Steve Lehman
Culturgest 16 Janeiro 2011 ![]()

Steve Lehman é um dos mais interessantes músicos da sua geração (ele tem 33 anos), que se tem feito notar pela introdução de elementos desenvolvidos pela música erudita na sua música, mas, diria eu, principalmente pela singular integração de elementos dispersos (adversos?). Lehman foi aluno de Tristan Murail, compositor francês que o introduziu no conceito de harmonia espectral; mas outros professores foram Anthony Braxton ou, nos antípodas, Jacky McLean, influências que são visíveis na arquitectura das composições ou no próprio timbre e construção do discurso no saxofone. Não menosprezável é ainda a influência de Steve Coleman e do movimento M-Base na concepção dos elaborados padrões rítmicos que constituem a superstrutura dos seus originais, numa espécie de re-enunciação do conceito de swing.
Que se tratou de um concerto de Jazz, eu creio que não terá tido dúvidas a quem a ele tenha assistido ears wide open (contrariando a ideia que foi passada, p.ex., na folha de sala da Culturgest, texto de Rui Eduardo Paes, de que se trataria de um concerto de música espectral, valorizando apenas uma faceta da música, de acordo com conceitos pré-concebidos ao acto de ouvir; mas farão então os meus leitores o favor de começar por ouvir o disco que Steve Lehman veio tocar a Lisboa: «Travail, Transformation and Flow» [Pi Recordings, 2010]; e sobre ele será oportuno também, ler o que sobre ele escreveu o colectivo de Jazz 6/4 na sua edição n.º 2). O que de relevante por original a música de Steve Lehman possui não são as influências eruditas ou sequer as jazzísticas, mas a forma acabada e congruente de como elas se integram. O que faz de «Travail, Transformation and Flow» um marco da música (e do Jazz) do início do milénio, é também a conjugação perfeita do que é composição e do que é improvisação, na forma como elas se interpenetram, como os solos surgem naturalmente na consequência da escrita. Enfim, o concerto não poderia ter sido o que foi, não fora a superioridade técnica, e obviamente jazzística, dos músicos em presença, a começar pela dupla Sorey/ Gress no estabelecimento do suporte rítmico constituído por elementos - aparentemente imperfeitos, como fragmentos - em permanente mutação, que se conjugam por vezes com o vibrafone e a tuba, e que funciona como suporte mas também como catalisador para os sopros. A vertigem (a)rítmica que se vai estabelecendo impede a apreensão imediata das estruturas por parte do auditor; efeito perturbante que se completa na tapeçaria que os solistas tecem.
Nem sempre é fácil discernir entre o que é composição e o que é improvisação na música de Steve Lehman: existe um óbvio interesse na exploração das harmonias espectrais que, no que pode ser considerado como uma técnica, exige dos instrumentos um desenvolvimento harmónico micro que sugere a própria dissecação do timbre dos instrumentos, que nunca surgem como meros exercícios escolásticos, mas como explorações sónicas balizadas pela composição e o que é orquestração, e que fazem de cada uma das peças de Steve Lehman luxuriantes filigranas. Não há lugar para leviandades na música de Steve Lehman, e a improvisação, como disse, surge sempre natural, enquadrada entre o que é tema e arranjo. É até curioso que Lehman tenha escolhido aqueles instrumentistas (não há nada do tipo «livre improvisadores»), com abordagens diferentes dos seus instrumentos/ sonoridades, entre o clássico e o que poderíamos definir como exploratório (para utilizar uma palavra muito em voga, embora para classificar qualquer coisa – e repito, qualquer coisa - menos mainstream) e que criam também eles uma forma de contraponto no desenvolvimento das peças, genialmente desconcertante. Em destaque esteve um poderoso saxofonista há muito desaparecido, Mark Shim, que funcionou como um verdadeiro contraponto à sonoridade cerebral de Lehman. Shim possui um som bastante mais clássico, mas intenso e emocionante, bastante coltraneano. Lehman e Finlayson competiram nos solos mais «conceptuais» e abstractos.
Enfim, pode parecer irrelevante procurar definir a música de Steve Lehman como Jazz ou não Jazz (e se me dou ao trabalho de o fazer é porque alguns dos que se apresentam ao público como a crítica - e que de facto o fazem abusivamente - insistem em o confundir), e será claro que não estamos perante um objecto mainstream. O tempo ajuizará das minhas razões, mas se alguma coisa aprendi da História do Jazz é que o Jazz é uma forma musical em permanente mutação: as forças que lhe autorizam a mudança fazem parte do mesmo sistema de forças que gera sucessivos mainstream que outros rompem, que outros depuram, que outros renegam; indefinidamente. Neste turbilhão, o jovem Steve Lehman surge como um experimentador que conjuga um conhecimento profundo da tradição com um espírito inquieto que o autoriza a questionar formas e alargar os limites. Mas isso é a própria História do Jazz.
Steve Lehman confirmou no auditório da Culturgest que é um dos músicos mais estimulantes da cena Jazz internacional.