardo só a podem fazer crescer.
A Orquestra AngraJazz dá o tiro de partida ao Festival AngraJazz 2006,
por certo da melhor forma.
LS