Jazz em Agosto
2010
Esta
semana começa o Jazz em Agosto (Gulbenkian) que
se realiza desde 1984. A primeira semana começa já na
sexta à noite
no Anfiteatro ao Ar Livre com o duo Jack DeJohnette/
John Surman, dois
músicos maiores do Jazz de há mais de quatro décadas,
mas também uma aventura de dois amigos que se conhecem bem. À bateria
e aos saxofones, DeJohnette e Surman juntarão clarinetes, pianos,
teclados e sintetizadores. Um forte início de festival que se
arrisca (do ponto de visto do Jazz) a ser o seu melhor concerto.
O festival prossegue no sábado com os Steamboat
Switzerland, formação que reúne
um Hammond B-3, baixo eléctrico, electrónica, bateria, percussão
e electrónicas, e no domingo com três concertos: à tarde
com o Open Speech Trio de Carlos Bechegas e o duo Guus
Janssen, Han Bennink (piano
e bateria), e à noite o ambicioso (18 elementos) Electro-Acoustic
Ensemble de Evan Parker, um agrupamento com referências longínquas
ao Jazz,
mas que se insere perfeitamente na estética alternativa do Jazz em Agosto.
Música electroacústica ou «música improvisada» são
algumas das classificações possíveis para a música
de Evan Parker.
Para
a semana o Jazz em Agosto abre com o outro grande concerto do festival,
o Louis
Sclavis «Lost On The
Way» - sexta-feira 13. Lost On The Way é uma gravação para a ECM de 2009
por
um
dos
mais importantes músicos europeus, um improvisador feroz e um criador
heterodoxo e fértil.
Sábado abre com o Red
Trio de
Faustino,
Pinheiro e Ferrandini, um
trio relativamente clássico de free jazz de piano, contrabaixo e bateria,
seguido de um sexteto dirigido por Luc Ex - Sol 6 -
que
cruza
cabaret, punk, groove, jazz
e
improvisação (de acordo com eles próprios) a 14 e, dia 15,
o
trio
composto
por Pat Thomas, Raymond Strid e Clayton Thomas,
à tarde,
e
o Circulasione
Totale
Orchestra, uma orquestra multinacional de predominância nórdica,
à noite, no Anfiteatro ao Ar Livre.
O festival inclui ainda dois documentários, sobre o baterista holandês
Han Bennink que tocará no festival no domingo 8, e um outro sobre Albert
Mangelsdorff, ícone do trombone desaparecido em 2005 e que chegou a tocar
na Gulbenkian, e ainda uma conferência dirigida pelo crítico e divulgador
Francesco Martinelli sob o tema «Jazz Europeu e Jazz Americano: um diálogo
não interrompido».
Mais informação em http://www.musica.gulbenkian.pt/jazz/index.html.pt
3-Ago-2010
| Sex 6-Ago | Lisboa
|
Fundação
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
John Surman/
Jack DeJohnette
|
John Surman (ss, sb, cls, elec), Jack DeJohnette (bat, p, elec) |
| Sáb 7-Ago | Fundação
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Steamboat Switzerland
|
Dominik Blum (hamB3, elec), Marino Pliakas (b-el, elec), Lucas Niggli (bat, per) | |
| Dom 8-Ago | Fundação
Gulbenkian - Aud. 2
|
15.30
|
Open Speech
Trio
|
Carlos Bechegas (f, processamento sinal), Ulrich Mitzlaff (celo, elec), Miguel Feraso Cabral (per, obj) | |
Fundação
Gulbenkian - Aud. 2
|
18.30
|
Guus Janssen,
Han Bennink
|
Guus Janssen (p), Han Bennink (bat) | ||
Fundação
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Evan Parker
Electro-Acoustic Ensemble
|
Evan Parker (ss), Peter Evans (t, pic-t), Ko Ishikawa (shô), Ned Rothenberg (cl, clab, flauta shakuhachi), Philipp Waschmann (v, elec), Agustí Fernández (p, p-pre), Barry Guy (ctb), Paul Lytton (per, elec), John Russell (g-ac), Peter van Berg (cl, clb), Aleks Kolkowski (obj), Lawrence Casserley (processamento sinal), Joel Ryan (sam, processamento sinal), Walter Prati (processamento sinal), Richard Barrett (elec), Paul Obermayer (elec), Ikue Mori (elec), Marco Vecchi (projecção som), Kjell Bjorgeengen (projecção imagem) | ||
| Sex 13-Ago | Fundação
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Louis Sclavis «Lost
On The Way»
|
Louis Sclavis (cl, clb, ss), Matthieu Metzger (ss, sa), Maxime Delpierre (g-el), Olivier Lété (b-el), François Merville (bat) | |
| Sáb 14-Ago | Fundação
Gulbenkian - Aud. 2
|
21.30
|
Red Trio
|
Rodrigo Pinheiro (p, p-pre), Hernâni Faustino (ctb), Gabriel Ferrandini (bat) | |
Fundação
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Sol 6
|
Veryan Weston (p, voz), Luc Ex (gb), Ingrid Laubrock (st, voz), Hannah Marshall (celo, voz), Mandy Drummond (viola, voz), Tony Buck (bat, per) | ||
Dom
15-Ago
|
Fundação
Gulbenkian - Aud. 2
|
18.30
|
Thomas/ Strid
/ Thomas
|
Pat Thomas (p, elec), Raymond Strid (bat), Clayton Thomas (ctb) | |
Fundação
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Circulasione
Totale Orchestra
|
Louis Moholo (bat), Fröde Gjerstad (sa, cl), Morten J. Olsen (elec, per), Anders Hana (g-el), Nick Stephens (ctb), Paal Nilssen-Love (bat), Ingebrigt Håker Flaten (b-el), Børre Mølstad (tu), Sabir Mateen (sa, cl), Bobby Bradford (t), Kevin Norton (vib), Lasse Marhaug (elec), John Hegre (desenho som) |

JAZZ EM AGOSTO - REFLEXÕES
Polémico desde
a primeira hora, o Jazz em Agosto soube trazer no passado, apesar de alguns
faux pas ocasionais, alguns dos
nomes mais interessantes e inovadores do Jazz que se fazia na Europa e nos
EUA. Iniciado em 1984 - vivia-se um período pós free-jazz -,
nos anos seguintes passaram pelo Jazz em Agosto a fabulosa Sun Ra Orchestra,
os representantes da linha africanista Art Ensemble Of Chicago, também
o Dave Holland Quintet de Raizor's Edge, o Paul Motian Trio com Bill Frisell
e Joe Lovano, o Jan Garbarek Quartet, a Vienna Art Orchestra, Jimmy Giuffre,
Tim Berne, Willem Breuker Kollektief, Steve Coleman, e inúmeros outros
em concertos memoráveis. O free estava presente, mas também
o questionável Jazz da editora de Munique ECM ou a irreverência
da downtown nova-iorquina, entre algumas coisas mais questionáveis.
Ainda assim, com alguns desses momentos talvez mais pretensiosos, estes primeiros
anos sob a direcção de Rui Neves - e o suporte de Madalena
Perdigão,
directora do ACARTE/ Gulbenkian - fizeram do Jazz em Agosto um festival incontornável
no panorama nacional e mesmo muito para além.
Findo o primeiro comissariado de Rui Neves, o Jazz em Agosto encetou outros
formatos com outras direcções, com resultados variáveis,
sendo de relevar a inesquecível homenagem a Max Roach do período
Hot Club – Luís Hilário em1995.
Em 2000 Rui Neves regressa. Alguma coisa se passou entretanto e o Jazz
em Agosto não voltaria a ser o mesmo. Os tempos tinham mudado, a sociedade
tinha mudado e o panorama do Jazz tinha mudado também: muitos dos
produtos que o festival trouxera em primeira-mão a Portugal nos
anos 80 tinham entrado no mainstream e percorriam já as
salas de concertos de norte a sul.
O festival procurava reencontrar a personalidade que o distinguira, mas
onde estava a vanguarda do Jazz? O colectivo de ilustres que a edição
do ano 2000 do Jazz em Agosto reuniu, concluiu que a fragmentação
estética era a dominante do Jazz do virar do século, mas a
verdade é que a resposta não foi a melhor. Na busca do futuro,
o Jazz em Agosto reencontrou com frequência o passado e muitos equívocos.
Enfim, se alguns objectos se dirigiam desde a primeira edição
a passos largos para fora do Jazz, ocasionando com frequência excessivas
polémicas (a eterna polémica) sobre os limites do Jazz e a
sua definição, a verdade é que não é possível
observar o Jazz em Agosto do ponto de vista crítico, sem introduzir
nessa crítica valores que a crítica de Jazz tradicional não
contempla como a modernidade – a utopia da eterna juventude! -, mas
também alguns outros que dizem respeito a outras formas de arte, inclusive
artes plásticas, e sem os quais não é possível
entender algumas das experiências que por lá passaram. Com frequência
ele parece afirmar-se não tanto pelas propostas, mas contra o Jazz mainstream.
Música de alto risco, não escapa com frequência
ao pretensiosismo dos movimentos experimentalistas, esvaindo o mérito
que inequivocamente possui na antecipação do futuro.
O Jazz em Agosto não
facilita a vida à crítica, e não é fácil
ser objectivo. O problema que se colocou desde sempre (na crítica
ao festival) é em primeiro lugar que, se por um lado ele se denomina
festival de Jazz, ele coloca o Jazz apenas como ponto de partida. De forma
altaneira permite-se introduzir todo o tipo de objectos estranhos, reivindicando-se
da vanguarda do Jazz ou num eufemismo mais recente «das
novas tendências
do Jazz». Esta nuance curiosa advém de um pensamento que considera
que a vanguarda do Jazz desapareceu (e o Jazz está em vias de desaparecimento)
com o esvaecer do free, sendo substituído pelo «Jazz Livre» ou
a «música improvisada», «música improvisada
estruturada», etc.… A confusão vanguardista que se estabeleceu
vai muito para além do Jazz em Agosto e, conforme as conveniências,
ora apresenta como novidades sobrevivências da vanguarda do free-jazz
dos anos 70, ora descobre experiências que normalmente têm mais
de espectáculo e provocação que música. Curiosamente
esta confusão parece ter ganho adeptos entre a crítica, como
lamentavelmente entre alguns músicos. Tenho lido críticas que
aplaudem músicos que tocam deitados, provavelmente porque é diferente
e radical. Como parece ser moderno levar laptops para o palco, porque os
computadores são uma coisa moderna, talvez. Ou atiradores de objectos.
Ou manipuladores de gira-discos. Ou multimédia. Se é dissonante é bom.
Se é noise é fixe (e note-se que nada me ofende a
introdução do noise, dos gira-discos ou dos laptops.
Construir música e não espectáculo para
pacóvio encher o olho
é coisa diferente...). Por outro lado parece haver um entendimento da História
que a assemelha a uma linha recta: se a vanguarda do Jazz tinha como valor
nos
anos 70 o
ruído,
o Jazz do século
XXI deve ter ainda mais ruído. Por isso é que a luxuriante
Globe Unity dos anos 70, por exemplo, foi transformada numa parede de ruído
sem qualquer subtileza, com o aplauso bacoco da crítica vanguardista-evolucionista.
E este afinal será um bom exemplo do desnorte dessa vanguarda
delida do Jazz dos anos 70 que não soube transformar-se, que não
souberam encontrar o caminho da modernidade, preferindo prolongar um ou outro
elemento
do que
eventualmente terá feito a sua originalidade
nesse
tempo. O Jazz do futuro que o Jazz em Agosto tem privilegiado é com
frequência
este ou os seus sucedâneos. Ou pelo contrário tem encontrado
na «música improvisada» dos atiradores de objectos e nos
manipuladores de giradiscos e laptops a vanguarda, não apenas do Jazz,
mas da Música! Mas a vanguarda de um tempo não pode ser a vanguarda
de outro tempo. Se há lugar a vanguardas na era da Internet, é outra
questão
sobre
a qual observar e meditar.
A modernidade é um critério traiçoeiro. Os jovens gostam
de o apresentar como valor positivo universal, mas um pouco de maturidade
não faria mal à crítica que lhe permitisse observar
que nem tudo o que é moderno é bom (como há muito Vinho
do Porto estragado). Dito isto não significa que o modernidade seja
um valor a ignorar, bem pelo contrário. Se existe algo a lamentar
no Jazz português é precisamente o excesso de Jazz mainstream que
tende a valorizar a repetição ao invés da criação,
em nome muitas vezes da suposta Verdade do Jazz. Ora se existe uma característica
definidora na História do Jazz é precisamente a sua capacidade
de se reinventar. Do meu ponto de vista, eu creio que o Jazz em Agosto podia,
mas não cumpre, esse papel de trazer ao público nacional o
Jazz moderno. E podia até, se quisesse, contribuir para incentivar
os músicos nacionais em busca de uma identidade moderna.
Enfim, onde está a modernidade, se ele ainda se coloca dentro do que
pode definir-se como Jazz, mais importante qual o grau de elaboração
e qual o valor real das propostas (expurgadas dos acessórios espectaculares),
são algumas das tarefas que a crítica enfrenta na observação
do Jazz em Agosto.
Festival personalizado
entre os personalizados, o Jazz em Agosto afirma-se o detentor do futuro
e de forma
crítica contra o Jazz mainstream (como
outros se apresentam de forma arrogante como os senhores do verdadeiro Jazz).
Assim foi desde o seu início, mas na programação pós
2000, eu creio que o Jazz em Agosto teve alguns momentos felizes e muitos
equívocos. Para a primeira categoria entram o Julius Hemphill Sextet
de Marty Ehrlich em 2003, Joe Morris em 2000, The Claudia Quintet de John
Hollenbeck em 2006 e Dave Douglas & Brass Ecstasy em 2009. Para a segunda
entram Graham Haynes em 2000, Jean Luc Cappozzo / Axel Dörner / Herb
Robertson em 2005, Larry Ochs / Fred Frith / Lê Quan Ninh, em 2006,
os Hubbub em 2007, a Globe Unity Orchestra em 2005, John Zorn / Fred Frith
e o Peter Brötzmann Chicago Tentet em 2008, ou o George Lewis Sequel
em 2009.
Este texto está longe
de esgotar os temas – o Jazz em Agosto, a definição do
Jazz, a modernidade ou o papel da crítica – e a eles voltarei
se necessário.
2009
Ao contrário do conceito de 2008 que parecia olhar o passado, o Jazz
em Agosto 2009 escolheu como tema «Ícones e Inovadores».
Para a categoria encontrou alguns representantes de outros tempos, mas também
alguns jovens.
Anunciado como um dos mais inovadores projectos do festival, o George
Lewis Sequel demonstrou-se absolutamente falhado. Houve
um tempo, há muitos
anos em New Orleans, em que a música se tornou realmente democrática:
toda ou quase toda a gente sabia tocar. O Jazz nasceu daí, na rua,
também como expressão democrática. O que George Lewis
levou à Gulbenkian foi a antecipação futurista de uma
outra possibilidade de democracia: a de quando todos tocarem sem ninguém
saber como. Como era previsível pelo excesso de computadores, o concerto
de George Lewis revelou-se completamente aborrecido. A rapariga do gira-discos
que andou sempre perdida era especialmente irritante e nem os raros assomos
do trombone de Lewis se mostraram minimamente interessantes. Alguém
anda a ver demasiada sf gore (E talvez até que como banda sonora o «concerto» funcione.
Talvez mesmo acrescentando alguns aviões...).
O tarde do segundo dia apresentou um arrojado projecto denominado Rough
Americana que integrava dois músicos em gira-discos, gravador magnético,
efeitos e guitarra preparada. Mas um tipo deitado no chão a tocar
guitarra preparada e uma jovem radical a manipular gira-discos não
faz o meu género musical. Pedante e inútil.
O primeiro momento interessante do Jazz em Agosto foi protagonizado pela
Nublu Orchestra de Lawrence
Butch Morris. O colectivo é impulsionado
a partir de um código de uma trintena de signos numa recriação
original dos head arrangement de Duke Ellington. As peças baseiam-se
em formas pré-concebidas que vão
sendo moldadas a belprazer do maestro, deixando muito pouco espaço à criatividade
individual. Curioso.
Como eu tinha alertado na crítica a Spirit Moves, quem esperava por
uma música do tipo Dirty Dozen no concerto do Dave Douglas
Brass Ecstasy deverá ter ficado defraudado. O trompetista nunca aposta no mais fácil,
e apesar de nos últimos temas ele se aproximar um pouco da música
mais desbragada de Lester Bowie. O repertório de Spirit Moves são
histórias, ou paisagens. Actores são evocados tornando-se protagonistas;
introduzindo ambientes e lugares, como se de cinema se tratasse por vezes.
Pedaços da história do Jazz confluem em peças de Nino
Rota; entra Lester Bowie, Fats Waller ou o trompete de Enrico Rava.
Sobre o pano de fundo criado pela bateria rude de Nasheet Waits (quase
não
tocando nos tímbalos e com uma tarola muito aberta à maneira
de New Orleans) e a poderosa tuba (com uma dinâmica espantosa) de Marcos
Rojas, a Brass Ecstasy é uma verdadeira orquestra de movimento e cor.
Luis Bonilla será talvez o mais impulsivo e Douglas esteve magnífico
e insuperável como sempre; mas impressionou-me verdadeiramente a figura
seráfica de Vincent Chancey construindo um discurso impossível
para a trompa no solo para Rava, e um pouco por todo o concerto. Mais empáticos,
os temas Bowie e Rava ofereceram ao quinteto o aplauso unânime do público.
Sem dificuldade, o colectivo de virtuosos reunido na Brass Ecstasy realizou
o melhor concerto do Jazz em Agosto do milénio, confirmando Dave Douglas
como um dos mais prolíficos e geniais músicos da actualidade.
Peter Evans é um extraordinário trompetista, mas um concerto
solo é um risco excessivo para o jovem académico. O concerto
foi um exercício de puro exibicionismo, com o discurso completamente
submetido à técnica e não a técnica a servir
as composições ou o discurso. Como número de circo esteve
realmente impressionante, mas como exercício musical foi curto.
Ainda nessa noite os Buffalo Collision protagonizaram
alguns momentos altos, mas globalmente o concerto acusou o desequilíbrio do encontro (colisão?)
entre dois conceitos radicalmente diferentes de Jazz que são afinal
os dos The Bad Pus (mais pop, ritmado, comunicativo) e Tim Berne (mais
abstracto e dissonante). Creio que o projecto tem pernas para andar, mas
necessita
de algum trabalho.
O concerto do Peter Evans Quartet foi
realmente surpreendente para quem tinha visto o trompetista na tarde do
dia anterior: quatro jovens
músicos
realizando uma música inteiramente escrita, interpretando temas de
grande complexidade e erudição e de elevada exigência
técnica! O excessivo academismo acabou por os trair no final da noite
- revelando como de facto não eram músicos de Jazz - quando
informaram que não poderiam tocar nenhum encore porque não
tinham mais nenhuma peça ensaiada! Mas que raio de músicos
de Jazz não têm um standard na manga? Nem sequer um blues? E
uma interpretação mais marada de um Summertime? Nada mesmo?
Apesar da gaffe, este foi um dos grandes momentos do festival
e Peter Evans é realmente
um músico a seguir (mas tem que passar umas noites numa escola de
Jazz a treinar nas jam sessions com os alunos do 1.º ano).
De regresso ao Anfiteatro 2, por diversas vezes acreditei que os Propagations iam
começar a tocar, o que não veio a acontecer. Este tipo
de exercício, supostamente inspirado nos quartetos de saxofone do
Jazz, não o é realmente e tem muito pouco de original: há experiências
deste tipo na música clássica erudita e mesmo na música
pop com mais de trinta anos. Foi feito e está feito e esgotou-se há muito
tempo lá atrás.
Mais um bom concerto a encerrar o Jazz em Agosto, confirmando a edição
de 2009 como a melhor do século, e apesar da referida menoridade de
alguns episódios. A Exploding Star Orchestra possui
um som bastante original e um excelente equilíbrio para uma orquestra com uma paleta
tímbrica tão variada. A base rítmica da orquestra é luxuriante,
com dois bateristas que não se sobrepõem, uma marimba e um
vibrafone para além das percussões; mas também um contrabaixo
e um baixo eléctrico. O curioso é que nenhum dos instrumentos é despiciendo,
e os arranjos para toda esta parafernália são bastante atentos
e oportunos. Os sopros são também eles de nota com relevo para
a excelente Nicole Mitchell na flauta, mas também o acutilante Jebb
Bishop e o líder Rob Mazurek no trompete. O vocalista, que me deixou
algumas interrogações, recriava, creio, a tradição
dos poetas-declamadores negros dos anos 70 do género Amiri Baraka.
O «som» da orquestra é pois bastante rico com uma diversidade
de influências e referências bastante alargado; como disse com
uma base rítmica bastante acentuada, o que lhe dava um certo matiz
pop. Mas a longa peça que a Exploding Star tocou nunca se tornou monótona,
revelando um excelente trabalho de composição e orquestração
de Mazurek para um instrumento tão complexo.
A pecha do concerto acaba por ser a estrela convidada, o veterano Bill
Dixon,
que à evidência não está capaz de tocar. Bill
Dixon, a quem é oferecido um excessivo protagonismo, tem o trompete
ligado a uma câmara de eco, limitando-se a tirar dele um ocasional
som, sempre igual, que o eco repete. É verdade que Mazurek moldou
de forma bastante inteligente o som da orquestra para aquele som, mas não
deixa ainda assim de ser patético. Gostaria de ouvir a orquestra
sem Bill Dixon.
Mas este acabou por ser uma despedida bastante aplaudida do Jazz em Agosto
2009, por um público bastante carente de algo que o faça
mexer.
| Sáb 1-Ago | Lisboa
|
Fundação
Gulbenkian - AAL
|
21.30
|
Jazz em Agosto
|
George Lewis
Sequel
|
George Lewis
(trb, lap), Jeff Parker (g-el), Siegfried Rössert (ctb, voz,
lap), Miya Masaoka (koto, lap, el), Kaffe Matthews (el), DJ Mutamassik
(gir), Ulrich Müller (g, lap), Guillermo E. Brown (bat, perc,
el)
|
Dom
2-Ago
|
Fundação
Gulbenkian - A2
|
18.30
|
Rough Americana
|
DJ Mutamassik
(gir, gra, ef), Morgan Craft (g preparada)
|
||
Fundação
Gulbenkian - AAL
|
21.30
|
Nublu
Orchestra
|
Lawrence D. «Butch» Morris
(dir), Fabio Morgera (t), Jonathon Haffner (sa), Ilhan Ersahin
(st), Ava Mendoza (g), Doug Wieselman (g, clb), Thor Madsen (g),
J.A. Deane (sam, el), Juini Booth (ctb), Michael Kiaer (b-el),
Kenny Wollesen (bat)
|
|||
Qui
6-Ago
|
Lisboa
|
Fundação
Gulbenkian - AAL
|
21.30
|
Jazz em Agosto
|
Dave
Douglas & Brass Ecstasy
|
Dave Douglas (t),
Vincent Chancey (tro), Marcus Rojas (tu), Luis Bonilla (trb), Nasheet
Waits (bat)
|
| Sex 7-Ago | Fundação
Gulbenkian - A2
|
18.30
|
Peter Evans
|
Peter Evans
(t)
|
||
Fundação
Gulbenkian - AAL
|
21.30
|
Buffalo
Collision
|
Tim Berne (sa),
Ethan Iverson (p), Hank Roberts (celo), Dave King (bat)
|
|||
| Sáb 8-Ago | Fundação
Gulbenkian - A2
|
18.30
|
Franziska
Baumann + Matthias Ziegler
|
Franziska Baumann
(voz, el, sensorlab), Matthias Ziegler (f, fb, fctb, loops)
|
||
Fundação
Gulbenkian - AAL
|
21.30
|
Peter Evans
Quartet
|
Peter Evans
(t, pic-t), Ricardo Gallo (p), Tom Blancarte (ctb), Kevin Shea
(bat)
|
|||
Dom
9-Ago
|
Fundação
Gulbenkian - A2
|
18.30
|
Propagations
|
Marc Baron (sa),
Bertrand Denzler (st), Jean-Luc Guionnet (sa), Stéphane
Rives (ss)
|
||
Fundação
Gulbenkian - AAL
|
21.30
|
Bill
Dixon with Exploding Star Orchestra
|
Bill Dixon (t),
Rob Mazurek (t), John Herndon (bat), Damon Locks (voz), Josh Abrams
(ctb), Jeff Parker (g-el), Nicole Mitchell (f, voz), Jebb Bishop
(trb), Jason Adasewicz (vib, carrilhão), Matt Lux (b-el),
Matt Bauder (clb, st), Mike Reeed (bat, tímpano)
|
2008
Iniciada em 2000 a muito interessante fórmula de festival temático
escolheu para 2008 a ideia de «Extensões». Extensões
do free-jazz, do que foi a delida vanguarda do Jazz nos anos 70, e a edição
2008 até foi relativamente pacífica dentro dos limites (alargados)
do Jazz, e apesar da incipiência das propostas de Frith/Zorn e Brotzman e da
inconsequência supostamente modernista de Otomo Yoshihide. De notar ainda
a insistência em alguns nomes paradigmáticos que ora são
apresentados como os digníssimos representantes do Jazz do futuro, ora
como «extensões» da vanguarda do passado.
Não assisti aos concertos da tarde, pelo que apenas falarei sumariamente
dos restantes.
O festival começou com Otomo Yoshihide,
um guitarrista que tocou no festival
em 2004 e que aqui se apresentou em formação alargada. Yoshihide
tornou-se notado no trabalho inspirado em Eric Dolphy e pela técnica de
guitarra bastante próxima de Fred Frith. No entanto em palco há quatro
anos nem o trabalho de escrita nem a guitarra foram capazes de convencer. Neste
regresso, a introdução de sopros no ambicioso projecto dolphiano
apenas serviu para trazer a nu a fragilidade das estruturas. Longe de Dolphy
os saxofones limitam-se a gritar sem consistência. Eric Dolphy merecia
melhor.
Seguiu-se Satoko Fujii, uma pianista
japonesa a residir em New York, cujo projecto
se anuncia transfiguradora da música folclórica do Japão.
A fusão da música experimental com o folclore nipónico pareceu
aqui e ali trazer boas ideias, rapidamente desperdiçadas e o acordeão
monocórdico de Andrea Parkins não ajudou.
Anunciado como o momento alto do festival, o concerto de John
Zorn/ Fred
Frith limitou-se a levar à exaustão o projecto
de hecatombe que repetem desde há décadas. Fred Frith é um
músico
praticamente surdo ao universo exterior (tanto lhe faz que esteja alguém
a toca com ele ou não), denotando como não é realmente um
músico de Jazz. A técnica de guitarra de «improvisação
total» de Frith, parece ter como único objectivo a fuga a qualquer
sequência de acordes consonantes ou melodia, como quaisquer laivos de tema
ou estrutura. Frith conhece como ninguém a guitarra, mas a repetição
de efeitos ad nauseam tornou-se de há muito desinteressante. John Zorn é um
dos mais ilustres representantes da downtown nova-iorquina que concentra em si
o que de melhor e pior ela tem: irreverência, experimentalismo, arrojo
versus gosto pelo espectáculo e pela provocação. Capaz do
melhor (Masada) e do pior (Painkiller), o camaleão Zorn apresentou-se
na versão radical: hora e meia a soprar no melhor da «estética
do grito». O facto de Zorn e Frith andarem a repetir este projecto há trinta
anos, não inibe o festival de o anunciar como «uma das mais caras
fórmulas evidenciadas pelo jazz de hoje». Chato e repetitivo.
A segunda semana abriu com Taylor Ho Bynum,
um discípulo de Anthony Braxton.
Muitos anos a tocar com Anthony Braxton ensinaram-no como fazer. Expoente maior
da difícil corneta, esteve competente à frente de uma formação
atípica, mas faltou-lhe o golpe de asa na construção de
uma música que se quis angulosa.
Um sério esforço de escrita e bastante criatividade fizeram do
concerto de Sylvie Courvoisier o
melhor do festival, mesmo se atira directamente para fora do Jazz. O elevado
nível dos músicos (Mark Feldman, Vincent
Courtois, Gerald Cleaver…), ajudou… A música de Courvoisier é fria
e cerebral; mas se o trabalho do computador pareceu com frequência abstruso,
a bateria compensou o nervo que por vezes andou arredado do quinteto.
O muito aguardado derradeiro concerto do Jazz em Agosto trouxe de novo Peter
Brötzmann, num concerto que decorreu afinal sem qualquer
novidade. Quarenta
anos a tocar da mesma forma fazem dele um exemplar de perseverança, mas
a artilharia ruidosa que nos anos 70 parecia ser um modelo plástico era
apenas - em tempos de «revolução» - ruidosa pólvora
seca com justificação social. Mudam-se os tempos e Peter Brötzmann é hoje
apenas um rebelde sem causa fora de tempo. Juntar mais músicos sem quaisquer
laivos de composição raia a indigência e não faz melhor
música (mas apenas mais ruído). Creio que Brötzmann poderia
fazer melhor. Aborrecido.
| Sex 1-Ago | Lisboa
|
Gulbenkian - Aud. Ar Livre
|
21.30
|
Jazz em Agosto
|
Otomo
Yoshihide New Jazz Orchestra feat Axel Dörner, Cor Fuhler,
Mats Gustafsson
|
OY (dir, g), Kahimi Karie (voz), Kenta Tsugami (sa, ss), Alfred Harth (st, cl-b), Mats Gustafsson (st), Sachiko M (sinewaves), Kumiko Takara (vib), Hiroaki Mizutani (ctb), Yasuhiro Yoshigaki (bat, t), Axel Dörner (t), Masahiko Okura (sa, cl-b, carrilhão), Taisei Aoki (trb), Cor Fuhler (p), Ko Ishikava (sho), Taku Unami (obj), Yoshiaki Kondoh (desenho som) |
Sáb
2-Ago
|
Gulbenkian - Aud. Ar Livre
|
21.30
|
Satoko Fujii Min-Yoh Ensemble
|
S. Fujii (p), Natsuki Tamura (t), Curtis Hasselbring (trb), Andrea Parkins (acor) | ||
| Dom 3-Ago | Gulbenkian - Aud. Dois
|
18.30
|
PAAP
|
Inada Makoto (ctb, voz), Katori Koichiro (p, aco, voz), Mizutani Yasuhisa (ss, cl, f, per) | ||
Gulbenkian - Aud. Ar Livre
|
21.30
|
John Zorn / Fred Frith
|
JZ (sa), FF (g- el) | |||
| Qui 7-Ago | Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Taylor Ho Bynum Sextet
|
THB (corn), Matt Bauder (st, cl, cl-b), Mary Halvorson (g-el), Evan O’Reilly (g-el), Jessica Pavone (vola, b-el), Tomas Fujiwara (bat) | ||
| Sex 8-Ago | Gulbenkian - Aud. Dois
|
18.30
|
Memorize the Sky
|
Matt Bauder (st, cl, cl-b, per), Zach Wallace (ctb, vib, perc), Aaron Siegel (perc) | ||
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Sylvie
Courvoisier Lonelyville
|
SC (p), Mark Feldman (v), Vincent Courtois (vcelo), Ikue Mori (laptop), Gerald Cleaver (bat) | |||
| Sáb 9-Ago | Gulbenkian - Aud. Dois
|
15.30
|
Fritz Hauser
|
FH (perc) | ||
Gulbenkian - Aud. Dois
|
18.30
|
Pascal Contet/Barre Phillips
|
PC (ac), BP (ctb) | |||
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
|
21.30
|
Peter Brötzmann
Chicago Tentet
|
PB (cl, taragot, sa, st), Mats Gustafsson (sb, slide sax), Ken Vandermark (cl, st, sb), Joe McPhee (t, sa), Johannes Bauer (trb), Jeb Bishop (trb), Per Ake Holmlander (tu), Fred Longberg-Holm (vcelo), Kent Kessler (ctb), Paal Nilssen-Love (bat), Michael Zerang (bat) |
Jazz em Agosto 2007
| Sex | 3-Ago | Lisboa | Fundação Gulbenkian | 21.30 | Jazz em Agosto | Muhal Richard Abrams - George Lewis - Roscoe Mitchell - MRA (p), GL (trb, lap), RM (sa, ss, perc) |
| Sáb | 4-Ago | Lisboa | Fundação Gulbenkian | 15.30 | Jazz em Agosto | Muhal Richard Abrams - conferência «Projecting Your Own Individualism» |
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 18.30 | Jazz em Agosto | Hubbub - Frédéric Blondy (p), Bertrand Denzler (st), Jean-Luc Guionnet (sa), Jean-Sébastien Mariage (g-el), Edward Perraud (bat) | ||
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 21.30 | Jazz em Agosto | Nik Bärtsch’s Ronin - NB (p), Sha (cl-baixo, cl-ctb), Björn Meyer (ctb), Kaspar Rast (bat), Andi Pupato (perc) | ||
| Dom | 5-Ago | Lisboa | Fundação Gulbenkian | 15.30 | Jazz em Agosto | Carlos Zíngaro / Jorge Lima Barreto - CZ (v), JLB (p) |
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 18.30 | Jazz em Agosto | Low Frequency Tuba Band - Sérgio Carolino (tub), Oren Marshall (tub), Marcus Rojas (tub), Jay Rozen (tub), Alexandre Frazão (bat) | ||
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 21.30 | Jazz em Agosto | Crimetime Orchestra - Vidar Johansen (st, sb, cl- b), Jon Klette (sa), Kjetil Møster (st), Øivind Brekke (trb), Sjur Miljeteig (t), Mats Eilertsen (b-el), Per Zanussi (ctb), Anders Hana (g-el), Christian Wallumrød (p, tec, efeitos), Eudun Kleive (bat), Stig Henriksen (som) | ||
| Qui | 9-Ago | Lisboa | Fundação Gulbenkian | 18.30 | Jazz em Agosto | «Ornette: Made In America» - Filme documental de Shirley Clarke |
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 21.30 | Jazz em Agosto | Joe Fonda’s Bottoms Out «Loaded Basses» - Joe Fonda (ctb), Claire Daly (sb), Joe Daley (tub), Gebhard Ullmann (cl-b), Michael Rabinowitz (fagote), Gerry Hemingway (bat) | ||
| Sex | 10-Ago | Lisboa | Fundação Gulbenkian | 15.30 | Jazz em Agosto | «My Name Is Albert Ayler» - Filme documental de Kasper Collin |
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 18.30 | Jazz em Agosto | Conferência por Ornette Coleman | ||
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 21.30 | Jazz em Agosto | Quartet Noir - Urs Leimgruber (st, ss), Marilyn Crispell (p), Joëlle Léandre (ctb), Fritz Hauser (bat) | ||
| Sáb | 11-Ago | Lisboa | Fundação Gulbenkian | 15.30 | Jazz em Agosto | Joëlle Léandre (ctb) |
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 18.30 | Jazz em Agosto | Timbre - Lauren Newton (voz), Elisabeth Tuchmann (voz), Oskar Mörth (voz), Bertl Mütter (voz, trb) | ||
| Lisboa | Fundação Gulbenkian | 21.30 | Jazz em Agosto | Ornette Coleman Quintet - OC (sa, v, t), Tony Falanga (ctb),Charnett Moffett (ctb), Al Macdowell (b-el), Ornette Denardo Coleman (bat) |
Jazz em Agosto na internet:
http://www.musica.gulbenkian.pt/jazz/index.html.pt