Jazz no Parque - Serralves
2011
Com vinte anos de idade, o Jazz no Parque
em Serralves granjeou já um
lugar entre os mais importantes festivais de Jazz nacionais. Por ele têm
passado alguns dos mais estimulantes projectos da cena Jazz internacional,
mas também nacional, já que o formato do festival conta desde
a primeira hora com a participação nacional.
Em ano de celebração, o cartaz do festival teve um programa
especialmente apelativo e foi acrescido de um quarto concerto. Charles Lloyd
New Quartet, Mário Laginha, Dave Douglas Tea For Three e Chris Lightcap
Bigmouth DeLuxe foram os quatro espectáculos agendados: um verdadeiro
luxo.
Charles Lloyd New Quartet ![]()
Um concerto de Charles Lloyd é sempre um evento extraordinário
e eu tive a felicidade de o ter visto tocar uma boa dezena de vezes em várias
formações. No espaço idílico de Serralves o velho
guerreiro voltou a surpreender pela beleza e calor da sua música.
A suportar o saxofone emocionante de Lloyd esteve o New Quartet que o acompanha
desde 2006. Grupo superlativo, com destaque para a estrela Jason Moran que
substituiu Geri Allen, o pianista tem-se revelado uma peça preciosa
no desenho da arquitectura da música de Lloyd, complementando as linhas
melódicas do saxofone, em solos inspirados ou na direcção
da secção rítmica. Curiosamente, em Serralves, o trio
rítmico esteve até relativamente discreto, relegando quase
todo o protagonismo para o líder. A dupla Eric Harland/ Reuben Rogers
funciona como um só indivíduo, enriquecida pelas linhas do
piano, na construção do edifício que suporta o saxofone
de Lloyd.
Lloyd não trouxe a Serralves nenhum novo disco, tendo o alinhamento
percorrido grande parte da vida do artista, entre New Anthem, Monks Mood,
Sweet Georgia Bright ou Rabo de Nube, com que terminou o concerto. Mas a
ele se sucederia um inédito encore de trinta minutos: «Ele apenas
sentiu que tinha que dizer aquilo, que o público soubesse mais da
sua música, que o público merecia.», respondeu Jason
Moran à minha interrogação. Mas foi óbvio que
o prolongado encore tinha sido uma surpresa, também para a banda.
Concerto sereno e belíssimo.
Mário Laginha ![]()
O segundo concerto resultou de uma encomenda do festival a Mário Laginha.
O pianista apresentou sete peças expressamente escritas para a ocasião,
e convidou dois músicos que com ele tocaram neste mesmo festival há dez
anos atrás num atribulado concerto deslocado para o Auditório de
Serralves devido ao mau tempo: o saxofonista Julian Arguelles e o percussionista
Helge Norbakken. Os dois músicos colaboraram com Laginha em diversos projectos
ao longo dos anos, e a amizade que os une revela-se também na cumplicidade
das formas que cultivam: não faltaram à chamada.
Mário Laginha é provavelmente o nosso mais versátil e profícuo
pianista, notável como trabalha sobre todo o tipo de materiais – entre
a música popular (as músicas populares, folclóricas, étnicas,
das mais variadas origens) e a clássica, com relevo para Bach (mais que
uma paixão, uma autoridade) ou, mais recentemente, Chopin. E naturalmente
o Jazz, que conheceu com Keith Jarrett.
O que Laginha trouxe a Serralves foi no entanto material inédito onde
inevitavelmente encontrámos essas influências dispersas, mas de
forma intrincada e subtil. Sete peças construídas – e tocadas – de
forma quase febril, mas que creio a merecerem posterior atenção.
Sete peças construídas para os seus dedos, surgindo os espaços
destinados ao saxofone e percussão amiúde com algo de artificial,
e que apenas não teve maior relevância devido ao brilhantismo dos
dois acompanhantes e ao conhecimento empático da música de Laginha,
e apesar do reduzido tempo que tiveram para ensaiar.
Arguelles e Norbakken revelaram-se eficazes na execução de uma
suite de sete composições que quase desconheciam, mas de acordo
com uma plástica que lhes era obviamente familiar. Arguelles possui um
som poderoso e vibrante e aquele sexto sentido dos grandes músicos de
Jazz que lhe permite antecipar o que os companheiros vão tocar, e esteve
particularmente brilhante nos curtos duetos com Laginha, que nos fez ansiar por
um disco dos dois. Helge Norbakken é um bom percussionista, cuja parafernália
oferece ao piano de Laginha um colorido que o complementa bem. O óbice
do seu instrumento é … não ser uma bateria; quero dizer,
a ausência dos pedais substituídos por um tcheco-tcheco monótono,
cuja limitação se foi acentuando ao longo do concerto, e que constituiu
verdadeiramente a sua pecha.
Laginha possui uma escrita luminosa, que é muito pessoal e profundamente
tocada pela sua forma de tocar, o seu virtuosismo, mas também algumas
figuras de estilo que são a marca mais visível da sua personalidade
musical e que o tornam reconhecível como nenhum outro pianista nacional.
Claramente a música que Laginha trouxe a Serralves estava fresca ao ponto
de não possuir ainda nome. E assim foi tocada, com o que de arriscado
a música «em construção» possui, de possibilidade
de erro, mas também de alegria e aventura.
Este concerto foi gravado para posterior edição comemorativa dos
vinte anos do Jazz no Parque.
Dave Douglas Tea for Three ![]()
Desde o primeiro momento que o concerto de Dave Douglas programado para o Jazz
no Parque gerava grandes expectativas. A música de Dave Douglas possui
sempre um elevadíssimo grau de exigência que se reflecte nos grupos
e projectos que dirige ou em que participa. Não era aqui - no nível
dos músicos convocados, todos eles nomes consagrados com excepção
para a contrabaixista - que residia a expectativa, mas no – igual - instrumento
dos três solistas: o trompete.
A secção rítmica - um luxo absoluto -, contou com Uri Caine
no piano, num registo Jazz exemplar, longe longe das irreverentes recriações
de Bach ou Mozart que o tornaram famoso, bastante próximo do bop até,
por vezes, ora lírico ora percussivo, sempre inspirado. Uri Caine revelou-se
modelar na ponte entre a direcção da secção rítmica
e a distribuição para os sopros. Na bateria, Clarence Penn esteve
relativamente discreto mas irrepreensível (embora fosse talvez de esperar
uma bateria mais intrusiva) e Linda Oh (que substituía James Genus no
contrabaixo) foi a revelação da noite, seguríssima num repertório
que não era o seu, firme como uma âncora nas marcações
e exuberante nos solos.
De exuberância podemos falar nas prestações dos três
trompetes, mas espantosa foi a constatação de como três instrumentos
iguais podem soar tão diferente (e nem sequer alguém utilizou a
subtileza da troca do trompete pelo fluegel) e apenas foi feita uma ocasional
utilização de surdinas.
Não sendo vulgares, existem vários exemplos modelares de agrupamentos
de saxofones na história do Jazz, entre os Four Brothers de Jimmy Giuffre
de 1947 (na orquestra de Woody Herman, três tenores e um barítono)
e o World Saxophone Quartet dos anos 70 (toda a gama de palhetas). Serão
raros os trios de trompete. O que ressaltou daquela frente de palco foi a evidência
de como o Jazz é a mais personalizada das formas musicais: mais do que
três trompetes, estiveram em palco três indivíduos, três
personalidades musicais. Douglas possui um ataque e um controle de som formidáveis,
muito complexo e moderno; curiosamente é o mais jovem dos três,
Avishai Cohen, o representante mais clássico dos três no tratamento
do trompete, muito Clifford Jordan, muito rápido e fluente; enquanto que
o veterano Enrico Rava se apresentou igual a si próprio, lírico
e espacial. Que o resultado se possa revelar tão equilibrado resulta,
não apenas do elevado nível destes músicos, mas principalmente
do génio ímpar do Jazz contemporâneo que é Dave Douglas,
patenteado nos temas, arranjos e direcção musical.
Música estimulante, a retirar dos músicos o que eles possuem de
mais íntimo e criativo. Música exigente, sem concessões,
e ao mesmo tempo humorada. E apesar de tudo, eu creio que este grupo ainda tem
muito para dar. Aguarda-se com expectativa a edição de um disco.
![]() |
Dave Douglas
Tea For Three
(equilíbrio instável em Serralves) |
Chris Lightcap Bigmouth DeLuxe ![]()
Para o quarto concerto – excepcional – do festival, reservou o programador
António Curvelo um dos projectos mais interessantes do ano passado, editado
em disco pela Clean Feed, o Chris Lightcap Bigmouth DeLuxe. Infelizmente nem
toda a banda original estava disponível e o resultado não podia
deixar de ser afectado, mesmo se o concerto não desmereceu. Faltou Craig
Taborn, substituído por Gary Versace, e Chris Cheek, por Andrew Bishop,
e faltou ainda Andrew D'Angelo que toca no CD em três temas.
Como anteriormente tínhamos notado, o disco, inteiramente gravado e misturado
em New York pelo autor, começa por se impor pelo nível das composições,
que combinam de forma invulgar exuberância rítmica e um intrincado
arranjo para saxofones e teclas, o que esteve patente em todo o concerto, mesmo
se a ausência e substituições referidas trouxessem a nu alguma
repetição de soluções.
Curiosamente, e à semelhança do concerto anterior, também
nesta tarde se apresentaram em palco dois instrumentos iguais – dois saxofones
tenor -, mas também eles revelaram de forma exemplar de como no Jazz é o
músico e não o instrumento que faz a música. E inevitavelmente
também as duas substituições haveriam de tocar o resultado
final. Chris Cheek é uma das vozes mais singulares do saxofone contemporâneo
e o desafio que se colocou a Bishop era algo injusto. Competente e vigoroso,
ele revelou-se até bastante convincente na interpretação
do reportório, mas ele não possui o carisma de Cheek. O mesmo aconteceu
com Versace, um teclista muito menos anguloso que Craig Taborn (que no disco
alterna o wurlitzer com o piano acústico). E haveria ainda de se notar
a ausência do saxofone alto do vulcânico Andrew D'Angelo que toca
em mais de um terço do tempo do disco.
Apesar da já referida monotonia ocasional de algumas soluções,
foi muito interessante observar como funcionaram ao vivo as combinações
tímbricas dos saxofones ou dos saxofones – teclas, ora se complementando,
ora competindo entre si, com o impulsivo Tony Malaby particularmente bem; enquanto
o contrabaixo se permitiu um protagonismo que o disco não revela, intrometendo-se
nos solos ou impelindo a secção rítmica.
Um excelente final para o Jazz no Parque 2011.
JazzLogical esteve
no Jazz no Parque a convite da Fundação Serralves.
Dom
10-Jul
|
Porto
|
Serralves
|
18.00
|
Charles Lloyd
New Quartet
|
Charles Lloyd (s), Jason Moran (p), Reuben Rogers (ctb), Eric Harland (bat) |
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Sáb
16-Jul
|
18.00 | Mário
Laginha e convidados
|
Mário Laginha (p), Julian Arguelles (s), Helge Norbakken (per) |
|||
Sáb
23-Jul
|
18.00 | Dave Douglas «Tea
for 3»
|
Dave Douglas (t), Enrico Rava (t), Avishai Cohen (t), Uri Caine (p, tec), Clarence Penn (bat), Linda Oh (ctb) |
|||
Sáb
30-Jul
|
18.00 | Chris Lightcap's
Bigmouth
|
Chris Lightcap (ctb), Tony Malaby (st, ss), Andrew Bishop (st), Gary Versace (p), Gerald Cleaver (bat) |
SERRALVES 2011 – Texto de sala
HÁ 20 ANOS
Há 20 anos quando, pela mão de António Pinho Vargas, Jazz no Parque de Serralves estreou o seu primeiro cartaz, o país do jazz era assim:
1) Os concertos avulsos
eram poucos. Ouvir e ver jazz ao vivo era privilégio maior dos militantes
dos festivais, também eles raros.
Em 1992 havia três. Às portas de Lisboa, o primogénito
(e visionário) Festival de Cascais (1971) já passara o testemunho
ao Estoril Jazz (1989). A Fundação Calouste Gulbenkian albergava,
desde 1984, o Jazz em Agosto. E o Porto, com o seu Festival de Jazz Europeu,
acabara de assinar o ponto em 1991. Para trás ficara um mapa semeado
de mortos de vida curta.
Anos antes, entre 1971 e 1991, o jazz tudo fez para recuperar o tempo perdido.
Nesses outros 20 anos, quatro dos quais ainda amordaçados, a lista dos
grandes mestres da história do jazz com estreia em palco português
deu um salto gigantesco. Se até ao primeiro Cascais Jazz esse rol de
presenças não ultrapassaria escassas dezenas, o futuro foi recebendo
e aplaudindo a esmagadora maioria das referências obrigatórias
da história do jazz, fosse ela escrita nos EUA ou na Europa. Ao ponto
de hoje não ser fácil identificar nomes por estrear, independentemente
de escolas ou estéticas.
2) Os músicos
de jazz portugueses já tinham levado a carta a Garcia. Mas ainda
se contavam pelos dedos.
Rão Kyao já legara ao jazz o seu espólio discográfico.
Zé Eduardo, que entre 1982 e 1990 fizera escola no Tallers de Músics
de Barcelona, veio a Lisboa semear a Orquestra de Jazz do Hot Clube, a primeira
de muitas big bands made in Portugal nascidas com o seu ex-libris (a primeira
ameaça acontecera em 1978 com a Orquestra Girassol, um decateto de vida
efémera). António Pinho Vargas, com José Nogueira sempre
a seu lado, consolidava currículo, em palco e em estúdio. Carlos
Martins, Mário Laginha (ambos fundadores do Sexteto de Jazz de Lisboa)
e Mário Delgado tocavam com os melhores, os mesmos que hospedavam Carlos
Barretto, quando em Lisboa interrompia a sua residência parisiense (que
já lhe valera um disco com Mal Waldron). Depois dos standards, mas ainda
antes de cantar os mundos das suas cumplicidades com o piano de Laginha, Maria
João era a voz. Maria Viana e Paula Oliveira também ganhavam
nome. Os jovens irmãos Moreira (Bernardo, Pedro, João) e Bernardo
Sassetti conquistavam espaço e futuro.
Desembarcados de Nova Iorque, Sérgio Pelágio (1987) e Pedro Madaleno
(1990), pioneiros na exploração das escolas americanas, seriam
decisivos na formação da seguinte geração de guitarristas.
Laurent Filipe terminara em 1991 a docência no Tallers de Músics
e só então começaria a enraizar-se em Portugal. De Berlim
ouviam-se bons ecos de Carlos Bica.
A norte também havia vida, a começar pelos irmãos Barreiros,
a que se viriam a juntar, ao ritmo do tempo, Carlos Azevedo, Mário Santos,
José Luís Rego e Pedro Guedes (todos eles futuros construtores
da Orquestra de Jazz de Matosinhos), Paulo Gomes, Fátima Serro, Maria
Anadon.
Mas a nova geração, que hoje dá cartas, ainda não
se anunciava nos nomes de André Fernandes, Nuno Ferreira, Nelson Cascais
(entre outros).
Cimento histórico do jazz renascido após o 25 de Abril, a Escola
do Hot Clube de Portugal (a partir de 1979) e a Escola de Jazz do Porto (1985)
afirmavam-se como maior denominador comum da esmagadora maioria dos nomes citados,
ora docentes ora discípulos.
E em matéria discográfica, escasso era o número de músicos
com currículo registado.
3) Em 1992 não era fácil para os músicos portugueses encontrarem palco. À excepção do Hot Club as portas raramente se lhes abriam. Os concertos avulsos perdiam-se no calendário anual e os poucos festivais existentes, à medida que se internacionalizaram, reduziram-lhes o espaço. No Estoril Jazz, entre 1990 e 1994, para um total de 25 concertos apenas Bernardo Sassetti foi chamado. Jazz em Agosto, que nasceu com elenco português (quatro grupos em 1984) contabilizou no mesmo período 26 concertos, três dos quais com liderança de músicos portugueses. O mesmo aconteceu, embora de forma atenuada, com a internacionalização de Jazz no Parque que, todavia, fez questão de manter a regra de um projecto nacional num total de três/quatro concertos por edição. E o Guimarães Jazz (o outro festival sobrevivente que este ano também festeja o 20º aniversário) abraçou idêntica tendência.
2011
Nos últimos 20
anos quase tudo mudou.
Numa primeira fase, o circuito dos festivais, promovido pelas autarquias, expandiu
a sua geografia, alargando-se do continente às regiões autónomas.
E o ciclo de concertos avulsos conheceu um impulso inédito, em grande
parte de novo à custa do apoio municipal.
Mas os anos mais recentes foram de recessão, com o jazz a assistir à explosão
da sua “bolha imobiliária”. Com a aritmética dos
concertos individuais em nítida retracção e o mundo dos
festivais em acelerada mutação, foi possível, todavia,
manter uma regular convivência com os músicos estrangeiros mais
significativos da contemporaneidade do jazz.
Muitos festivais fecharam portas, alguns esgotados num par de edições.
Mas outros continua(ra)m a nascer, regressando, de certo modo ao figurino primitivo
(dois ou três concertos num fim de semana reunindo grupos portugueses).
De acordo com as informações disponíveis na melhor fonte
informativa sobre o jazz em Portugal (o site JazzLogical), 2010 contabilizou
mais de meia centena de festivais/ciclos de jazz. Mesmo admitindo tratar-se
de um panorama altamente volátil, certo é que os concertos existem
e traduzem um constante crescimento do número de músicos de jazz,
fruto do trabalho das escolas de jazz, também elas em manifesta afirmação,
como anualmente atestado por esse momento insubstituível que é a
Festa do Jazz.
Ao mesmo tempo, acentuou-se o reconhecimento internacional dos nomes consagrados
em Portugal e apesar da crescente desertificação do mercado discográfico,
progride o número de músicos com trabalhos publicados, em grande
parte graças ao esforço de duas editoras portuguesas (Clean Feed
e Tone of a Pitch). E, fenómeno recente, aumentou o número de
espaços (clubes, bares) abertos ao jazz, nomeadamente em Lisboa e Porto.
É neste contexto que Jazz no Parque atinge o seu 20º aniversário,
uma maturidade partilhada por poucos mais festivais nacionais.
Dezanove edições passadas, parece legítimo reconhecer-lhe
uma continuada fidelidade ao seu código genético. Decidida a
sua internacionalização a partir da segunda edição
(1993), o jazz em Serralves procurou crescer em duas vertentes: apostando,
em paralelo, nos nomes mais criativos das cenas internacional e nacional e,
simultaneamente, divulgando a diversidade e pluralismo do jazz contemporâneo,
numa preocupação programática de inclusão em detrimento
da exclusão.
Em época de (super)crise, o cartaz de Jazz no Parque 2011 traduz um
assinalável esforço para celebrar de forma singular essa efeméride.
Concretizada a possibilidade de realizar quatro concertos (um desejo anualmente
adiado), procurou-se juntar nomes (ainda) maiores:
– Charles Lloyd e o seu New Quartet;
– o último projecto de Dave Douglas, “Tea for 3”;
– Bigmouth, o quinteto do contrabaixista Chris Lightcap, responsável
por um dos melhores discos de 2010, realizando os seus membros um workshop, numa
iniciativa conjunta da Fundação de Serralves com a ESMAE;
– o reencontro de Mário Laginha com dois dos seus companheiros de
eleição. Reencontro que ficará para a história como
um testemunho muito especial da 20ª edição de Jazz no Parque:
um programa de originais inéditos encomendado a Mário Laginha e
que será editado em disco.
10 Julho (domingo)
CHARLES LLOYD NEW QUARTET
Charles Lloyd- saxofones
Jason Moran – piano
Reuben Rogers – contrabaixo
Eric Harland – bateria
Ao confiar a abertura ao saxofonista Charles Lloyd, essa fénix renascida
na década de 80 do século XX, Serralves celebra a essência
do jazz. Raros são os músicos vivos que encarnam de forma tão
profunda a dualidade ontológica, body and soul, do jazz. Companheiro
de Canonball Adderley, cúmplice de Chico Hamilton, Charles Lloyd marcou
o jazz dos anos 60 quando liderou um quarteto (Keith Jarrett, Cecil McBee e
Jack DeJohnette) que virou bandeira de uma época em que se cruzavam
o movimento hippie, o flower power e as manifestações pela paz
e contra a guerra do Vietnam. A sua ressurreição musical, nas
décadas 80/90, como líder de sucessivos quartetos de excelência
atingiu a plenitude com o presente New Quartet, colectivo perfeito em que o
pianista Jason Moran se afirma, mesmo que involuntariamente, mais igual do
que os outros.
Na liberdade musical de Lloyd o jazz comunga o seu passado e futuro.
16 Julho (sábado)
MÁRIO LAGINHA e Convidados
Mário Laginha – piano
Julian Arguelles – saxofones
Helge Norbakken – percussão
“O saxofonista
inglês Julian Arguelles e o percussionista norueguês Helge
Norbakken são dois dos músicos que mais admiro e com quem
tenho tido o prazer de tocar com alguma regularidade ao longo dos anos.
Há exactamente dez anos atrás, lembrei-me de nos juntarmos
para tocarmos em Serralves. Um azarado dia de chuva levou-nos para o auditório
- como única alternativa - e a fazer não um, mas dois concertos,
para que todos os que tinham comprado bilhete pudessem assistir. É certo
que foi um pouco violento, mas valeu a pena. O resultado foi tão
mágico que ainda hoje oiço essa gravação com
a sensação de ter feito, naquela noite, um dos concertos
da minha vida.
O convite, que não me podia deixar mais feliz, para escrever música
original agora, para este concerto que pretende homenagear os 20 anos do Jazz
no Parque de Serralves, "empurrou-me" inevitavelmente para essa formação.
Escrever música nova e gravar um disco com o Julian e o Helge, eis um
projecto que tem estado sempre no meu horizonte e, por várias razões,
tem sido repetidamente adiado. Já não será mais, graças
ao convite do Jazz no Parque. Obrigado.”
Mário Laginha (Junho 2011)
23 Julho (sábado)
DAVE DOUGLAS’ TEA FOR 3
Dave Douglas – trompete
Enrico Rava – trompete
Avishai Cohen – trompete
Uri Caine – piano, teclados
Linda Ho – contrabaixo
Clarence Penn – bateria
Poucos nomes simbolizam
de forma tão exemplar a pluralidade do jazz actual como Dave Douglas
(n. 1963), líder de inúmeras formações geradoras
de um vasto mosaico de opções estéticas.
Reconhecido como um dos trompetistas e compositores mais originais da sua geração,
Dave Douglas volta a surpreender com o seu último projecto, mais uma
vez, inovador. Construído em torno de um sexteto de singular identidade
instrumental (três trompetistas + secção rítmica), “Tea
for 3” reúne peças originais do próprio Douglas
e temas clássicos associados a grandes trompetistas com marca histórica
no jazz. Os seus dois cúmplices directos são, também eles,
inesperados: Enrico Rava (n. 1943), um ícone do jazz europeu, desde
os anos do free à reinvenção da coabitação
do jazz com as raízes musicais das tradições musicais
de Itália, e o israelita Avishai Cohen (n. 1971), um nome em acelerada
ascensão que Jazz no Parque já recebeu em 2009, como membro do
sexteto “Kind Steps” de Mário Barreiros.
30 Julho (sábado)
CHRIS LIGHTCAP’s BIGMOUTH
Chris Lightcap – contrabaixo
Tony Malaby – saxofones
Andrew Bishop – saxofones
Gary Versace – piano, fender rhodes
Gerald Cleaver – bateria
Com “Bigmouth”, fundado em 2003, Chris Lightcap colocou o seu quinteto homónimo no centro das atenções do mundo do jazz. Contrabaixista sem pecado e compositor original, Lightcap (n. 1971) lidera uma formação cuja estabilidade conceptual não cede às frequentes mudanças conjunturais impostas por uma cena de compromissos internacionais cada vez mais exigente. Raramente abdicando da fiabilidade percussiva de Gerald Cleaver e da sólida imaginação do saxofonista Tony Malaby, “Bigmouth” alterna, sempre que necessário, Craig Taborn e Gary Versace nos teclados e Chris Cheek e Andrew Bishop como segundo sopro. O reportório de originais de Lightcap que alimenta o quinteto, inscreve-se numa das mais criativas correntes “pró-mainstream” do jazz contemporâneo, marcada por uma sedutora plasticidade melódico-harmónica e grande agilidade polirítmica.
Uma muito especial palavra final, de saudação e agradecimento,
para os dois anteriores responsáveis pela programação
de Jazz no Parque – António Pinho Vargas, que lançou as
primeiras pedras, e José Nogueira, que lhe consolidou os alicerces.
Sem eles não celebraríamos hoje estes 20 anos do nosso contentamento.
António Curvelo
(Julho 2011)
2010
Vijay Iyer Trio ![]()
Votei Historicity (ver crítica
de discos) um dos melhores discos do ano passado e considero o jovem Vijay
Iyer um dos grandes pianistas do século. Dito isto, o concerto de
Serralves não pôde deixar de me trazer alguma frustração,
mesmo se não retirei nada ao disco ou às qualidades de Vijay
enquanto pianista. Creio que o concerto foi perturbado pelo … idílico
local que é o Jardim de Serralves e pela excepcional tarde que levou
a encher o ténis onde os concertos do Serralves em Festa se realizam.
Ele foi perturbado pelo calor e pelo sol (que perturbaram também a
minha, e creio que também do público, atenção),
pelas crianças a correr pela plateia empoeirada, os espectadores sedentos
que não paravam de passar à minha frente transportando copos
de cerveja, os ousados fotógrafos dependurados em tudo o que era sítio
entre árvores e candeeiros, e um som que nem sempre ofereceu o recorte
que a música angulosa do trio merece.
E apesar disso, mesmo se o trio não conseguiu transmitir a densidade que
Historicity comunica, este foi um excelente concerto.
Contact ![]()
O concerto de quinteto Contact (uma associação de luxo: Billy
Hart, John Abercrombie, Dave Liebman, Drew Gress e Marc Copland) que apresentava
o mais recente disco, Five Plus One,
teve em Serralves o último concerto da digressão europeia. De certa
forma o espectáculo padeceu dos mesmos males do concerto de Vijay Iyer,
mas o facto tomou aqui menos relevância, dado o cariz menos exigente, do
ponto de vista plástico; sem que daí se possa retirar algo da qualidade
da música. Apenas ela nunca se exigiu inovadora ou impetuosa como essoutra;
e pelo contrário nela se encontra uma bonomia aliada a cumplicidade que
apenas é permitida a um grupo de velhos amigos.
Música calma e saborosa, mesmo se nada é realmente calmo para o
saxofonista, onde a criatividade e energia servem de contraponto às texturas
luxuriantes de Abercrombie-Gress ou Copland-Abercrombie, evidenciadas pela subtileza
e sabedoria das formas arquitecturais da duplicidade Hart-Gress ou Hart-Gress-Copland.
Sáb
10-Jul
|
Porto
|
Serralves
|
18:00
|
Vijay Iyer
Trio
|
Vijay Iyer (p),
Stephan Crump (ctb), Marcus Gilmore (bat)
|
| Sáb 17-Jul | 18:00
|
Bernardo Sasseti
Trio com Perico Sambeat
|
Bernardo Sasseti
(p), Perico Sambeat (s), Carlos Barreto (ctb), Alexandre Frazão
(bat)
|
||
| Sáb 24-Jul | 18:00
|
Contact
|
Dave Liebman(s),
John Abercrombie (g), Marc Copland (p), Drew Gress (ctb), Billy
Hart (bat)
|
2009
Donny McCaslin Group ![]()
Foi com uma candura quase
infantil que Donny McCaslin me respondeu no final do concerto, confirmando
o ascendente de
Sonny Rollins na concepção e inspiração do
trio que o saxofonista levou a Serralves. Esta é uma fórmula
que poucos saxofonistas arriscam e ainda assim nem todos vencem: afinal
eles estão como em nenhuma outra situação, expostos;
mesmo mais, diria, que nos mais concisos duetos. O saxofonista é um
dos lados do triângulo que se quer equilátero, mas ele é o
lado mais visível!
McCaslin há muito se confirmou como um dos mais interessantes saxofonistas
da sua geração, como nós mesmo temos vindo a ver como solista
de eleição na orquestra de Maria Schneider, ao lado de David Binney,
Dave Douglas, ou no ano passado com George Schuller. McCaslin não é apenas
um poderoso saxofonista como a minha associação a Sonny Rollins
poderia sugerir; ele é um saxofonista inventivo e completo, dominando
por inteiro o instrumento como há muito não víamos. A história
do saxofone está toda contida em Don McCaslin, mas não é fácil – embora
seja possível - identificar aqui ou ali referências ou, pelo contrário,
pensar nele como uma síntese. O discurso de McCaslin aproxima-se mais
do que poderíamos chamar do saxofone total, que é afinal o que
encontramos também num David Binney, e é diferente
do que faz por exemplo James Carter, em que podemos ouvir uma referência,
outra referência e outra referência (e claro que as referências
são Eric Dolphy, Coltrane ou Anthony Braxton…). O saxofone de McCaslin
possui toda a história do saxofone Jazz em cada sopro, poderoso e subtil,
denso e mavioso, vertiginoso e dramático, dominador, definitivo.
O segundo aspecto a observar do concerto de Serralves, e que corresponde grosso
modo ao editado no CD Recomended Tools de 2008, são os temas, todos eles
originais de Don McCaslin, revelando a faceta de compositor emérito, mesmo
se para ele lhe seria relativamente fácil ao vivo explorar um lado mais
espectacular que o público sempre parece preferir. Trabalhando sobre materiais
dispersos, entre Billy Strayhorn, Hermeto Pascoal, Bill Frisell ou ainda Rollins
e Coltrane, os temas nunca se revelaram gratuitos, mesmo na exploração
ao vivo, quer dizer nos solos.
Johnathan Blake, o baterista de Recomended Tools, e o contrabaixista
Ricky Rodriguez (que substitui Hans Glawischnig), de que nunca ouvíramos
falar, revelaram-se peças basilares no trio. Os dois estiveram sempre
muito
lá em cima, perfeitamente à altura do saxofone; mais do que irrepreensíveis,
a todo o tempo versáteis, intervenientes e criativos, no acompanhamento
como nos solos.
O concerto do ano!
| Sáb 18-Jul | Porto
|
Ténis
do Parque de Serralves
|
18:00
|
Kind Steps (O Legado de 1959) |
Mário Barreiros (bat), Avishai Cohen (t), Ben Van Gelder (sa), Jesús Santandreu (st), Abe Rábade (p), Carlos Barretto (ctb) |
|
| Sáb 25-Jul | Donny McCaslin
Group
|
Donny McCaslin (s), Johnathan Blake (bat), Ricky Rodriguez (b) |
||||
| Sáb 1-Ago | Bennie Wallace «Plays
Monk»
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Bennie Wallace (s), John Hebert (ctb), Yoron Israel (bat), Donald Vega (p) |
2008
| Sáb 12-Jul | Porto
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Serralves
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18.00
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Trio Steve Kuhn
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SK (p), David Finck (ctb), Joey Baron (bat) |
| Sáb 19-Jul | Porto
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Serralves
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18.00
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Quarteto André Fernandes
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AF (g), Mário Laginha (p), Nelson Cascais (ctb), Alexandre Frazão (bat) |
| Sáb 26-Jul | Porto
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Serralves
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18.00
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Quarteto
Michel Portal
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MP (sa, bdon, cl), Tony Malaby (cl, s), Bruno Chevillon (ctb), Daniel Humair (bat) |
| Sáb | 21-Jul | Porto | Serralves | 18.00 | Jazz no Parque | Arts and Crafts - Ron Miles (t), Gary Versace (p, org), Dennis Irwin (b), Matt Wilson (bat) |
| Sáb | 28-Jul | Porto | Serralves | 18.00 | Jazz no Parque | Orquestra de Jazz de Matosinhos c/ John Hollenbeck + Theo Bleckmann - JH (dir, comp), TB (voz, comp) |
| Sáb | 4-Ago | Porto | Serralves | 18.00 | Jazz no Parque | Sexteto Henri Texier "Strada" |
Programação: António Curvelo
* 21 JULHO: Matt Wilson - "Arts & Crafts"
* 28 JULHO: Orquestra Jazz de Matosinhos convida John Hollenbeck
* 04 AGOSTO: Sexteto "Strada" de Henri Texier