Jazz em Agosto

2010

Esta semana começa o Jazz em Agosto (Gulbenkian) que se realiza desde 1984. A primeira semana começa já na sexta à noite no Anfiteatro ao Ar Livre com o duo Jack DeJohnette/ John Surman, dois músicos maiores do Jazz de há mais de quatro décadas, mas também uma aventura de dois amigos que se conhecem bem. À bateria e aos saxofones, DeJohnette e Surman juntarão clarinetes, pianos, teclados e sintetizadores. Um forte início de festival que se arrisca (do ponto de visto do Jazz) a ser o seu melhor concerto.
O festival prossegue no sábado com os Steamboat Switzerland, formação que reúne um Hammond B-3, baixo eléctrico, electrónica, bateria, percussão e electrónicas, e no domingo com três concertos: à tarde com o Open Speech Trio de Carlos Bechegas e o duo Guus Janssen, Han Bennink (piano e bateria), e à noite o ambicioso (18 elementos) Electro-Acoustic Ensemble de Evan Parker, um agrupamento com referências longínquas ao Jazz, mas que se insere perfeitamente na estética alternativa do Jazz em Agosto. Música electroacústica ou «música improvisada» são algumas das classificações possíveis para a música de Evan Parker.
Para a semana o Jazz em Agosto abre com o outro grande concerto do festival, o Louis Sclavis «Lost On The Way» - sexta-feira 13. Lost On The Way é uma gravação para a ECM de 2009 por um dos mais importantes músicos europeus, um improvisador feroz e um criador heterodoxo e fértil. Sábado abre com o Red Trio de Faustino, Pinheiro e Ferrandini, um trio relativamente clássico de free jazz de piano, contrabaixo e bateria, seguido de um sexteto dirigido por Luc Ex - Sol 6 - que cruza cabaret, punk, groove, jazz e improvisação (de acordo com eles próprios) a 14 e, dia 15, o trio composto por Pat Thomas, Raymond Strid e Clayton Thomas, à tarde, e o Circulasione Totale Orchestra, uma orquestra multinacional de predominância nórdica, à noite, no Anfiteatro ao Ar Livre.
O festival inclui ainda dois documentários, sobre o baterista holandês Han Bennink que tocará no festival no domingo 8, e um outro sobre Albert Mangelsdorff, ícone do trombone desaparecido em 2005 e que chegou a tocar na Gulbenkian, e ainda uma conferência dirigida pelo crítico e divulgador Francesco Martinelli sob o tema «Jazz Europeu e Jazz Americano: um diálogo não interrompido».

Mais informação em http://www.musica.gulbenkian.pt/jazz/index.html.pt

3-Ago-2010

Sex 6-Ago
Lisboa
Fundação Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
John Surman/ Jack DeJohnette
John Surman (ss, sb, cls, elec), Jack DeJohnette (bat, p, elec)
Sáb 7-Ago
Fundação Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Steamboat Switzerland
Dominik Blum (hamB3, elec), Marino Pliakas (b-el, elec), Lucas Niggli (bat, per)
Dom 8-Ago
Fundação Gulbenkian - Aud. 2
15.30
Open Speech Trio
Carlos Bechegas (f, processamento sinal), Ulrich Mitzlaff (celo, elec), Miguel Feraso Cabral (per, obj)
Fundação Gulbenkian - Aud. 2
18.30
Guus Janssen, Han Bennink
Guus Janssen (p), Han Bennink (bat)
Fundação Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble
Evan Parker (ss), Peter Evans (t, pic-t), Ko Ishikawa (shô), Ned Rothenberg (cl, clab, flauta shakuhachi), Philipp Waschmann (v, elec), Agustí Fernández (p, p-pre), Barry Guy (ctb), Paul Lytton (per, elec), John Russell (g-ac), Peter van Berg (cl, clb), Aleks Kolkowski (obj), Lawrence Casserley (processamento sinal), Joel Ryan (sam, processamento sinal), Walter Prati (processamento sinal), Richard Barrett (elec), Paul Obermayer (elec), Ikue Mori (elec), Marco Vecchi (projecção som), Kjell Bjorgeengen (projecção imagem)
Sex 13-Ago
Fundação Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Louis Sclavis «Lost On The Way»
Louis Sclavis (cl, clb, ss), Matthieu Metzger (ss, sa), Maxime Delpierre (g-el), Olivier Lété (b-el), François Merville (bat)
Sáb 14-Ago
Fundação Gulbenkian - Aud. 2
21.30
Red Trio
Rodrigo Pinheiro (p, p-pre), Hernâni Faustino (ctb), Gabriel Ferrandini (bat)
Fundação Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Sol 6
Veryan Weston (p, voz), Luc Ex (gb), Ingrid Laubrock (st, voz), Hannah Marshall (celo, voz), Mandy Drummond (viola, voz), Tony Buck (bat, per)
Dom 15-Ago
Fundação Gulbenkian - Aud. 2
18.30
Thomas/ Strid / Thomas
Pat Thomas (p, elec), Raymond Strid (bat), Clayton Thomas (ctb)
Fundação Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Circulasione Totale Orchestra

Louis Moholo (bat), Fröde Gjerstad (sa, cl), Morten J. Olsen (elec, per), Anders Hana (g-el), Nick Stephens (ctb), Paal Nilssen-Love (bat), Ingebrigt Håker Flaten (b-el), Børre Mølstad (tu), Sabir Mateen (sa, cl), Bobby Bradford (t), Kevin Norton (vib), Lasse Marhaug (elec), John Hegre (desenho som)


JAZZ EM AGOSTO - REFLEXÕES

Polémico desde a primeira hora, o Jazz em Agosto soube trazer no passado, apesar de alguns faux pas ocasionais, alguns dos nomes mais interessantes e inovadores do Jazz que se fazia na Europa e nos EUA. Iniciado em 1984 - vivia-se um período pós free-jazz -, nos anos seguintes passaram pelo Jazz em Agosto a fabulosa Sun Ra Orchestra, os representantes da linha africanista Art Ensemble Of Chicago, também o Dave Holland Quintet de Raizor's Edge, o Paul Motian Trio com Bill Frisell e Joe Lovano, o Jan Garbarek Quartet, a Vienna Art Orchestra, Jimmy Giuffre, Tim Berne, Willem Breuker Kollektief, Steve Coleman, e inúmeros outros em concertos memoráveis. O free estava presente, mas também o questionável Jazz da editora de Munique ECM ou a irreverência da downtown nova-iorquina, entre algumas coisas mais questionáveis. Ainda assim, com alguns desses momentos talvez mais pretensiosos, estes primeiros anos sob a direcção de Rui Neves - e o suporte de Madalena Perdigão, directora do ACARTE/ Gulbenkian - fizeram do Jazz em Agosto um festival incontornável no panorama nacional e mesmo muito para além.
Findo o primeiro comissariado de Rui Neves, o Jazz em Agosto encetou outros formatos com outras direcções, com resultados variáveis, sendo de relevar a inesquecível homenagem a Max Roach do período Hot Club – Luís Hilário em1995.
Em 2000 Rui Neves regressa. Alguma coisa se passou entretanto e o Jazz em Agosto não voltaria a ser o mesmo. Os tempos tinham mudado, a sociedade tinha mudado e o panorama do Jazz tinha mudado também: muitos dos produtos que o festival trouxera em primeira-mão a Portugal nos anos 80 tinham entrado no mainstream e percorriam já as salas de concertos de norte a sul.
O festival procurava reencontrar a personalidade que o distinguira, mas onde estava a vanguarda do Jazz? O colectivo de ilustres que a edição do ano 2000 do Jazz em Agosto reuniu, concluiu que a fragmentação estética era a dominante do Jazz do virar do século, mas a verdade é que a resposta não foi a melhor. Na busca do futuro, o Jazz em Agosto reencontrou com frequência o passado e muitos equívocos.
Enfim, se alguns objectos se dirigiam desde a primeira edição a passos largos para fora do Jazz, ocasionando com frequência excessivas polémicas (a eterna polémica) sobre os limites do Jazz e a sua definição, a verdade é que não é possível observar o Jazz em Agosto do ponto de vista crítico, sem introduzir nessa crítica valores que a crítica de Jazz tradicional não contempla como a modernidade – a utopia da eterna juventude! -, mas também alguns outros que dizem respeito a outras formas de arte, inclusive artes plásticas, e sem os quais não é possível entender algumas das experiências que por lá passaram. Com frequência ele parece afirmar-se não tanto pelas propostas, mas contra o Jazz mainstream. Música de alto risco, não escapa com frequência ao pretensiosismo dos movimentos experimentalistas, esvaindo o mérito que inequivocamente possui na antecipação do futuro.

O Jazz em Agosto não facilita a vida à crítica, e não é fácil ser objectivo. O problema que se colocou desde sempre (na crítica ao festival) é em primeiro lugar que, se por um lado ele se denomina festival de Jazz, ele coloca o Jazz apenas como ponto de partida. De forma altaneira permite-se introduzir todo o tipo de objectos estranhos, reivindicando-se da vanguarda do Jazz ou num eufemismo mais recente «das novas tendências do Jazz». Esta nuance curiosa advém de um pensamento que considera que a vanguarda do Jazz desapareceu (e o Jazz está em vias de desaparecimento) com o esvaecer do free, sendo substituído pelo «Jazz Livre» ou a «música improvisada», «música improvisada estruturada», etc.… A confusão vanguardista que se estabeleceu vai muito para além do Jazz em Agosto e, conforme as conveniências, ora apresenta como novidades sobrevivências da vanguarda do free-jazz dos anos 70, ora descobre experiências que normalmente têm mais de espectáculo e provocação que música. Curiosamente esta confusão parece ter ganho adeptos entre a crítica, como lamentavelmente entre alguns músicos. Tenho lido críticas que aplaudem músicos que tocam deitados, provavelmente porque é diferente e radical. Como parece ser moderno levar laptops para o palco, porque os computadores são uma coisa moderna, talvez. Ou atiradores de objectos. Ou manipuladores de gira-discos. Ou multimédia. Se é dissonante é bom. Se é noise é fixe (e note-se que nada me ofende a introdução do noise, dos gira-discos ou dos laptops. Construir música e não espectáculo para pacóvio encher o olho é coisa diferente...). Por outro lado parece haver um entendimento da História que a assemelha a uma linha recta: se a vanguarda do Jazz tinha como valor nos anos 70 o ruído, o Jazz do século XXI deve ter ainda mais ruído. Por isso é que a luxuriante Globe Unity dos anos 70, por exemplo, foi transformada numa parede de ruído sem qualquer subtileza, com o aplauso bacoco da crítica vanguardista-evolucionista. E este afinal será um bom exemplo do desnorte dessa vanguarda delida do Jazz dos anos 70 que não soube transformar-se, que não souberam encontrar o caminho da modernidade, preferindo prolongar um ou outro elemento do que eventualmente terá feito a sua originalidade nesse tempo. O Jazz do futuro que o Jazz em Agosto tem privilegiado é com frequência este ou os seus sucedâneos. Ou pelo contrário tem encontrado na «música improvisada» dos atiradores de objectos e nos manipuladores de giradiscos e laptops a vanguarda, não apenas do Jazz, mas da Música! Mas a vanguarda de um tempo não pode ser a vanguarda de outro tempo. Se há lugar a vanguardas na era da Internet, é outra questão sobre a qual observar e meditar.
A modernidade é um critério traiçoeiro. Os jovens gostam de o apresentar como valor positivo universal, mas um pouco de maturidade não faria mal à crítica que lhe permitisse observar que nem tudo o que é moderno é bom (como há muito Vinho do Porto estragado). Dito isto não significa que o modernidade seja um valor a ignorar, bem pelo contrário. Se existe algo a lamentar no Jazz português é precisamente o excesso de Jazz mainstream que tende a valorizar a repetição ao invés da criação, em nome muitas vezes da suposta Verdade do Jazz. Ora se existe uma característica definidora na História do Jazz é precisamente a sua capacidade de se reinventar. Do meu ponto de vista, eu creio que o Jazz em Agosto podia, mas não cumpre, esse papel de trazer ao público nacional o Jazz moderno. E podia até, se quisesse, contribuir para incentivar os músicos nacionais em busca de uma identidade moderna.
Enfim, onde está a modernidade, se ele ainda se coloca dentro do que pode definir-se como Jazz, mais importante qual o grau de elaboração e qual o valor real das propostas (expurgadas dos acessórios espectaculares), são algumas das tarefas que a crítica enfrenta na observação do Jazz em Agosto.

Festival personalizado entre os personalizados, o Jazz em Agosto afirma-se o detentor do futuro e de forma crítica contra o Jazz mainstream (como outros se apresentam de forma arrogante como os senhores do verdadeiro Jazz). Assim foi desde o seu início, mas na programação pós 2000, eu creio que o Jazz em Agosto teve alguns momentos felizes e muitos equívocos. Para a primeira categoria entram o Julius Hemphill Sextet de Marty Ehrlich em 2003, Joe Morris em 2000, The Claudia Quintet de John Hollenbeck em 2006 e Dave Douglas & Brass Ecstasy em 2009. Para a segunda entram Graham Haynes em 2000, Jean Luc Cappozzo / Axel Dörner / Herb Robertson em 2005, Larry Ochs / Fred Frith / Lê Quan Ninh, em 2006, os Hubbub em 2007, a Globe Unity Orchestra em 2005, John Zorn / Fred Frith e o Peter Brötzmann Chicago Tentet em 2008, ou o George Lewis Sequel em 2009.
Este texto está longe de esgotar os temas – o Jazz em Agosto, a definição do Jazz, a modernidade ou o papel da crítica – e a eles voltarei se necessário.


2009
Ao contrário do conceito de 2008 que parecia olhar o passado, o Jazz em Agosto 2009 escolheu como tema «Ícones e Inovadores». Para a categoria encontrou alguns representantes de outros tempos, mas também alguns jovens.
Anunciado como um dos mais inovadores projectos do festival, o George Lewis Sequel demonstrou-se absolutamente falhado. Houve um tempo, há muitos anos em New Orleans, em que a música se tornou realmente democrática: toda ou quase toda a gente sabia tocar. O Jazz nasceu daí, na rua, também como expressão democrática. O que George Lewis levou à Gulbenkian foi a antecipação futurista de uma outra possibilidade de democracia: a de quando todos tocarem sem ninguém saber como. Como era previsível pelo excesso de computadores, o concerto de George Lewis revelou-se completamente aborrecido. A rapariga do gira-discos que andou sempre perdida era especialmente irritante e nem os raros assomos do trombone de Lewis se mostraram minimamente interessantes. Alguém anda a ver demasiada sf gore (E talvez até que como banda sonora o «concerto» funcione. Talvez mesmo acrescentando alguns aviões...).
O tarde do segundo dia apresentou um arrojado projecto denominado Rough Americana que integrava dois músicos em gira-discos, gravador magnético, efeitos e guitarra preparada. Mas um tipo deitado no chão a tocar guitarra preparada e uma jovem radical a manipular gira-discos não faz o meu género musical. Pedante e inútil.
O primeiro momento interessante do Jazz em Agosto foi protagonizado pela Nublu Orchestra de Lawrence Butch Morris. O colectivo é impulsionado a partir de um código de uma trintena de signos numa recriação original dos head arrangement de Duke Ellington. As peças baseiam-se em formas pré-concebidas que vão sendo moldadas a belprazer do maestro, deixando muito pouco espaço à criatividade individual. Curioso.
Como eu tinha alertado na crítica a Spirit Moves, quem esperava por uma música do tipo Dirty Dozen no concerto do Dave Douglas Brass Ecstasy deverá ter ficado defraudado. O trompetista nunca aposta no mais fácil, e apesar de nos últimos temas ele se aproximar um pouco da música mais desbragada de Lester Bowie. O repertório de Spirit Moves são histórias, ou paisagens. Actores são evocados tornando-se protagonistas; introduzindo ambientes e lugares, como se de cinema se tratasse por vezes. Pedaços da história do Jazz confluem em peças de Nino Rota; entra Lester Bowie, Fats Waller ou o trompete de Enrico Rava.
Sobre o pano de fundo criado pela bateria rude de Nasheet Waits (quase não tocando nos tímbalos e com uma tarola muito aberta à maneira de New Orleans) e a poderosa tuba (com uma dinâmica espantosa) de Marcos Rojas, a Brass Ecstasy é uma verdadeira orquestra de movimento e cor. Luis Bonilla será talvez o mais impulsivo e Douglas esteve magnífico e insuperável como sempre; mas impressionou-me verdadeiramente a figura seráfica de Vincent Chancey construindo um discurso impossível para a trompa no solo para Rava, e um pouco por todo o concerto. Mais empáticos, os temas Bowie e Rava ofereceram ao quinteto o aplauso unânime do público.
Sem dificuldade, o colectivo de virtuosos reunido na Brass Ecstasy realizou o melhor concerto do Jazz em Agosto do milénio, confirmando Dave Douglas como um dos mais prolíficos e geniais músicos da actualidade.
Peter Evans é um extraordinário trompetista, mas um concerto solo é um risco excessivo para o jovem académico. O concerto foi um exercício de puro exibicionismo, com o discurso completamente submetido à técnica e não a técnica a servir as composições ou o discurso. Como número de circo esteve realmente impressionante, mas como exercício musical foi curto.
Ainda nessa noite os Buffalo Collision protagonizaram alguns momentos altos, mas globalmente o concerto acusou o desequilíbrio do encontro (colisão?) entre dois conceitos radicalmente diferentes de Jazz que são afinal os dos The Bad Pus (mais pop, ritmado, comunicativo) e Tim Berne (mais abstracto e dissonante). Creio que o projecto tem pernas para andar, mas necessita de algum trabalho.
O concerto do Peter Evans Quartet foi realmente surpreendente para quem tinha visto o trompetista na tarde do dia anterior: quatro jovens músicos realizando uma música inteiramente escrita, interpretando temas de grande complexidade e erudição e de elevada exigência técnica! O excessivo academismo acabou por os trair no final da noite - revelando como de facto não eram músicos de Jazz - quando informaram que não poderiam tocar nenhum encore porque não tinham mais nenhuma peça ensaiada! Mas que raio de músicos de Jazz não têm um standard na manga? Nem sequer um blues? E uma interpretação mais marada de um Summertime? Nada mesmo?
Apesar da gaffe, este foi um dos grandes momentos do festival e Peter Evans é realmente um músico a seguir (mas tem que passar umas noites numa escola de Jazz a treinar nas jam sessions com os alunos do 1.º ano).
De regresso ao Anfiteatro 2, por diversas vezes acreditei que os Propagations iam começar a tocar, o que não veio a acontecer. Este tipo de exercício, supostamente inspirado nos quartetos de saxofone do Jazz, não o é realmente e tem muito pouco de original: há experiências deste tipo na música clássica erudita e mesmo na música pop com mais de trinta anos. Foi feito e está feito e esgotou-se há muito tempo lá atrás.
Mais um bom concerto a encerrar o Jazz em Agosto, confirmando a edição de 2009 como a melhor do século, e apesar da referida menoridade de alguns episódios. A Exploding Star Orchestra possui um som bastante original e um excelente equilíbrio para uma orquestra com uma paleta tímbrica tão variada. A base rítmica da orquestra é luxuriante, com dois bateristas que não se sobrepõem, uma marimba e um vibrafone para além das percussões; mas também um contrabaixo e um baixo eléctrico. O curioso é que nenhum dos instrumentos é despiciendo, e os arranjos para toda esta parafernália são bastante atentos e oportunos. Os sopros são também eles de nota com relevo para a excelente Nicole Mitchell na flauta, mas também o acutilante Jebb Bishop e o líder Rob Mazurek no trompete. O vocalista, que me deixou algumas interrogações, recriava, creio, a tradição dos poetas-declamadores negros dos anos 70 do género Amiri Baraka. O «som» da orquestra é pois bastante rico com uma diversidade de influências e referências bastante alargado; como disse com uma base rítmica bastante acentuada, o que lhe dava um certo matiz pop. Mas a longa peça que a Exploding Star tocou nunca se tornou monótona, revelando um excelente trabalho de composição e orquestração de Mazurek para um instrumento tão complexo.
A pecha do concerto acaba por ser a estrela convidada, o veterano Bill Dixon, que à evidência não está capaz de tocar. Bill Dixon, a quem é oferecido um excessivo protagonismo, tem o trompete ligado a uma câmara de eco, limitando-se a tirar dele um ocasional som, sempre igual, que o eco repete. É verdade que Mazurek moldou de forma bastante inteligente o som da orquestra para aquele som, mas não deixa ainda assim de ser patético. Gostaria de ouvir a orquestra sem Bill Dixon.
Mas este acabou por ser uma despedida bastante aplaudida do Jazz em Agosto 200
9, por um público bastante carente de algo que o faça mexer.

Sáb 1-Ago
Lisboa
Fundação Gulbenkian - AAL
21.30
Jazz em Agosto
George Lewis Sequel
George Lewis (trb, lap), Jeff Parker (g-el), Siegfried Rössert (ctb, voz, lap), Miya Masaoka (koto, lap, el), Kaffe Matthews (el), DJ Mutamassik (gir), Ulrich Müller (g, lap), Guillermo E. Brown (bat, perc, el)
Dom 2-Ago
Fundação Gulbenkian - A2
18.30
Rough Americana
DJ Mutamassik (gir, gra, ef), Morgan Craft (g preparada)
Fundação Gulbenkian - AAL
21.30
Nublu Orchestra
Lawrence D. «Butch» Morris (dir), Fabio Morgera (t), Jonathon Haffner (sa), Ilhan Ersahin (st), Ava Mendoza (g), Doug Wieselman (g, clb), Thor Madsen (g), J.A. Deane (sam, el), Juini Booth (ctb), Michael Kiaer (b-el), Kenny Wollesen (bat)
 
Qui 6-Ago
Lisboa
Fundação Gulbenkian - AAL
21.30
Jazz em Agosto
Dave Douglas & Brass Ecstasy
Dave Douglas (t), Vincent Chancey (tro), Marcus Rojas (tu), Luis Bonilla (trb), Nasheet Waits (bat)
Sex 7-Ago
Fundação Gulbenkian - A2
18.30
Peter Evans
Peter Evans (t)
Fundação Gulbenkian - AAL
21.30
Buffalo Collision
Tim Berne (sa), Ethan Iverson (p), Hank Roberts (celo), Dave King (bat)
Sáb 8-Ago
Fundação Gulbenkian - A2
18.30
Franziska Baumann + Matthias Ziegler
Franziska Baumann (voz, el, sensorlab), Matthias Ziegler (f, fb, fctb, loops)
Fundação Gulbenkian - AAL
21.30
Peter Evans Quartet
Peter Evans (t, pic-t), Ricardo Gallo (p), Tom Blancarte (ctb), Kevin Shea (bat)
Dom 9-Ago
Fundação Gulbenkian - A2
18.30
Propagations
Marc Baron (sa), Bertrand Denzler (st), Jean-Luc Guionnet (sa), Stéphane Rives (ss)
Fundação Gulbenkian - AAL
21.30
Bill Dixon with Exploding Star Orchestra
Bill Dixon (t), Rob Mazurek (t), John Herndon (bat), Damon Locks (voz), Josh Abrams (ctb), Jeff Parker (g-el), Nicole Mitchell (f, voz), Jebb Bishop (trb), Jason Adasewicz (vib, carrilhão), Matt Lux (b-el), Matt Bauder (clb, st), Mike Reeed (bat, tímpano)

2008
Iniciada em 2000 a muito interessante fórmula de festival temático escolheu para 2008 a ideia de «Extensões». Extensões do free-jazz, do que foi a delida vanguarda do Jazz nos anos 70, e a edição 2008 até foi relativamente pacífica dentro dos limites (alargados) do Jazz, e apesar da incipiência das propostas de Frith/Zorn e Brotzman e da inconsequência supostamente modernista de Otomo Yoshihide. De notar ainda a insistência em alguns nomes paradigmáticos que ora são apresentados como os digníssimos representantes do Jazz do futuro, ora como «extensões» da vanguarda do passado.
Não assisti aos concertos da tarde, pelo que apenas falarei sumariamente dos restantes.
O festival começou com Otomo Yoshihide, um guitarrista que tocou no festival em 2004 e que aqui se apresentou em formação alargada. Yoshihide tornou-se notado no trabalho inspirado em Eric Dolphy e pela técnica de guitarra bastante próxima de Fred Frith. No entanto em palco há quatro anos nem o trabalho de escrita nem a guitarra foram capazes de convencer. Neste regresso, a introdução de sopros no ambicioso projecto dolphiano apenas serviu para trazer a nu a fragilidade das estruturas. Longe de Dolphy os saxofones limitam-se a gritar sem consistência. Eric Dolphy merecia melhor.
Seguiu-se Satoko Fujii, uma pianista japonesa a residir em New York, cujo projecto se anuncia transfiguradora da música folclórica do Japão. A fusão da música experimental com o folclore nipónico pareceu aqui e ali trazer boas ideias, rapidamente desperdiçadas e o acordeão monocórdico de Andrea Parkins não ajudou.
Anunciado como o momento alto do festival, o concerto de John Zorn/ Fred Frith limitou-se a levar à exaustão o projecto de hecatombe que repetem desde há décadas. Fred Frith é um músico praticamente surdo ao universo exterior (tanto lhe faz que esteja alguém a toca com ele ou não), denotando como não é realmente um músico de Jazz. A técnica de guitarra de «improvisação total» de Frith, parece ter como único objectivo a fuga a qualquer sequência de acordes consonantes ou melodia, como quaisquer laivos de tema ou estrutura. Frith conhece como ninguém a guitarra, mas a repetição de efeitos ad nauseam tornou-se de há muito desinteressante. John Zorn é um dos mais ilustres representantes da downtown nova-iorquina que concentra em si o que de melhor e pior ela tem: irreverência, experimentalismo, arrojo versus gosto pelo espectáculo e pela provocação. Capaz do melhor (Masada) e do pior (Painkiller), o camaleão Zorn apresentou-se na versão radical: hora e meia a soprar no melhor da «estética do grito». O facto de Zorn e Frith andarem a repetir este projecto há trinta anos, não inibe o festival de o anunciar como «uma das mais caras fórmulas evidenciadas pelo jazz de hoje». Chato e repetitivo.
A segunda semana abriu com Taylor Ho Bynum, um discípulo de Anthony Braxton. Muitos anos a tocar com Anthony Braxton ensinaram-no como fazer. Expoente maior da difícil corneta, esteve competente à frente de uma formação atípica, mas faltou-lhe o golpe de asa na construção de uma música que se quis angulosa.
Um sério esforço de escrita e bastante criatividade fizeram do concerto de Sylvie Courvoisier o melhor do festival, mesmo se atira directamente para fora do Jazz. O elevado nível dos músicos (Mark Feldman, Vincent Courtois, Gerald Cleaver…), ajudou… A música de Courvoisier é fria e cerebral; mas se o trabalho do computador pareceu com frequência abstruso, a bateria compensou o nervo que por vezes andou arredado do quinteto.
O muito aguardado derradeiro concerto do Jazz em Agosto trouxe de novo Peter Brötzmann, num concerto que decorreu afinal sem qualquer novidade. Quarenta anos a tocar da mesma forma fazem dele um exemplar de perseverança, mas a artilharia ruidosa que nos anos 70 parecia ser um modelo plástico era apenas - em tempos de «revolução» - ruidosa pólvora seca com justificação social. Mudam-se os tempos e Peter Brötzmann é hoje apenas um rebelde sem causa fora de tempo. Juntar mais músicos sem quaisquer laivos de composição raia a indigência e não faz melhor música (mas apenas mais ruído). Creio que Brötzmann poderia fazer melhor. Aborrecido.

Sex 1-Ago
Lisboa
Gulbenkian - Aud. Ar Livre
21.30
Jazz em Agosto
Otomo Yoshihide New Jazz Orchestra feat Axel Dörner, Cor Fuhler, Mats Gustafsson
OY (dir, g), Kahimi Karie (voz), Kenta Tsugami (sa, ss), Alfred Harth (st, cl-b), Mats Gustafsson (st), Sachiko M (sinewaves), Kumiko Takara (vib), Hiroaki Mizutani (ctb), Yasuhiro Yoshigaki (bat, t), Axel Dörner (t), Masahiko Okura (sa, cl-b, carrilhão), Taisei Aoki (trb), Cor Fuhler (p), Ko Ishikava (sho), Taku Unami (obj), Yoshiaki Kondoh (desenho som)
Sáb 2-Ago
Gulbenkian - Aud. Ar Livre
21.30
Satoko Fujii Min-Yoh Ensemble
S. Fujii (p), Natsuki Tamura (t), Curtis Hasselbring (trb), Andrea Parkins (acor)
Dom 3-Ago
Gulbenkian - Aud. Dois
18.30
PAAP
Inada Makoto (ctb, voz), Katori Koichiro (p, aco, voz), Mizutani Yasuhisa (ss, cl, f, per)
Gulbenkian - Aud. Ar Livre
21.30
John Zorn / Fred Frith
JZ (sa), FF (g- el)
Qui 7-Ago
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Taylor Ho Bynum Sextet
THB (corn), Matt Bauder (st, cl, cl-b), Mary Halvorson (g-el), Evan O’Reilly (g-el), Jessica Pavone (vola, b-el), Tomas Fujiwara (bat)
Sex 8-Ago
Gulbenkian - Aud. Dois
18.30
Memorize the Sky
Matt Bauder (st, cl, cl-b, per), Zach Wallace (ctb, vib, perc), Aaron Siegel (perc)
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Sylvie Courvoisier Lonelyville
SC (p), Mark Feldman (v), Vincent Courtois (vcelo), Ikue Mori (laptop), Gerald Cleaver (bat)
Sáb 9-Ago
Gulbenkian - Aud. Dois
15.30
Fritz Hauser
FH (perc)
Gulbenkian - Aud. Dois
18.30
Pascal Contet/Barre Phillips
PC (ac), BP (ctb)
Gulbenkian - Anf. Ar Livre
21.30
Peter Brötzmann Chicago Tentet
PB (cl, taragot, sa, st), Mats Gustafsson (sb, slide sax), Ken Vandermark (cl, st, sb), Joe McPhee (t, sa), Johannes Bauer (trb), Jeb Bishop (trb), Per Ake Holmlander (tu), Fred Longberg-Holm (vcelo), Kent Kessler (ctb), Paal Nilssen-Love (bat), Michael Zerang (bat)

 


Jazz em Agosto 2007

Sex 3-Ago Lisboa Fundação Gulbenkian 21.30 Jazz em Agosto Muhal Richard Abrams - George Lewis - Roscoe Mitchell - MRA (p), GL (trb, lap), RM (sa, ss, perc)
Sáb 4-Ago Lisboa Fundação Gulbenkian 15.30 Jazz em Agosto Muhal Richard Abrams - conferência «Projecting Your Own Individualism»
Lisboa Fundação Gulbenkian 18.30 Jazz em Agosto Hubbub - Frédéric Blondy (p), Bertrand Denzler (st), Jean-Luc Guionnet (sa), Jean-Sébastien Mariage (g-el), Edward Perraud (bat)
Lisboa Fundação Gulbenkian 21.30 Jazz em Agosto Nik Bärtsch’s Ronin - NB (p), Sha (cl-baixo, cl-ctb), Björn Meyer (ctb), Kaspar Rast (bat), Andi Pupato (perc)
Dom 5-Ago Lisboa Fundação Gulbenkian 15.30 Jazz em Agosto Carlos Zíngaro / Jorge Lima Barreto - CZ (v), JLB (p)
Lisboa Fundação Gulbenkian 18.30 Jazz em Agosto Low Frequency Tuba Band - Sérgio Carolino (tub), Oren Marshall (tub), Marcus Rojas (tub), Jay Rozen (tub), Alexandre Frazão (bat)
Lisboa Fundação Gulbenkian 21.30 Jazz em Agosto Crimetime Orchestra - Vidar Johansen (st, sb, cl- b), Jon Klette (sa), Kjetil Møster (st), Øivind Brekke (trb), Sjur Miljeteig (t), Mats Eilertsen (b-el), Per Zanussi (ctb), Anders Hana (g-el), Christian Wallumrød (p, tec, efeitos), Eudun Kleive (bat), Stig Henriksen (som)
Qui 9-Ago Lisboa Fundação Gulbenkian 18.30 Jazz em Agosto «Ornette: Made In America» - Filme documental de Shirley Clarke
Lisboa Fundação Gulbenkian 21.30 Jazz em Agosto Joe Fonda’s Bottoms Out «Loaded Basses» - Joe Fonda (ctb), Claire Daly (sb), Joe Daley (tub), Gebhard Ullmann (cl-b), Michael Rabinowitz (fagote), Gerry Hemingway (bat)
Sex 10-Ago Lisboa Fundação Gulbenkian 15.30 Jazz em Agosto «My Name Is Albert Ayler» - Filme documental de Kasper Collin
Lisboa Fundação Gulbenkian 18.30 Jazz em Agosto Conferência por Ornette Coleman
Lisboa Fundação Gulbenkian 21.30 Jazz em Agosto Quartet Noir - Urs Leimgruber (st, ss), Marilyn Crispell (p), Joëlle Léandre (ctb), Fritz Hauser (bat)
Sáb 11-Ago Lisboa Fundação Gulbenkian 15.30 Jazz em Agosto Joëlle Léandre (ctb)
Lisboa Fundação Gulbenkian 18.30 Jazz em Agosto Timbre - Lauren Newton (voz), Elisabeth Tuchmann (voz), Oskar Mörth (voz), Bertl Mütter (voz, trb)
Lisboa Fundação Gulbenkian 21.30 Jazz em Agosto Ornette Coleman Quintet - OC (sa, v, t), Tony Falanga (ctb),Charnett Moffett (ctb), Al Macdowell (b-el), Ornette Denardo Coleman (bat)

Jazz em Agosto na internet:

http://www.musica.gulbenkian.pt/jazz/index.html.pt