Angra Jazz

2009

A diversidade no Jazz (e em Angra do Heroísmo)

Bastante de acordo com a linha de força do discurso do jornalista e crítico do Jazz Magazine Thierry Quenun que observava que a característica principal do Jazz contemporâneo é a diversidade, eu creio (apesar de nem sempre de acordo com as suas observações) que a palavra que melhor define a edição 2009 do Angra Jazz seja exactamente «diversidade». É verdade que o Angra Jazz tem procurado desde sempre a diversidade, mas este terá sido o melhor exemplo dessa realidade: seis concertos, seis propostas estéticas tão diferentes que observadas por outra perspectiva, melhor se diriam adversas. Em primeiro lugar uma orquestra portuguesa (e insular) que pratica o Jazz mais tradicional e conservador e pró-americano do que foi possível observar. Em segundo uma cantora americana – Jane Monheit – numa fuga acelerada para fora do Jazz, num movimento há muito sugerido por muitas cantoras (e cantores) que oferecem a técnica e maneirismos jazzy ao canto pop ligeiro. Num outro patamar, um grande pianista – Mário Laginha –, que cruza o lirismo e a vertigem de Bach, a música popular (um pouco de Brasil também) e o fascínio por Keith Jarrett. Chano Dominguez, outro grande pianista, andaluz, que introduz num discurso tipicamente jazzístico elementos estranhos do folclore flamenco. Henri Texier, contrabaixista gaulês que – na tradição do Jazz comprometido de Charles Mingus – leva a política ao Jazz, sob uma forma de composições pouco ortodoxas (de Jazz falando) que transportam consigo a virulência do free jazz, mas também os olores das mais insuspeitas paisagens de um mundo globalizado. E finalmente Charles Lloyd, um dos últimos moicanos do saxofone, um verdadeiro guerreiro que vai beber a sua inspiração à derradeira fase mística de Coltrane; um músico ímpar na entrega, intenso e emocionante.
De diversidade falando, estaremos conversados; mas o Angra Jazz 2009 mereceu a observação pela criteriosa selecção, mesmo se nem tudo corre sempre pelo melhor.
O momento menos interessante foi protagonizado, como antecipei, pela voz de Jane Monheit. Não que ela cante mal; bem pelo contrário. Mas o repertório trânsfuga, o aligeiramento das formas e alguns tiques raiando o piroso realmente incomodaram com frequência estes olhos e ouvidos. Acredito que numa audiência mais intimista a cantora opte por uma temática mais jazzy, mas resta saber se não esqueceu.
É sempre um prazer regressar à menina dos olhos do festival, a Orquestra Angra Jazz. O solista convidado deste ano, Hugo Alves, integrou-se à perfeição no tutti instrumental, e alguns dos arranjos preparados, muito em especial logo o primeiro, o clássico Freddie Freeloader, foi executado de forma particularmente conseguida.
Já toda a gente referiu os problemas da insularidade da orquestra; mas deverá ser questionado se não será altura de repensar o modelo que vem sendo sustentado, já que apesar do seu razoável nível, ela não parece evoluir substancialmente (e tudo o que não evolui tem tendência a estagnar, dizem). Apesar da evolução, falta à orquestra uma secção rítmica condutora, faltam solistas e falta alguma dinâmica que apenas o confronto quotidiano com outros músicos e outros conceitos estéticos podem resolver. O reportório excessivamente bop não ajuda.
Escrevi no ano passado e gostaria de me repetir: «Com o diagnóstico completo, a solução seria óbvia: é necessário pôr os músicos a tocar com outros músicos e a trabalhar com outros professores (se possível até estrangeiros), em regime de tempo inteiro.
E já que Maomé não vai à montanha… Não será fácil porque a orquestra é constituída em grande medida por músicos não profissionais e porque as deslocações e outras despesas associadas não são irrelevantes, mas uma primeira solução será começar a trabalhar no sentido de organizar workshops de duas ou pelo menos uma semana, duas ou três num ano, organizado pela escola do Hot ou outra, onde os músicos, todos de uma vez ou rodando, possam tocar nas condições que referi: trocar experiências e trabalhar intensivamente com outros professores e músicos. É uma aposta cara e eu estou a falar sem saber números e se realmente será possível. Mas é necessário.».
Melhor correu como era esperado o concerto de Mário Laginha. Laginha tem desde há muito a minha admiração e o trio que dirige é uma máquina imparável, mas a formação que Laginha levou a Angra estava acrescida da guitarra de Sérgio Pelágio. Não haverá nenhum reparo à guitarra; apenas que ela me pareceu com frequência redundante: os arranjos estão feitos para o trio de piano-baixo-bateria e a guitarra pareceu com frequência sobrar. Laginha cresceu muito desde há dez anos e a sua música não parece admitir um outro instrumento harmónico, a não ser que ele se reinvente. A forma muito Jim Hall de Pelágio não me parece a adequada.
Chano Dominguez esteve excelente. A singularidade de Chano (mais uma vez parecendo confirmar a teoria de Quenun que afirma a riqueza e a diversidade do Jazz europeu a partir da procura das origens folclóricas remotas dos músicos) advém da integração feliz do flamenco no Jazz. A bateria sem bombo nem tímbalos substituídos pelo cajón explicitava a fonte, mas o discurso fluente e sincopado do pianista andaluz é verdadeiramente jazzístico. Chano realmente não inventou nada; é conhecida a atracção de Miles, por exemplo, pelo flamenco. Chano Dominguez apenas vem explorando com felicidade e engenho a fórmula.
Quase não se notou a ausência do trombonista no Strada Sextet transformado em quinteto de Henri Texier. Sob a batuta do veterano contrabaixo, o grupo confirmou-se como um dos mais poderosos e estáveis grupos da Europa. As raízes do Jazz de Texier reportam ao free jazz e ao hardbop dos anos 60 e 70, mas também à tradição clássica europeia, aos folclores do mundo e à pop anglo-saxónica. O reportório do concerto incluiu alguns temas antigos de (V)ivre, alguns do novo CD Alerte à l'eau e alguns originais. Talvez menos provocador e politizado que em digressão anterior a que assisti, ainda assim a música do Strada é volumosa e intensa, e assim foi também em Angra.
Sem surpresas Charles Lloyd fez o melhor concerto do festival; ele que já tinha feito também o melhor disco de 2008, com esta formação, com a única substituição do baterista de Eric Harland por Nasheet Waits.
O som de Charles Lloyd é verdadeiramente caloroso e expressivo. Não sendo propriamente um original, ele soube matizar um saxofonismo que era o mainstream dos anos 70 com motivos folclóricos que sugerem um desejo de oriente e que se revela com mais clareza na utilização da flauta e do tarogato. Nos últimos anos, como foi evidente em Angra, a música de Charles Lloyd revela enfim a sua verdadeira influência, e que não é outra que o saxofone derradeiro espiritual e místico de John Coltrane. Por detrás do som enorme está uma figura frágil e sensível, que parece revelar-se cada vez mais. Essa sensibilidade fá-lo chorar em palco pela partida do amigo Billy Higgins, mas revela-se também na forma como reage aos aplausos do público e que o fez tocar duas horas seguidas em Angra. A música de Charles Lloyd toca-nos como poucos são capazes. Ao lado dele estiveram três grandes músicos: um Jason Moran que é tudo menos um mero sideman e que revela toda a sua grandeza de igual forma na subtileza das intrusões ou nos solos; um jovem Reuben Rogers que parece crescer todos os dias, absolutamente irrepreensível; e Nasheet Waits que é só um dos grandes bateristas da actualidade.
Um última palavra para a conferência de Thierry Quenun: já referi estar de acordo com o crítico quanto à característica principal do Jazz contemporâneo: a diversidade, que alguns outros melhor denominam talvez de fragmentação estética, e que advém da própria natureza do Jazz que o faz absorver características, sinaléticas e linguagens de outras correntes musicais; tornando mesmo qualquer definição de Jazz transitória. Mas Quenun que bem observa que o Jazz se soube apropriar das referências estéticas de outras culturas, sugwer que o centro da «vanguarda» do Jazz se terá mudado para a Europa, a partir da maior diversidade cultural europeia. Pondo de lado a hipótese da arrogância gaulesa que se gosta de colocar no centro do Universo, e reconhecendo que essa arrogância existe de igual forma do outro lado do Atlântico onde os velhos boppers se intitulam os donos do Jazz; eu creio que o discurso de Quenun revela uma parcial observação dos factos, já que ignora por exemplo as correntes revivalistas que recuperam para o Jazz valores considerados acabados, mas que persistem em oferecer ao Jazz a emoção e a criatividade que a anopsia intelectual gosta de ignorar. Que se revela na colaboração entre músicos mainstream e vanguardistas, mas por vezes também entre músicos clássicos e pop que a crítica pura e simplesmente desconhece; e também os movimentos centrífugos e centrípetos que o Jazz gera desde os primórdios. Prova da vitalidade do Jazz é igualmente o bop evoluído de Miguel Zénon, os desvios country de Bill Frisell, a interpretação de Monk pelo Kronos Quartet, o Jazz pop dos nórdicos EST e o Jazz pop dos The Bad Plus, os inúmeros projectos de Dave Douglas, o poderoso saxofone de Donny McCaslin e o Jazz clássico de Uri Caine, a erudição de John Taylor e Maria Schneider, John Hollenbeck, Joe Lovano, Bill Carrothers, e claro o Jazz sublime e emotivo de Charles Lloyd, a par do flamenco de Chano Dominguez, o bop da Orquestra Angra Jazz, o lirismo de Mário Laginha, o poderoso Jazz europeu de Henri Texier e enfim também o Jazz que já esteve na voz de Jane Monheit. O Jazz é uma música em movimento e a diversidade que é sua característica é também a sua força. O centro? O Jazz não tem centro.
Uma organização irrepreensível, uma feira do disco, uma conferência, a gravação do concerto pela televisão e a reportagem em directo pela RDP, e ainda a presença da imprensa, contribuíram para fazer do 11.º Angra Jazz um dos melhores de sempre; mas confirmou-se uma outra vez como um dos grandes festivais nacionais.

21 Outubro 2009

Sex 2-Out
Angra do Heroísmo
Centro Cultural e de Congressos
21.30
Angra Jazz
Orquestra Angra Jazz + Hugo Alves
Pedro Moreira (dir), Klaus Nymark (dir), Hugo Alves (t), Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Francisco Leal (sb), José Pires (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Anthony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Nuno Mendonça (trb), Antero Ávila (tu), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat),
Jane Monheit Qrt
Jane Monheit (voz), Michael Kanan (p), Neal Miner (ctb), Rixck Montalbano (bat)
Sáb 3-Out
Mário Laginha Qrt
Mário Laginha (p), Sérgio Pelágio (g), Bernardo Moreira (ctb), Alexandre Frazão (bat)
Henri Texier Strada Quintet
Henri Texier (ctb), Sébastien Texier (sa, cla, cl), Manu Codjia (g), François Corneloup (ss, sb), Christophe Marguet (bat)
Dom 4-Out
Chano Dominguez Trio
Chano Dominguez (p), Mario Rossi (ctb), Israel Suarez (bat)
Charles Lloyd Qrt (c/ Jason Moran)
Charles Lloyd (s, tarogato), Jason Moran (p), Reuben Rogers (ctb), Nasheet Waits (bat)

 

A décima primeira edição do Angra Jazz principia com a prata da casa, quer dizer, a Orquestra Angra Jazz, que este ano tem como convidado Hugo Alves, um homem habituado a escrever, e a dirigir, (para) grandes formações, ele que é o mentor da activa Orquestra de Jazz de Lagos.
E a terminar a noite de 2 de Outubro teremos a elegante e sensual voz de Jane Monheit.
O segundo dia começa bem, logo a partir do Quarteto de Mário Laginha que conta com a guitarra de Sérgio Pelágio, além dos insubtituíveis contrabaixo e bateria de Bernardo Moreira e Alexandre Frazão; recuperando um quarteto que não se reunia há dez anos. Por muitos o melhor pianista português, Laginha deverá apresentar em Angra «material novo».
Mas a noite promete ainda emoções fortes com a apresentação do Henri Texier Strada Sextet. Henri Texier é um dos mais sólidos músicos de Jazz europeus, contrabaixista, compositor e líder desde há mais de quarenta anos. As raízes do Jazz de Texier remontam ao hard bop, pois claro, mas cruzam com o free jazz que acompanhou de perto e ainda uma miríade de influências que vão da tradição clássica europeia ao rock e às músicas folclóricas, mas também à política. Nos últimos anos tem sido notada a crescente presença de motivos exóticos, «orientais», na música de Henri Texier.
O Strada Sextet que já roda há perto de uma década fez-se notar como um «pianoless combo»: dois saxofones, trombone, guitarra, contrabaixo e bateria. O Strada, que vi tocar em 2006 em Portalegre, pratica uma música voluptuosa e irresistivelmente modernista. O Strada é composto de seis irredutíveis gauleses, ou melhor cinco gauleses e um búlgaro (o trombonista Gueorgui Kornazov). O concerto que o Henri Texier Strada Sextet fez em Portalegre foi considerado pela crítica nacional reunida em JazzLogical o melhor concerto (ex aequo com Keith Jarrett no CCB) de Jazz de 2006.
O elevado nível do festival prossegue até ao fim com o concerto do trio de Chano Dominguez. Chano Dominguez é um virtuoso e um singular pianista andaluz com um discurso que cruza a vertigem bop com o peculiar stride de Thelonious Monk e o flamenco. Aqui tão perto, não se percebe porque é que Chano Dominguez não é mais ouvido em Portugal. Angra do Heroísmo parece querer corrigir esse erro.
Pouco haverá a dizer de Charles Lloyd que não tenha já sido dito; ele que é um dos últimos guerreiros do Jazz, que viu passar ante si várias gerações de músicos, que viveu intensamente os últimos 50 anos do Jazz, e que tudo isso transmite, por vezes de forma sofrida, no seu «saxofonismo». Este quarteto que irá tocar no Angra Jazz é composto dos melhores músicos do mundo: Charles Lloyd, Jason Moran, Reuben Rogers e Nasheet Waits; e é o mesmo que fez Rabo de Nube, o disco que a crítica nacional e JazzLogical considerou o melhor CD de 2008.
Inequivocamente o 11.º Angra Jazz promete ser um dos melhores de sempre.
12 de Setembro de 2009


2008

Coube ao quinteto de Tom Harrell a honra de abrir as portas do X Angra Jazz. Harrell é um trompetista educado na exigente escola do bop, que tocou nos anos 70 com Phil Woods, Horace Silver, Woody Herman ou George Russell. Ao longo dos últimos 40 anos ele desenvolveu uma forma de bop culto, rigoroso e sofisticado. O sólido grupo que o acompanhou esteve à altura do líder, com destaque para a jovem estrela Wayne Escoffery no saxofone tenor e Ugonna Okegwo no contrabaixo, com quem o trompetista realizou um dos momentos mais bonitos da noite; uma interpretação sublime de Body And Soul.

O segundo concerto da noite esteve por conta da Orquestra Angra Jazz, projecto acarinhado desde a primeira hora pela Associação Angra Jazz. O convidado deste ano foi o baterista Mário Barreiros, mas na celebração dos dez anos do festival, a organização decidiu estender o convite aos convidados dos anos anteriores, Mário Laginha, Paula Oliveira, Zé Eduardo e Afonso Pais, além dos directores Pedro Moreira e Claus Nymark. Alguns temas novos e solos de alguns dos membros da orquestra foram a novidade deste ano. A noite acabou de forma agradável, com todos os convidados em palco.
São conhecidas as dificuldades da orquestra que paga caro a insularidade, e desse ponto de vista não é possível exigir-se mais à orquestra. Isolada a 1500 Km dos músicos de Jazz mais próximos, com contactos apenas mensais com os directores, o colectivo faz realmente milagres. Mas ela tem realmente tudo contra ela, e creio que nestas condições é natural que a partir de agora a evolução seja lenta. Com o diagnóstico completo, a solução seria óbvia: é necessário pôr os músicos a tocar com outros músicos e a trabalhar com outros professores (se possível até estrangeiros), em regime de tempo inteiro.
E já que Maomé não vai à montanha… Não será fácil porque a orquestra é constituída em grande medida por músicos não profissionais e porque as deslocações e outras despesas associadas não são irrelevantes, mas uma primeira solução será começar a trabalhar no sentido de organizar workshops de duas ou pelo menos uma semana, duas ou três num ano, organizado pela escola do Hot ou outra, onde os músicos, todos de uma vez ou rodando, possam tocar nas condições que referi: trocar experiências e trabalhar intensivamente com outros professores e músicos. É uma aposta cara e eu estou a falar sem saber números e se realmente será possível. Mas é necessário.

O Sexteto de Mário Barreiros abriu a noite de sexta-feira com um Jazz possante e escorreito. De entre os solistas destacou-se talvez Mário Santos, mas todos os membros da banda demonstraram um bom nível. Este é um colectivo experiente, como combo ou ao nível individual, fazendo dele um dos melhores grupos de jazz nacional.

Com o ambiente preparado, abria-se o palco para o melhor do festival na pessoa do grupo de Bennie Wallace numa homenagem a Coleman Hawkins consagrada no CD Disorder At The Border.
Bennie Wallace é um verdadeiro monstro do saxofone, realmente digno da herança de Hawkins. Poderoso, sensual, vibrante, ele foi mais que convincente à frente de um noneto de notáveis onde se destacou o irreverente Ray Anderson e a luminosidade do sax alto do veterano Jerry Dodgion. Nota menos positiva para a amplificação dos sopros que já havíamos notado no dia anterior e que seria algo corrigida no sábado.
O alinhamento percorreu todos os temas do disco, acrescido de uma deliciosa versão do clássico de Duke Ellington, Caravan. Momentos altos foram ainda a interpretação de Honeysuckle Rose e ainda de La Rosita, antecedida da história de como Bennie Wallace e Ray Anderson conheceram o tema em Portugal, interpretado por Hawkins e Ben Webster, no aniversário do programa de rádio AbandaJazz, em 1981.

Sábado principiou com o trio de Bobo Stenson, conhecido por muitos como «o pianista de Charles Lloyd». Mas o pianista sueco é bem mais que um simples sideman (mesmo se ser sideman é uma arte). E ele é realmente um líder e compositor. O seu mais famoso trio diferiu da composição que se apresentou em Angra no baterista, que já foi Jon Christensen ou Paul Motian, e que agora é o jovem Jon Falt, enquanto que no contrabaixo permanece o amigo de longa data Anders Jormin.
Stenson possui um estilo verdadeiramente luminoso (não sei porquê veio-me à cabeça António Pinho Vargas), mesmo se por definição o trio de piano tende a ser intimista. Ele possui algo da densidade de Keith Jarrett, que já foi há muitos anos a sua influência principal (mas Jarrett foi a influência principal de quase todos os pianistas), e será óbvio que a sua formação é clássica e não bop. Ainda assim, ele é um sólido pianista de Jazz, como o demonstrou (se necessário fosse) em Angra. Enquanto Jormin esteve igual a si próprio, irrepreensível, permito-me questionar algumas opções «pop» da bateria, mais dadas ao espectáculo, muito na linha do que faz Magnus Öström, o baterista do malogrado Esbjorn Svensson. Mas a verdade é que anda toda a gente a fazer o mesmo…
Enfim, apesar da minha observação, este foi também um dos grandes momentos do festival.

A música de William Parker, que tocou no fim da noite de sábado, possui qualquer coisa da festa dos Art Ensemble of Chicago, como também de Sun Ra nos apelos à energia cósmica da cantora Leena Conquest; mas creio que acima de todos eles esteve sempre a personalidade avassaladora de Charles Mingus, no som denso do contrabaixo em jeito de bússola, e no dramatismo das peças. Não foi free jazz o que Parker tocou; ele parece retomar a forma do que foi a New Thing dos anos 60, bem ancorado na tradição e sem grandes devaneios vanguardistas. Para o espectáculo, Parker conta com a cantora bailarina Leena Conquest, cuja voz grave e bem modulada me parece inspirar-se mais na soul music que na tradição Jazz, embora isso não seja necessariamente defeito… Como bailarina no entanto, ele esgotou-se ao fim do primeiro tema, tendo-se repetido algo excessivamente. Curiosamente, o repertório é constituído por verdadeiras canções, à medida da voz de Conquest.
Bom concerto com nota alta para as prestações de Rob Brown e Hamid Drake.

O festival encerrou com o concerto do vencedor de um Grammy em 2007, Herbie Hancock. Herbie Hancock é uma verdadeira estrela pop, um músico bastante popular entre ouvintes de vários géneros. Ele esteve este ano em Portugal em vários concertos a apresentar o disco de homenagem a Joni Mitchel (Rivers) (com que ganhou o Grammy), bastante próximo do cool Jazz; obviamente muito bem feito e agradável, ou não fosse ele Herbie Hancock.
A formação que esteve no Angra Jazz foi no entanto diferente, bastante mais jazzy, com Terence Blanchard no trompete e James Genus no contrabaixo, para além do incontornável Lionel Loueke na guitarra, a harmónica de Gregoire Maret e Kendrick Scott na bateria. A parafernália no palco não enganava, anunciando um concerto eléctrico, e foi isso mesmo que aconteceu: entre os temas popularizados pelos Headhunters, alguns clássicos «travestidos» e alguns outros mais modernos à medida do guitarrista do Benin, o espectáculo rolou sem quaisquer engulhos. Herbie Hancock é um bom comunicador e demonstrou como a velha raposa ainda reina. Depois de um tema inicial dos Headhunters, o pianista atacou Speak Like a Child com um arranjo milesiano do tipo Pharaoh’s Dance, para passar a um tema mais Weather Report onde não faltou a voz sintetizada, depois um solo excessivo (mas esse é o privilégio dos virtuosos) de Lionel Loueke, em Seventeens, seguido de um solo de piano acústico por ele próprio e de novo o regresso aos Headhunters. Apreciei em especial os solos de Terence Blanchard, de Maret e de Genus, mas esta é uma banda superlativa e o público obrigou o sexteto a regressar ao palco para um encore.

A jornalista da RDP Açores Elsa Soares perguntou-me qual tinha sido na minha opinião a evolução do Angra Jazz ao longo destes dez anos. Nenhuma, respondi-lhe; o Angra Jazz é desde a primeira edição um dos melhores festivais nacionais, com uma programação equilibrada e ecléctica, entre a tradição e o Jazz moderno, aliando a qualidade e o espectáculo. A décima edição do Angra Jazz foi nesse sentido exemplar.

8 de Outubro de 2008

Fotos por Jorge Monjardino

 

Qui 2-Out
Angra do Heroísmo
Centro Cultural e de Congressos
21.30
Angra Jazz 2008
Tom Harrell Quinteto
TH (t, flis), Wayne Escoffery (st), Danny Grissett (p), Ugonna Okegwo (ctb), Johnathan Blake (bat)
Orquestra Angrajazz com Mário Barreiros
Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Tomás Leal (sb), Paulo Almeida (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Tony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Antero Ávila (tu), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat), Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir) + Paula Oliveira (voz), Mário Laginha (p), Zé Eduardo (ctb), Afonso Pais (g), Mário Barreiros (bat)
Sex 3-Out
21.30
Sexteto de Mário Barreiros
MB (bat), Pedro Guedes (p), Pedro Barreiros (ctb), Mário Santos (st, cl-b), José Luis Rego (sa, ss), José Pedro Coelho (st)
Benny Wallace’s “Disorder At The Border”
BW (st), Jesse Davis (sa), Jerry Dodgion (sa), Adam Schroeder (sb), Ray Anderson (trb), Joe Magnarelli (t), Donald Veja (p), Bill Huntington (ctb), Quincy Davis (bat)
Sáb 4 Out
21.30
Bobo Stenson Trio
BS (p), Anders Jormin (ctb), Jon Fält (bat)
William Parker’s “Raining On The Moon”
WP (ctb), Leena Conquest (voz, dança), Lewis Barnes (t), Rob Brown (sa), Eri Yamamoto (p), Hamid Drake (bat)
Dom 5-Out
21.30
Herbie Hancock Sexteto
Herbie Hancock (p), Terence Blanchard (t), James Genus (ctb), Lionel Loueke (g), Gregoire Maret (harm), Kendrick Scott (bat)

 

Dez anos é muito tempo...

A décima edição do Angra Jazz começa já na quinta 2 com o quarteto de Tom Harrell, um sofisticado bopper trompetista cujas formas combinam uma espécie de bop evoluído com um imaginoso e sofisticado melodismo. Tom Harrell é uma figura impar no Jazz: a esquizofrenia que lhe é atribuída revela-se no individualismo e na criatividade das suas intervenções. À frente de uma banda de primeira água Tom Harrell promete inaugurar da melhor forma o festival.
Essa mesma primeira noite completa-se com a coqueluche do festival: a Orquestra Angra Jazz que este ano tem como convidado especial Mário Barreiros. Mas não só porque a acompanhar a «improvável orquestra» também lá estarão no palco Mário Laginha, Pedro Moreira, Claus Nymark, Paula Oliveira, Zé Eduardo e Afonso Pais, que nos últimos anos foram os convidados de honra da orquestra.
A noite de sexta inicia-se com toda a energia do Jazz inequívoco do sexteto de Mário Barreiros e completa-se com um verdadeiro monstro do saxofone que é Bennie Wallace.
Bennie Wallace leva a Angra a música do disco de homenagem a um dos grandes saxofonistas da história do Jazz que foi Coleman Hawkins, e que marca o seu regresso aos lugares cimeiros da cena internacional. «Disorder At The Border», que será apresentado em Angra em noneto, numa formação próxima do original, e que conta com músicos tão extraordinários quanto Ray Anderson, seu amigo de longa data, ou ainda Jesse Davis ou Joe Magnarelli. Um grande concerto em perspectiva.
A noite de sábado abre com o Jazz sofisticado do trio de Bobo Stenson. Bastaria talvez dizer que ele foi durante largos anos o pianista de Jan Garbarek e Charles Lloyd para ilustrar a sua estatura, mas Stenson é também um autor e um líder digno desse estatuto, e desde há muito uma das grandes referências da etiqueta ECM.
O sábado termina com o Jazz de alto risco do sexteto de William Parker. “Raining On The Moon” é o sugestivo nome do projecto que irá apresentar, e que conta na formação com radicais como Rob Brown e Hamid Drake e ainda a cantora/bailarina Leena Conquest. Free Jazz erudito, Jazz progressivo, algures para lá dos Art Ensemble of Chicago e Sun Ra, música para os ouvidos e os olhos.
Dez anos é muito tempo e o Angra Jazz não deixa os seus créditos em mãos alheias: o novo Herbie Hancock Sexteto, com Terence Blanchard no trompete é grupo que encerra o festival deste ano. Depois do desvio pop de «River», este pode ser o regresso ao grande Jazz da velha raposa. Assim o esperamos. No domingo.

 

1 de Outubro de 2008

 


2007

Reviver o passado em Angra

De forma algo diferente das edições anteriores, o Angra Jazz 2007 teve como linha de força o elogio do passado. Como fiz notar na apresentação do festival, três nomes sonantes de três épocas estavam representados na primeira pessoa: o grande Jim Hall - mais do que um estilo, um instrumento! -, o hard-bop de Benny Golson e o free-jazz europeu de Alexander von Schlippenbach. Mas a verdade é que os três outros concertos agendados se enquadravam também eles dentro da tradição; seja pela grandiloquente voz de Roberta Gambarini na interpretação dos standards, seja pela evocação de Chet Baker pela voz e trompete de Laurent Filipe, seja enfim pelo explícito referencial temático e estético da Orquestra AngraJazz.

Começando pela Orquestra Angra Jazz, sabe bem dizer que é notória a evolução da secção rítmica, a avaliar pela única coisa que dela tinha ouvido, o disco em que participa Paula Oliveira, de que tive oportunidade de falar. A orquestra é uma máquina bem oleada e realizou um concerto muito agradável. A sua maior debilidade reside agora na quase ausência de solistas e improvisadores, e é para aqui que os directores Pedro Moreira e Claus Nymark deverão dirigir a atenção. Outro aspecto a considerar talvez, será o do alargamento do repertório, demasiado tradicional.
A Orquestra Angra Jazz é um projecto que é preciso acarinhar. Sabidas as dificuldades que existem em manter em actividade grandes formações em Portugal, é até surpreendente como ela subsiste. A persistência (carolice!) dos seus membros, da Associação Angra Jazz e da Câmara, merece todos os louvores. É preciso saber-se que a orquestra apenas toca uma vez por mês, quando os directores se podem deslocar a Angra. É obra! Tocar, tocar, tocar, agora é a receita. É necessário criar as oportunidades.

O outro momento nacional, o projecto de homenagem a Chet Baker, era à partida um número ganhador: Laurent Filipe recria com inteligência os ambientes melancólicos de Chet Baker e a banda é constituída por músicos competentes. Nada é deixado ao acaso, entre o som do trompete e o timbre e colocação da voz, à própria postura em palco. Laurent senta-se na boca do palco à frente do público como se fosse contar uma história e não tocar trompete, mas foi exactamente assim que tocou em 1981 no Cascais Jazz, num concerto absolutamente inolvidável.
Laurent Filipe fez um bom espectáculo e o público não lhe regateou aplausos.

A revelação do festival foi Roberta Gambarini que pisava os palcos nacionais pela primeira vez. O repertório foi exclusivamente clássico, I Hadn't Anyone Till You, No More Blues, On The Sunny Side Of The Street, C.C. Rider, o imortal Good Morning Heartache ou Easy To Love, mostrando-se igualmente à vontade nos blues, nas baladas ou nos tempos rápidos. Ela possui uma colocação de voz e uma alegria que lembra a grande Ella, mas também uma grande intuição e toda a técnica jazzística das grandes cantoras (sem no entanto jamais sair do campo «restrito» do Jazz mainstream). Infelizmente uma perturbação nas cordas vocais impedia-a de dar algumas notas, maculando o concerto. Ainda assim, um grande profissionalismo permitiu-lhe minorar o acidente e Gambarini realizou um verdadeiro gran finale coroado com um eloquente Estate.
A banda de suporte de Gambarini esteve irrepreensível. Kirk Lightsey é daqueles pianistas sólidos capazes de acompanhar qualquer músico e tocou com alegria e elegância. Reggie Johnson que no dia seguinte acompanharia também Benny Golson foi outro músico inspirado, como Douglas Sides, de um swing a toda a prova.

Na banda de Benny Golson, tudo rolou sobre esferas. Apesar dos seus 78 anos de idade, o velho saxofonista ainda realmente é capaz de soprar mas, como previ na antecipação do concerto, a vedeta é Eddie Henderson. O outro trompete, Philip Harper, acrescentou densidade ao todo e a secção rítmica – todos eles – solam com fluidez.
O «caso» da noite, quase estragou o concerto, quando o saxofonista logo no início da sua actuação, obrigou a equipa da Euronews a desligar a câmara, sem perceber que ela estava apenas a gravar os 10 minutos contratuais. É bastante comum esta paranóia norte-americana que radica no abuso que muitos produtores exerceram sobre os músicos até aos anos 60, que os espoliavam de direitos, quantas vezes de forma dramática. Mas o episódio marcou negativamente o concerto.
Solos de Bennie Golson em I Remember Clifford, e principalmente A Protrait of Jennie de Eddie Henderson destacaram-se pela positiva numa banda experimentada e eficiente.

Mais desequilibrado foi o Monk's Casino de Alexander von Schlippenbach, se bem que com uma actuação bem mais convincente que o desastrado episódio de Lisboa que referi noutro dia.
As composições-arranjos de AvS revelaram-se interessantes - na engenhosa construção - desconstrução das figuras, nos contrapontos e até no cruzamento dos temas - e durante a primeira metade do concerto ajustados, a revelar conhecimento da obra de Monk. Mas o mesmo não se poderá dizer das desiguais interpretações e da opção acústica, que resultou (apesar das excelentes qualidades acústicas da sala) no «apagamento» do piano e do contrabaixo no turbilhão dos sopros e da bateria.
Nem todos os músicos revelaram iguais qualificações: um baterista demasiado rígido, o trompete de Axel Doener a confirmar a sua origem clássica e incapacidade de solar (Jazz; habituado a outros ambientes mais abstractos), um pianista equívoco, um contrabaixista regular (quando se ouviu) e um excelente clarinetista em dia de excessos.
Curiosamente (enquanto pianista) o ícone do free Schlippenbach exibe uma formação bop (Bud Powell, não Monk), mas acusa ausência de personalidade, entre a exposição «à Monk» e um desenvolvimento ora bop (Powell) ora tayloriano. Ora o estilo de piano de Monk era único e estava intimamente associado à própria composição. Nem todos os pianistas compreendem isso.
Rudy Mahall é o músico de Jazz de Monk's Casino e o líder visível. Ao fim de algum tempo a fórmula estava gasta e Mahall vai progressivamente assumindo as rédeas do concerto. Ele é o grande solista da noite, estimulando o grupo e o público, mesmo se também ele contribuiu para o espectáculo de circo em que por vezes o Casino se tornou.
Nota alta para as composições/ arranjos de Schlippenbach, apesar de algumas soluções circense mais forçadas e para a prestação de Rudy Mahall, o verdadeiro líder da banda.

Jim Hall, um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos, realizou o concerto que se esperava. Ele que sempre foi um músico discreto e acertivo, mantém todo o acerto da técnica irrepreensível, mas já não está propriamente na flor da idade. Aguardava-se um concerto celebratório e foi isso que aconteceu: durante hora e meia desfilaram alguns clássicos do cancioneiro americano com um delicioso Skylark ou All The Things You Are, standards como St. Thomas de Sonny Rollins ou originais como Ouagadougou. Jim Hall sempre foi um músico sofisticado e elegante e a sua música possui já arestas e rugas e ternura que se confundem em harmonias sob o peso da idade. O público rendeu-se à sua arte e exigiu o regresso para um encore, Americana (de Scott Colley), «dedicated to Peace». Jim Hall aproveitou para fazer um pouco de política pedindo desculpa pela política ambiental do Sr. Bush e pela guerra.
Scott Colley e Geof Keezer estiveram bem. Discreto em demasia para o meu gosto Colley; ele que é um dos grandes contrabaixistas da actualidade, provavelmente de forma deliberada deixando o mestre brilhar; mais intrusivo Keezer, autorizado talvez pelo disco recente que gravou em diálogo com o velho guitarrista.
O melhor concerto do festival.

Como é tradição no Angra Jazz, a organização do festival esteve sempre irrepreensível e atenta aos mínimos pormenores. Ambiente algo informal (diria familiar) que a sala permite e a direcção do Angra Jazz alimenta, três editoras na feira do disco, uma exposição de fotografias, excelentes! de António Araújo dedicadas ao Angra Jazz e vários eventos paralelos completaram a edição de 2007. Para o ano promete-se mais e melhor.

15 de Outubro de 2007



O Angra Jazz em antecipação

Esta semana decorre um dois mais interessantes festivais de Jazz nacionais, o Angra Jazz. A programação é, como vem sendo hábito, criteriosa e ecléctica, combinando géneros, fórmulas e formas, o velho e o novo: o Jazz, todo.
Históricos são Jim Hall, Bennie Golson e Alexander von Schlippenbach, que trazem consigo «jovens turcos» como Scott Colley, Eddie Henderson ou Rudi Mahall (enfim, Eddie Henderson já não é bem um jovem...). E mais jovem é a estrela em ascensão Roberta Gambarini sobre quem a crítica internacional tem os olhos postos. A representação nacional está a cargo do mais que competente Laurent Filipe e o mais acarinhado projecto do festival, a «improvável» Orquestra AngraJazz. De Sábado para Quinta:

Sábado 6
Quando se fala de Jim Hall, fala-se de um dos mais influentes guitarristas da história do Jazz; o Sr. Discreto, cujo som atravessou longitudinalmente todo o Jazz desde os anos 50. Sem jamais se apresentar como um virtuoso, o mais melodioso dos guitarristas foi o companheiro de aventuras de toda a gente entre Jimmy Giuffre, Bill Evans, Sonny Rollins, Art Farmer, Chico Hamilton, Paul Desmond, Gerry Mulligan, Ron Carter, Michel Petrucciani, e a lista é praticamente interminável. Digamos que metade da história do Jazz da segunda metade do século XX teve a participação de Jim Hall. Mário Delgado refere-o como «o Picasso da guitarra» e Nuno Ferreira assume explicitamente a sua influência: «É o meu guitarrista favorito, um mentor musical». Ele é o guitarrista perfeito, tecnicamente insuperável, inventor de uma sonoridade única.
A preferência de Jim Hall foram desde sempre as pequenas formações, os diálogos a dois ou a três e são inúmeros os exemplos deste tipo de colaborações na sua discografia. Apesar dos seus quase 80 anos de idade, Jim Hall continua a ser uma das grandes referências do Jazz e a fazer grandes discos: Duologues, de 2005, com Enrico Pieranunzi, Free Association, com Geoffrey Keezer, também de 2005, Magic Meeting, de 2004, com Scott Colley e Lewis Nash, Jim Hall & Basses, duos com Scott Colley, Charlie Haden, Dave Holland, Christian McBride e George Mraz, de 2001 ou ainda Jim Hall & Pat Metheny, de 1998, foram justamente aclamados toda a crítica e pelo público. No início de 2008 será editada a colaboração de Jim Hall com Bill Frisell, outro dos insuspeitados discípulos do velho guitarrista.
Em Angra do Heroísmo, no próximo sábado, Jim Hall apresentar-se-á com dois músicos que conhece bem: Geoffrey Keezer, um pianista que temperou as suas formas com Art Blakey, e o voluntarioso e virtuoso Scott Colley, que muitos comparam, sem favor, a Dave Holland.
Mas a noite continua com o Monk's Casino de Alexander von Schlippenbach. Schlippenbach tornou-se célebre nos anos 70 pela direcção da mais exemplar orquestra de free-jazz europeu. A Globe Unity, assim se chamava, tocou em 1979 na Gulbenkian, integrada nos célebre ciclos de música contemporânea (ainda antes do início dos Jazz em Agosto), num concerto absolutamente memorável. A sua reactivação recente é uma confirmação da frase daquele filósofo que dizia que a história acontecia sempre duas vezes; a primeira como drama e a segunda como comédia.
O Monk’s Casino de Schlippenbach está bastante longe dessas experiências idas e explora a música do grande Thelonious Monk. A apresentação que o pianista fez em Lisboa do projecto apresentou-se apenas sofrível, apesar dos arranjos interessantes; mas a inqualificável acústica do Teatro Variedades do Parque Mayer liquida qualquer concerto. Notável foi a prestação de Rudi Mahall, um dos grandes músicos de Jazz europeus, um louco furioso do clarinete-baixo.
A música de Thelonious Monk permanece uma das mais estimulantes e são inúmeros os músicos a perseguir o mais intrigante dos pianistas de Jazz de sempre. Espera-se que a excelente sala do Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo ofereça a Alexander von Schlippenbach a oportunidade para a explorar. E atenção a Rudi Mahall.

Sexta 5
No dia anterior tocará outro veterano: o grande Benny Golson. Apesar de profusamente gravado, a maior parte dos amantes do Jazz conhecem-no não como músico, mas como autor de de algumas dos mais imortais dos standards do Jazz: I Remember Clifford ou Whisper Not. Mas a história do saxofonista atravessa também ela a história do Jazz do pós-guerra, tornando-se um dos expoentes do bop e do hard bop. Com Dizzy Gillespie, Tadd Dameron, Clifford Brown, Art Blakey ou Roland Kirk atravessou os anos 50 e 70. Com o passar dos anos o saxofone tenor de Golson foi-se tornando mais rude e denso, perdendo alguma maleabilidade que o distinguia, mas oferecendo-lhe profundidade e emoção. Sem nunca ter deixado de tocar e gravar, Golson mantém-se eficaz nas baladas e no funky que o celebrizou. No sexteto que reuniu conta com outros nomes seguros como Eddie Henderson no trompete e Carl Allen na bateria. De notar que o grupo tem dois trompetistas. Promete-se uma noite de Jazz inequívoco, com swing a rodos.
Antes disso toca na Sexta a coqueluche do festival: a Orquestra AngraJazz. Contou Claus Nymark num dos textos de apresentação do CD da orquestra (ver texto abaixo »A Orquestra Improvável») que Sheila Jordan se espantou com a existência de uma orquestra de Jazz num tão recôndito e improvável lugar como a ilha Terceira, e com o seu nível. A improbabilidade da sua existência espanta ainda mais todos quantos à ilha se deslocam, pela alegria e intensidade que ela comunica. A orquestra é dirigida por Nymark e Pedro Moreira que se deslocam regularmente à ilha, que este ano contará ainda com a presença do aclamado Afonso Pais.

Quinta 4
O festival abre na Quinta-Feira 3 com o quinteto de Laurent Filipe. É provável que Laurent vá tocar a música de Chet Baker onde se vem especializando. Em 2006, Laurent gravou um (excelente) disco com o nome Ode To Chet. Chet Baker é um dos mais populares músicos de Jazz de sempre e Laurent explora a sua dupla personalidade de trompetista-cantor. Todo o grupo toca com grande eficácia e Laurent é convincente no seu papel.
Mais à noite teremos outra voz, esta ainda quase nada conhecida do público nacional, Roberta Gambarini.
Nascida em Turim, em Italia, ouviu Jazz toda a sua juventude. Depois de rodar por alguns clubes de Jazz de Italia, Roberta decidiu estudar nos Estados Unidos. Desde então, a sua esplêndida voz de alto tem convencido inúmeros músicos como Hank Jones, o desaparecido Michael Brecker, James Moody, Ron Carter, Herbie Hancock, Slide Hampton ou Roy Hargrove. Apesar disso a oportunidade de gravar só surgiu no ano passado quando ela já era uma espécie de cantora de culto, um segredo dos jazz-fans.
O disco de apresentação revela uma voz madura com matizes de Ella Fitzgerald, perfeita como Sarah Vaughan. Gambarini tem uma colocação de voz irrepreensível, tem swing e conhecimento da tradição. Easy To Love que presumivelmente irá tocar em Angra percorre catorze standards do Jazz entre os quais um tocante I Loves You Porgy ou um rápido On The Sunny Side Of The Street, a atestar a sua versatilidade e eloquência. Com ela vai estar uma banda de luxo com o inventivo e subtil Kirk Lightsey à cabeça, aliás, ao piano; Reggie Johnson, um contrabaixista capaz de acompanhar com a mesmo destreza Sonny Rollins, Sun Ra ou Gambarini e Alvin Queen, um baterista igualmente eficaz, à-vontade na marcação dos tempos ao lado de uma cantora ou numa orquestra.

25 Set 2007

Qui 4-Out Angra do Heroísmo Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo 21.30 Angra Jazz

Laurent Filipe Quinteto - LF (t, voz), Bruno Santos (g), Filipe Melo (p), João Custódio (ctb), Paulo Bandeira (bat)

Angra do Heroísmo 23.30 Angra Jazz Roberta Gambarini Quarteto - RG (voz), Kirk Lightsey (p), Reggie Johnson (ctb), Alvin Queen (bat)
Sex 5-Out Angra do Heroísmo 21.30 Angra Jazz Orquestra Angra Jazz c/ Afonso Pais - Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir), Afonso Pais (g), Luis Sousa (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Davide Corvelo (st), Mónica Goulart (sb), Paulo Almeida (cl), Márcio Cota (t), Paulo Borges (t), Tony Barcelos (t), Bráulio Brito (t), Manuel Almeida (trb), Paulo Aguiar (trb), Evandro Machado (trb), Adriano Ormonde (trb), Antero Ávila (tub), Paulo Cunha (g), Eduardo Ornelas (ctb), Nuno Pinheiro (bat)
Angra do Heroísmo 23.30 Angra Jazz Benny Golson Sexteto - BG (s), Eddie Henderson (t), Philip Harper (t), Mike LeDonne (p), Reggie Johnson (ctb), Carl Allen (bat)
Sáb 6-Out Angra do Heroísmo 21.30 Angra Jazz Jim Hall Trio - JH (g), Geoffrey Keezer (p), Scott Colley (ctb)
Angra do Heroísmo 23.30 Angra Jazz

Monk's Casino - Alexander von Schlippenbach (p), Jan Roder (ctb), Uli Jenessen (bat), Axel Doerner (t), Rudi Mahall (cl-b)

www.angrajazz.com/


Nome: Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo - ANGRA JAZZ

Localidade: Angra do Heroísmo

Sala dos Espectáculos: Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo

Morada: Rua da Madre de Deus, 9700-130 Angra do Heroísmo

Telefone: 295 218 490 - Fax. 295 218 490

Período do ano: 1ª Semana de Outubro

Programador/ Director Artístico Actual: Associação Cultural Angra Jazz

Anteriores Programadores: Associação Cultural Angra Jazz

Organização/ Proprietário- Associação Cultural Angra Jazz

Apoios: Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Direcção Regional da Cultura, Direcção Regional do Turismo, Privados

Festivais: Músicos que já tocaram (por edições, se possível) Programa extenso disponível no site próprio.

A programação é apenas Jazz? SIM

Outra informação que considerem pertinente.
E-mail: info@angrajazz.com Website: www.angrajazz.com


A Orquestra Improvável
Conta Claus Nymark num dos textos de apresentação do CD da Orquestra AngraJazz que Sheila Jordan se espantou com a existência de uma orquestra de Jazz num tão recôndito e improvável lugar como a ilha Terceira, e com o seu nível. Nascida das mesmas mentes visionárias que deram vida ao festival, a Orquestra AngraJazz é hoje mais do que um sonho que importa alimentar.
No disco que me chegou às mãos, gravado há um ano atrás por ocasião do festival, o repertório da orquestra foi quase integralmente composto por clássicos pré-bebop, entre os quais vários temas escritos ou popularizados por Duke Ellington: The Mooche, Embraceable You, Black And Tan Fantasy, How Long Has This Been Going On, Take The “A” Train, ou Don’t Get Around Much Anymore. A tarefa não é fácil, ao contrário do que podem crer alguns juízos mais apressados – Duke Ellington não foi um escritor fácil, bem pelo contrário – e orquestra que não saiba tocar Take The “A” Train (João Moreira é o trompetista convidado) não será digna desse nome. É com prazer que ouvimos os velhos temas ganharem novas roupagens, que contemplam também o ícone do bop Night In Tunísia ou a fusão mais moderna de Birdland (Joe Zawinul).
A improvável orquestra tem swing! As debilidades da orquestra resultam, como será evidente, da insularidade. Elas notam-se talvez mais na secção rítmica (e curiosamente mais nos tempos lentos), mas mesmo nas prestações solistas mais ingénuas se denota uma energia e um entusiasmo que apenas podem ser auspiciosos. E diga-se que este entusiasmo tocou por decerto a voz da diva Paula Oliveira que tem aqui alguns momentos absolutamente soberbos. A sua voz é ora vigorosa ora terna, subtil, sempre expressiva, a comprovar porque ela é uma das melhores vozes nacionais – talvez a melhor! – a cantar Jazz. (obs: Há algum tempo expressei algumas interrogações sobre o repertório “nacional” da cantora. Perdoem-me mas eu prefiro cem vezes a Paula Oliveira a cantar standards! É aqui que ela se revela, que ela é realmente a maior!)
O convidado este ano é o Zé Eduardo. Zé Eduardo é um veterano, pedagogo, contrabaixista e um jazzman completo, puro e duro. Creio que poderá oferecer à Orquestra AngraJazz uma mais valia muito interessante. Porque se as fraquezas da orquestra resultam apenas do seu isolamento, o único medicamento certo é tocar tocar tocar e o encontro com músicos como Zé Eduardo só a podem fazer crescer.
A Orquestra AngraJazz dá o tiro de partida ao Festival AngraJazz 2006, por certo da melhor forma.
LS