
Braga Jazz 2010
Jerry Bergonzi Trio: ![]()
Reputado saxofonista e professor,
referido por inúmeros jovens músicos como seu mentor, não
deixava de ser estranho que Jerry Bergonzi nunca tivesse pisado os palcos
nacionais. O convite para o Braga Jazz tornava-se assim motivo acrescido
de curiosidade por parte do público e da crítica.
Bergonzi apresentou-se em Braga à frente de um trio sem instrumento harmónico,
o que tem sempre o mérito – e o demérito – de expor
particularmente o saxofonista. O resultado foi claro na confirmação
do que lhe conhecíamos em termos de dotes pessoais, mas o trio nem sempre
esteve ao seu nível, impedindo o saxofone de outros voos que lhe seriam
possíveis. O fulgor que lhe conhecemos dos discos não esteve presente
em Braga. Um reportório quase exclusivamente clássico, com clara
preferência pelos tempos lentos, propiciou uma sessão agradável,
mas aquém das nossas expectativas.
Os melhores concertos do Braga Jazz de 2010 (Quarteto de Ohad Talmor/André Fernandes e The Claudia Quintet + 1) aconteceram, não no palco do Theatro Circo, mas no recato de Bar Brac, a que apenas algumas dezenas de espectadores tiveram oportunidade de assistir.
Quarteto de Ohad
Talmor/André Fernandes: ![]()
Claramente um grupo de ocasião, constituído por Ohad Talmor no saxofone, Dan Weiss na bateria, o argentino radicado em Portugal Demian Cabaud no contrabaixo e André Fernandes na guitarra, o grupo executou, sob a direcção de Talmor, uma música que teve tanto de inteligente quanto de saboroso. Talmor e Weiss são americanos, dois verdadeiros monstros no domínio dos seus instrumentos, também compositores eruditos e líderes dos seus próprios projectos, com largo currículo; enquanto Fernandes e Cabaud, apesar de expoentes maiores do Jazz nacional, não têm a rodagem dos dois americanos. As diferenças entre as duas metades do quarteto eram notórias e foi claro a todo o momento que esta era uma música que se ia construindo, e nesse sentido não deixa de ser extraordinário a excelência da música produzida. Ademais o repertório tocado não se limitou a standards, mas foi constituído por originais de Talmor. Cabaud foi sempre a âncora necessária (condutora) e André Fernandes esteve particularmente inspirado.
The Claudia Quintet
+ 1:![]()
A música do The Claudia Quintet é a meu ver das mais intrigantes
do panorama Jazz contemporâneo, sem correspondente. Como num laboratório,
os membros do grupo manipulam os instrumentos na construção de
peças que pouco têm a ver com a temática ou sequer a forma
tradicional do Jazz, mas que escapam do mesmo modo a outras classificações
eruditas ou folclóricas. Há algo de um folclore imaginário,
fragmentos, como lampejos, sob complexas estruturas onde se articulam as componentes
escritas e a improvisação. As originais combinações
tímbricas saxofone/ clarinete – acordeão – vibrafone,
já evidenciadas anteriormente, ganham aqui relevância com a introdução
do piano de Matt Mitchell. Música inovadora, excitante, sem fronteiras
a de John Hollenbeck; a modernidade está aqui.
| Qui 4-Mar | Braga |
Theatro
Circo
|
22.00
|
Maria
João “Ogre”
|
Maria João (voz), Júlio Resende (p, tec), João Farinha (p, tec), Joel Silva (bat), Joel Nascimento (elec) | |
| Sex 5-Mar | Theatro
Circo
|
22.00
|
Jerry
Bergonzi trio
|
Jerry Bergonzi (s), Dave Santoro (ctb), Andrea Michelutti (bat) | ||
Restaurante/
Bar Brac
|
23.45
|
Quarteto de
Ohad Talmor/André Fernandes
|
||||
| Sáb 6-Mar | Theatro
Circo
|
22.00
|
The Claudia
Quintet
|
John Hollenbeck (bat), Chris Speed (s, cl), Ted Reichman (aco), Drew Gress (ctb), Tim Collins (vib), Matt Mitchell (p) | ||
Restaurante/
Bar Brac
|
23.45
|
Quarteto de
Mário Santos
|
||||
Sex
12-Mar
|
Theatro
Circo
|
22.00
|
Heloísa
Fernandes trio
|
Heloísa Fernandes (p), Zeca Assumpção (ctb), Ari Colares (per) | ||
Restaurante/
Bar Brac
|
23.45
|
Quarteto de
Sara Serpa
|
||||
Sáb
13-Mar
|
Theatro
Circo
|
22.00
|
Jamie
Baum septet
|
Jamie Baum (f), Ralph Alessi (t), Douglas Yates (sa, clb), Chris Komer (tro), Aaron Goldberg (p), Jeff Hirshfield (bat), Johannes Weidenmueller (ctb) |
||
Restaurante/
Bar Brac
|
23.45
|
Quarteto de
Xacobe Martinez Antelo
|
|
O Braga Jazz
2010 principia com a voz única de Maria
João no seu mais recente projecto, Ogre,
onde as teclas e a electrónica estão em evidência.
A 4 de Março.
No dia seguinte o Theatro
Circo recebe o Jazz sanguíneo do saxofonista italiano Jerry
Bergonzi liderando a mais despida e difícil das formações:
o trio com bateria e baixo.
O The
Claudia Quintet que tocará no dia 6 pratica um Jazz
de alto risco, anguloso, moderno e pouco convencional. O líder John
Hollenbeck é um dos mais interessantes compositores
da nova geração e um líder notável. O saxofonista
do Claudia Quintet é Chris Speed. A minha aposta vai para esta noite.
A segunda semana começa com Heloísa
Fernandes, uma pianista brasileira pouco conhecida na Europa.
O seu estilo é inconfundivelmente Jazz, mas ela incorporou elementos
da riquíssima música popular brasileira. Com ela estarão
Zeca Assumpção, um contrabaixista que tocou com Egberto Gismonti,
e Ari Colares na percussão.
O outro dos (que eu prevejo) grandes
concertos do Braga Jazz, ocorrerá a
13 de Março pela mão do Jamie Baum
Septet, numa combinação atípica de flauta,
trompa, saxofone e trompete, suportados por uma sólida secção
rítmica de baixo-bateria e contrabaixo. Os nomes, além da flautista,
são Ralph Alessi, Douglas Yates, Chris Komer, Aaron Goldberg, Jeff Hirshfield
e Johannes Weidenmueller.
Depois dos concertos no Theatro
Circo, a noite prossegue no Restaurante/
Bar Brac, com o Quarteto de Ohad
Talmor/André Fernandes no dia 5, o Quarteto
de Mário Santos a 6, o Quarteto
de Sara Serpa a 12 e o Quarteto
de Xacobe Martinez Antelo a fechar no dia 13.
25 Março 2010
Braga Jazz 2009
Dual Identity: ![]()
O Dual Identity explora uma fórmula muito curiosa baseada
numa frente de sois saxofones em competição suportada por uma
consistente secção rítmica reduzida, de contrabaixo
e bateria; de certa forma uma revisão da fórmula do trio de
saxofone. O destaque ia obviamente para os sopros, mais cerebral Steve Lehman,
devastador Rudresh Mahanthappa. Foi a primeira vez que vi tocar o indiano-nova-iorquino,
que confirmou tudo o que dele tinha sentido em disco: energia que se inspira
directamente na New Thing coltraneana e que parece não ter limites;
mas que provocava aqui e ali algum desequilíbrio no grupo devido ao
discurso mais contido de Lehman. Ou dito de outra forma, cada frase de Lehman
provoca de Mahanthappa uma reacção exaltada, por vezes desproporcionada.
O quinteto, que vive bastante das capacidades dos improvisadores enquanto
improvisadores que das composições, ressente-se por vezes.
Nada que algum trabalho de orquestração não possa resolver.
![]() |
Gialuigi Trovesi
|
Gianluigi Trovesi Sextet: ![]()
Diferente do que tinha antecipado, Gianluigi
Trovesi não
tocou Profumo di Violetta. O concerto andou à volta do riquíssimo
universo musical italiano, mas esteve longe da euforia criativa de Prafumo… A
banda constituída por músicos de sólida formação
realizou um concerto agradável, com o clarinetista em destaque.
22 Março 2009
O festival começa com o novo
grupo de André Fernandes que
vai apresentar em Braga o novo CD, Imaginário. O jovem guitarrista é de
há muito um dos
grandes nomes da cena Jazz nacional que no ano passado foi distinguido como
o músico do ano pela crítica nacional (ver em Jazzologia). Guitarrista, compositor,
líder, editor, André Fernandes multiplica-se entre a criação e a execução
num universo entre a tradição e a modernidade, entre a erudição e a música
popular.
Dual Identity pratica uma música de alto risco entre o mais genuíno free jazz,
o experimentalismo e a pop-rock urbana (hum, haverá pop-
rock rural?). Steve
Lehman e em especial o nova-iorquino de ascendência indiana Rudresh Mahnathappa
têm estado sob o escrutínio da comunidade jazzística que se vem rendendo ao
seu estilo incendiário.
O projecto que Gianluigi Trovesi vai
tocar em Braga bebe inspiração na música
clássica popular italiana. Nada de novo propriamente nesta geração de criadores
e músicos fantásticos que fazem o melhor do Jazz europeu desde há décadas,
que procurou na sua música nacional a inspiração que outros procuraram nos
standards americanos. Como é que o Jazz combina com a música clássica é o
que Trovesi
vai pois explicar
em Braga.
O baterista Gerald Cleaver é o líder da banda que abrirá a segunda semana do
Braga Jazz 2009. O percurso musical de Cleaver é impressionante de sólido e
variado (como o é aliás a sua formação musical, entre a tradição
e a vanguarda), distribuindo-se entre o pacato recolhimento
que se pede a um acompanhante de vocalista à criatividade que se espera de
um líder. A formação que dirige, os «Detroit Violet Hour» combina a sabedoria
dos veteranos e a energia e irreverência da juventude.
O festival termina como começa com um grupo nacional, a jovem voz de Marta
Hugon, uma cantora que tem feito notar por mérito próprio. Marta Hugon deverá interpretar
basicamente standards do Jazz americano.
Sernamente mas de forma segura José Carlos
Santos, o programador do Braga Jazz, vem construindo um dos mais
interessantes festivais de Jazz nacionais. A programação
de 2009 é de novo exemplar, entre a modernidade e o clássico, dos dois
lados do Atlântico.
Qui
5-Mar
|
Braga
|
Theatro Circo
|
22.00
|
Quarteto
de André Fernandes
|
Mário Laginha (p), Nelson Cascais (ctb), Alexandre Frazão (b), André Fernandes (g) | |
Sex
6-Mar
|
22.00
|
Dual Identity
|
Steve Lehman (sa), Rudresh Mahnathappa (sa), Liberty Ellman (g), Matt Brewer (ctb), Damion Reid (bat) | |||
Sáb
7-Mar
|
22.00
|
Gianluigi Trovesi
Sextet
|
Roberto Cecchetto (g), Marco Micheli (b), Vittorio Marinoni (bat), Fulvio Maras (perc), Gianluigi Trovesi (cl) | |||
| Sex 13-Mar | 22.00
|
Gerald Cleaver
Detroit Violet Hour
|
J. D. Allen
(st), Andrew Bishop (st, cl), Chris Lightcap (ctb), Jeremy Pelt (t),
Ben Waltzer (p), Gerald
Cleaver (bat)
|
|||
Sáb
14-Mar
|
22.00
|
Marta Hugon
Quinteto
|
Filipe
Melo (p), Bernardo Moreira (ctb), André Sousa Machado (bat),
MH (voz)
|
Braga Jazz 2008
Apesar de não ter obtido
ainda o reconhecimento do público, o Braga Jazz já logrou obter um dos lugares
cimeiros no panorama dos festivais de Jazz
nacionais. A programação deste ano foi exemplar, sem momentos menores. Apenas
assisti aos concertos do festival na segunda semana, mas tive oportunidade
de assistir aos concertos de George Schuller no Hot Club, e do Drumbassbone
e da Orquestra de Jazz de Matosinhos com Chris Cheek na Culturgest.
Como referi na apresentação
do festival, John Taylor é um produto contemporâneo de Bill Evans,
impressionista e intenso. Elegante, finíssimo, a sua música é verdadeira
filigrana: 4,5/5.
O Indigo Trio revelou-se a grande surpresa
do Braga Jazz: formação atípica de bateria, contrabaixo
e flauta, transporta consigo a alma do grande Jazz. Nicole Mitchell é a
personificação do virtuosismo e da alegria de tocar na
flauta e um Hamid Drake imparável: 5/5.
Os restantes concertos a que assisti em Lisboa mereceram também de mim classificações
elevadas: George Schuller’s Circle Wide: 5/5, BassDrumBone: 4/5, Orquestra
de Jazz de Matosinhos + Chris Cheek: 4/5
John Taylor Trio
|
14 Mar
|
Braga Jazz
|
|
Indigo Trio
|
15 Mar
|
Braga Jazz
|
|
George Schuller’s
Circle Wide
|
5 Mar
|
Hot Club
|
|
BassDrumBone
|
8 Mar
|
Culturgest
|
|
Orquestra de Jazz
de Matosinhos + Chris Cheek
|
28 Mar
|
Culturgest
|
Qui 6-Mar
|
Braga
|
Theatro Circo
|
22.00 |
Carlos Azevedo (dir), Pedro Guedes (dir), Chris Cheek (s) | |
| Sex 7-Mar | 22.00 |
Ray Anderson (trb), Mark Helias (ctb), Gerry Hemingway (bat, perc) | |||
| Sáb 8-Mar | 22.00 |
Donny McCaslin (s), Brad Shepik (g), Tom Beckham (vib), Dave Ambrosio (b), George Schuller (bat) | |||
| Sex 14-Mar | 22.00 |
John Taylor (p), Palle Danielsson (ctb), Martin France (bat) | |||
| Sáb 15-Mar | 22.00 |
Nicole Mitchell (f), Harrison Bankhead (ctb), Hamid Drake (bat, perc) |
O Braga Jazz tem este ano um dos mais interessantes cartazes de sempre. Modernista, coerente e equilibrado, a escolha de José Carlos Santos confirma o lugar cimeiro que o Braga Jazz vem construindo no panorama nacional. Os nomes deste ano são a Orquestra de Jazz de Matosinhos (OJM) na representação nacional, com o convidado Chris Cheek, BassDrumBone, George Schuller “Circle Wide”, John Taylor Trio e Indigo Trio.
A Orquestra de Jazz de Matosinhos será porventura a mais regular das grandes formações nacionais. O elevado nível da orquestra (dirigida por Carlos Azevedo e Pedro Guedes - ambos também pianistas, compositores, orquestradores e pedagogos) permitiu-lhe iniciar uma série de colaborações com alguns dos nomes mais proeminentes da cena internacional, entre os quais Lee Konitz que deu origem a um disco editado pela Clean Feed. O convidado deste ano não terá o prestígio (nem a história) de Konitz, mas é um saxofonista dotado de uma sonoridade muito característica. Há qualquer coisa de rude e ao mesmo tempo pungente no som e no discurso de Cheek; algo de premente e dramático que o distingue. A sua escolha é absolutamente pertinente.
No dia seguinte toca o BassDrumBone, um trio de fecundo Jazz em actividade há mais de trinta anos! O rosto do trio é o extrovertido Ray Anderson, provavelmente o maior trombonista da actualidade, mas os músicos que o acompanham são de igual estatura. Anderson é uma personalidade multifacetada, capaz de dirigir uma orquestra «de vanguarda» ou tocar R&B. Na música que pratica encontramos uma das mais interessantes sínteses de todo o Jazz, entre o New Orleans e o free. Eloquente, erudito, excessivo, hilariante, o portentoso trombone de Ray Anderson não deixa ninguém indiferente. Mark Helias é como Anderson uma figura controversa; os projectos que lidera alternam entre a urgência caótica do free culto e o puro lirismo. E enfim Gerry Hemingway tem em comum com os seus companheiros um passado ao lado de Anthony Braxton e será dos três quem permanece mais próximo dessa estética, mesmo se a sua música sabe ser insinuante e lírica. O palco é o território privilegiado dos três improvisadores, onde confluem as delicadas estruturas abstractas de Hemingway, o rigor de Helias e o funky desbragado de Ray Anderson. Enfim, mais que um somatório de três nomes grandes do Jazz moderno, BassDrumBone é um verdadeiro colectivo onde todos contribuem, e onde a escrita nasce no papel e se prolonga no palco de forma articulada e consistente. Puro Jazz!
George Schuller é o mentor do projecto «Circle Wide» que encerra a primeira semana do Braga Jazz. Possuidor de uma sólida formação Jazz, Schuller divida-se entre a bateria e a composição, o que é evidente nos projectos conceptuais do tipo do que se irá assistir em Braga, e que se inspira em momentos particulares do Jazz como são o período eléctrico de Miles, o quarteto americano de Keith Jarrett ou a down town nova-iorquina dos anos 80. Formado no cair do século passado, Circle Wide é actualmente constituído por um grupo de jovens turcos onde se destacam o irreverente saxofonista Don McCaslin de reputação já bem firmada, e o guitarrista Brad Shepik que ganhou notoriedade ao lado de Dave Douglas e Jim Black no Tiny Bell Trio. Num grupo de músicos com a eloquência e o singularidade de um McCaslin, é verdadeiramente inspirador observar a forma como a música flui perfeita do conflito entre a pauta e a improvisação, entre as estruturas e as expressões individuais. Nada de mais, afinal. Apenas Jazz.
John Taylor é um dos mais brilhantes pianistas do Reino Unido. Profundamente tocado por Bill Evans ele é «a elegância» no piano. Não se confunda no entanto com qualquer coisa como melífluo ou entediante, porque ele é realmente um pianista inspirado. Esteticamente ele é classificado com frequência dentro do «som ECM», o que apenas levará em conta a sofisticação do seu pianismo. Taylor é um produto contemporâneo de Evans, impressionista e intenso. Em actividade desde o início dos anos 70, ele gravou quase cem discos, entre os quais uma boa parte de projectos próprios e entre os nomes com quem colaborou encontram-se Marc Johnson, Joey Baron, Kenny Wheeler, Arild Anderson, Peter Erskine, Jan Garbarek, Charlie Haden, Lee Konitz, Enrico Rava, John Surman, Steve Swallow, Miroslav Vitous ou Ralph Towner; o que dirá bastante da sua autoridade. O grupo que vai tocar em Braga já roda desde 2004 e é composto por duas almas gémeas: o sensitivo Martin France que sucede a Baron nas escovas e Palle Danielsson que substitui o companheiro de Bill Evans, Marc Johnson.
O Indigo Trio é o projecto mais «vanguardista» do Braga Jazz 2008. Formação atípica de bateria, contrabaixo e flauta, tem-se feito notar principalmente pela figura de Nicole Mitchell a quem a crítica internacional não tem poupado elogios. A secção rítmica partilha com Nicole das concepções musicais desenvolvidas pela famosa AACM: Harrison Bankhead e Hamid Drake. Do novo disco do Indigo Trio se diz que cruza material improvisado e escrito e influências da música das Caraíbas, pop e étnica africana, hard-bop, free jazz e … mais do que veremos no próximo sábado em Braga.
Creio que este é o mais coerente dos Braga Jazz dos últimos anos. Festival personalizado, vem combinando modernidade, memória e saber.
5 de Março de 2008
Leonel Santos
Braga
Jazz 2007 
| Qui | 15-Mar | Braga | Theatro
Circo |
Bragajazz | Workshops (15 a 24) dirigidas pelo trio do saxofonista John O´Gallagher. | |
| 21.30 | Bragajazz | Mário Laginha Solo/Trio - ML (p), Bernardo Moreira (ctb), Alexandre Frazão (bat) | ||||
| 24.00 | Bragajazz | John O´Gallagher Trio - John O’Gallagher (s), Masa Kamaguchi (ctb), Jeff Williams (bat) | ||||
| Sex | 16-Mar | Braga | Theatro
Circo |
21.30 | Bragajazz | Baldo Martinez Grupo - David Herrington (t), Eduardo Ortega (v), Antonio Bravo (g), Pedro Lopez (bat, perc), BM (ctb) |
| 24.00 | Bragajazz | John O´Gallagher Trio - John O’Gallagher (s), Masa Kamaguchi (ctb), Jeff Williams (bat) | ||||
| Sáb | 17-Mar | Braga | Theatro
Circo |
21.30 | Bragajazz | Ken Vandermark/Adam Lane quartet "4 corners" - Magnus Broo (t), Adam Lane (ctb), Paal Nilssen-Love (bat), Ken Vandermark (cl, clb, sb) |
| 24.00 | Bragajazz | John O´Gallagher Trio - John O’Gallagher (s), Masa Kamaguchi (ctb), Jeff Williams (bat) | ||||
| Qui | 22-Mar | Braga | Theatro Circo |
21.30 | Bragajazz | Lokomotiv - Bernardo Sassetti (p), Mario Delgado (g), José Salgueiro (bat), Carlos Barretto (ctb), João Moreira (t), Hugo Menezes (perc) |
| 24.00 | Bragajazz | John O´Gallagher Trio - John O’Gallagher (s), Masa Kamaguchi (ctb), Jeff Williams (bat) | ||||
| Sex | 23-Mar | Braga | Theatro Circo |
21.30 | Bragajazz | Jamie Saft Trio "plays J. Zorn and B. Dylan" - JS (p), Greg Cohen (ctb), Ben Perowsky (bat) |
| 24.00 | Bragajazz | John O´Gallagher Trio - John O’Gallagher (s), Masa Kamaguchi (ctb), Jeff Williams (bat) | ||||
| Sáb | 24-Mar | Braga | Theatro Circo |
21.30 | Bragajazz | Bunky Green Quartet - BG (sa), Eric Legnini (p), Franck Agulhon (bat), Mathias Allamane (ctb) |
| 24.00 | Bragajazz | John O´Gallagher Trio - John O’Gallagher (s), Masa Kamaguchi (ctb), Jeff Williams (bat) |
O Braga Jazz é já uma instituição. A edição deste ano prolongou-se por duas semanas com seis concertos no lindíssimo e renovado Theatro Circo mais sessões nocturnas diárias no histórico Café Vianna e ainda workshops durante cinco dias. A programação está a cargo de José Carlos Santos e vem sendo marcada por algum inconformismo.
Como anunciámos na altura, o festival contou com dois projectos de Mário Laginha, o Baldo Martinez Grupo, o 4 Corners de Ken Vandermark e Adam lane, o renovado Lokomotiv de Carlos Barretto, o trio de Jamie Saft e o Bunky Green Quartet. O grupo que animou as noites no Vianna e as workshops era dirigido pelo saxofone de John O'Gallagher. Estive em Braga nos dois últimos dias do festival.
O Jamie Saft Trio realizou um concerto interessante, a denotar a formação clássica do pianista. Anunciado como «The Jamie Saft Trio plays Bob Dylan e John Zorn», o Dylan foi realmente pouco tocado e pouco interessante, muito colado às melodias originais e o encore cantado quase que estragava a noite. Jamie Saft toca melhor do que canta (bom, nunca ninguém teve a lata de dizer que Bob Dylan tinha boa voz…). As composições de Zorn possuíam a angulosidade e sofisticação mínima para fazer o pianista brilhar, mas não o suficiente para aquecer a noite.
Já Bunky Green foi uma lição de história. O saxofonista tornou-se notado numa altura em que «as coisas» evoluíam muito depressa e persistem nele influência visíveis (tão díspares quanto) de Charlie Parker ou do Ornette Coleman pré-harmolódico e obviamente da construção de chaves vertiginosa que haveriam de ser a imagem de marca de Steve Coleman. Realizou um concerto descontraído e saboroso.
Ao contrário da excelente acústica do (já disse) lindíssimo e renovado Theatro Circo, o Café Vianna, onde tocou o John O'Gallagher Trio ao longo das duas semanas do festival, tem tudo menos acústica. Aliás uma das noites, a confusão, barulho, álcool e fumo, era tamanha que os próprios músicos estavam por demais perturbados e não me restou que ir embora. Na noite de sábado a coisa melhorou um pouco e foi possível perceber que estava perante um saxofone expressivo e um contrabaixista muito interessante (quando se ouvia, nos solos). Adiei a minha observação sobre o baterista.
Gostei de estar em Braga. Ao contrário de outras vezes em que tinha quase exclusivamente ido assistir à música, desta vez passeei pela zona histórica que está bastante bem preservada e mesmo renovada. Braga está de facto uma cidade bonita, que vale a pena visitar. O resto é a boa comida do norte e a cordialidade dos minhotos.
Concertos
Braga Jazz 2006
| Qui | 9-Mar | Braga
|
Parque de Exposições | 21.30
|
Braga Jazz | Anouar Brahem trio "Le Pas Du Chat Noir"- AB (oud), François Couturier (p) Jean-François Matinier (ac) |
| Sex | 10-Mar | Braga
|
Parque de Exposições | 21.30
|
Braga Jazz | Pino Minafra Sud Ensemble - PM (t, flis, mfone) Livio Minafra (tec) Vincenzo Mazzone (bat) Sandro Satta (sa) Giovanni Maier (ctb) Lauro Rossi (tb) Carlo Actis Dato (st, sb) |
23.00
|
Bruce Barth 7tet - BB (p) Scott Wendholt (t) Luis Bonilla (tb) Brad Leali (sa, ss) Adam Kolker (st) Doug Weiss (ctb) Montez Coleman (bat) | |||||
| Sáb | 11-Mar | Braga
|
Parque de Exposições | 21.30
|
Braga Jazz | Paulo Gomes 5teto/ Fátima Serro/ Julian Arguelles- PG (p), FS (voc), JA (s) Hugo Carvalhais (ctb) Bruno Pedroso (bat) |
23.00
|
Jamie Baum 7tet - JB (fl) Shane Endsley (t) George Colligan (p) Johannes Weidenmuller (ctb) Jeff Hirshfield (bat) Douglas Yates (cl-b) Tom Varner (trom) |
O festival Braga Jazz 2006 começa da melhor maneira com o trio de Anouar Brahem. Nascido na Tunísia, Brahem é um virtuoso do oud (uma espécie de alaúde árabe), que desde o início dos anos 90 explora uma área onde se cruza a música árabe e o Jazz. Membro da família ECM, o disco "Thimar", de 1998, com Dave Holland e John Surman, chamou a atenção da comunidade do Jazz.
Músico impressionista, intenso, sempre inspirado, lírico e harmonioso, Brahem abre o Braga Jazz 2005 da melhor forma. Anouar Brahem será acompanhado em Braga por François Couturier ao piano e Jean Louis Matinier em acordeão, músicos que já fizeram com ele "Le pas du chat noir" de 2002 e "Le Voyage de Sahar" já deste ano.
Sexta-feira o Braga Jazz tem um concerto duplo com o Sud Ensemble de Pino Minafra e o septeto de Bruce Barth.
Pino Minafra é um "incendiário". Membro permanente da Italian Instabile Orchestra, é dele um dos mais aclamados temas, interpretado e cantado (declamado/ gritado) com o auxílio de um megafone numa dramatização que se tornou emblemática da Instabile, e dele mesmo. O Sud Ensemble tocou em Guimarães há uns anos e regressa agora para apresentar a novo disco, "Terronia". O septeto é constituído por quatro sopros e secção rítmica e promete levar o Braga Jazz ao rubro.
A segunda parte será porventura mais calma: Bruce Barth é um músico mainstream, "pos-bop", um pianista reconhecido pela excelência da sua técnica. O seu toque é um cruzamento original de Herbie Hancock, Bill Evans, McCoy Tyner e Chic Corea. Capaz de acompanhar cantores ou brilhar no seio de uma orquestra, BB tem já várias nomeações para os Grammy. A formação que o acompanha, com quatro poderosos sopros, poderá iludir as expectativas de um fim de noite calma.
O festival encerra no Sábado, também com dois concertos, o primeiro dos dois, um quinteto liderado pelo pianista Paulo Gomes, um músico com um já extenso currículo, a prometer um bom início de noite. O saxofonista Julian Arguelles e a cantora Fátima Serro são outros dois nomes em evidência no quinteto, que se completa com Hugo Carvalhais e Bruno Pedroso. É provável que o repertório seja constituído principalmente por música do álbum de Gomes-Serro, "Quinto Elemento", gravado em 2005.
O festival termina com a excitante música da flautista Jamie Baum.
A pouco comum composição do combo que se apresenta em Braga – flauta, trompa, clarinete baixo, trompete e secção rítmica -, permite antecipar um grande concerto. Não sendo considerada uma música de vanguarda, a inspiração da flautista ultrapassa em muito o convencional do Jazz, entre Bela Bartok, Stravinsky, Eric Dolphy e Ornette Coleman, e é de grande frescura e criatividade. Atenção aos músicos, todos eles de primeira água. O último disco de Jamie Baum foi gravado para a Omnitone e dá pelo nome de "Moving Forward, Standing Still".
Um estimulante verdadeiro grande final em perspectiva.
Apresentação de Braga Jazz 2006
in Agenda Jazz (newsletter), 7 de Março de 2006