Kurt Elling by Jorge Monjardino

 

Angra Jazz

 

2011

Kurt Elling ()
Foi no momento exacto em que Kurt Elling atacou o clássico “Stardust” que soube que estávamos perante uma noite inesquecível. Foram duas horas em que os standards se cruzaram com John Coltrane ou os Beatles, Dorival Caymmi e um comovedor “Luíza” de Tom Jobim, terminando com Stevie Wonder e “Golden Lady”.
O que faz de Kurt Elling um músico de excepção é a conjugação de uma técnica vocal inexcedível com uma entrega em palco que se revela na roupa que lhe transpira, mas que é apenas o sinal mais exterior da emoção que comunica.
Kurt Elling não é um crooner, apesar de o concerto conter em si bastante de espectacular, mas isso não decorre de artifícios exteriores à música, mas da sua expressividade. Do ponto de vista técnico, ele junta uma voz grave de tenor com alguns artifícios que usa, ainda assim de forma parcimoniosa. Ele usa o scat ou o vocalese, como manipula o microfone ou usa o corpo, mas os artifícios são apenas o suporte para um discurso que se vai construindo na desconstrução/ construção das canções, revelado na alteração da métrica, nas súbitas síncopes, na modificação das notas. Tudo em que toca (canta), Elling transforma em Jazz, e ele fá-lo de forma natural como respira.
Kurt Elling surge-nos ora forte ora pateticamente frágil, ridente ou desesperado, num turbilhão de emoções que nos vai quebrando as defesas, que nos faz chorar e rir, que nos deslumbra e surpreende e que nos comove.
Uma nota final para a banda, irrepreensível e inspirada (onde nem se notou a substituição do contrabaixo). Em destaque o baterista, Ulisses Owens, veludo puro, mas sobretudo um pianista, também director artístico de Elling, Laurence Hobgood, subtil e rigoroso.
Alguém me dizia no final do concerto que esta era uma boa bitola: quem não ama um concerto destes, quem não ama um cantor destes, deve desistir de ouvir Jazz e entreter-se com outras coisas. Nada mais acertado!
O AngraJazz viveu uma das suas mais memoráveis noites e este humilde escriba teve a felicidade de estar presente.

Orquestra AngraJazz ( )
O arranque do festival teve lugar no dia anterior com o concerto da Orquestra AngraJazz.
Tive no ano passado oportunidade de expor o meu descontentamento pelo descaminho da orquestra, mas é preciso reconhecer agora os méritos do que foi feito desde então. Ao contrário de 2010, ela apresentou este ano vários solistas e um nível apreciável de jovens músicos. É verdade que muitos solos se revelaram limitados e alguns não serão mesmo mais que simples transcrições de pautas, mas é bom que os jovens músicos aprendam primeiro a tocar certo, para depois poder tocar errado. Pedro Moreira e Claus Nymark, acertadamente, fizeram o que era preciso fazer: deixar os miúdos tocar! Eles abstiveram-se de brilhar, e bem: afinal o espectáculo é da orquestra! Claus Nymark escreveu vários temas expressamente para a orquestra (alguns deles claramente inspirados em clássicos), justificados pela admissão dos novos recrutas, que se somaram aos standards que já fazem parte do reportório da orquestra.
Por último, uma boa surpresa foi a voz do jovem convidado Manuel Linhares que revelou voz, postura e acerto na interpretação dos crooners, com especial destaque para a evocação de Frank Sinatra. A Orquestra AngraJazz tem um longo caminho a percorrer, mas hoje ela provou que era possível.
José Ribeiro Pinto, o histórico apresentador e um dos directores do festival confidenciou que estão na calha vários projectos para a orquestra, entre os quais a apresentação de um concerto de Natal. Isso é fundamental. É fundamental que a orquestra ganhe utilidade e visibilidade, e permitir-me-ia sugerir a introdução de vozes (eventualmente convidados) que poderiam enriquecer o programa: existe uma longa tradição de concertos de Jazz de Natal e as vozes são aqui importantes.
É fundamental que os membros da orquestra se sintam úteis e estimulados e que o público da Terceira a conheça. Uma única apresentação anual é um dos factores da desmotivação dos músicos. Não há segredos nisto: é preciso trabalhar, trabalhar, trabalhar, e é preciso que a orquestra se torne visível. É preciso mostrar resultados à cidade e à ilha, é preciso virar a orquestra para fora. Creio que isso começou a ser feito quando a orquestra começou a angariar jovens entre as filarmónicas. O maior problema da orquestra é a sua insularidade, e os músicos e a sua direcção têm de trabalhar o dobro para obter os mesmos resultados que outras orquestras onde os seus membros têm a oportunidade de trocar experiências. Mas hoje todos vimos que isso era possível! É preciso não desarmar, é preciso continuar!
A Orquestra AngraJazz é a menina dos olhos do festival e um dos seus projectos mais interessantes. Por si só, ela faz do AngraJazz um dos mais importantes festivais nacionais.

Night of Jazz Guitars featuring Larry Coryell ()
O segundo concerto do AngraJazz 2011 foi um desastre. Um ensemble de guitarras é sempre um espectáculo perigoso. O risco decorre do exibicionismo gratuito a que ele é propenso, mas ainda assim existem alguns exemplos bem sucedidos, pelo menos no que toca ao espectáculo. Mas, por estranho que pareça, nem isso aconteceu: nenhum dos músicos revelou dotes extraordinários e mesmo o virtuoso Larry Coryell pareceu ausente, e até o seu “Bolero de Ravel” nos deixou indiferentes. Claramente um «erro de casting».

Enfim, o dia dois do festival fez-nos esquecer o episódio menor do fim do dia anterior, e já vos dei conta do que foi o memorável concerto de Kurt Elling. Mas antes ainda assistimos ao concerto do trio de Bill Carrothers.

Bill Carrothers Trio ()
Carrothers não veio a Angra apresentar nenhum novo disco, tendo percorrido vários dos seus trabalhos, entre o mais recente «Excelsior», «Joy Spring» e o longínquo «The Blues and the Greys».
O seu estilo não parece revelar filiação directa nalgum outro pianista, e claramente não pode ser associado a Keith Jarrett, Brad Mehldau ou Esbjorn Svensson. Claro que foi possível no concerto encontrar referências ou citações, Tristano, Monk, e ele terminou o concerto com um rápido bop, mas a sua marca distintiva é um profundo melodismo que nada tem de xaroposo, com uma utilização dramática do silêncio. Bonomia, virtuosismo e poesia andaram de mãos dadas no concerto de Bill Carrothers.
Carrothers trouxe a Angra um dos seus trios europeus, dois músicos irlandeses que, após alguma hesitação inicial acabaram por cumprir com eficiência, embora sem rasgos.

Júlio Resende International Quartet ()
A representação nacional completou-se com o Júlio Resende International Quartet, com Ole Morten Vagan no contrabaixo, Will Vinson no saxofone e Joel Silva na bateria.
Júlio Resende é um dos nossos mais sólidos e profícuos pianistas, com três discos gravados e um sem número de colaborações em projectos diversos. O concerto começou com “Silêncio for the Fado” retirado de «You Taste Like a Song», passando a «Da Alma» e «Jazzatustra», numa demonstração do eclectismo e da sua solidez como instrumentista. O momento alto do concerto foi “Hip-Hop Du-Bop”, claramente inspirado nas complexas estruturas rítmicas de Steve Coleman, e onde Joel Silva esteve em destaque. Aliás o baterista foi claramente o músico da noite, rigoroso, subtil, eficiente e criativo; confirmando em Angra o que já tínhamos notado, como um dos grandes bateristas da nova geração, a seguir com atenção.

Brass Ecstasy by Jorge Monjardino

Dave Douglas Brass Ecstasy ()
O encerramento do Angra Jazz 2011 foi feito com chave de ouro pela Brass Ecstasy de Dave Douglas, um projecto inspirado nas brass band de New Orleans e na Brass Fantasy de Lester Bowie. De facto a Brass Ecstasy não copia o modelo de Bowie, revelando-se em especial nos tempos lentos uma versão erudita da banda de Bowie. E nisso perdeu alguma da espectacularidade que a música desbragada de Bowie tinha, mesmo se, no detalhe, ela é com frequência bastante mais rica. Douglas é um músico exigente, um chefe de fila do Jazz contemporâneo, instrumentista virtuoso, compositor, também líder e produtor. Todos os músicos que tocam com ele possuem um nível excepcional como foi evidente em Angra; e como foi notório também na substituição do baterista regular da banda, Nasheet Waits por Joey Baron, a portar-se bastante bem. Foi um concerto bastante descontraído, onde fantasia combinou com erudição, com largos espaços para a improvisação.
Os momentos altos do concerto, que não os mais espectaculares, foram o clássico “Lush Life”; “Safeway”, um tema de Aaron Copland; e o hit country “I'm So Lonesome I Could Cry”. Brilharam Marcus Rojas nos impossíveis solos de tuba, Vincent Chancey no lânguido country e ele mesmo em abrasivos solos. Uma muito física homenagem a Lester Bowie rematou o 13.º Angra Jazz com a noite já longa.
Cumpriu-se assim mais um AngraJazz, confirmando o seu lugar cimeiro entre os festivais de Jazz nacionais.

 

 

 

NOTA FINAL:
Têm sido feitas críticas ao Angra Jazz apresentando a necessidade de reformular o seu modelo. Creio que as críticas, que se baseiam nalguns aspectos menores que importa corrigir ou melhorar, ou em imponderáveis, são injustas e não são inocentes.
O modelo do festival assenta em três dias de concertos duplos com pelo menos quatro concertos internacionais, um outro de uma banda nacional e ainda um concerto da Orquestra AngraJazz. Este modelo tem tido bastante êxito, mercê de uma programação criteriosa e diversificada que conjuga a tradição com a inovação, mas também espectáculo com exigência. Foi assim que assistimos em Angra a concertos memoráveis – que colocaram o AngraJazz na primeira fila dos festivais nacionais - a começar pelo Kurt Elling deste ano, mas também Charles Lloyd, Henri Texier, Benny Wallace ou Martial Solal, entre inúmeros outros.
À margem dos concertos tem sido organizada uma «feira do disco», exposições e ocasionalmente conferências. A Orquestra AngraJazz merece-me uma reflexão mais profunda, mas do modelo do festival a minha única observação assenta apenas no desejável de fazer sair (ou melhor, extravasar) o AngraJazz do Centro de Congressos; quer dizer, atribuir-lhe uma maior visibilidade exterior; levar o festival à cidade e porque não, à ilha. Isto não é fácil, mas parece-me interessante recuperar algumas das experiências dos primeiros tempos dos concertos de rua. As possibilidades são imensas, entre bandas de rua e concertos deslocados pela cidade. Assim haja financiamento, que quando a crise se abate, a cultura é sempre a primeira a pagar.

25 Outubro 2011

Qui 6-Out
Angra do Heroísmo
Centro de Congressos
21.30
Angra Jazz
Orquestra Angra Jazz
Pedro Moreira (dir) Claus Nymark (dir), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Telmo Aguiar (st), José Pedro Pires (clb), Rodrigo Lima (f), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Edgar Marques (trom), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat)
Night of Jazz Guitars featuring Larry Coryell
Larry Coryell (g), Helmut Kagerer (g), Paulo Morello (g), Andreas Dombert (g)
Sex 7-Out
21.30
Bill Carrothers Trio
Bill Carrothers (p), Dave Redmond (b), Kevin Brady (bat)
Kurt Elling Quintet
Kurt Elling (voz), Laurence Hobgood (p), John McLean (g), Harish Raghavan (b), Ulysses Owens (bat)
Sáb 8-Out
21.30
Julio Resend Internacional Quintet
Julio Resende (p), Will Vinson (sa), Ole Morten Vagan (b), Joel Silva (bat)
Dave Douglas Brass Ecstasy
Dave Douglas (t), Vincent Chancey (flis), Luis Bonilla (trb), Marcus Rojas (tu), Joey Baron (bat)

JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do AngraJazz.


2010

A insularidade nunca foi desculpa para o grupo de homens que fazem o Angra Jazz e uma vez mais o festival se confirmou como um dos mais importantes festivais de Jazz nacionais, na ambição e na teimosia, na programação, na escolha criteriosa dos grupos, nos eventos paralelos e na organização. Eficaz mesmo nos detalhes, nada é deixado ao acaso na organização do melhor festival de Jazz do Atlântico. Em destaque estará sempre a Orquestra Angra Jazz, a menina dos olhos do festival. A sua existência ao fim de tantos anos é ela própria uma razão do seu triunfo e da necessidade da sua continuação. A sua importância revela-se até nos eventos paralelos, como por exemplo a organização de conferências e debates: inserido na programação do 12º Angra Jazz decorreu ainda um colóquio subordinado ao tema “O jazz e a música étnica”. Os conferencistas convidados foram o italiano Libero Farnè da Musica Jazz e Jazz.it, Paulo Barbosa (Jazz XXI) e Leonel Santos (JazzLogical). O colóquio decorreu no domingo à tarde, dia 03 de Outubro no Centro de Congressos e foi seguido de um debate moderado por José Ribeiro Pinto. O título da conferência do Libero Farnè foi “To Jazz or not to Jazz? The origin of Ethno-Jazz”.

Orquestra AngraJazz + Luís Cunha
O orquestra esteve sempre bem, mas não «voou». A ausência de solistas trouxe a nu o que já se vem fazendo notar: a falta de contacto com outros músicos tende a estrangulá -la. Eu creio que a direcção de Pedro Moreira e Claus Nymark não está a fazer o seu trabalho: essa ausência corresponde a uma regressão, e a sua substituição pelos directores Moreira - Nymark, é apenas a face mais evidente deste facto. A orquestra precisa de mais trabalho, de trocar experiências com outros músicos rompendo a insularidade, mais agilidade; mas precisa também de uma direcção renovada e mais atenta. Creio que Pedro Moreira e Claus Nymark deveriam ceder o lugar a outros: cumpriram uma função e cumpriram-na bem. Mas agora eles parecem não ser capazes de fazer melhor. Por outro lado, tenho vindo a dizer, a orquestra deveria encarar com seriedade a possibilidade da troca de experiências mais prolongadas com outros músicos. As modalidades são muitas e o dinheiro é escasso, mas é necessário encontrar uma solução. Levar alguns músicos a outras escolas no continente, organizar workshops regulares na ilha com músicos do continente (mais do que um fim-de-semana) ou mesmo estrangeiros; é necessário.
Enfim, ainda assim e apesar das minhas observações, a orquestra comportou-se - no reportório clássico - com correcção no serviço aos solistas Luís Cunha (em evidência), Pedro Moreira e Claus Nymark.

Mingus Dinasty Septet
O Mingus Dinasty Septet é uma forma condensada da Mingus Dinasty Big Band que desde há anos, impulsionada pela viúva de Charlie Mingus, Sue Mingus, tem revolteado o espólio do contrabaixista e percorrido o mundo na sua divulgação. A formação que actuou em Angra era constituída por quatro sopros mais secção rítmica.
O repertório do concerto baseou-se em clássicos, sem grandes novidades. Frank Lacy tocou e cantou, sem – felizmente – os excessos que se lhe conhecem, e esteve até bastante bem (contido) na interpretação do célebre (Mingus/ Joni Mitchell) Good Bye Pork Pie Hat. A dupla Sipiagin/ Kozlov, que se vêm fazendo notar como os verdadeiros motores da orquestra, com responsabilidade também nos arranjos e na direcção, voltou a confirmar-se em Angra, com um Sipiagin tremendo no controle do instrumento, mesmo se até mais discreto que outros sopradores. O solo da noite coube a Escovery em Good Bye…, superando um menos interessante Abraham Burton (que parece confirmar a sua desadequação no tenor). Secção rítmica eficaz.
Música apelativa, de elevado nível como estamos habituados, com equivalente aceitação do público, em especial nos temas mais angulosos do tipo do hit Fables of Faubus, ou nas vocalizações de Frank Lacy.

Stefano Bollani Trio
O trio dinamarquês é o mais conservador dos projectos de Stephano Bollani, mas nem por isso O menos exigente. O pianista revela em palco um sentido melódico apurado, que se esconde por detrás de um humor por vezes excessivo.
Stephano Bollani tocou Stone In The Water, um disco onde explora uma faceta melódica que o próprio alinhamento proporciona, e onde não faltam o recurso ao Brasil de Jobim e Caetano Veloso, a par de outros temas mais intrigantes como Joker In The Village ou Il Cervello del Pavone. Mais contido do que no concerto de Lisboa (Janeiro, Culturgest), Bollani não consegue resistir a algumas chalaças, que contêm a virtude e o defeito de camuflar alguma da melancolia que a audição do disco nos tinha revelado, mas encobre da mesma forma a complexidade das peças.
Apesar da origem diferente dos músicos – dois dinamarqueses e um italiano -, o trio funcionou sempre como uma máquina bem oleada, com acerto e eficácia.

Paula Oliveira + Lisbones
Paula Oliveira é um ícone do Angra Jazz e não será surpresa pois que ela tenha escolhido o festival para apresentar Raça, o seu novo disco para a Universal. A expectativa era grande, dado o invulgar acompanhamento - o quarteto de saxofones Lisbones mais secção rítmica, com direcção e arranjos de Lars Arens, mas ela foi defraudada.
Começo por dizer que não gosto dos temas e da forma como a Paula Oliveira canta em português, excessivamente contaminada pelo fado com traços pesados da música ligeira portuguesa. Prefiro-a a cantar Jazz, onde é indiscutivelmente a melhor.
Mas se o reportório me colocou interrogações, a verdade é que o que à partida parecia uma brilhante ideia se gorou em arranjos destemperados: Lars Aren, de quem conhecemos excelentes trabalhos para orquestra, nunca ousou levantar voo, incapaz de resolver o problema (por si mesmo colocado) de quatro instrumentos solistas de timbres iguais (ou próximos), cuja missão era suposto ser em primeiro lugar desenhar a tela onde a voz se espraia e não a teia onde se emaranha. Concerto morno, com a cantora a comunicar o seu evidente desconforto numa roupa que lhe não pertencia.
Para o encore a cantora escolheu Gloomy Sunday, um dos estandartes de Billie Holiday, que acabou por ser o melhor da noite, pela voz da cantora e pelo engenho de Arens. Contou Paula Olivereira que Gloomy Sunday não foi incluído no disco devido aos arranjos muito ousados. Esclarecedor! Faltou realmente ousadia a Lars Arens e Paula Oliveira.

Orchestre National de Jazz de France
A ONJ é uma grande formação francesa suportada financeiramente pelo Estado, e que tem, de acordo com os seus próprios estatutos, direcções temporárias, inteiramente responsáveis pelas formações e pelos reportórios. Por ela passaram no passado Laurent Cugny, Claude Barthélemy, Franck Tortiller, entre outros directores, e dela saíram grandes discos e grandes projectos. O director actual é Daniel Yvinec, que apresentou em Angra o espectáculo Broadway in Satin - Billie Holiday Revisited. O resultado foi bastante interessante, se bem que desigual.
Creio que terá causado alguma estranheza a abordagem irreverente do universo de Billie Holiday, a que a ONJ procurou esvaziar da carga dramática mais pesada. O estranho reside na forma como Billie cantava, sempre carregada de emoção, que no fim da vida acabou por quase se substituir à voz. Imaginar Billie sem emoção é quase inconcebível, e foi este o desafio que Yvinec e a ONJ tomaram em mãos. A verdade é que abordar a temática de Billie Holiday é sempre um risco e, ou se procura copiar, e o melhor que é possível fazer, fá-lo Madeleine Peyroux, ou se reinventa tudo (há uma terceira hipótese que é Abbey Lincoln, mas isso é outra história).
O risco era enorme: a ONJ envolveu as canções de Billie Holiday de rebuscados arranjos onde não faltou electricidade e energia, mas eu diria que apesar de tudo com carinho e respeito, num movimentado palco onde a orquestra e dois cantores recriaram tudo ou quase tudo no universo Billie. Mesmo as vozes estavam nos antípodas de Bille Holiday: Karen Lano possui a frieza do cristal de Judy Collins, enquanto Ian Siegal cultiva a voz rouca (e também algo da pose) de Tom Waits!
O concerto valeu também pela ousadia e o risco colocado, com um resultado final a superar confortavelmente a linha de água.

Henri Texier Transatlantik Quartet
Quando no meio dos anos 90 me chegaram às mãos três discos de Henry Texier, fiquei tão entusiasmado que propus ao meu editor dedicar-lhes duas páginas no suplemento musical do Diário de Notícias onde na altura escrevia. Acontecia que por esse tempo a distribuição dos discos da Label Bleu era bastante irregular e poucos ouvidos os conheceriam. Um dos discos era Izlaz, onde se estreava o Transatlantik Quartet, e recordo que nele me excitou especialmente a contribuição de Steve Swallow no baixo a competir com Texier.
Aconteceu que, apesar das diversas passagens do contrabaixista por território nacional, nunca tinha assistido à actuação do quarteto ao vivo e foi pois com entusiasmo que me dispus a assistir ao concerto de encerramento do Angra Jazz 2010.
Tratava-se em primeiro lugar de um encontro de verdadeiras estrelas do universo Jazz, quatro veteranos com provas dadas ao longo de décadas e prémios em todos os círculos da crítica especializada em todo o mundo. Mas nestas coisas, nada como assistir para comprovar, até porque a experiência nos diz que o resultado de um encontro de estrelas nem sempre corresponde à soma das parcelas. Creio que este quarteto não terá tido muitas oportunidades de tocar ao longo dos seus mais de vinte anos, mas as minhas preocupações foram vãs: à alegria da aventura (desses idos dias dos finais dos anos 80), os quatro músicos ajuntavam agora muitos anos de amizade e uma longa experiência.
De forma algo diferente do que recordava dos discos, um exuberante Joe Lovano esteve em evidência, mesmo se a peculiaridade na formação do grupo (refiro-me obviamente aos dois baixos) foi sempre um dos motivos de interesse do concerto, com Swallow que é obrigado a subir para os agudos e a funcionar como uma guitarra, não perde oportunidade de se intrometer na área do contrabaixo, mais grave, mas mais lento que o ágil baixo eléctrico. Mas talvez que a nota dominante em todo o concerto tenha sido a bonomia, a cumplicidade entre os músicos e a alegria de tocar (Jazz).

(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)

Sex 1-Out
Angra do Heroísmo
Centro Cultural e de Congressos
21.30
Orquestra AngraJazz + Luís Cunha
Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir), Luis Cunha (trb), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Telmo Aguiar (st), José Pedro Pires (clb), Rodrigo Lima (f), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Edgar Marques (trom), Antonella Barletta (p), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat)
Mingus Dinasty Septeto
Abraham Burton (sa), Wayne Escoffery (st), Alex Sipiagin (t), Ku-umba Frank Lacy (trb), Boris Kozlov (ctb), Orrin Evans (p), Donald Edwards (bat)
Sáb 2-Out
Stefano Bollani Trio
Stefano Bollani (p), Jesper Bodilsen (ctb), Morten Lund (bat)
Paula Oliveira + Lisbonnes
Paula Oliveira (voz), Leo Tardin (p), Bernardo Moreira (ctb), Bruno Pedroso (bat), Lars Arens (trb), Claus Nymark (trb), Luis Cunha (trb), Rui Bandeira (trb)
Seg 4-Out
Orchestre National de Jazz de France

Daniel Yvinec (dir), Eve Risser (p, f), Vincent Lafont (sint, elec), Antonin-Tri Hoang (sa, cl), Matthieu Metzger (s, elec), Joce Mienniel (f, elec), Rémi Dumoulin (s, cl), Guillaume Poncelet (t, p, elec), Pierre Perchaud (g, bjo), Sylvain Daniel (b-el), Yoann Serra (bat), Karen Lano (voz), Ian Siegal (voz)

Henri Texier Transatlantik Quartet

Henri Texier (ctb), Joe Lovano (s), Steve Swallow (b-el), Aldo Romano (bat)


2009

A diversidade no Jazz (e em Angra do Heroísmo)

Bastante de acordo com a linha de força do discurso do jornalista e crítico do Jazz Magazine Thierry Quenun que observava que a característica principal do Jazz contemporâneo é a diversidade, eu creio (apesar de nem sempre de acordo com as suas observações) que a palavra que melhor define a edição 2009 do Angra Jazz seja exactamente «diversidade». É verdade que o Angra Jazz tem procurado desde sempre a diversidade, mas este terá sido o melhor exemplo dessa realidade: seis concertos, seis propostas estéticas tão diferentes que observadas por outra perspectiva, melhor se diriam adversas. Em primeiro lugar uma orquestra portuguesa (e insular) que pratica o Jazz mais tradicional e conservador e pró-americano do que foi possível observar. Em segundo uma cantora americana – Jane Monheit – numa fuga acelerada para fora do Jazz, num movimento há muito sugerido por muitas cantoras (e cantores) que oferecem a técnica e maneirismos jazzy ao canto pop ligeiro. Num outro patamar, um grande pianista – Mário Laginha –, que cruza o lirismo e a vertigem de Bach, a música popular (um pouco de Brasil também) e o fascínio por Keith Jarrett. Chano Dominguez, outro grande pianista, andaluz, que introduz num discurso tipicamente jazzístico elementos estranhos do folclore flamenco. Henri Texier, contrabaixista gaulês que – na tradição do Jazz comprometido de Charles Mingus – leva a política ao Jazz, sob uma forma de composições pouco ortodoxas (de Jazz falando) que transportam consigo a virulência do free jazz, mas também os olores das mais insuspeitas paisagens de um mundo globalizado. E finalmente Charles Lloyd, um dos últimos moicanos do saxofone, um verdadeiro guerreiro que vai beber a sua inspiração à derradeira fase mística de Coltrane; um músico ímpar na entrega, intenso e emocionante.
De diversidade falando, estaremos conversados; mas o Angra Jazz 2009 mereceu a observação pela criteriosa selecção, mesmo se nem tudo corre sempre pelo melhor.
O momento menos interessante foi protagonizado, como antecipei, pela voz de Jane Monheit. Não que ela cante mal; bem pelo contrário. Mas o repertório trânsfuga, o aligeiramento das formas e alguns tiques raiando o piroso realmente incomodaram com frequência estes olhos e ouvidos. Acredito que numa audiência mais intimista a cantora opte por uma temática mais jazzy, mas resta saber se não esqueceu.
É sempre um prazer regressar à menina dos olhos do festival, a Orquestra Angra Jazz. O solista convidado deste ano, Hugo Alves, integrou-se à perfeição no tutti instrumental, e alguns dos arranjos preparados, muito em especial logo o primeiro, o clássico Freddie Freeloader, foi executado de forma particularmente conseguida.
Já toda a gente referiu os problemas da insularidade da orquestra; mas deverá ser questionado se não será altura de repensar o modelo que vem sendo sustentado, já que apesar do seu razoável nível, ela não parece evoluir substancialmente (e tudo o que não evolui tem tendência a estagnar, dizem). Apesar da evolução, falta à orquestra uma secção rítmica condutora, faltam solistas e falta alguma dinâmica que apenas o confronto quotidiano com outros músicos e outros conceitos estéticos podem resolver. O reportório excessivamente bop não ajuda.
Escrevi no ano passado e gostaria de me repetir: «Com o diagnóstico completo, a solução seria óbvia: é necessário pôr os músicos a tocar com outros músicos e a trabalhar com outros professores (se possível até estrangeiros), em regime de tempo inteiro.
E já que Maomé não vai à montanha… Não será fácil porque a orquestra é constituída em grande medida por músicos não profissionais e porque as deslocações e outras despesas associadas não são irrelevantes, mas uma primeira solução será começar a trabalhar no sentido de organizar workshops de duas ou pelo menos uma semana, duas ou três num ano, organizado pela escola do Hot ou outra, onde os músicos, todos de uma vez ou rodando, possam tocar nas condições que referi: trocar experiências e trabalhar intensivamente com outros professores e músicos. É uma aposta cara e eu estou a falar sem saber números e se realmente será possível. Mas é necessário.».
Melhor correu como era esperado o concerto de Mário Laginha. Laginha tem desde há muito a minha admiração e o trio que dirige é uma máquina imparável, mas a formação que Laginha levou a Angra estava acrescida da guitarra de Sérgio Pelágio. Não haverá nenhum reparo à guitarra; apenas que ela me pareceu com frequência redundante: os arranjos estão feitos para o trio de piano-baixo-bateria e a guitarra pareceu com frequência sobrar. Laginha cresceu muito desde há dez anos e a sua música não parece admitir um outro instrumento harmónico, a não ser que ele se reinvente. A forma muito Jim Hall de Pelágio não me parece a adequada.
Chano Dominguez esteve excelente. A singularidade de Chano (mais uma vez parecendo confirmar a teoria de Quenun que afirma a riqueza e a diversidade do Jazz europeu a partir da procura das origens folclóricas remotas dos músicos) advém da integração feliz do flamenco no Jazz. A bateria sem bombo nem tímbalos substituídos pelo cajón explicitava a fonte, mas o discurso fluente e sincopado do pianista andaluz é verdadeiramente jazzístico. Chano realmente não inventou nada; é conhecida a atracção de Miles, por exemplo, pelo flamenco. Chano Dominguez apenas vem explorando com felicidade e engenho a fórmula.
Quase não se notou a ausência do trombonista no Strada Sextet transformado em quinteto de Henri Texier. Sob a batuta do veterano contrabaixo, o grupo confirmou-se como um dos mais poderosos e estáveis grupos da Europa. As raízes do Jazz de Texier reportam ao free jazz e ao hardbop dos anos 60 e 70, mas também à tradição clássica europeia, aos folclores do mundo e à pop anglo-saxónica. O reportório do concerto incluiu alguns temas antigos de (V)ivre, alguns do novo CD Alerte à l'eau e alguns originais. Talvez menos provocador e politizado que em digressão anterior a que assisti, ainda assim a música do Strada é volumosa e intensa, e assim foi também em Angra.
Sem surpresas Charles Lloyd fez o melhor concerto do festival; ele que já tinha feito também o melhor disco de 2008, com esta formação, com a única substituição do baterista de Eric Harland por Nasheet Waits.
O som de Charles Lloyd é verdadeiramente caloroso e expressivo. Não sendo propriamente um original, ele soube matizar um saxofonismo que era o mainstream dos anos 70 com motivos folclóricos que sugerem um desejo de oriente e que se revela com mais clareza na utilização da flauta e do tarogato. Nos últimos anos, como foi evidente em Angra, a música de Charles Lloyd revela enfim a sua verdadeira influência, e que não é outra que o saxofone derradeiro espiritual e místico de John Coltrane. Por detrás do som enorme está uma figura frágil e sensível, que parece revelar-se cada vez mais. Essa sensibilidade fá-lo chorar em palco pela partida do amigo Billy Higgins, mas revela-se também na forma como reage aos aplausos do público e que o fez tocar duas horas seguidas em Angra. A música de Charles Lloyd toca-nos como poucos são capazes. Ao lado dele estiveram três grandes músicos: um Jason Moran que é tudo menos um mero sideman e que revela toda a sua grandeza de igual forma na subtileza das intrusões ou nos solos; um jovem Reuben Rogers que parece crescer todos os dias, absolutamente irrepreensível; e Nasheet Waits que é só um dos grandes bateristas da actualidade.
Um última palavra para a conferência de Thierry Quenun: já referi estar de acordo com o crítico quanto à característica principal do Jazz contemporâneo: a diversidade, que alguns outros melhor denominam talvez de fragmentação estética, e que advém da própria natureza do Jazz que o faz absorver características, sinaléticas e linguagens de outras correntes musicais; tornando mesmo qualquer definição de Jazz transitória. Mas Quenun que bem observa que o Jazz se soube apropriar das referências estéticas de outras culturas, sugwer que o centro da «vanguarda» do Jazz se terá mudado para a Europa, a partir da maior diversidade cultural europeia. Pondo de lado a hipótese da arrogância gaulesa que se gosta de colocar no centro do Universo, e reconhecendo que essa arrogância existe de igual forma do outro lado do Atlântico onde os velhos boppers se intitulam os donos do Jazz; eu creio que o discurso de Quenun revela uma parcial observação dos factos, já que ignora por exemplo as correntes revivalistas que recuperam para o Jazz valores considerados acabados, mas que persistem em oferecer ao Jazz a emoção e a criatividade que a anopsia intelectual gosta de ignorar. Que se revela na colaboração entre músicos mainstream e vanguardistas, mas por vezes também entre músicos clássicos e pop que a crítica pura e simplesmente desconhece; e também os movimentos centrífugos e centrípetos que o Jazz gera desde os primórdios. Prova da vitalidade do Jazz é igualmente o bop evoluído de Miguel Zénon, os desvios country de Bill Frisell, a interpretação de Monk pelo Kronos Quartet, o Jazz pop dos nórdicos EST e o Jazz pop dos The Bad Plus, os inúmeros projectos de Dave Douglas, o poderoso saxofone de Donny McCaslin e o Jazz clássico de Uri Caine, a erudição de John Taylor e Maria Schneider, John Hollenbeck, Joe Lovano, Bill Carrothers, e claro o Jazz sublime e emotivo de Charles Lloyd, a par do flamenco de Chano Dominguez, o bop da Orquestra Angra Jazz, o lirismo de Mário Laginha, o poderoso Jazz europeu de Henri Texier e enfim também o Jazz que já esteve na voz de Jane Monheit. O Jazz é uma música em movimento e a diversidade que é sua característica é também a sua força. O centro? O Jazz não tem centro.
Uma organização irrepreensível, uma feira do disco, uma conferência, a gravação do concerto pela televisão e a reportagem em directo pela RDP, e ainda a presença da imprensa, contribuíram para fazer do 11.º Angra Jazz um dos melhores de sempre; mas confirmou-se uma outra vez como um dos grandes festivais nacionais.
21 Outubro 2009

(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)

Sex 2-Out
Angra do Heroísmo
Centro Cultural e de Congressos
21.30
Angra Jazz
Orquestra Angra Jazz + Hugo Alves
Pedro Moreira (dir), Klaus Nymark (dir), Hugo Alves (t), Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Francisco Leal (sb), José Pires (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Nuno Mendonça (trb), Antero Ávila (tu), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat),
Jane Monheit Qrt
Jane Monheit (voz), Michael Kanan (p), Neal Miner (ctb), Rixck Montalbano (bat)
Sáb 3-Out
Mário Laginha Qrt
Mário Laginha (p), Sérgio Pelágio (g), Bernardo Moreira (ctb), Alexandre Frazão (bat)
Henri Texier Strada Quintet
Henri Texier (ctb), Sébastien Texier (sa, cla, cl), Manu Codjia (g), François Corneloup (ss, sb), Christophe Marguet (bat)
Dom 4-Out
Chano Dominguez Trio
Chano Dominguez (p), Mario Rossi (ctb), Israel Suarez (bat)
Charles Lloyd Qrt (c/ Jason Moran)
Charles Lloyd (s, tarogato), Jason Moran (p), Reuben Rogers (ctb), Nasheet Waits (bat)

 

A décima primeira edição do Angra Jazz principia com a prata da casa, quer dizer, a Orquestra Angra Jazz, que este ano tem como convidado Hugo Alves, um homem habituado a escrever, e a dirigir, (para) grandes formações, ele que é o mentor da activa Orquestra de Jazz de Lagos.
E a terminar a noite de 2 de Outubro teremos a elegante e sensual voz de Jane Monheit.
O segundo dia começa bem, logo a partir do Quarteto de Mário Laginha que conta com a guitarra de Sérgio Pelágio, além dos insubtituíveis contrabaixo e bateria de Bernardo Moreira e Alexandre Frazão; recuperando um quarteto que não se reunia há dez anos. Por muitos o melhor pianista português, Laginha deverá apresentar em Angra «material novo».
Mas a noite promete ainda emoções fortes com a apresentação do Henri Texier Strada Sextet. Henri Texier é um dos mais sólidos músicos de Jazz europeus, contrabaixista, compositor e líder desde há mais de quarenta anos. As raízes do Jazz de Texier remontam ao hard bop, pois claro, mas cruzam com o free jazz que acompanhou de perto e ainda uma miríade de influências que vão da tradição clássica europeia ao rock e às músicas folclóricas, mas também à política. Nos últimos anos tem sido notada a crescente presença de motivos exóticos, «orientais», na música de Henri Texier.
O Strada Sextet que já roda há perto de uma década fez-se notar como um «pianoless combo»: dois saxofones, trombone, guitarra, contrabaixo e bateria. O Strada, que vi tocar em 2006 em Portalegre, pratica uma música voluptuosa e irresistivelmente modernista. O Strada é composto de seis irredutíveis gauleses, ou melhor cinco gauleses e um búlgaro (o trombonista Gueorgui Kornazov). O concerto que o Henri Texier Strada Sextet fez em Portalegre foi considerado pela crítica nacional reunida em JazzLogical o melhor concerto (ex aequo com Keith Jarrett no CCB) de Jazz de 2006.
O elevado nível do festival prossegue até ao fim com o concerto do trio de Chano Dominguez. Chano Dominguez é um virtuoso e um singular pianista andaluz com um discurso que cruza a vertigem bop com o peculiar stride de Thelonious Monk e o flamenco. Aqui tão perto, não se percebe porque é que Chano Dominguez não é mais ouvido em Portugal. Angra do Heroísmo parece querer corrigir esse erro.
Pouco haverá a dizer de Charles Lloyd que não tenha já sido dito; ele que é um dos últimos guerreiros do Jazz, que viu passar ante si várias gerações de músicos, que viveu intensamente os últimos 50 anos do Jazz, e que tudo isso transmite, por vezes de forma sofrida, no seu «saxofonismo». Este quarteto que irá tocar no Angra Jazz é composto dos melhores músicos do mundo: Charles Lloyd, Jason Moran, Reuben Rogers e Nasheet Waits; e é o mesmo que fez Rabo de Nube, o disco que a crítica nacional e JazzLogical considerou o melhor CD de 2008.
Inequivocamente o 11.º Angra Jazz promete ser um dos melhores de sempre.
12 de Setembro de 2009


Fotos por Jorge Monjardino

2008

Coube ao quinteto de Tom Harrell a honra de abrir as portas do X Angra Jazz. Harrell é um trompetista educado na exigente escola do bop, que tocou nos anos 70 com Phil Woods, Horace Silver, Woody Herman ou George Russell. Ao longo dos últimos 40 anos ele desenvolveu uma forma de bop culto, rigoroso e sofisticado. O sólido grupo que o acompanhou esteve à altura do líder, com destaque para a jovem estrela Wayne Escoffery no saxofone tenor e Ugonna Okegwo no contrabaixo, com quem o trompetista realizou um dos momentos mais bonitos da noite; uma interpretação sublime de Body And Soul.

O segundo concerto da noite esteve por conta da Orquestra Angra Jazz, projecto acarinhado desde a primeira hora pela Associação Angra Jazz. O convidado deste ano foi o baterista Mário Barreiros, mas na celebração dos dez anos do festival, a organização decidiu estender o convite aos convidados dos anos anteriores, Mário Laginha, Paula Oliveira, Zé Eduardo e Afonso Pais, além dos directores Pedro Moreira e Claus Nymark. Alguns temas novos e solos de alguns dos membros da orquestra foram a novidade deste ano. A noite acabou de forma agradável, com todos os convidados em palco.
São conhecidas as dificuldades da orquestra que paga caro a insularidade, e desse ponto de vista não é possível exigir-se mais à orquestra. Isolada a 1500 Km dos músicos de Jazz mais próximos, com contactos apenas mensais com os directores, o colectivo faz realmente milagres. Mas ela tem realmente tudo contra ela, e creio que nestas condições é natural que a partir de agora a evolução seja lenta. Com o diagnóstico completo, a solução seria óbvia: é necessário pôr os músicos a tocar com outros músicos e a trabalhar com outros professores (se possível até estrangeiros), em regime de tempo inteiro.
E já que Maomé não vai à montanha… Não será fácil porque a orquestra é constituída em grande medida por músicos não profissionais e porque as deslocações e outras despesas associadas não são irrelevantes, mas uma primeira solução será começar a trabalhar no sentido de organizar workshops de duas ou pelo menos uma semana, duas ou três num ano, organizado pela escola do Hot ou outra, onde os músicos, todos de uma vez ou rodando, possam tocar nas condições que referi: trocar experiências e trabalhar intensivamente com outros professores e músicos. É uma aposta cara e eu estou a falar sem saber números e se realmente será possível. Mas é necessário.

O Sexteto de Mário Barreiros abriu a noite de sexta-feira com um Jazz possante e escorreito. De entre os solistas destacou-se talvez Mário Santos, mas todos os membros da banda demonstraram um bom nível. Este é um colectivo experiente, como combo ou ao nível individual, fazendo dele um dos melhores grupos de jazz nacional.

Com o ambiente preparado, abria-se o palco para o melhor do festival na pessoa do grupo de Bennie Wallace numa homenagem a Coleman Hawkins consagrada no CD Disorder At The Border.
Bennie Wallace é um verdadeiro monstro do saxofone, realmente digno da herança de Hawkins. Poderoso, sensual, vibrante, ele foi mais que convincente à frente de um noneto de notáveis onde se destacou o irreverente Ray Anderson e a luminosidade do sax alto do veterano Jerry Dodgion. Nota menos positiva para a amplificação dos sopros que já havíamos notado no dia anterior e que seria algo corrigida no sábado.
O alinhamento percorreu todos os temas do disco, acrescido de uma deliciosa versão do clássico de Duke Ellington, Caravan. Momentos altos foram ainda a interpretação de Honeysuckle Rose e ainda de La Rosita, antecedida da história de como Bennie Wallace e Ray Anderson conheceram o tema em Portugal, interpretado por Hawkins e Ben Webster, no aniversário do programa de rádio AbandaJazz, em 1981.

Sábado principiou com o trio de Bobo Stenson, conhecido por muitos como «o pianista de Charles Lloyd». Mas o pianista sueco é bem mais que um simples sideman (mesmo se ser sideman é uma arte). E ele é realmente um líder e compositor. O seu mais famoso trio diferiu da composição que se apresentou em Angra no baterista, que já foi Jon Christensen ou Paul Motian, e que agora é o jovem Jon Falt, enquanto que no contrabaixo permanece o amigo de longa data Anders Jormin.
Stenson possui um estilo verdadeiramente luminoso (não sei porquê veio-me à cabeça António Pinho Vargas), mesmo se por definição o trio de piano tende a ser intimista. Ele possui algo da densidade de Keith Jarrett, que já foi há muitos anos a sua influência principal (mas Jarrett foi a influência principal de quase todos os pianistas), e será óbvio que a sua formação é clássica e não bop. Ainda assim, ele é um sólido pianista de Jazz, como o demonstrou (se necessário fosse) em Angra. Enquanto Jormin esteve igual a si próprio, irrepreensível, permito-me questionar algumas opções «pop» da bateria, mais dadas ao espectáculo, muito na linha do que faz Magnus Öström, o baterista do malogrado Esbjorn Svensson. Mas a verdade é que anda toda a gente a fazer o mesmo…
Enfim, apesar da minha observação, este foi também um dos grandes momentos do festival.

A música de William Parker, que tocou no fim da noite de sábado, possui qualquer coisa da festa dos Art Ensemble of Chicago, como também de Sun Ra nos apelos à energia cósmica da cantora Leena Conquest; mas creio que acima de todos eles esteve sempre a personalidade avassaladora de Charles Mingus, no som denso do contrabaixo em jeito de bússola, e no dramatismo das peças. Não foi free jazz o que Parker tocou; ele parece retomar a forma do que foi a New Thing dos anos 60, bem ancorado na tradição e sem grandes devaneios vanguardistas. Para o espectáculo, Parker conta com a cantora bailarina Leena Conquest, cuja voz grave e bem modulada me parece inspirar-se mais na soul music que na tradição Jazz, embora isso não seja necessariamente defeito… Como bailarina no entanto, ele esgotou-se ao fim do primeiro tema, tendo-se repetido algo excessivamente. Curiosamente, o repertório é constituído por verdadeiras canções, à medida da voz de Conquest.
Bom concerto com nota alta para as prestações de Rob Brown e Hamid Drake.

O festival encerrou com o concerto do vencedor de um Grammy em 2007, Herbie Hancock. Herbie Hancock é uma verdadeira estrela pop, um músico bastante popular entre ouvintes de vários géneros. Ele esteve este ano em Portugal em vários concertos a apresentar o disco de homenagem a Joni Mitchel (Rivers) (com que ganhou o Grammy), bastante próximo do cool Jazz; obviamente muito bem feito e agradável, ou não fosse ele Herbie Hancock.
A formação que esteve no Angra Jazz foi no entanto diferente, bastante mais jazzy, com Terence Blanchard no trompete e James Genus no contrabaixo, para além do incontornável Lionel Loueke na guitarra, a harmónica de Gregoire Maret e Kendrick Scott na bateria. A parafernália no palco não enganava, anunciando um concerto eléctrico, e foi isso mesmo que aconteceu: entre os temas popularizados pelos Headhunters, alguns clássicos «travestidos» e alguns outros mais modernos à medida do guitarrista do Benin, o espectáculo rolou sem quaisquer engulhos. Herbie Hancock é um bom comunicador e demonstrou como a velha raposa ainda reina. Depois de um tema inicial dos Headhunters, o pianista atacou Speak Like a Child com um arranjo milesiano do tipo Pharaoh’s Dance, para passar a um tema mais Weather Report onde não faltou a voz sintetizada, depois um solo excessivo (mas esse é o privilégio dos virtuosos) de Lionel Loueke, em Seventeens, seguido de um solo de piano acústico por ele próprio e de novo o regresso aos Headhunters. Apreciei em especial os solos de Terence Blanchard, de Maret e de Genus, mas esta é uma banda superlativa e o público obrigou o sexteto a regressar ao palco para um encore.

A jornalista da RDP Açores Elsa Soares perguntou-me qual tinha sido na minha opinião a evolução do Angra Jazz ao longo destes dez anos. Nenhuma, respondi-lhe; o Angra Jazz é desde a primeira edição um dos melhores festivais nacionais, com uma programação equilibrada e ecléctica, entre a tradição e o Jazz moderno, aliando a qualidade e o espectáculo. A décima edição do Angra Jazz foi nesse sentido exemplar.

8 de Outubro de 2008

(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)

 

Qui 2-Out
Angra do Heroísmo
Centro Cultural e de Congressos
21.30
Angra Jazz 2008
Tom Harrell Quinteto
TH (t, flis), Wayne Escoffery (st), Danny Grissett (p), Ugonna Okegwo (ctb), Johnathan Blake (bat)
Orquestra Angrajazz com Mário Barreiros
Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Tomás Leal (sb), Paulo Almeida (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Tony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Antero Ávila (tu), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat), Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir) + Paula Oliveira (voz), Mário Laginha (p), Zé Eduardo (ctb), Afonso Pais (g), Mário Barreiros (bat)
Sex 3-Out
21.30
Sexteto de Mário Barreiros
MB (bat), Pedro Guedes (p), Pedro Barreiros (ctb), Mário Santos (st, cl-b), José Luis Rego (sa, ss), José Pedro Coelho (st)
Benny Wallace’s “Disorder At The Border”
BW (st), Jesse Davis (sa), Jerry Dodgion (sa), Adam Schroeder (sb), Ray Anderson (trb), Joe Magnarelli (t), Donald Veja (p), Bill Huntington (ctb), Quincy Davis (bat)
Sáb 4 Out
21.30
Bobo Stenson Trio
BS (p), Anders Jormin (ctb), Jon Fält (bat)
William Parker’s “Raining On The Moon”
WP (ctb), Leena Conquest (voz, dança), Lewis Barnes (t), Rob Brown (sa), Eri Yamamoto (p), Hamid Drake (bat)
Dom 5-Out
21.30
Herbie Hancock Sexteto
Herbie Hancock (p), Terence Blanchard (t), James Genus (ctb), Lionel Loueke (g), Gregoire Maret (harm), Kendrick Scott (bat)

 

Dez anos é muito tempo...

A décima edição do Angra Jazz começa já na quinta 2 com o quarteto de Tom Harrell, um sofisticado bopper trompetista cujas formas combinam uma espécie de bop evoluído com um imaginoso e sofisticado melodismo. Tom Harrell é uma figura impar no Jazz: a esquizofrenia que lhe é atribuída revela-se no individualismo e na criatividade das suas intervenções. À frente de uma banda de primeira água Tom Harrell promete inaugurar da melhor forma o festival.
Essa mesma primeira noite completa-se com a coqueluche do festival: a Orquestra Angra Jazz que este ano tem como convidado especial Mário Barreiros. Mas não só porque a acompanhar a «improvável orquestra» também lá estarão no palco Mário Laginha, Pedro Moreira, Claus Nymark, Paula Oliveira, Zé Eduardo e Afonso Pais, que nos últimos anos foram os convidados de honra da orquestra.
A noite de sexta inicia-se com toda a energia do Jazz inequívoco do sexteto de Mário Barreiros e completa-se com um verdadeiro monstro do saxofone que é Bennie Wallace.
Bennie Wallace leva a Angra a música do disco de homenagem a um dos grandes saxofonistas da história do Jazz que foi Coleman Hawkins, e que marca o seu regresso aos lugares cimeiros da cena internacional. «Disorder At The Border», que será apresentado em Angra em noneto, numa formação próxima do original, e que conta com músicos tão extraordinários quanto Ray Anderson, seu amigo de longa data, ou ainda Jesse Davis ou Joe Magnarelli. Um grande concerto em perspectiva.
A noite de sábado abre com o Jazz sofisticado do trio de Bobo Stenson. Bastaria talvez dizer que ele foi durante largos anos o pianista de Jan Garbarek e Charles Lloyd para ilustrar a sua estatura, mas Stenson é também um autor e um líder digno desse estatuto, e desde há muito uma das grandes referências da etiqueta ECM.
O sábado termina com o Jazz de alto risco do sexteto de William Parker. “Raining On The Moon” é o sugestivo nome do projecto que irá apresentar, e que conta na formação com radicais como Rob Brown e Hamid Drake e ainda a cantora/bailarina Leena Conquest. Free Jazz erudito, Jazz progressivo, algures para lá dos Art Ensemble of Chicago e Sun Ra, música para os ouvidos e os olhos.
Dez anos é muito tempo e o Angra Jazz não deixa os seus créditos em mãos alheias: o novo Herbie Hancock Sexteto, com Terence Blanchard no trompete é grupo que encerra o festival deste ano. Depois do desvio pop de «River», este pode ser o regresso ao grande Jazz da velha raposa. Assim o esperamos. No domingo.

 

1 de Outubro de 2008

 


2007

Reviver o passado em Angra

De forma algo diferente das edições anteriores, o Angra Jazz 2007 teve como linha de força o elogio do passado. Como fiz notar na apresentação do festival, três nomes sonantes de três épocas estavam representados na primeira pessoa: o grande Jim Hall - mais do que um estilo, um instrumento! -, o hard-bop de Benny Golson e o free-jazz europeu de Alexander von Schlippenbach. Mas a verdade é que os três outros concertos agendados se enquadravam também eles dentro da tradição; seja pela grandiloquente voz de Roberta Gambarini na interpretação dos standards, seja pela evocação de Chet Baker pela voz e trompete de Laurent Filipe, seja enfim pelo explícito referencial temático e estético da Orquestra AngraJazz.

Começando pela Orquestra Angra Jazz, sabe bem dizer que é notória a evolução da secção rítmica, a avaliar pela única coisa que dela tinha ouvido, o disco em que participa Paula Oliveira, de que tive oportunidade de falar. A orquestra é uma máquina bem oleada e realizou um concerto muito agradável. A sua maior debilidade reside agora na quase ausência de solistas e improvisadores, e é para aqui que os directores Pedro Moreira e Claus Nymark deverão dirigir a atenção. Outro aspecto a considerar talvez, será o do alargamento do repertório, demasiado tradicional.
A Orquestra Angra Jazz é um projecto que é preciso acarinhar. Sabidas as dificuldades que existem em manter em actividade grandes formações em Portugal, é até surpreendente como ela subsiste. A persistência (carolice!) dos seus membros, da Associação Angra Jazz e da Câmara, merece todos os louvores. É preciso saber-se que a orquestra apenas toca uma vez por mês, quando os directores se podem deslocar a Angra. É obra! Tocar, tocar, tocar, agora é a receita. É necessário criar as oportunidades.

O outro momento nacional, o projecto de homenagem a Chet Baker, era à partida um número ganhador: Laurent Filipe recria com inteligência os ambientes melancólicos de Chet Baker e a banda é constituída por músicos competentes. Nada é deixado ao acaso, entre o som do trompete e o timbre e colocação da voz, à própria postura em palco. Laurent senta-se na boca do palco à frente do público como se fosse contar uma história e não tocar trompete, mas foi exactamente assim que tocou em 1981 no Cascais Jazz, num concerto absolutamente inolvidável.
Laurent Filipe fez um bom espectáculo e o público não lhe regateou aplausos.

A revelação do festival foi Roberta Gambarini que pisava os palcos nacionais pela primeira vez. O repertório foi exclusivamente clássico, I Hadn't Anyone Till You, No More Blues, On The Sunny Side Of The Street, C.C. Rider, o imortal Good Morning Heartache ou Easy To Love, mostrando-se igualmente à vontade nos blues, nas baladas ou nos tempos rápidos. Ela possui uma colocação de voz e uma alegria que lembra a grande Ella, mas também uma grande intuição e toda a técnica jazzística das grandes cantoras (sem no entanto jamais sair do campo «restrito» do Jazz mainstream). Infelizmente uma perturbação nas cordas vocais impedia-a de dar algumas notas, maculando o concerto. Ainda assim, um grande profissionalismo permitiu-lhe minorar o acidente e Gambarini realizou um verdadeiro gran finale coroado com um eloquente Estate.
A banda de suporte de Gambarini esteve irrepreensível. Kirk Lightsey é daqueles pianistas sólidos capazes de acompanhar qualquer músico e tocou com alegria e elegância. Reggie Johnson que no dia seguinte acompanharia também Benny Golson foi outro músico inspirado, como Douglas Sides, de um swing a toda a prova.

Na banda de Benny Golson, tudo rolou sobre esferas. Apesar dos seus 78 anos de idade, o velho saxofonista ainda realmente é capaz de soprar mas, como previ na antecipação do concerto, a vedeta é Eddie Henderson. O outro trompete, Philip Harper, acrescentou densidade ao todo e a secção rítmica – todos eles – solam com fluidez.
O «caso» da noite, quase estragou o concerto, quando o saxofonista logo no início da sua actuação, obrigou a equipa da Euronews a desligar a câmara, sem perceber que ela estava apenas a gravar os 10 minutos contratuais. É bastante comum esta paranóia norte-americana que radica no abuso que muitos produtores exerceram sobre os músicos até aos anos 60, que os espoliavam de direitos, quantas vezes de forma dramática. Mas o episódio marcou negativamente o concerto.
Solos de Bennie Golson em I Remember Clifford, e principalmente A Protrait of Jennie de Eddie Henderson destacaram-se pela positiva numa banda experimentada e eficiente.

Mais desequilibrado foi o Monk's Casino de Alexander von Schlippenbach, se bem que com uma actuação bem mais convincente que o desastrado episódio de Lisboa que referi noutro dia.
As composições-arranjos de AvS revelaram-se interessantes - na engenhosa construção - desconstrução das figuras, nos contrapontos e até no cruzamento dos temas - e durante a primeira metade do concerto ajustados, a revelar conhecimento da obra de Monk. Mas o mesmo não se poderá dizer das desiguais interpretações e da opção acústica, que resultou (apesar das excelentes qualidades acústicas da sala) no «apagamento» do piano e do contrabaixo no turbilhão dos sopros e da bateria.
Nem todos os músicos revelaram iguais qualificações: um baterista demasiado rígido, o trompete de Axel Doener a confirmar a sua origem clássica e incapacidade de solar (Jazz; habituado a outros ambientes mais abstractos), um pianista equívoco, um contrabaixista regular (quando se ouviu) e um excelente clarinetista em dia de excessos.
Curiosamente (enquanto pianista) o ícone do free Schlippenbach exibe uma formação bop (Bud Powell, não Monk), mas acusa ausência de personalidade, entre a exposição «à Monk» e um desenvolvimento ora bop (Powell) ora tayloriano. Ora o estilo de piano de Monk era único e estava intimamente associado à própria composição. Nem todos os pianistas compreendem isso.
Rudy Mahall é o músico de Jazz de Monk's Casino e o líder visível. Ao fim de algum tempo a fórmula estava gasta e Mahall vai progressivamente assumindo as rédeas do concerto. Ele é o grande solista da noite, estimulando o grupo e o público, mesmo se também ele contribuiu para o espectáculo de circo em que por vezes o Casino se tornou.
Nota alta para as composições/ arranjos de Schlippenbach, apesar de algumas soluções circense mais forçadas e para a prestação de Rudy Mahall, o verdadeiro líder da banda.

Jim Hall, um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos, realizou o concerto que se esperava. Ele que sempre foi um músico discreto e acertivo, mantém todo o acerto da técnica irrepreensível, mas já não está propriamente na flor da idade. Aguardava-se um concerto celebratório e foi isso que aconteceu: durante hora e meia desfilaram alguns clássicos do cancioneiro americano com um delicioso Skylark ou All The Things You Are, standards como St. Thomas de Sonny Rollins ou originais como Ouagadougou. Jim Hall sempre foi um músico sofisticado e elegante e a sua música possui já arestas e rugas e ternura que se confundem em harmonias sob o peso da idade. O público rendeu-se à sua arte e exigiu o regresso para um encore, Americana (de Scott Colley), «dedicated to Peace». Jim Hall aproveitou para fazer um pouco de política pedindo desculpa pela política ambiental do Sr. Bush e pela guerra.
Scott Colley e Geof Keezer estiveram bem. Discreto em demasia para o meu gosto Colley; ele que é um dos grandes contrabaixistas da actualidade, provavelmente de forma deliberada deixando o mestre brilhar; mais intrusivo Keezer, autorizado talvez pelo disco recente que gravou em diálogo com o velho guitarrista.
O melhor concerto do festival.

Como é tradição no Angra Jazz, a organização do festival esteve sempre irrepreensível e atenta aos mínimos pormenores. Ambiente algo informal (diria familiar) que a sala permite e a direcção do Angra Jazz alimenta, três editoras na feira do disco, uma exposição de fotografias, excelentes! de António Araújo dedicadas ao Angra Jazz e vários eventos paralelos completaram a edição de 2007. Para o ano promete-se mais e melhor.

15 de Outubro de 2007

(JazzLogical esteve em Angra do Heroísmo a convite do Angra Jazz)



O Angra Jazz em antecipação

Esta semana decorre um dois mais interessantes festivais de Jazz nacionais, o Angra Jazz. A programação é, como vem sendo hábito, criteriosa e ecléctica, combinando géneros, fórmulas e formas, o velho e o novo: o Jazz, todo.
Históricos são Jim Hall, Bennie Golson e Alexander von Schlippenbach, que trazem consigo «jovens turcos» como Scott Colley, Eddie Henderson ou Rudi Mahall (enfim, Eddie Henderson já não é bem um jovem...). E mais jovem é a estrela em ascensão Roberta Gambarini sobre quem a crítica internacional tem os olhos postos. A representação nacional está a cargo do mais que competente Laurent Filipe e o mais acarinhado projecto do festival, a «improvável» Orquestra AngraJazz. De Sábado para Quinta:

Sábado 6
Quando se fala de Jim Hall, fala-se de um dos mais influentes guitarristas da história do Jazz; o Sr. Discreto, cujo som atravessou longitudinalmente todo o Jazz desde os anos 50. Sem jamais se apresentar como um virtuoso, o mais melodioso dos guitarristas foi o companheiro de aventuras de toda a gente entre Jimmy Giuffre, Bill Evans, Sonny Rollins, Art Farmer, Chico Hamilton, Paul Desmond, Gerry Mulligan, Ron Carter, Michel Petrucciani, e a lista é praticamente interminável. Digamos que metade da história do Jazz da segunda metade do século XX teve a participação de Jim Hall. Mário Delgado refere-o como «o Picasso da guitarra» e Nuno Ferreira assume explicitamente a sua influência: «É o meu guitarrista favorito, um mentor musical». Ele é o guitarrista perfeito, tecnicamente insuperável, inventor de uma sonoridade única.
A preferência de Jim Hall foram desde sempre as pequenas formações, os diálogos a dois ou a três e são inúmeros os exemplos deste tipo de colaborações na sua discografia. Apesar dos seus quase 80 anos de idade, Jim Hall continua a ser uma das grandes referências do Jazz e a fazer grandes discos: Duologues, de 2005, com Enrico Pieranunzi, Free Association, com Geoffrey Keezer, também de 2005, Magic Meeting, de 2004, com Scott Colley e Lewis Nash, Jim Hall & Basses, duos com Scott Colley, Charlie Haden, Dave Holland, Christian McBride e George Mraz, de 2001 ou ainda Jim Hall & Pat Metheny, de 1998, foram justamente aclamados toda a crítica e pelo público. No início de 2008 será editada a colaboração de Jim Hall com Bill Frisell, outro dos insuspeitados discípulos do velho guitarrista.
Em Angra do Heroísmo, no próximo sábado, Jim Hall apresentar-se-á com dois músicos que conhece bem: Geoffrey Keezer, um pianista que temperou as suas formas com Art Blakey, e o voluntarioso e virtuoso Scott Colley, que muitos comparam, sem favor, a Dave Holland.
Mas a noite continua com o Monk's Casino de Alexander von Schlippenbach. Schlippenbach tornou-se célebre nos anos 70 pela direcção da mais exemplar orquestra de free-jazz europeu. A Globe Unity, assim se chamava, tocou em 1979 na Gulbenkian, integrada nos célebre ciclos de música contemporânea (ainda antes do início dos Jazz em Agosto), num concerto absolutamente memorável. A sua reactivação recente é uma confirmação da frase daquele filósofo que dizia que a história acontecia sempre duas vezes; a primeira como drama e a segunda como comédia.
O Monk’s Casino de Schlippenbach está bastante longe dessas experiências idas e explora a música do grande Thelonious Monk. A apresentação que o pianista fez em Lisboa do projecto apresentou-se apenas sofrível, apesar dos arranjos interessantes; mas a inqualificável acústica do Teatro Variedades do Parque Mayer liquida qualquer concerto. Notável foi a prestação de Rudi Mahall, um dos grandes músicos de Jazz europeus, um louco furioso do clarinete-baixo.
A música de Thelonious Monk permanece uma das mais estimulantes e são inúmeros os músicos a perseguir o mais intrigante dos pianistas de Jazz de sempre. Espera-se que a excelente sala do Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo ofereça a Alexander von Schlippenbach a oportunidade para a explorar. E atenção a Rudi Mahall.

Sexta 5
No dia anterior tocará outro veterano: o grande Benny Golson. Apesar de profusamente gravado, a maior parte dos amantes do Jazz conhecem-no não como músico, mas como autor de de algumas dos mais imortais dos standards do Jazz: I Remember Clifford ou Whisper Not. Mas a história do saxofonista atravessa também ela a história do Jazz do pós-guerra, tornando-se um dos expoentes do bop e do hard bop. Com Dizzy Gillespie, Tadd Dameron, Clifford Brown, Art Blakey ou Roland Kirk atravessou os anos 50 e 70. Com o passar dos anos o saxofone tenor de Golson foi-se tornando mais rude e denso, perdendo alguma maleabilidade que o distinguia, mas oferecendo-lhe profundidade e emoção. Sem nunca ter deixado de tocar e gravar, Golson mantém-se eficaz nas baladas e no funky que o celebrizou. No sexteto que reuniu conta com outros nomes seguros como Eddie Henderson no trompete e Carl Allen na bateria. De notar que o grupo tem dois trompetistas. Promete-se uma noite de Jazz inequívoco, com swing a rodos.
Antes disso toca na Sexta a coqueluche do festival: a Orquestra AngraJazz. Contou Claus Nymark num dos textos de apresentação do CD da orquestra (ver texto abaixo »A Orquestra Improvável») que Sheila Jordan se espantou com a existência de uma orquestra de Jazz num tão recôndito e improvável lugar como a ilha Terceira, e com o seu nível. A improbabilidade da sua existência espanta ainda mais todos quantos à ilha se deslocam, pela alegria e intensidade que ela comunica. A orquestra é dirigida por Nymark e Pedro Moreira que se deslocam regularmente à ilha, que este ano contará ainda com a presença do aclamado Afonso Pais.

Quinta 4
O festival abre na Quinta-Feira 3 com o quinteto de Laurent Filipe. É provável que Laurent vá tocar a música de Chet Baker onde se vem especializando. Em 2006, Laurent gravou um (excelente) disco com o nome Ode To Chet. Chet Baker é um dos mais populares músicos de Jazz de sempre e Laurent explora a sua dupla personalidade de trompetista-cantor. Todo o grupo toca com grande eficácia e Laurent é convincente no seu papel.
Mais à noite teremos outra voz, esta ainda quase nada conhecida do público nacional, Roberta Gambarini.
Nascida em Turim, em Italia, ouviu Jazz toda a sua juventude. Depois de rodar por alguns clubes de Jazz de Italia, Roberta decidiu estudar nos Estados Unidos. Desde então, a sua esplêndida voz de alto tem convencido inúmeros músicos como Hank Jones, o desaparecido Michael Brecker, James Moody, Ron Carter, Herbie Hancock, Slide Hampton ou Roy Hargrove. Apesar disso a oportunidade de gravar só surgiu no ano passado quando ela já era uma espécie de cantora de culto, um segredo dos jazz-fans.
O disco de apresentação revela uma voz madura com matizes de Ella Fitzgerald, perfeita como Sarah Vaughan. Gambarini tem uma colocação de voz irrepreensível, tem swing e conhecimento da tradição. Easy To Love que presumivelmente irá tocar em Angra percorre catorze standards do Jazz entre os quais um tocante I Loves You Porgy ou um rápido On The Sunny Side Of The Street, a atestar a sua versatilidade e eloquência. Com ela vai estar uma banda de luxo com o inventivo e subtil Kirk Lightsey à cabeça, aliás, ao piano; Reggie Johnson, um contrabaixista capaz de acompanhar com a mesmo destreza Sonny Rollins, Sun Ra ou Gambarini e Alvin Queen, um baterista igualmente eficaz, à-vontade na marcação dos tempos ao lado de uma cantora ou numa orquestra.

25 Set 2007

Qui 4-Out Angra do Heroísmo Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo 21.30 Angra Jazz

Laurent Filipe Quinteto - LF (t, voz), Bruno Santos (g), Filipe Melo (p), João Custódio (ctb), Paulo Bandeira (bat)

Angra do Heroísmo 23.30 Angra Jazz Roberta Gambarini Quarteto - RG (voz), Kirk Lightsey (p), Reggie Johnson (ctb), Alvin Queen (bat)
Sex 5-Out Angra do Heroísmo 21.30 Angra Jazz Orquestra Angra Jazz c/ Afonso Pais - Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir), Afonso Pais (g), Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Mónica Goulart (sb), Paulo Almeida (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Tony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Antero Ávila (tub), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat)
Angra do Heroísmo 23.30 Angra Jazz Benny Golson Sexteto - BG (s), Eddie Henderson (t), Philip Harper (t), Mike LeDonne (p), Reggie Johnson (ctb), Carl Allen (bat)
Sáb 6-Out Angra do Heroísmo 21.30 Angra Jazz Jim Hall Trio - JH (g), Geoffrey Keezer (p), Scott Colley (ctb)
Angra do Heroísmo 23.30 Angra Jazz

Monk's Casino - Alexander von Schlippenbach (p), Jan Roder (ctb), Uli Jenessen (bat), Axel Doerner (t), Rudi Mahall (cl-b)

www.angrajazz.com/


Nome: Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo - ANGRA JAZZ

Localidade: Angra do Heroísmo

Sala dos Espectáculos: Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo

Morada: Rua da Madre de Deus, 9700-130 Angra do Heroísmo

Telefone: 295 218 490 - Fax. 295 218 490

Período do ano: 1ª Semana de Outubro

Programador/ Director Artístico Actual: Associação Cultural Angra Jazz

Anteriores Programadores: Associação Cultural Angra Jazz

Organização/ Proprietário- Associação Cultural Angra Jazz

Apoios: Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Direcção Regional da Cultura, Direcção Regional do Turismo, Privados

Festivais: Músicos que já tocaram (por edições, se possível) Programa extenso disponível no site próprio.

A programação é apenas Jazz? SIM

Outra informação que considerem pertinente.
E-mail: info@angrajazz.com Website: www.angrajazz.com


A Orquestra Improvável
Conta Claus Nymark num dos textos de apresentação do CD da Orquestra AngraJazz que Sheila Jordan se espantou com a existência de uma orquestra de Jazz num tão recôndito e improvável lugar como a ilha Terceira, e com o seu nível. Nascida das mesmas mentes visionárias que deram vida ao festival, a Orquestra AngraJazz é hoje mais do que um sonho que importa alimentar.
No disco que me chegou às mãos, gravado há um ano atrás por ocasião do festival, o repertório da orquestra foi quase integralmente composto por clássicos pré-bebop, entre os quais vários temas escritos ou popularizados por Duke Ellington: The Mooche, Embraceable You, Black And Tan Fantasy, How Long Has This Been Going On, Take The “A” Train, ou Don’t Get Around Much Anymore. A tarefa não é fácil, ao contrário do que podem crer alguns juízos mais apressados – Duke Ellington não foi um escritor fácil, bem pelo contrário – e orquestra que não saiba tocar Take The “A” Train (João Moreira é o trompetista convidado) não será digna desse nome. É com prazer que ouvimos os velhos temas ganharem novas roupagens, que contemplam também o ícone do bop Night In Tunísia ou a fusão mais moderna de Birdland (Joe Zawinul).
A improvável orquestra tem swing! As debilidades da orquestra resultam, como será evidente, da insularidade. Elas notam-se talvez mais na secção rítmica (e curiosamente mais nos tempos lentos), mas mesmo nas prestações solistas mais ingénuas se denota uma energia e um entusiasmo que apenas podem ser auspiciosos. E diga-se que este entusiasmo tocou por decerto a voz da diva Paula Oliveira que tem aqui alguns momentos absolutamente soberbos. A sua voz é ora vigorosa ora terna, subtil, sempre expressiva, a comprovar porque ela é uma das melhores vozes nacionais – talvez a melhor! – a cantar Jazz. (obs: Há algum tempo expressei algumas interrogações sobre o repertório “nacional” da cantora. Perdoem-me mas eu prefiro cem vezes a Paula Oliveira a cantar standards! É aqui que ela se revela, que ela é realmente a maior!)
O convidado este ano é o Zé Eduardo. Zé Eduardo é um veterano, pedagogo, contrabaixista e um jazzman completo, puro e duro. Creio que poderá oferecer à Orquestra AngraJazz uma mais valia muito interessante. Porque se as fraquezas da orquestra resultam apenas do seu isolamento, o único medicamento certo é tocar tocar tocar e o encontro com músicos como Zé Eduardo só a podem fazer crescer.
A Orquestra AngraJazz dá o tiro de partida ao Festival AngraJazz 2006, por certo da melhor forma.
LS