Guimarães Jazz

2011

Não é demais repetir: o Guimarães Jazz é desde há muito o mais importante festival de Jazz nacional. As razões dividem-se entre a dimensão – duas semanas, nove concertos, e jam sessions diárias ao longo do festival espalhadas em várias salas da cidade -, uma escola de Jazz que resulta num concerto final, uma sala com qualidade sonora e dignidade, e uma programação que combina critério e conhecimento, mas também algum gosto pelo risco. Tudo isto suportado pela Câmara de Guimarães num um apoio sem equivalente em Portugal, e que se espelha na propaganda e informação gráfica de alta qualidade e elegância plástica. O resultado é também o festival de Jazz mais participado, com salas quase sempre cheias, a fazer inveja às salas de Lisboa ou Porto.
À margem do festival haverá este ano várias conferências, a habitual feira do livro, e ainda o lançamento do livro comemorativo dos 20 anos do Guimarães Jazz, que formalmente dará início ao festival, terça 8.

No que à música para 2011 respeita, denota-se uma inflexão na programação já referida no ano passado, no sentido de incluir algum Jazz mais moderno e menos mainstream na programação, a par dos grandes nomes do Jazz e de projectos evocadores dos clássicos, não esquecendo o Jazz made in Portugal. A programação deste ano reflecte exemplarmente este equilíbrio.

. O primeiro concerto acontecerá apenas na quinta (10) com o quarteto de Roy Haynes, um dos mais influentes bateristas da História do Jazz, um inovador e um mestre, que levará ao palco do Vila Flor, muito significativamente, um grupo de jovens em ascensão - o Fountain of Youth Band -, onde há a destacar o saxofonista Jaleel Shaw que curiosamente tocou neste mesmo palco em 2009 integrando o grupo de George Colligan.

. Sexta (11) sobe ao palco o baixista Steve Swallow, um virtuoso do seu instrumento, reconhecido tanto pelos seus grupos, como pela participação nos grupos de Carla Bley. Carla Bley que regressa a Guimarães como membro do grupo de notáveis que constituem o The Swallow Quintet: Swallow, Bley, o fantástico Chris Cheek, uma das mais originais vozes do saxofone contemporâneo, outro original na guitarra: Steve Cardenas, e ainda o irrequieto Jorge Rossy na bateria.

. O concerto de sábado (12) leva a Guimarães outro histórico, o pianista Cedar Walton. Do cimo dos seus 77 anos de idade o veterano mestre do hard-bop e companheiro de Art Blakey por muitos anos, traz consigo o insuperável modelo da arte do trio.

. A primeira semana do festival completa-se com o projecto que resulta da colaboração do Guimarães Jazz com a editora Tone Of A Pitch, que já vai na sua sexta edição e que, à semelhança dos anos anteriores deverá resultar num CD a editar no próximo Guimarães Jazz.
A edição deste ano consagrará o encontro de dois músicos portugueses, Óscar Graça e Bernardo Moreira, com três representantes do Jazz nova-iorquino, Akiko Pavolka, Nate Radley e Jochen Rueckert. Domingo 13.

. Esta primeira semana ainda, de quinta a sábado, no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, as jam sessions alimentadas pela banda que orienta as workshops (Ralph Alessi...) começam às 24.00, depois dos concertos da noite.

Para além do lançamento do livro comemorativo dos 20 anos do festival (8, Fórum FNAC Guimarães, 21.30), o Guimarães Jazz organiza esta semana também sessões de debate a propósito de edições discográficas (8, Fórum FNAC Guimarães, 21.30), e «À conversa com o Jazz» com Carlos Azevedo (9, Café Concerto do Vila Flor, 14.30).

. A segunda semana do Guimarães Jazz abre (quarta 16) com o concerto do grupo que alimenta as workshops e as jam sessions ao longo do festival - o Ralph Alessi and This Against That - e que serão um bom exemplo da combinação feliz entre a modernidade e tradição, servida por um grupo de jovens músicos virtuosos. Esta será muito provavelmente a grande surpresa do festival.

. Quinta feira regressam os grandes nomes com o pianista de John Coltrane, McCoy Tyner, num projecto evocador do célebre encontro de Trane com o cantor Johnny Hartman, numa abordagem contemporânea que tem como protagonistas, na voz, Jose James e no saxofone, Chris Potter. McCoy Tyner + Jose James and Chris Potter (A Contemporary Exploration of John Coltrane & Johhny Hartman) de nome.

. Zooid é o nome do sexteto liderado pelo compositor e saxofonista Henry Threadgill, responsável pela noite de sexta-feira. Um dos raros compositores do free-jazz nos anos 70, Threadgill permanece um genuíno espírito criativo, capaz de combinar o bebop, a música contemporânea ou a pop. Membro da AACM, ele é considerado uma das figuras inspiradoras do movimento M-Base. Com o grupo de Alessi (e eventualmente William Parker), Threadgill deverá ser responsável pela modernidade no Guimarães Jazz 2011.

. O último dia do festival terá dois concertos. O primeiro, ao fim da tarde, com a Big Band da ESMAE dirigida por Ralph Alessi revelará os resultados das workshops de duas semanas. O concerto de encerramento do Guimarães Jazz 2011 terá como líder o contrabaixista William Parker que apresentará um projecto estreado este ano e nunca gravado, inspirado em Duke Ellington: William Parker «Essence of Ellington». Parker é conhecido pelas suas posições políticas radicais e não por acaso ele é comummente associado a Charlie Mingus. Enquanto contrabaixista ou como compositor, ele possui um percurso ecléctico que o fez acompanhar músicos de free-jazz ou trabalhar sobre a música do cantor soul Curtis Mayfield. Sobre Duke Ellington, o contrabaixista reconhece como a sua primeira grande influência no Jazz, desde muito jovem. No palco do Centro Cultural Vila Flor irão estar dez músicos (cinco saxofones, trompete, trombone e secção rítmica) que irão explorar a «essência de Ellington». E que melhor celebração que a música de Duke Ellington para encerrar o Guimarães Jazz?

Nota marginal é o fim (?) da colaboração entre o Guimarães Jazz e a Culturgest. Durante vários anos esta colaboração concretizou-se no apoio da Culturgest à realização das workshops, levando a orquestra resultante a Lisboa. Nos últimos anos a colaboração passou apenas por levar um dos concertos do festiva
l à capital. Lamentável o fim da colaboração, que oferecia sistematicamente à capital alguns dos melhores concertos do ano, como foi o concerto do ano passado do Saxophone Summit.

Qui 10-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz
Roy Haynes Fountain of Youth Band

Roy Haynes (bat), David Wong (ctb), Martin Bejerano (p), Jaleel Shaw (sa)

Sex 11-Nov
22.00
Steve Swallow Quintet

Steve Swallow (b-el), Carla Bley (or), Chris Cheek (st), Steve Cardenas (g), Jorge Rossy (bat)

Sáb 12-Nov
22.00
Cedar Walton Trio
Cedar Walton (p), David Williams (ctb), Willie Jones III (bat)
Dom 13-Nov
22.00
TOAP

Akiko Pavolka (voz, f-r), Nate Radley (g), Oscar Graça (p), Bernardo Moreira (ctb), Jochen Rueckert (bat)

Qua 16-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz
Ralph Alessi and This Against That

Ralph Alessi (t), Tony Malaby (st), Andy Milne (p), Drew Gress (ctb), Mark Ferber (bat)

Qui 17-Nov
22.00
McCoy Tyner + Jose James and Chris Potter (A Contemporary Exploration of John Coltrane & Johhny Hartman)

McCoy Tyner (p), Jose James (voz), Chris Potter (s), Joe Farnsworth (bat), Gerald Cannon (ctb)

Sex 18-Nov
22.00
Henry Threadgill & Zooid

Henry Threadgill (sa, f), Christopher Hoffman (celo), Jose Davila (trb, tu), Liberty Ellman (g), Stomu Takeishi (ctb), Elliot Kavee (bat)

Sáb 19-Nov
18.00
Ralph Alessi + Big Band ESMAE


22.00
William Parker «Essence of Ellington»

William Parker (ctb), Rob Brown (sa), Darius Jones (sa), Sabir Mateen (cl, st), Darryl Foster (st, ss), Steve Swell (trb), Roy Campbell (t), Dave Sewelson (sb), Dave Burrell (p), John Betsch (bat)


Charles Lloyd
The Story
Gonzalo Rubalcaba
Big Band da ESMAE
New York Composers Orchestra
 

2010


Este terá sido porventura o melhor Guimarães Jazz de sempre, confirmando também a manutenção no primeiro lugar entre os festivais nacionais.
De acordo com uma fórmula estabilizada, o festival constou de nove concertos, para além das jam sessions diárias, que se alargou uma vez mais para um outro espaço, o foyer do cinema São Mamede (bastante participado aliás, onde haverá apenas a lamentar o excesso de fumo), uma exposição dos cartazes das vinte edições do festival, e ainda pequenos concertos espalhados pelos restaurantes e bares da cidade, pelos jovens participantes das workshops.
À semelhança dos anos anteriores o festival contou com uma organização irrepreensível, sendo praticamente impossível ignorar o festival em lugar algum da cidade: os resultados foram quatro concertos completamente esgotados na sala principal do belíssimo Centro Cultural Vila Flor de 900 lugares, e uma generosa participação do público, e em especial dos jovens nas jam sessions.
A programação deste 2010 teve contudo algumas novidades, cortando com o tom algo excessivamente mainstream dos anos anteriores, sendo que o festival trouxe a si, uma vez mais, alguns dos melhores músicos e grupos da cena Jazz mundial.
Apenas assisti à segunda semana do festival, mas assisti em Lisboa – Culturgest, com que o festival tem uma colaboração antiga – ao concerto do Saxophone Summit (), sobre que escrevi noutro sítio.

The Story
De todos os membros da banda apenas já conhecia o pianista, John Escreet, a que dediquei uma recensão (em Jazz 6/4, Don't Fight the Inevitable, ) há uns meses atrás . A juventude e a origem diferente dos membros da banda fazia-se notar na originalidade das composições, e nas prestações dos músicos, sendo ao mesmo tempo a sua maior debilidade e a sua força. As debilidades sentiam-se em especial na bateria e no contrabaixo, denotando nalgum primarismo a sua origem rock, se bem que essa mesma origem contribua para a frescura da música do grupo, a par de outras influências. Diria mesmo que a música que os The Story levou a Guimarães correspondeu ao que de mais inovador e avançado assisti em Portugal este ano: composições engenhosas, bons arranjos colectivos, um pianista criativo, uma frente de saxofones de primeira água e uma secção rítmica impulsiva e entusiasmada. Ainda haveremos de ouvir falar dos The Story.

Charles Lloyd New Quartet
Lloyd é um daqueles músicos que me consegue verdadeiramente emocionar, e desconfio que não serei o único, tal é a força da sua música. O grupo vive em torno de Charles Lloyd e a emoção que ele comunica - que faz parte mesma da própria noção de Jazz – não é simulada e somos levados num vórtica que exige de nós uma entrega a que não podemos resistir. Mas de cada vez que o ouço vou tomando mais atenção à prestação dos seus membros, e esta é uma formação que se tem revelado capaz de fazer História. As sensações que afloram à pele confundem-se com o deslumbramento provocado pela técnica insuperável e pela eficácia e pela inteligência do grupo. Em evidência esteve Jason Moran, um pianista que já entrou para os anais dos grandes pianistas de Jazz. Uma personalidade onde a modéstia parece estar em contradição com a sua eloquência. A modernidade do seu piano contém toda a história do piano Jazz, mas também o seu futuro. Jason parece fazer a ponte entre a vertigem da secção rítmica e a volúpia e o turbilhão - e também a paz e a doçura - do saxofone. Um concerto inesquecível.

Gonzalo Rubalcaba Quintet
Gonzalo Rubalcaba anda em tournée com um quinteto que recupera o mais genuíno do espírito do Jazz latino de Dizzie Gilespie, a que lhe acrescentou a sofisticação do seu piano e da sua escrita. Música acabada no seu género, provoca no auditório reacções diversas, entre a perfeição inexcedível e a musicalidade incontida. Sem novidade, é certo, mas impetuosa e contagiante.

Big Band da ESMAE
Uma das iniciativas mais meritórias do Guimarães Jazz é a organização é a workshop que o festival organiza todos os anos com uma banda, todos os anos diferente, e jovens estudantes de Jazz, que nos últimos anos se tem circunscrito à Big Band da ESMAE. O resultado é sempre diferente, mas de enorme valor, já que permite a estes jovens um alargar de horizontes que a rotina da academia com frequência inibe.
Este ano em particular, pela juventude (e como noutro sítio referi, a diferente origem) dos professores, mas por outro lado o seu entusiasmo, a apresentação foi particularmente estimulante.
Creio que pela primeira vez este concerto encheu a sala do Pequeno Auditório, o que não deixa de ser significativo em termos de interesse crescente que a «simples» apresentação dos resultados da semana de trabalho, motiva no público.

New York Composers Orchestra
O concerto de encerramento do Guimarães Jazz é tradicionalmente feito por uma orquestra, e com frequência Guimarães leva ao palco projectos únicos ou pouco tocados e ouvidos.
A New York Composers Orchestra, fundada nos finais dos anos 80, foi um laboratório por onde passaram os músicos mais relevantes da downtown nova-iorquina, mas que se encontra relativamente suspensa, com raras aparições públicas. Os líderes da orquestra são Robin Holcomb e Wayne Horvitz, cuja passado e história de irreverência e vanguardismo estimulavam a curiosidade. Ademais, a orquestra anunciava na sua formação nomes maiores como Bobby Previte, Marty Ehrlich, Tom Varner ou Ron Horton.
As composições sucederam-se de acordo com duas direcções, que resultaram nalgum desequilíbrio, e que foi a pecha do concerto: por um lado novas peças de Holcomb com um forte cariz contemporâneo a escapar ao Jazz, e por outro lado temas recuperados dos anos 80 e 90, registados nos dois discos editados na New World Records, de ambos os autores. À parte o referido desequilíbrio, o concerto foi muito estimulante, com relevo para as peças de Holcomb, menos fortes do ponto rítmico, mas com combinações harmónicas de grande inteligência, a revelar a filiação clássica erudita da compositora; capaz de tirar proveito, ainda assim, de uma orquestra de Jazz e de solistas do gabarito de Ehrlich ou Tom Varner.

(JazzLogical esteve em Guimarães a convite do Guimarães Jazz)

Fotos by João Peixoto

 

 

Qui 11-Nov
Centro Cultural Vila Flor
21.30
The All Star Celebration of Lionel Hampton

Jason Marsalis (vib), Roberta Gambarini (voz), Jacey Falk (voz), Curtis Fuller (trb), Anders Bergcrantz (t), Ronald Baker (t), Claus Reichstaller (t), Red Holloway (st), Lothar van Staa (st) , Jesse Davis (sa), Markus Bartelt(sb), Sharp Radway (p), Martin Gjakonovski (ctb), Bill W. Ketzer (bat)

Sex 12-Nov
Centro Cultural Vila Flor
21.30
Kenny Garrett Quartet
Kenny Garrett (sa), Johnny Mercier (o), Kona Khasu (b), Nathan Webb (bat)
Sáb 13-Nov
Centro Cultural Vila Flor
21.30
Saxophone Summit
Joe Lovano (st), Ravi Coltrane (st), Dave Liebman (st), Billy Hart (bat), Cecil McBee (b), Phil Markowitz (p)
Dom 14-Nov
Centro Cultural Vila Flor
TOAP 2010
Julian Argüelles (s), Mário Laginha (p), André Fernandes (g), Nelson Cascais (ctb), Marco Cavaleiro (bat)
Qua 17-Nov
Centro Cultural Vila Flor
21.30
The Story
Samir Zarif (s), Lars Dietrich (s), John Escreet (p), Zack Lober (ctb), Greg Ritchie (bat)
Qui 18-Nov
Centro Cultural Vila Flor
21.30
Charles Lloyd New Quartet
Charles Lloyd (s), Jason Moran (p), Reuben Rogers (ctb), Eric Harland (bat)
Sex 19-Nov
Centro Cultural Vila Flor
21.30
Gonzalo Rubalcaba Quintet

Gonzalo Rubalcaba (p), Michael Rodriguez (t), Yosvany Terry (s), Matt Brewer (b), Ernesto Simpson (bat),

Sáb 20-Nov
Centro Cultural Vila Flor
Big Band da ESMAE
 
21.30
New York Composers Orchestra
Marty Ehrlich (s, cl), Doug Wieselman (s, cl), Andy Laster (sb), Briggan Krauss (sa), Douglas Yates (s, cl), Ron Horton (t), Russ Johnson (t), Zubin Hensler (t), Curtis Fowkles (trb), Art Baron (trb), Tom Varner trom), Lindsey Horner (b), Bobby Previte (bat), Robin Holcomb (p, dir), Wayne Horvitz (dir)

 

 


2009

O Guimarães Jazz consolidou-se de há muito como o mais importante festival de Jazz nacional, mercê de uma organização irrepreensível, do empenhamento da autarquia e das instituições que o organizam, mas também de uma programação personalizada que, apesar de ter sofrido uma evolução mainstream nos últimos anos, se mantém consistente e interessante, e a que não é alheia uma boa dose de risco. A programação deste ano foi mesmo uma das melhores de sempre, como foi unanimemente reconhecido pela crítica e pelo aplauso e participação do público.
Apenas estive em Guimarães na segunda semana do festival, mas já falei de dois dos concertos – Hank Jones Trio e Kind Of Blue 50 Years On , que também passaram por Lisboa.

George Colligan Quintet
O concerto de George Colligan foi uma verdadeira surpresa para quem o viu menos de um mês antes em Leiria (e provavelmente também no Seixal). À frente de um quinteto consistente, Colligan revelou-se um pianista sólido e arrojado - descolando em definitivo da marca bebop que lhe tínhamos visto - mas principalmente um excelente director de actores. E os actores eram nada menos que – na linha da frente – o telúrico Jaleel Shaw em sax alto e o sempre engenhosos e inspirado Michael Blake, suportados por uma secção rítmica de primeira água, com Colligan ao piano, o enérgico E. J. Strickland na bateria e o sólido Josh Ginsburg no contrabaixo.
Os olhos estavam postos na estrela Michael Blake, mas a verdade é que tanto o seu par no saxofone como toda a banda se revelaram sempre acima da média em termos de prestação individual ou coesão no grupo e a única reticência ao concerto acabou por ser um registo excessivamente acelerado ao longo das duas horas de música, e nem a balada Body and Soul soube arrefecer o ambiente. Originais de Colligan e alguns clássicos fizeram o reportório, com um expressivo e saboroso Bebop no remate final. A parada revelava-se alta para o concerto do dia seguinte.

Dave Holland Overtone Quartet
A quinta-feira tornar-se-ia no entanto uma das noites mais memoráveis do Guimarães Jazz, e têm sido muitas. Todas as dúvidas que a introdução do piano nos grupos de Dave Holland me tinham suscitado, e até mesmo alguma menor consistência que me pareceu sentir no grupo que tocou em Monterey com Gonzalo Rubalcaba no lugar de Jason Moran, se desvaneceram após o segundo tema. O conceito do Overtone Quartet é algo diferente dos anteriores grupos de Holland, mesmo se o contrabaixista permanece a figura patriarcal. Mas, a começar pelo nome, ele apresenta-se como um combo «democrático», onde todos contribuem de igual forma nas composições e nas rédeas!
O concerto começou com um quase dançável Step To It, revelando um Chris Potter hesitante talvez pela ausência do trombone de Eubanks; e o mesmo se passou com Minotaur. Mas depois dos dois primeiros temas de Holland e Potter, surgia um Patterns de Eric Harland; um exercício de acentuados contrastes cromáticos, revelando um insuspeitado compositor, e ao mesmo tempo oferecendo ao grupo o espaço de expressão individual simultaneamente colectivo que pertence à definição mesma do Jazz. O quarteto de gigantes revelava-se enfim, e o nível não mais baixou. Potter mudava para o soprano enquanto Jason Moran introduzia o piano eléctrico, introduzindo um colorido inesperado. Seguiu-se um blues sincopado, Blue Blocks, de Moran, com o piano a enunciar o tema que o quarteto explorava de forma feliz, e de novo em evidência a bateria esfusiante de Harland. Maiden parte de um solo de contrabaixo com Moran a regressar ao piano eléctrico com uma alusão vaga ao Miles eléctrico e Harland a revelar a faceta mais percussiva que lhe conhecemos com Charles Lloyd.
O último tema do concerto (antes do encore) retomaria auspiciosamente um dos discos lendários de Dave Holland, o Conference Of The Birds (de 1972, com Braxton, Barry Altschull e Sam Rivers), pouco (ou nunca mais?) tocado. Interseption haveria de expor o Chris Potter mais anguloso em soprano e tenor na evocação dos dois saxofonistas originais – soberbo! –, dando lugar ainda a um inteligentíssimo e aplaudidíssimo solo de bateria.
Sky de Chris Potter, em tempo lento, ofereceu uma vez mais oportunidade para o contrabaixista se revelar – aqui também no arco – a solo ou em duo com o sax soprano de Potter, ou expressivamente no quarteto.
Inteligência, composição, virtuosismo, modernidade: raramente passaram de forma tão eloquente em Guimarães. O espantoso é que ficou no ar a sensação de que este Overtone Quartet ainda não atingiu o seu zénite!

Cassandra Wilson
Cassandra Wilson apresentou-se como uma verdadeira estrela pop que realmente é, com um público que ultrapassa em muito o limitado universo do Jazz.
Nem sempre bem amplificada, a voz de Cassandra perdeu-se sem culpa por diversas vezes na luxuriante envolvente do grupo onde as origens negras da sua música estavam bem acentuadas; a começar com na direcção musical do guitarrista Marvin Sewel que protagonizou um dos momentos mais emocionantes do concerto num blues do Mississipi – Pony Blues, de Charles Patton. A sua técnica impressionante esteve patente ao longo de todo o concerto, e ele será provavelmente o responsável pela linha marcadamente New Orleans e negra do grupo. Músicos de New Orleans como Reginald Veal e Herlin Riley, o percussionista nigeriano Lekan Babalola, o repertório ou o colorido vestido de Cassandra revelavam a intenção «essencialista» estabelecida entre África, New Orleans e os blues.
O concerto começou com um extravagante arranjo do clássico Caravan, seguido de uma versão de A Sleeping Bee e Lover Come Back To Me onde a voz de Cassandra ganhou finalmente a expressão merecida. O público rejubilou com St. James Infirmary popularizado por Louis Armstrong e o já referido impressionante Pony Blues, e Cassandra podia ter ido mais longe no Blackbird que serviu de encore.

Big Band da ESMAE dirigida por George Colligan
A tarde do último dia do festival trouxe uma novidade ao Guimarães Jazz com o público que quase encheu a sala para assistir ao concerto da Big Band da ESMAE dirigida por George Colligan, como resultado das «Oficinas de Jazz» dessa semana.
Inevitavelmente clássico, o reportório incluiu It Don’t Mean a Thing, passando por um funky Wiggle Waggle de Herbie Hancock, Body And Soul (em octeto), Segment de Charlie Parker e o blues Motherless Child, terminando com dois originais de George Colligan. A orquestra revelou-se fluida e com algumas intervenções solo muito interessantes, e o maestro estava visivelmente satisfeito com os resultados no final do concerto.

Dave Douglas, Jim McNeeely & The Blood Sweat Drum’n Bass Big Band
A noite de sábado assistiu a dois concertos diferentes protagonizados pelos mesmos músicos: Dave Douglas e Jim McNeeely e a Blood Sweat Drum’n Bass Big Band.
Na primeira parte do concerto foi tocada música do trompetista com McNeely na direcção da orquestra e nalguns temas com arranjos seus também. Na segunda parte, o Drum’n Bass original prevaleceu na orquestra, com intervenções de Dave Douglas.
A expectativa era muita, dado que apesar de a forma orquestral constar dos projectos de Dave Douglas, ela nunca tinha muito provavelmente sido observada por ninguém na sala, embora a colaboração Douglas-McNeely tenha dado à luz um CD – A Single Sky – com a participação da Frankfurt Radio Big Band (FRB). Por outro lado o versátil Dave Douglas já em Agosto passado realizou um dos grandes concertos do ano na Gulbenkian e ele atravessa um período de enorme euforia criativa. A acrescer, a associação com um «clássico» (refiro-me obviamente a Jim McNeely) e uma orquestra de Jazz atípica, contribuíam para a curiosidade.
Todas as dúvidas se dissiparam ao primeiro movimento: os arranjos de McNeely revelaram-se soberbos na forma como soube tirar proveito das especificidades de uma orquestra que tem o drum’n bass no nome; como soube contornar as debilidades da ruidosa secção rítmica, dispensando ocasionalmente alguns instrumentos negligenciáveis, e trazendo com sucesso para a linha da frente a jovem secção de palhetas (cujos indizíveis nomes próprios não fui capaz de fixar).
Uma parte substancial deste projecto orquestral foi escrita durante a campanha eleitoral para a presidência dos EUA, e são conhecidas as conotações políticas de Douglas adversas a George Bush. As eleições haveriam de inspirar três dos temas do disco tocados também em Guimarães (Campaign Trail, The Presidents e Blockbuster), perturbando-as de eloquência mas também sarcasmo. Na peça maior, A Single Sky, os arranjos de McNeely fazendo desfilar os saxofones para curtos solos que se opunham ao tutti numa sequência lógica, sem quaisquer atritos, em engenhosos movimentos deslizantes; enquanto que Persistence of Memory (com que o concerto abriu) dedicado ao malogrado Booker Little é um longo e emocionante lamento. Blockuster, a fechar, para que McNelly apresentou um arranjo diferente do tocado com a FRB, sob a forma funky, obrigou a um esforço suplementar de verdadeiro punch nos metais dignos da magnitude da orquestra de Woody Herman.
Dave Douglas é reconhecidamente o mais genial trompetista da actualidade, versátil e completo. O que é menos observado, talvez por serem tocados por formações mais pequenas (ou talvez antes pela sua dificuldade) é o seu valor enquanto compositor. Creio que os últimos trabalhos, Spirit Moves e este A Single Sky que tocou em Guimarães se propõem precisamente corrigir essa falta, que é apenas da observação da crítica, mas a que não mais se pode esquivar.
A segunda parte do concerto , depois do inabitual intervalo, a Blood Sweat Drum’n Bass Big Band assumiu os destinos da noite. Temeu-se o pior, logo nos primeiros momentos, quando o maestro surgiu numa imitação de Cab Calloway. A orquestra possui um repertório que oscila entre a pop, o funky e o Jazz, que se revela na incorporação de três teclistas, dois baixos, duas baterias e um percussionista, duas cantoras e guitarra, para além dos sopros, bem repartidos entre metais e palhetas. Em boa verdade, não se percebe bem o que lá está a fazer tanta gente na secção rítmica, parecendo que apenas lá estão para o espectáculo.
Alguns dos temas tocados roçam a pop mais xaroposa, e muito do som produzido pela orquestra é realmente excedentário, mas felizmente nem tudo é realmente medíocre. Apenas se tem a sensação de que a orquestra procura uma personalidade xovem e radikal, que com frequência descamba para o disparate. A verdade é que existe um desequilíbrio entre o nível dos músicos justificado pelo sentido pop da orquestra, e onde com excepção para os sopros, apenas se revelaram as duas cantoras..
Posto isto, a orquestra possui uma energia (própria da juventude?) que falta a muitas orquestras Jazz mais preocupadas em tocar de acordo com a tradição que encontrar o seu próprio caminho, e algures no atípico repertório próprio alguns temas mereceram a atenção. Visivelmente Dave Douglas (que possui ele próprio um projecto funky, Keystone) entusiasmou-se com essa energia e irreverência, estimulando a resposta da orquestra. McNeely ainda regressaria ao palco para se sentar ao piano e o concerto acabou com um bucólico tema de Dave Douglas com arranjos de Jim McNeeely – Tree And Schrubb.

Despediu-se o Guimarães Jazz 2009; um dos melhores de sempre.

(JazzLogical esteve em Guimarães a convite do Guimarães Jazz)

Qui 12-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
“Kind of Blue, 50 Years On”
Jimmy Cobb (bat), Buster Williams (ctb), Larry Willis (p), Javon Jackson (st), Wallace Roney (t) Vincent Herring (sa)
Café Concerto
24.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Sex 13-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Hank Jones Trio
Hank Jones (p), George Mraz (ctb), Willie Jones III (bat)
Café Concerto
24.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Sáb 14-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Branford Marsalis Quartet
BM (s), Joey Calderazzo (p), Eric Revis (ctb), Justin Faulkner (bat)
Café Concerto
24.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Dom 15-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz/TOAP 2009
Bernardo Sassetti (p), Ohad Talmor (s), Demian Cabaud (ctb), Dan Weiss (bat)
São Mamede – Centro de Artes e Espectáculos
22.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Seg 16-Nov
São Mamede – Centro de Artes e Espectáculos
23.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Ter 17-Nov
São Mamede – Centro de Artes e Espectáculos
23.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Qua 18-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
George Colligan Quintet
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Qui 19-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
The Overtone Quartet
Dave Holland (ctb), Chris Potter (s), Jason Moran (p), Eric Harland (bat)
Convívio
24.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Sex 20-Nov
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Cassandra Wilson
Cassandra Wilson (voz), Reginald Veal (ctb), Herlin Riley (bat), Marvin Sewell (g), Jonathan Batiste (p), Lekan Babalola (per)
Convívio
24.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)
Sáb 21-Nov
Centro Cultural Vila Flor
18.00
Big Band da ESMAE
George Colligan (dir)
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Dave Douglas, Jim McNelly e a Blood Sweat Drum n Bass Big Band.
Dave Douglas (t), Jim McNeely (p, dir) +
Jens "Chappe" Jensen (condução), Ole Visby (ss), Julie Kjær (sa), Jacob Danielsen (st), Harald Langåsdalen (sb), Nikolai Schneider (st), Søren "Phille" Jensen (t), Jakob Buchanan (t), Bent Hjort (t), René Damsbak (t), Jens Overby (trb), Jens Kristian Bang (trb), Kirstine Kjærulff Ravn (trb), A anunciar (trbb), Kasper Falkenberg (g), Sofus Forsberg (elec), Kasper Bjerg (tec), Aske Bode (tec), Sisse Foged "Moster Phonque" Hyllested (ctb), Rune Werner (ctb), Esben Laub von Lillienskjold (bat), Jais Poulsen (bat), Magnus Jochumsen (per), Gunhild Overegseth (voz), Turid Guldin (voz)
Convívio
24.00
George Colligan Quintet - Jam Session
George Colligan (p), Michael Blake (st, ss), Jaleel Shaw (sa), E. J. Strickland (bat), Josh Ginsburg (ctb)

Eis-nos de novo quase chegados ao Natal dos jazzómanos portugueses (enfim, para alguns eleitos entre os quais me incluo), que sempre acontece em Novembro em Guimarães. Bastante de acordo com a inflexão americana, e mainstream, de há alguns anos, a programação 2009 contém uma única excepção europeia, a dinamarquesa Blood Sweat Drum n Bass Big Band que terá como solista principal Dave Douglas, mas nomes sonantes não faltam, entre o aguardadíssimo novo Overtone Quartet de Dave Holland, o Jimmy Cobb So What Band, o Hank Jones Trio, Cassandra Wilson, Branford Marsalis e o próprio George Colligan e Bernardo Sassetti TOAP projecto.
Começando pela primeira semana.
12/11 - O único sobrevivente do célebre grupo de Miles Davis – Jimmy Cobb - que em 1969 fez o que é unanimemente considerado o mais importante disco de Jazz de sempre, Kind of Blue, inclui Guimarães na celebração do 50.º aniversário. A So What Band de Cobb é uma reunião única de veteranos e jovens turcos, Buster Williams, Larry Willis, Javon Jackson, Wallace Roney e Vincent Herring e encontra-se em digressão para esta comemoração. A propósito refira-se que a edição monumental de KInd Of Blue foi unanimemente considerada pela crítica nacional o «disco» histórico do ano 2008.
13/11 - O dia seguinte é reservado a outro histórico, Hank Jones, para uma exibição da mais nobre Arte do Trio. A secundá-lo estarão George Mraz e Willie Jones III.
14/11 - Um dos mais poderosos quartetos do milénio, o Branford Marsalis Quartet, iluminará a última noite da primeira semana. A actuação deste quarteto tem um motivo adicional de interesse, já que conta na bateria com um jovem de 18 anos em substituição de Jeff Tain Watts que acompanhava Branford desde há mais de uma década. Justin Faulkner vem sendo referido como um verdadeiro vulcão!
15/11 - A primeira semana termina com a apresentação da encomenda do festival à Tone Of A Pitch, que em 2009 ofereceu o trabalho de escrita, e execução, a Bernardo Sassetti. O grupo conta ainda com Ohad Talmor em saxofone, Demian Cabaud no contrabaixo e Dan Weiss na bateria.
18/11 - O quinteto de George Colligan abre a segunda semana do festival. Colligan é o excelente pianista que irá dirigir a orquestra saída da workshop e é também responsável pela animação das noites longas no Convívio e Café Concerto. O grupo inclui também Michael Blake, Jaleel Shaw, E. J. Strickland e Josh Ginsburg.
19/11 - Quinta é a noite em que deposito maiores expectativas: o Overtone Quartet de Dave Holland é uma formação original para o contrabaixista que se tem esquivado a ter sempre pianistas nos seus grupos. Ora o Overtone conta com um pianista, e que pianista!: nada menos que Jason Moran, um dos mais estimulantes pianistas da actualidade. A banda completa-se com os fantásssticos Chris Potter e Eric Harland.
20/11 - Cassandra Wilson é a grande voz convidada para Guimarães. Sem a irreverência de outros tempos, Cassandra é hoje porventura a mais interessante das cantoras mainstream; absolutamente imperdível.
21/11 - E antes do concerto de encerramento, a tarde de sábado propõe-nos a apresentação do resultado da workshop (dirigida pela banda de Colligan), onde os alunos da ESMAE estarão em evidência.
Grande expectativa também, enfim, para o concerto de Dave Douglas, Jim McNelly e a Blood Sweat Drum n Bass Big Band. Embora existam trabalhos de Douglas para orquestra, eles são menos conhecidos: estamos habituados a ouvir o trompetista à frente das suas (mais ou menos atípicas) bandas, reveladoras do génio de um dos mais criativos músicos de Jazz do século. Por outro lado, originária da Dinamarca, a Blood Sweat Drum n Bass é uma orquestra poderosa e moderna onde predominam os sopros, com alguma electrónica, baterias e vozes. Muito dependerá, dos arranjos de que McNelly, creio, é responsável; mas dificilmente - até pelo elevadíssimo grau de exigência que Dave Douglas coloca em tudo o que faz - este não será um encerramento com chave de ouro.
As jam sessions decorrerão no Café Concerto do Vila Flor de 12 a 14, como novidade de este ano também de 15 a 17 no Centro de Artes e Espectáculos São Mamede e de 19 a 21 de Novembro no Convívio.

2 de Novembro de 2009


2008

A força da juventude de MARCUS STRICKLAND

Fiz notar na apresentação do grupo como a voz de Marcus Strickland se vinha tornando uma autoridade de entre os saxofonistas da nova geração, sendo figura de proa como solista no projecto Keystone de Dave Douglas ou na Mingus Big Band. O que conhecíamos menos eram os seus dotes como líder, lacuna que veio corrigir a Guimarães.
Strickland possui um som cheio, coltraneano, e um discurso rápido e dominador. O solo no soprano em Scatterheart de Bjork ou o remate no clássico Chelsea Bridge foram magníficos! Na eficiente banda que o acompanhou – a deslizar como se tratasse dos Messengers, haverá ainda que distinguir a revelação do trompete de Jason Palmer, um músico que ora evoca directamente a herança de Clifford Brown, ora soa cru como uma corneta sem pistões. Ainda muito haveremos de ouvir falar de Jason Palmer.
Jazz inequívoco, com os pés bem assentes na tradição, o Marcus Strickland Quintet abriu da melhor forma a segunda semana do Guimarães Jazz.

THE COOKERS - Celebrando Lee Morgan

Seguiu-se-lhe na quinta The Cookers, uma grupo formado com o propósito de evocar os 70 anos do nascimento de Lee Morgan. Quase todos aliás tocaram com o tão prematuramente desaparecido trompetista.
O repertório andou naturalmente à volta de alguns poucos clássicos de Lee Morgan, com arranjos de David Weiss, o promotor da homenagem, e originais de Billy Harper, Maupin ou Cecil McBee, inspirados em Morgan.
Em noite tranquila brilharam Billy Harper no saxofone tenor, Craig Handy no alto e Bennie Maupin em saxofones e clarinete baixo.

A elegância e sofisticação do KENNY BARRON TRIO

E calma foi, como se esperava, a noite de sexta, com o Kenny Barron Trio. Um dos grandes pianistas clássicos sobrevivos veio trazer a Guimarães toda a mestria na arte do trio de piano Jazz. Elegância e sofisticação prenunciei, e elegância e sofisticação aconteceram em Guimarães. Bastaria a sublime interpretação de Blue Moon para convencer os mais impenetráveis corações, mas ele revelou-se igualmente nos blues ou nas peças mais angulosas à Monk, ou ainda nos calypsos, mais acessíveis.
Kiyoshi Kitagawa no contrabaixo e Johnathan Blake na bateria estiveram à altura do que deles se esperava.

 

 

 

A asa do condor - METROPOLE ORCHESTRA + VINCE MENDOZA

Seria legítimo esperar mais do último concerto, a avaliar pelo que conhecemos de Vince Mendoza. Mendoza é um activo compositor e arranjador, com um lugar já assegurado entre os melhores. Entre os seus trabalhos mais interessantes que destaquei na apresentação do concerto, está Jazzpaña onde cruzava o flamenco e o Jazz, que o levou a ser classificado entre os discípulos de Gil Evans (Sketches of Spain), paternidade que ele não enjeita. Mendoza tem trabalhado com Peter Erskine, Dave Liebman, Nguyên Lê, ou Charlie Mariano, e dirigiu com sucesso grandes formações como a WDR Big Band. Daí a minha expectativa.
Mas a Metropole Orchestra que dirigiu em Guimarães possui características bem diferentes de uma orquestra de Jazz, se tal existe. Sessenta músicos, entre os quais uma vasta secção de cordas sugerem-na mais vocacionada para interpretar peças de música clássica que Jazz, e a verdade é que Mendoza não soube resolver algumas dificuldades.
A Metropole revelou-se realmente uma orquestra pesada e pouco dinâmica, pobre até nos poucos solistas, resumidos a um Peter Erskine algo excessivo, um pouco a recordar o papel espalhafatoso de alguns bateristas das orquestras de swing do tipo Gene Kupra, um trompetista e um saxofonista competentes mas não brilhantes, e um guitarrista provavelmente pescado de uma mediana banda de rock sinfónico dos anos 70. Confrangedor.
Mas o que Vince Mendoza realmente não conseguiu resolver foi como transformar o típico timbre classicista da orquestra ou como agilizar a secção de cordas que me lembrava sempre o pesado bater de asas de um condor, em vez do necessário golpe do falcão.
Posto isto, eu creio que foram sempre evidentes os méritos de escrita de Vince Mendoza, apenas perdidos algures entre a composição, a orquestração e a execução. Algo falhou no grandioso encerramento, embora o generoso público não tenha notado.

Nem tudo correu realmente pelo melhor no Guimarães Jazz 2008; pelo menos na segunda metade – melhor terá corrido o concerto de Steve Coleman a que assisti na Culturgest em Lisboa -, mas os imponderáveis também fazem parte das regras do jogo. Grandes nomes não fazem necessariamente grandes concertos e o melhor desta semana acabou por vir de onde menos esperara: o quinteto de cinco jovens liderado por Marcus Strickland. Da organização, nenhum reparo, como é hábito. Talvez até mais que em anos anteriores, o material impresso estava realmente criativo e tudo correu sobre esferas.

Enfim, se a crise não atacar também aqui, para o ano haverá mais e melhor Jazz.

1 de Dezembro de 2008

(JazzLogical esteve em Guimarães a convite do Guimarães Jazz)


Antecipação do Guimarães Jazz 2008

Chega o Novembro e com ele o Guimarães Jazz que já vai na 17ª edição. Se a longevidade não é por si só garantia de qualidade, a verdade é que ele há muito que atingiu a maturidade, é um dos grandes se não o maior dos festivais de Jazz nacionais, e ocupa um lugar cativo no calendário anual dos jazzómanos. Entre os quais me incluo, com muito gosto.

Nove concertos (sem contar com as jam sessions diárias), centena e meia de músicos, três grandes formações, workshops, várias actividades paralelas e um cardápio que espanta pelo arrojo e que inclui não poucos nomes cimeiros do Jazz internacional, compõem o Guimarães Jazz 2008, uma vez mais a fazer História.

O festival começa na quinta-feira 13 com Kurt Elling. Discípulo de Mark Murphy, ele é uma das raras vozes masculinas do panorama Jazz actual, mas é um digníssimo representante dessa classe (male vocalist). Kurt Elling impressiona mais que pela técnica (irrepreensível), pela emoção que comunica. Ele é um verdadeiro cantor de canções, que interpreta de forma relativamente straight, mas de forma alguma ao jeito dos crooners. Por outro lado, ele usa pouco dos recursos característicos dos cantores de Jazz do tipo do scat, preferindo ocasionalmente as técnicas vocalese de um Jon Hendricks; mas talvez que a característica principal seja mesmo a densidade e emoção que coloca nas palavras. Simplicidade (aparente) nas formas, elegância e sofisticação, melancolia e sentimento. Coisas que (já) não se esperam num cantor.
Já lhe conhecia os discos de há muito, mas confesso que fiquei literalmente pregado ao chão no Estoril Jazz do ano passado quando Kurt Elling cantou os primeiros versos de (creio que) This Time Is Love, na mais impressionante interpretação que jamais ouvi. A crítica nacional (ver votação em Jazzologia) votou o concerto do Estoril Jazz o melhor concerto de 2007 (ex aequo). Não será descabido dizer que qualquer concerto de Kurt Elling em qualquer festival de Jazz de qualquer local do mundo arrisca sempre a ser o seu melhor. A minha única objecção ao concerto será a sua colocação num dia de menor afluência de público, mas creio que dificilmente o Guimarães Jazz teria melhor abertura.

O concerto de sexta 14 está nos antípodas do dia anterior. Steve Coleman é um saxofonista que procura cruzar a expressão mais genuinamente parkeriana do Jazz com a música pop urbana. A banda que irá tocar em Guimarães (e também na Culturgest no sábado 15) foi criada nos anos 80 como expressão do movimento M-Base que liderou e que era constituído por músicos como Greg Osby, Geri Allen ou Cassandra Wilson, Lonnie Plaxico, Marvin "Smitty" Smith e Graham Haynes. Vigoroso e exímio saxofonista (como Charlie Parker, mas também como Maceo Parker, os seus gurus, ele toca alto), ele procura trazer para o Jazz a popularidade que perdeu quando o bop migrou para as caves dos bares e se intelectualizou, embora ele próprio seja um dos representantes maiores de um certo Jazz intelectualizado (e politizado). Nos mais de trinta anos de actividade, ele tocou tudo entre Rythm & Blues e Free Jazz, tendo tocado com Sam Rivers e Cecil Taylor, Michael Brecker, David Murray e ainda Dave Holland, a cuja banda chegou a pertencer por algum tempo.
Não resta nenhum dos membros originais dos Six Elements de há vinte anos, mas a banda mantém as características desse tempo, algures entre o bebop e a oralidade de África, entre o funk e a pop underground urbana. Música viva e enérgica, ameaça incendiar a plateia do Vila Flor.

Django Bates que encerrará a primeira semana da sala nobre do Centro Cultural Vila Flor destacou-se desde sempre pelo eclectismo e irreverência. De formação clássica, começou por tocar rock, tendo participado de seguida nos movimentos de fusão Jazz-pop urbano onde se destacou Courtney Pine. Os anos seguintes encontramo-lo junto com os nomes maiores da downtown nova-iorquina como Tim Berne ou de novo na fusão com o ex-Yes e ex-King Crimson Bill Brufford, ou ainda como membro da George Gruntz Concert Jazz Band.
A partir dos anos 90 faz-se notado como compositor e arranjador, liderando os seus próprios projectos onde se destacam o quarteto dedicado às estações que teve o epílogo já este ano. Depois do início do milénio - e ao mesmo tempo que começam a chover nomeações e prémios - quase deixou de gravar, tendo-se dedicado ao ensino e principalmente à composição e a trabalhar para as inúmeras encomendas que lhe são solicitadas de todo o mundo, para bandas e orquestras de Jazz, pop, clássica, mas também para cinema e teatro.
Django Bates vem tocar a Guimarães o disco de 2008 Spring Is Here (shall we dance?), à frente da stoRMChaser, uma orquestra de Copenhaga de dezanove membros, entre os quais treze sopros. O título sugere um trabalho sobre música de dança, mas Django Bates é um músico imprevisível.
Se me é permitido, eu sugeria ao público que para o encore lhe exigissem a sua devastadora versão de New York New York.

Entretanto, é já na sexta 14 que toca a Big Band da ESMAE conduzida por Marcus Strickland no Pequeno Auditório. Sobre a Big Band da ESMAE, é redundante voltar a falar-se, dado que ela é presença regular no Guimarães Jazz e o público sabe que conta com o melhor.
Além disso, o quinteto que leva a Guimarães é o responsável pelas jam sessions e pelos workshops que estão a decorrer desde o início da semana.

Enfim, no sábado à tarde, e à semelhança dos últimos anos, a Tone Of A Pitch (TOAP) apresenta o resultado da parceria como Guimarães Jazz. O TOAP Colectivo será este ano composto por Matt Pavolka no contrabaixo, Peter Rende no piano, Alexandre Frazão na bateria e João Moreira trompete, tendo como convidado o singular guitarrista Ben Monder, bem conhecido do público de Guimarães.

Marcus Strickland, que abrirá a segunda semana do festival, é um expressivo saxofonista, um coltraneano que se tem notabilizado na Mingus Big Band ou ao lado de Christian McBride, Tom Harrell, Roy Haynes, ou ainda como ponta de lança do Keystone de Dave Douglas. O quinteto que lidera embalará as altas noites do Guimarães Jazz, que esta semana migra do Convívio para a cave do Vila Flor.

Na quinta 20 é a vez da homenagem ao grande trompetista Lee Morgan, cozinhado por Billy Garper, Bennie Maupin, Cecil McBee, Billy Hart e outros ilustres. No trompete estará David Weiss e The Cookers («The Cooker» é o nome do seminal disco de Lee Morgan de 1957) é o nome do grupo. O percurso de Lee Morgan foi meteórico mas determinante para o Jazz. Ícone maior do Jazz, injustamente esquecido do grande público, ele foi determinante na solidificação da linguagem bop, tendo-se notabilizado ao lado dos Art Messengers, Hank Mobley, John Coltrane, Andrew Hill ou Jimmy Smith, o que atesta a enorme versatilidade e ilustra a enorme responsabilidade do grupo que vai tocar em Guimarães, e em especial do trompetista. Mas David Weiss é um exímio executante, também líder e arranjador, como se verá. Sobre os restantes membros do grupo, o nome fala por eles.

Um clássico incontornável toca na sexta: Kenny Barron, na mais nobre arte do trio. Nomeá-lo de bopper é redutor, ele que é um dos mais finos pianistas do Jazz clássico. Sideman de eleição pela sua capacidade única de ouvir e a empatia que gera, como líder é toda a elegância e sofisticação do mais nobre pianismo Jazz que se solta. Incontornável.

Enfim no sábado a grande Metropole Orchestra dirigida por Vince Mendoza encerra da melhor forma a 17ª edição do festival. Fundada em 1945 (Países Baixos), a instituição Metropole Orchestra acomnpanhou Tony Bennett, Burt Bacharach, Lee Konitz ou Bob Brookmeyer, entre centenas de cantores e músicos e (se contei bem) conta hoje com cinco dezenas de instrumentistas, entre os quais um sólido naipe de cordas que lhe dá um certo cariz clássico. Mas assim quis Vince Mendoza, o actual director (também compositor e orquestrador), um músico profundamente influenciado por Gil Evans, que se notabilizou há alguns anos no projecto «Jazzpaña» onde fundia o Jazz com o flamenco e onde tocavam, entre outros, Michael Brecker, Al Di Meola, Peter Erskine e Carlos Benavent. Na bateria, como convidado, estará o amigo de longa data Peter Erskine.

Um encerramento em grande, como o Guimarães Jazz gosta de fazer.

12 de Novembro de 2008


Qui 13-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz
Kurt Elling Quartet
Kurt Elling (voz), Laurence Hobgood (p), Rob Amster (b), Kobie Watkins (bat)
 
Ass. Cultural Convívio
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sex 14-Nov
Centro Cultural Vila Flor
18.00
Big Band ESMAE + Marcus Strickland
Marcus Strickland (dir)
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Steve Coleman and Five Elements
SC (sa), Jonathan Finlayson (t), Tim Albright (trb), Jen Shyu (voz), Thomas Morgan (ctb), Tyshawn Sorey (bat)
Ass. Cultural Convívio
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sáb 15-Nov
Centro Cultural Vila Flor
17.00
TOAP Colectivo

Ben Monder (g), Matt Pavolka (b), Pete Rende (p), Joao Moreira (t), Alex Frazão (bat)

Centro Cultural Vila Flor
22.00
Django Bates and stoRMChaser

Julie Kjær (f), Bo Skjold Christensen (cl), Magnus Thuelund Hansen (sa), Aske Drasbaek Philipsen (sa, ss), Marius Neset (s), Martin Stender (st), Søren Kristian Karkov (s), Lars Søberg Andersen (t), Jimmy Nyborg (t), Ulrik Kofoed (tro), Sara Madsen (trb), André Jensen (trbb), Daniel Herskedal (tu), Christian Bluhme Hansen (g), Anton Wilhelm Eger (bat), Frans Peter Eld (b-el), Mikkel Schnettler (perc), Josefine Lindstrand (voz, sinos tibetanos), Django Bates (tec, Eb tenor horn)

Ass. Cultural Convívio
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Qua 19-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz
Marcus Strickland Quintet
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Qui 20-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
The Cookers
Lee Morgan 70th Birthday Celebration

Billy Harper (st), Bennie Maupin (st, clb), Craig Handy (sa), Larry Willis (p), Cecil McBee (ctb), Billy Hart (bat), David Weiss (t)

Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sex 21-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Kenny Barron Trio
KB (p), Kyioshi Kitagawa (b), Johnathan Blake (bat)
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sáb 22-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Metropole Orchestra conducted by Vince Mendoza + Peter Erskine
(bat): Petter Erskine,
1ºs (v): Arlia de Ruiter, Alida Schat, Sarah Koch, Denis Koenders, Pauline Terlouw, Erica Korthals Altes, David Peijnenborgh, Seija Teeuwen,
2ºs (v): Merijn Rombout, Herman van Haaren, Lucja Domski, Wim Kok, Elisabeth Cats, Marianne van den Heuvel, Vera van der Bie
Violas Mieke Honingh, Norman Jansen, Julia Jowett, Iris Schut, Isabella Petersen,
(vcelo): Bastiaan van der Werf, Maarten Jansen, Wim Grin, Jascha Albracht,
(ctb): Erik Winkelmann, Arend Liefkes,
(har): Joke Schonewille,
(f): Janine Abbas, Mariël van den Bos,
(obo): Willem Luijt,
(s): Marc Scholten, Paul van der Feen, Leo Janssen, Jos Beeren, Max Boeree,
(tro): Pieter Hunfeld,
(t): Jan Oosthof, Jan Hollander, Henk Heijink, Ruud Breuls,
(trb): Bart van Lier, Jan Oosting, Jan Bastiani,
(trbb): Martin van den Berg,
(perc): Eddy Koopman, Murk Jiskoot,
(ctb): Aram Kersbergen,
(g): Peter Tiehuis,
(p, sin): Hans Vroomans
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)

 


Guimarães Jazz 2007

Cumpriu-se mais um Guimarães Jazz. Duas semanas, nove concertos dos quais sete «internacionais», seis (longas) noites de jam sessions, uma workshop de uma semana envolvendo dezenas de jovens estudantes de música, uma produção irrepreensível no apoio aos músicos, público e aos jornalistas e críticos, material de apoio e informação profuso e graficamente elegante, gadgets, etc. Se a tudo isto acrescentarmos bilhetes relativamente acessíveis e duas excelentes salas de espectáculo, temos uma verdadeira festa de Jazz, que faz de Guimarães um local de romaria anual. Enfim, ajuntando à dimensão e à profissional produção, resta acrescentar a criteriosa programação, a cargo de Ivo Martins.
Como referi na antecipação do festival, a programação do Guimarães Jazz sofreu uma (deliberada) inflexão recente no sentido do mainstream, abandonando algum gosto pelo risco que o personalizava. Perdido aqui, ganho em público, argumenta a organização, ele aí está, o Guimarães Jazz.
Na primeira semana, a que não assisti, tocou (terá tocado), melhor o jovem Ravi Coltrane, emocionou o histórico Pharoah Sanders, sem novidade Jan Garbarek; assim me contaram.

A energia da juventude (do Orrin Evans Quintet)
A segunda semana abriu com o Orrin Evans Quintet, o grupo responsável também pelas workshops e, como é hábito, pela animação das noites no «Convívio».
Orrin Evans é o talentoso músico que se tem vindo a fazer notar como um dos pianistas da Mingus Big Band. No palco do «Vila Flor», revelou-se um sólido e consistente leader. Numa banda composta por músicos relativamente jovens, a irreverência corria, servida por um sólido conhecimento da tradição Jazz; o que não significou de todo passadismo. Este terá sido talvez o mais coeso e equilibrado dos grupos que já veio a Guimarães animar as jams e as workshops.
O quinteto abriu a segunda semana da melhor forma. Tinha chamado a atenção na antevisão do festival para o trompete luminoso de Sipiagin, mas todos os músicos se revelaram exímios executantes. A começar, claro, por Orrin Evans como era expectável, mas também surpreendente pelo ímpeto coltraneano do saxofonismo Stacey Dillard ou a dupla imparável Donald Edwards - Darryl Hall, bateria – contrabaixo.


O Jazz Real (do John Scofield Trio)
A noite seguinte trouxe a Guimarães outro momento alto e, como tinha previsto, energia. Os méritos de John Scofield nunca estiveram em causa – ele que foi um dos meninos bonitos de Miles -, mas a verdade é que o seu percurso vem sendo bastante irregular. Ainda assim, o projecto – o Real Jazz Trio - que trouxe a Guimarães era à partida um projecto ganhador; até pelos constituintes, Scofield mais o grande Steve Swallow e a subtileza das baquetas de Bill Stewart (acrescido de um trio de sopros que se limitaram quase sempre a fazer os voicings, sem sair da pauta). Energia, blues, R&B e funky encheram a sala ao longo das duas horas do concerto, levando o público ao rubro.
O «Real Jazz Trio» pratica uma música rude e impulsiva, de grande intensidade. Ao contrário da secção de sopros, aos titulares é deixada toda a liberdade: Scofield alterna nos solos entre a sonoridade country quase quase Bill Frisell em «The House Of The Rising Sun» e a crueza dos blues em «Over Big Top» e... «I Can’t Get No Satisfaction». Mas a quietude e lirismo de Jim Hall pareceu andar por aí em «Memorette» e o humor esteve sempre presente nos temas mais bop. A guitarra de Scofield é realmente enciclopédica e nem faltou a electricidade de Jimi Hendrix ou um cáustico sabor a acid-jazz. Sobre o lendário baixo de cinco cordas de Steve Swallow, ele é sempre um deslumbramento, e até a delicada bateria de Bill Stewart se permitiu mais estridentes e rasgadas intervenções.

O virtuoso egocêntrico (:Ahmad Jamal)
Ahmad Jamal foi o responsável pela noite mais polémica da segunda semana, dividindo as opiniões entre o público e a crítica. O Ahmad Jamal, que exerceu profunda influência sobre Miles Davis nos anos 60, não tem nada a ver com o pianista que tocou em Guimarães. A História notou-lhe a «invenção» do silêncio e o equilaterismo absoluto do trio desse tempo. Mas o Ahmad Jamal que veio ao Estoril em 94, era já outro: tornar-se-ia impossível reconhecê-lo apenas mela música! Desde então para cá, o processo de recentramento da música na sua pessoa (apesar do combo de suporte se manter praticamente inalterado) foi absoluto, e a sua música tornou-se vertiginosa. Para o público o virtuosismo é um valor, e daí os aplausos incondicionais; mas a crítica não reconhece a bondade da virtuose por si. Que a crítica também não é unânime; se bem que alguns comentadores pareceram não ter estado no concerto, tendo-se limitado a debitar os textos das enciclopédias... Sarcasmo à parte, as críticas mais pertinentes parecem-me vir dos que acusam Jamal de frieza e despropósito que resultam numa espécie de discurso fragmentado e desconexo. O virtuosismo excessivo de Jamal, mas também alguns maneirismos e truques primários destinados a provocar a adesão do público não ajudam...
É claro que as críticas que vêm sendo feitas a Ahmad Jamal são pertinentes: é verdade que a sua música é fria e é verdade que o seu discurso é fragmentário. E é verdade também que alguns «truques» que usa são artifícios espúrios destinados a agradar ou, talvez melhor, a impressionar o público.
A minha observação é que Ahmad Jamal padece bastante da vaidade dos virtuosos, e estamos a falar de um patamar para além do qual toda a música tende a parecer rotina. Recordemos por exemplo o excelente concerto de Keith Jarrett no CCB: não poucas vezes cogitei como estava desprovido de emoção; quantas vezes fechei os olhos à procura da alma. Mas quem sou eu para avaliar o coração destes músicos para além do entendimento? Como não amar aquela música tão, perfeita? Não raras vezes observamos como os instrumentos já parecem tocar sozinhos e quantas vezes aqueles fantásticos músicos simulam até a emoção (como orgasmos?)?
Ahmad Jamal é um virtuoso para além das classificações. O seu discurso é fragmetário/ fragmentado; mas esse discurso é exactamente assim por opção: coerente, se o compreendermos no todo da composição. Alucinante e excessivo; economia é palavra escusa no seu vocabulário. Ausente de subtileza, dirão: eu diria explícito. Redundante: eu diria conclusivo. Ele executa uma e outra figura, experimenta um e outro efeito, ele liberta duendes e fantasmas que recolhe adiante. Como poucos, Jamal é um pianista total (totalizante) e usa a todo o momento todos os recursos do piano, mas o excesso é o privilégio dos virtuosos.
Se o instrumento de Ahmad Jamal foi no passado, talvez mais do que o piano, o trio; ele assim permanece, mas por perversidade agora desmesuradamente desequilibrado sobre o seu lado. Os músicos que o acompanham revelam-se efectivamente acompanhantes e, com frequência pouco mais que complementos; e aqui reside o fundamental da minha crítica à música de Ahmad Jamal de hoje.
Irrepreensível e seguro esteve sempre James Cammack, denotando até a sua persistência como sideman do mestre; mas o mesmo não se poderá dizer de Idris Muhammad, cuja pertinência questiono. A começar pelo uso de umas baquetas muito duras, creio que de carbono, semelhantes às dos (que pensam que são) bateristas de heavy metal; muito duras e sem ressalto. O efeito resultante é uma batida violenta, sem laivos de sensibilidade e falho de swing. E é aqui que o percussionista entra: para dar cor ao árido pano de fundo rítmico da bateria. Manolo Badrena é exactamente isso: um percussionista colorido cujo papel é o de insuflar alma na música de Ahmad Jamal. Ainda assim, sem se revelar um percussionista extraordinário, Badrena cumpre bem o seu papel.
Repertório quase sempre contemporâneo e próprio, não deixou de recorrer ao mítico (belíssimo) «Poinciana» antes do encore.
Enfim, apesar das minhas observações, Ahmad Jamal permanece um grande pianista e foi para mim um dos grandes momentos do festival.

O sólido Jazz (de Charles Tolliver)
Bem ancorada num sólido hard-bop esteve a Charles Tolliver Big Band, que estava reservada para o encerramento do Guimarães Jazz 2007. Esclarecedor foi desde logo o primeiro tema da noite: poder, mais do especial engenho nos arranjos, punch, mais que subtileza, disciplina e solistas de elevado gabarito.
Charles Tolliver no trompete, mais que na direcção, e um extraordinário Billy Harper no saxofone tenor, estiveram em destaque em temas como «On The Nile». Noutros momentos toda a secção de palhetas estaria em especial evidência: Bruce Williams num demolidor solo parkeriano em «Mournin’var» e de novo no clássico «Round Midnight», e Todd Bashore e Bill Saxton em «Suspiction».
«Suspiction», o encore, com um desfilar de saxofonistas foi, apesar da simplicidade da estrutura um dos momentos da noite, a par do tema de abertura e do clássico «Round Midnight», em vários andamentos, onde toda a classe de um pianista veterano como Kirk Lightsey se revelou.
Energia a rodos, simples nas formas mas dinâmico. Jazz sólido e saboroso.

O silêncio e a poesia (no TOAP Colectivo)
À margem do palco principal realizou-se o concerto do TOAP Colectivo, da Big Band da ESMAE dirigida por Orrin Evans e ainda as jam sessions animadas pelo quinteto do mesmo Orrin Evans, e que decorreram, na primeira semana no Café Concerto do Vila Flor e na segunda no exíguo mas animado espaço da Associação Convívio.
O TOAP Colectivo (2007), cujo primeiro concerto deverá dar origem a um disco a editar em breve, realizou um concerto inesperado: ao neo-bop anguloso do ano passado sucedeu uma música dificilmente classificável, privilegiando o quase silêncio em movimentos aparentemente aleatórios. Os quatro artífices praticam uma música que remete para áreas da música erudita europeia exterior ao Jazz, tanto quanto algumas peças mais abstractas da Creative Orchestra Music do Anthony Braxton dos anos 70. Música de rara beleza conceptual a produzida pelo renovado TOAP composto por Jacob Sacks, Matt Renzi, Bernardo Moreira e André Sousa Machado.

A oficina (workshop) do Jazz (prédica moralista)
Já o produto das workshops do quinteto de Orrin Evans se revelou bem alcandorado num sólido mas moderno hard-bop. Sob a batuta de Orrin Evans a excelente Big Band da ESMAE esteve no seu melhor.
O trabalho da orquestra é um trabalho a que reconheço um enorme mérito: o estudo enquadrado numa orquestra e sob a direcção de professores qualificados é fundamental (não o único instrumento/ local, evidentemente, mas é fundamental) para a formação dos jovens músicos. Ou não será também por acaso que o exercício coral colectivo é considerado fundamental nas escolas de música clássica, como nas escolas de música negra. Os músicos de New Orleans tarimbavam nas grandes orquestras de rua e todos os grandes mestres sem excepção por lá passaram. Mas atenção: uma orquestra de Jazz é um colectivo com objectivos bem definidos, onde os actores cumprem papéis e crescem na colaboração e na competição, e não um aglomerado de curtidos em exercícios onanísticos colectivos.
Sobre as escolas de Jazz, também já tenho tido oportunidade de me manifestar; e é por isso com grande entusiasmo que todos as Primaveras aplaudo o acontecimento da «Grande Festa do Jazz no S. Luiz», por onde passam as escolas de Jazz de todo o país em concurso ao longo de dois dias. É um exercício que aconselho a todos os amantes do Jazz: ver o espectáculo da alegria (e nervosismo como tantas vezes...) de tocar Jazz daquelas centenas de jovens (pretendentes a) músicos de Jazz. As escolas de Jazz são fundamentais, e quem o não reconhece, não sabe nada. Pretender que se pode ir para o palco e tocar sem ter passado pela escola, em 2007, é no mínimo ridículo. Mas não original...
Vem isto tudo a propósito da semana de workshop que sempre acontece no Guimarães Jazz; um trabalho invisível, mas de enorme mérito. O mérito principal, concluo agora, é o de permitir que jovens aprendizes da nobre arte do Jazz contactem com músicos estrangeiros (e perdoem-me que privilegie os norte-americanos; não apenas porque os EUA é a pátria do Jazz, mas também porque o seu nível é excepcionalmente elevado, como foi observável até mesmo nos mais jovens dos membros do Orrin Evans 5tet!) e com ele aprendam. Creio que é um aspecto que alguns directores de escolas e professores descuram; mas deveriam acautelar, até para contornar o normal processo de enquistamento de vícios provocados até pelo inevitável isolamento das escolas de música num país onde a música é o fado (a desgraça). O contrato de professores e músicos estrangeiros capazes de confrontar os jovens estudantes com outros métodos e outras realidades é fundamental (e aqui vai em nota de rodapé mais um pouco do meu veneno: eu creio que existe também muita arrogância nalguns professores e directores que se consideram a si próprios os melhores e não gostariam nada do confronto. Estou enganado?).
Enfim, a semaninha de workshop proporcionada pelo Guimarães Jazz não resolve o problema; mas aponta uma direcção. Experimentem perguntar aos jovens que por lá passam o que pensam da experiência...
Enfim, perdoem-me a toada moralista, mas creio que seria uma boa ideia que outros festivais proporcionassem este tipo de encontros imediatos de 3.º grau aos jovens aprendizes de Jazz, que escolas e orquestras o fizessem e que mecenas o proporcionassem ... Como aliás o já fez a Culturgest no passado... Mas ouvi dizer que a banca em Portugal andava com problemas financeiros...
Uma última nota nesta já longa conversa: sempre há um concerto no final das workshops, resultado do trabalho dessa semana. Mas dado que ele é relegado para a tarde de sexta ou sábado no Auditório 2 do Centro Cultural Vila Flor, muito pouca gente acaba por assistir. Não mereceria ele outra visibilidade? E não mereceria Guimarães saber o que estiveram a fazer aqueles jovens dia e noite naquela semana? Será que não era interessante pô-los a fazer a primeira parte do concerto da última noite? Ou pô-los a tocar nos coretos da cidade? Ou no mercado no sábado de manhã? Ou na feira! Ou espalhá-los pelas freguesias do concelho? Sei lá!, dar-lhes visibilidade!
Ah!, mas é verdade!, sobre o concerto!: Claro que se estava em presença de uma das melhores escolas de Jazz do país (a ESMAE) e isso faz bastante a diferença. É interessante observar como eles são capazes de enfrentar algumas peças mais clássicas como «Someday My Prince Will Come», como outras de cariz mais imprevisível como o «Oh Lord! Don’t Let Them Drop That Atomic Bomb on Me» do sarcástico Charles Mingus, ou ainda inéditos de Orrin Evans, Eric Revis ou Bobby Watson. A orquestra revelou plasticidade e disciplina e apresentou quase sempre bons solistas (nem todos, mas não esqueçamos que estamos ainda assim perante uma escola). A jovem (veterana) Susana Silva esteve em evidência, excelente no uso da surdina; mas também o saxofone alto de João Mortágua em «Easy Now» e essa outra revelação, Ivan Silvestre, em «Conservations» de Bobby Watson.

Noites de magia (:as jams do Convívio)

Por fim as jam sessions. Eu sou fã das jam sessions do Guimarães Jazz. Creio que é o único momento do ano (a única cidade do país, o único festival) onde se recria um pouco o espírito que se vivia no Hot Club nos anos 70: muitos músicos de origens diferentes a tocar, muita gente nova (e gira) a aplaudir entusiasticamente e a circular, muita loucura noite fora. Como já vos disse, apenas estive em Guimarães na segunda semana do festival. Na primeira, as jam sessions decorreram no Café Concerto do Vila Flor onde existem algumas condições acústicas e algum espaço para se circular. No Convívio, situado na zona histórica da cidade, o espaço é exíguo e as condições acústicas são deficientes, mas tem outro encanto. Não vou descrever, o que até já fiz um pouco no passado. Apenas referir que nas últimas noites chegaram a estar no reduzido «palco» do Convívio quase duas dezenas de músicos, onde fisicamente apenas caberiam talvez um terço. E que músicos, senhores! Aos jovens aguerridos do quinteto de serviço foram-se juntando os alunos das workshops e toda a Big Band de Charles Tolliver! Quanto ao público... Mas para que é preciso espaço quando há aquela música e calor humano e cerveja? Uma jam session é uma jam session, mas as do Guimarães Jazz são outra coisa!
Enfim, para o ano há mais. Aqui fica uma pequena reportagem fotográfica. Clique na imagem!

Dezembro 2007

(Fotos de Ahmad Jamal, Charles Tolliver Big Band, John Sofield, Billy Harper, TOAP Colectivo e Orrin Evans, por MÁRCIA LESSA, gentilmente cedidos por Guimarães Jazz.)

(JazzLogical esteve em Guimarães a convite do Guimarães Jazz)


Antecipação do Guimarães Jazz 2007

O acontecimento da semana é o início do Guimarães Jazz que decorrerá até dia 17. De longe o mais importante festival de Jazz nacional, pela dimensão e pelo critério, a programação prossegue a linha mais mainstream dos anos anteriores, longe das polémicas e de algum risco de outrora. Maturo e equilibrado, creio que apesar do inquestionável acerto dos nomes escolhidos - todos eles de primeiríssimo plano -, se perdeu algum gosto pela aventura e pela novidade que personalizava o festival. Os nomes, uma boa parte ajudaram a cosntruir a história do Jazz dos últimos 40 anos e alguns outros são já nomes seguros do moderno mainstream. Vamos a eles.

Já na quinta toca o lendário Pharoah Sanders, um dos últimos companheiros de John Coltrane; um músico intenso, que sempre imprime na sua música as convicções ascéticas e religiosas. Algo distante das formas mais radicais que experimentou com Trane, Sanders amenizou as formas, balanceando a rudeza do free com o lirismo e místicismo numa espécie de síntese que faz dele uma das sonoridades mais imediatamente reconhecíveis.
Acompanha-o um trio de músicos experientes, com quem toca há largos anos, Nat Reeves no contrabaixo, William Henderson no piano e Joe Farnsworth à bateria.

Pois na sexta toca exactamente Ravi, o filho de Coltrane, que não escolheu o estilo nem a forma de tocar do pai nem vive à sua sombra. Ele pratica um estilo híbrido algo herdeiro do hard-bop, mas também do M-Base onde «militou» nos anos 70; e é por direito próprio um dos nomes maiores da sua geração. Curiosamente, nos últimos tempos, tem-se notado uma aproximação ao estilo do pai, mais arrebatado e intenso. A acompanhá-lo estarão três outros sólidos músicos, Drew Gress, Luis Perdomo e E.J Strickland, dos quais o pianista (Perdomo) será o menos conhecido do público nacional, mas é será muito provavelmente sobre quem se deverão dirigir as atenções. Drew Gress, cerebral e rigorroso, realizou em Oeiras e em Leiria dois dos grandes concertos do ano e Strickland é um eficiente e impressivo baterista.

No sábado toca Jan Garbarek, um dos nomes maiores do catálogo ECM, bastante popular entre nós. A acompanhá-lo estão dois músicos que o conhecem bem, Manu Katché e Rainer Brüninghaus e Yuri Daniel que substitui Eberhard Weber.
Músico de muitas músicas, Garbarek é um músico de Jazz atípico que explora desde há muito as músicos do mundo e do tempo, com colaborações que vão de Agnes Buen Garnas a Bugge Wesseltoft, Ustad Nazim Ali Khan, Mari Boine ou os Hilliard Ensemble. Ele possui um som límpido que evoca os grandes espaços, bastante dramático, igualmente capaz de tocar «o grande Jazz» ou a folk universal. O grupo que se apresentará em Guimarães no entanto será o clássico quarteto que o acompanha há vinte anos onde, como referi, Weber, que se encontra doente, será substituido por Yuri Daniel. Outro concerto ganhador.

As noites prolongam-se como é hábito, esta semana no Café Concerto e para a semana no Convívio, sempre «até às tantas». A banda residente nas jams é este ano o quarteto do pianista Orrin Evans, com o irredutível Alex Sipiagin no trompete, Donald Edwards na bateria, Darryl Hall no contrabaixo e Stacy Dillard no saxofone.

5 de Novembro de 2007

Esta semana prossegue o Guimarães Jazz. Os nomes grandes são o lendário Ahmad Jamal, John Scofield, o guitarrista que acompanhou Miles no início dos anos 70, e Charles Tolliver e a sua Big Band. Claro que quem já esteve em Guimarães sabe que o festival não começa nem acaba nos concertos e se prolonga pelas workshops e pelas noites no Convívio, entre outros acontecimentos. Este ano, «outros» são a gravação de um disco para a Tone Of A Pitch (TOAP Colectivo) num concerto no sábado à tarde ou o concerto da Big Band da ESMAE dirigida por Orrin Evans na sexta.

Orrin Evans é o jovem e talentoso pianista que lidera o grupo responsável pelas longas noites no Convívio que sempre se prolongam até não haver gente ou acabar a cerveja; mas também o grupo que dirigirá as workshops e que abre as hostilidades esta semana, já na noite de quarta-feira. Atenção para o trompete de Sipiagin!

Na quinta então, cabem as honras ao «Real Jazz Trio» de John Scofield, que tem como membros nada menos que o exuberante Steve Swallow e o sensível Bill Stewart.
Scofield é um músico algo irregular (ou se preferirmos, camaleónico), capaz de apresentar sob os mais diversos rostos, entre a fusão jazz-rock e o jazz puro e duro. O grupo que se apresenta em Guimarães pertence a esta última classificação. Para além do trio de virtuosos, fazem ainda parte do grupo três sopros, a acrescentar densidade ao Jazz Real de Scofield. Prometem-se emoções fortes para quinta-feira.

Na noite seguinte é a vez da lenda Ahmad Jamal, o pianista que Miles Davis considerava «o mais modernista dos pianistas». Miles admirava-lhe sobretudo o engenhoso uso do silêncio e o perfeito equilíbrio do triângulo que o notabilizava. Longe das formas elegantes desses longínquos anos 60, Jamal tornou-se um pianista vertiginoso. Tudo se concentra nele e até mesmo na designação do espectáculo desapareceram os nomes dos acólitos. Do grupo de suporte, James Cammack e Idris Muhammad acompanham-no há bastante tempo e são dois mais que eficientes sidemen, que contribuem para o efeito «totalizante» do som do grupo. Acompanham-no um percussionista desconhecido (para mim). Apesar da já proventa idade – 77 anos -, auspicia-se um grande concerto.

Para o encerramento do festival, e como é tradição em Guimarães, apresentar-se-á uma big band, este ano dirigida por Charles Tolliver; um músico que nos últimos anos se distinguiu como acompanhante de Andrew Hill, até ao seu recente desaparecimento. Tolliver professa um bop erudito: enquanto instrumentista, ele estará na escola dos grandes virtuosos como Freddie Hubbard. A orquestra de vinte elementos que dirige, onde predominam os metais, tem reputação de poderosa e sofisticada. A ouvir vamos.

12 de Novembro de 2007

Qui 8-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
24.00
Guimarães Jazz
Jam Sessions - 8 a 10
Orrin Evans Group
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s)
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Pharoah Sanders Quartet

PS (s), William Henderson (p), Nat Reeves (ctb), Joe Farnsworth (bat)

Sex 9-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Ravi Coltrane Quartet
RC (ts, ss), Drew Gress (ctb), Luis Perdomo (p), E.J Strickland (bat)
Sáb 10-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Jan Garbarek Group
JG (s), Manu Katché (perc), Yuri Daniel (ctb), Rainer Brüninghaus (p)
Seg 12-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
Guimarães Jazz
Workshops de Jazz: 12 a 17

Orrin Evans: bb, p
Alex Sipiagin: t,
Donald Edwards: bat,
Darryl Hall: b,
Stacey Dillard: s

Qua 14-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Orrin Evans Quintet
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s)
Qui 15-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
John Scofield «Real Jazz» Trio

Steve Swallow + Bill Stewart - JS (g), SS (b), BS (bat), Phil Grenadier (t, flug), Eddie Salkin (st, f, cl-b), Frank Vacin (sb, cl-b)

Guimarães
Associação Cultural Convívio
22.00
Guimarães Jazz
Jam Sessions - 15 a 17
Orrin Evans Group
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s
Sex 16-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
18.00
Guimarães Jazz

Big Band ESMAE
Big Band ESMAE conduzida por Orrin Evans
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz

Ahmad Jamal
AJ (p), James Cammack (ctb), Idris Muhammad (bat), Manolo Badrena (perc)
Sáb 17-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
18.00
Guimarães Jazz

TOAP Colectivo
Matt Renzi (st, cl) Jacob Sacks (p), Bernardo Moreira (ctb), André Sousa Machado (bat)
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz

Charles Tolliver Big Band
CT (dir), David Guy (t), Chris Albert (t), Keyon Harrold (t), David Weiss (t), James Zollar (t), Joe Fiedler (trb), Clark Gayton (trb), Stafford Hunter (trb), Jason Jackson (trb), Aaron Johnson (trb), Todd Bashore (s), Jimmy Cozier (s), Craig Handy (s), Billy Harper (s), Bill Saxton (s), Howard Johnson (s), Stanley Cowell , Cecil McBee (ctb), Victor Lewis (bat), Ched Tolliver (g).

Concertos

Guimarães Jazz 2006
O Guimarães Jazz vem-se afirmando desde há anos o melhor festival de Jazz nacional. Pela programação – criteriosa e sabedora – à dimensão, entre concertos e eventos paralelos. No ano passado ganhou uma nova dimensão no novíssimo Centro Cultural Vila Flor, a rivalizar com as melhores salas de espectáculo nacionais.
Apenas assisti aos concertos da segunda semana, mas gostaria de recordar algumas das coisas escrevi como apresentação da primeira semana do festival no início de Novembro.

«A programação deste ano é verdadeiramente luxuosa. Na quarta-feira, tem lugar o concerto de uma das lendas vivas do Jazz, Wayne Shorter. Companheiro de Miles Davis e um dos seus compositores privilegiados, Shorter é também um dos mais influentes saxofonistas da actualidade, mesmo se ele nunca apareceu ao público como um músico de primeiro plano. Até ao ano de 2002 quando reuniu um quarteto de luxo para explicar ao mundo o porquê da sua autoridade entre os músicos de Jazz. "Footprints", como se chamou o disco, reuniu Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade na bateria, numa recuperação que muitos pensariam impossível do Jazz mainstream dos anos 60, onde Miles Davis (pré-eléctrico) era figura maior. Escrevi na altura:
" Espírito do Jazz. Se existe essa coisa a que alguns dão o nome de 'espírito do Jazz', então ele passou por aqui. 'Footprints' é inequivocamente Jazz no seu estado mais puro e Wayne Shorter um dos seus mais dignos representantes. 'Footprints' foi gravado ao vivo por um quarteto em estado de graça, acústico, durante uma tournée de 2001 ... ".
Cinco anos depois e mais dois discos, Shorter "Footprints" – o quarteto e o projecto - toca (de novo) em Portugal. Em Guimarães (quarta, 8) e na Culturgest (quinta, 9). Imperdível.

Quinta também, em Guimarães toca o Tone Of A Pitch Colectivo, nome da activa editora de Jazz nacional, com três dos excelsos convidados do festival às workshops: John Ellis, Alan Ferber e Brad Shepik. A actuação do quarteto composto (este ano) por Nelson Cascais, Pedro Moreira, Jorge Reis e Bruno Pedroso inicia uma colaboração que se pretende frutuosa com o Guimarães Jazz.

Marc Copland é um pianista subtil e lírico, insinuante e impressivo. A sua forma mais reconhecida, a sua "especialidade" e a sua "marca" são os encontros, os duos ou trios, os diálogos. Tim Haggans, por exemplo, com quem se apresenta em Guimarães na sexta-feira, já protagonizou com Copland um dos raros discos de piano-trompete da história do Jazz, em 2000. Mas já tocou em trio com John Abercrombie (g) e Kenny Wheeler (t) e em duo com Gary Peacock (ctb) ou Greg Osby (sa), com Dave Liebman (ss, st), ou já este ano com Bill Carrothers, num lindíssimo duo de pianos.
Comunhão, afinidades, empatia, parece ser a obsessão deste grande pianista de Jazz. Com ele, Tim Hagans que tocou já este ano no Estoril Jazz, uma espécie de bopper inconformado, também como Copland capaz de se revelar lírico e apaixonado. A completar o quarteto um grande irreverente contrabaixista, Drew Gress e ainda o competente Jochen Ruckert na bateria. De referir que estes dois últimos músicos gravaram recentemente com Copland um disco com um nome significativo: Some Love Songs. Um concerto muito bonito em perspectiva. Na sexta.

Na tarde de sábado toca o Sexteto de Jazz da ESMAE - Porto, que ganhou o prémio do melhor combo na Festa do Jazz (S. Luiz, Lisboa), em 2006. Na boca de cena estarão os dois músicos que ganharam o prémio do melhor instrumentista: os saxofonistas Ivan Silvestre e João Pedro Brandão.

No sábado ainda, à noite, toca o trio regular de Abdulah Ibrahim, composto por Belden Bullock (ctb) e George Gray (bat). Será provavelmente um Abdulah Ibrahim mais Jazz que o que se apresentou em Março na Casa da Música o que tocará em Guimarães.
Relembro o que escrevi por essa ocasião: "Ibrahim dispensa apresentações: ele é um aclamado pianista de Jazz, sul-africano de nascença, por longos anos – até ao fim do apartheid – exilado. Ele possui uma sonoridade reconhecível, densa e quente, fortemente melódica, mesmo ‘dançável’, mas de forma alguma vulgar ou fácil. O percurso de Abdulah Ibrahim é longo, desde os tempos em que era influenciado por Monk (quando ainda dava pelo nome de Dollar Brand) até à pontuação grave da savana, religiosidade e serenidade (AI converteu-se ao islamismo) que hoje faz brotar dos dedos. Não será um Abdulah Ibrahim inovador que se irá apresentar no Domingo na Casa da Música, mas a sua música possui algo se mágico que é eterno."
Magia é uma vez mais o que se espera do concerto do grande pianista.

E o Guimarães Jazz continua para a semana. Mais ou menos, porque do que eu não falei foram das workshops dirigidas por Alexis Cuadrado, Alan Ferber,John Ellis, Mark Ferber e Brad Shepik a várias dezenas de jovens e que terminarão no final da próxima semana e ainda as lendárias Jam Sessions noite afora no Convívio. E mais não digo. »

A segunda semana do Guimarães Jazz começou com o concerto dos músicos convidados para dirigir as Oficinas de Jazz deste ano: Alexis Cuadrado, Alan Ferber, John Ellis, Mark Ferber e Brad Shepik. Foi um concerto onde a surpresa este ausente, mas descontraído e competente. E como eu suspeitava os momentos mais interessantes foram protagonizados pelo guitarrista. Shepik mostrou toda a sua originalidade e fogosidade nos solos, e as suas intervenções no seio do grupo foram sempre oportunas.

A «solução de recurso» encontrada para substituir o lendário Andrew Hill, Geri Alen fez um excelente concerto. Allen chegou a Guimarães na tarde de quinta, quando conheceu os dois músicos que a iriam acompanhar, o baterista e contrabaixista do grupo de Hill, e apesar de apenas terem tido algumas horas para ensaiar o repertório, o grupo demonstrou ao vivo o que são três verdadeiros músicos de Jazz a funcionar. Notaram-se por vezes algumas discretas indicações da pianista ao baterista e baixista e num ou outro tema ela teve que recorrer à pauta – afinal ela fez questão de interpretar algumas das composições de Andrew Hill -, mas ainda assim, aquela era a sua música. Jazz puro, quero eu dizer, na sua versão mais erudita. Como eu referi na apresentação de Allen, a pianista possui toda a história do piano Jazz nos dedos, do bebop a Cecil Taylor. O seu estilo é voluptuoso e elegante, orquestral e impressivo. Erudição, erudição, era a palavra que me soava no cérebro enquanto me deliciava com a inteligência das suas soluções. Espantoso era observar como os três reagiam aos estímulos mas subtis dos companheiros, como pareciam tocar juntos desde sempre, de como as mais complexas linhas delineadas pelo piano eram replicadas ou completadas. Já tinha ouvido Geri Allen e a sua música não me surpreendeu, como também não me surpreendeu a habilidade e energia criativa do baterista Eric McPherson, mas não me recordo de ter alguma vez visto o contrabaixista actuar. John Herbert foi uma boa surpresa. Mas mais do que a prestação das três personalidades, o espectáculo foi observar a empatia que se foi criando entre eles ao longo das duas horas. Um grande concerto!

Guimarães já tinha visto no ano passado o grande saxofonista que é Dave Liebman. Apesar disso, a dúvida sobre a eventual «artificialidade» da reunião Dave Liebman Liebman / Brussels Jazz Orchestra era de certa forma legítima: não são raros os exemplos mais ou menos oportunistas deste modelo, associando orquestra com «vedetas». Não foi de todo o que se passou em Guimarães e o mérito cabe em igual medida a ambas as partes. Liebman surgiu aos olhos (ouvidos) do público como um verdadeiro membro da orquestra! O entendimento foi sempre perfeito mercê também da maleabilidade da orquestra - uma espécie de organismo vivo a funcionar como um instrumento de onde pontualmente saíam solistas – e do elevadíssimo nível das prestações dos músicos, como membros da orquestra ou solistas, da alegria que comunicavam, do rigor e da inteligência dos arranjos. A noite foi assim quase quase perfeita. Quase quase: achei a prestação de Nathalie Loriers, a pianista, algo contida (ao contrário da fogosidade do resto da orquestra) e toda a secção rítmica poderia ser um pouco mais interventiva. Outro aspecto que acabou por prejudicar o concerto, e até porque ele se prolongou bastante, até pelo entusiasmo dos participantes e do público, foi o a incidência excessiva de Liebman no saxofone soprano.
Ainda assim o nível do concerto foi sempre elevadíssimo, com uma orquestra a funcionar quase sem director (que se relegava para o papel de simples instrumentista). Perfeição na execução, força, engenho e fulgor na interpretação de orquestrações de grande complexidade, naturalidade na adaptação do «elemento estranho», um naipe de instrumentistas de grande gabarito, à altura - nos solos e nos duelos – do convidado.
Dave Liebman foi simplesmente fabuloso (à parte o meu senão «técnico»). Como me diria Carla Bley no dia seguinte «provavelmente o melhor saxofonista da actualidade». E notável também, além das suas artes como instrumentista, a capacidade de interagir com outros músicos (o que explica a profícua e diversa produção artística em combos dos mais diversos formatos, do intimista ao orquestral), que o revelou como o solista perfeito e um verdadeiro membro da Brussels.
O repertório percorreu autores e arranjadores tão distintos quanto Hermeto Pascoal, Vince Mendonza, George Gruntz, Dave Holland, Duke Ellington ou o próprio Dave Liebman.

O encerramento do Guimarães Jazz 2006 esteve a cargo da Liberation Music Orchestra de Charlie Haden. Charlie Haden é «um amigo de Portugal». Faz parte da História a sua «conturbada» participação no 1.º Cascais Jazz de 1971, onde acabou por ganhar uma viagem de borla para o aeroporto escoltado pela PIDE. Mas também o igualmente histórico concerto de Haden com Carlos Paredes, o duo com Paul Motian no disco Closeness em «For a Free Portugal» (com uma introdução com a gravação do momento em que em Cascais dedicou a sua composição «Song For Che» aos movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné) e ainda a interpretação pela Liberation em 1982 do Grândola Vila Morena de José Afonso, registado em The Ballad Of The Fallen (Haden veio a Portugal por diversas outras vezes).
O concerto de Charlie Haden em Guimarães, exactamente 35 anos após a sua participação no 1.º Cascais Jazz estava por tudo isto carregado de expectativa, mas também emotividade.
A renovada Liberation Music Orchestra integra alguns dos melhores músicos de New York, entre os quais gostaria de destacar Chris Cheek, Miguel Zénon, Tony Malaby, Matt Wilson e Steve Cardenas. Cheek esteve em destaque; ele possui um fraseado e uma sonoridade característicos, com um vibrato muito peculiar que o torna distinto. Zénon que «conhecemos» no Seixal Jazz 2005 é já uma certeza entre a nova geração de saxofonistas. E seria displicente falar de cada um dos músicos da banda, todos eles escolhidos a dedo por Carla Bley de entre a nata dos músicos de New York, creio que quase todos.
Este é outro aspecto assinalável na Liberation: a omnipresença de Carla Bley, já que esta quase poderia ser a sua orquestra. Claro que o projecto é de Haden e esta é a sua música; mas são dela os arranjos, é dela a direcção, ela escolheu os músicos, a sua já longa amizade e colaboração com Haden acabou por influenciar o contrabaixista. A própria concepção «vampírica» de composição e orquestração de Carla Bley é desde há muito partilhada por Haden (ou será afinal o contrário?) e ela não pode ser ignorada na sua música.
O repertório do concerto baseou-se fundamentalmente no disco da Liberation Not In Our Name, que é também o lema dos opositores à intervenção americana no Iraque. De notar que o disco apenas contém temas escritos por compositores norte-americanos, numa forma de afirmar que na América nem todos estão de acordo com a política da administração Bush. Pat Metheny, Lyle Mays, Davis Bowie, Bill Frisell, Ornette Coleman ou os próprios Carla Bley e Charlie Haden passaram por Guimarães pela música da Liberation que terminou com um emocionante «Grandola/ We Shall Overcome».
A emoção marcou todo o concerto desde o primeiro minuto. Esse é mesmo um dos cunhos da música de Haden, seja no repertório que procura a provocação no enfoque militante às músicas populares do mundo, no tratamento orquestral excitante, diria épico, e que termina no próprio walking denso característico do seu contrabaixo. Em Guimarães o tom emotivo não parou de subir até ao último momento do concerto e isso era notório na forma entusiasmada como o público aplaudia. E eu mesmo fui apanhado de surpresa quando, já no encore, Tony Malaby e Matt Wilson surgem dos dois lados do palco a tocar o Grândola nos tambores. Confesso, aqui que ninguém mais nos ouve, que as lágrimas me explodiram nos olhos e não mais parei de chorar até ao fim do concerto. Eu sei que é completamente estúpido porque de certa forma eu já sabia que eles não poderiam deixar de tocar o Grândola. O que me perdeu foi talvez a forma dramática (lindíssima, e forte; Haden tem realmente jeito para dramatizar) como os dois músicos entraram em palco marcando de forma pesada o Grândola e depois como prosseguiu até se transformar no significante e cantável We Shall Overcome. Devo estar velho que me emociono com facilidade, mas reconfortei-me quando à saída observei outros velhos tontos como eu a fungar disfarçadamente.
Enfim, a emoção também faz parte da música e do Jazz muito em especial, sempre pensei. E o concerto que encerrou o Guimarães Jazz 2006 teve tudo: grandes composições, grandes músicos, grandes prestações e muita muita emoção.

(JazzLogical esteve em Guimarães a convite do Guimarães Jazz)


GUIMARÃES JAZZ (1992 a 2006)
PROGRAMAS

1992 (1.ª edição)
Big Band do Hot Club
Trio de Eduardo Santos
Moreiras Jazztet
Trio de Carlos Martins
Dixiegang
Camerata Orquestra com João Paulo Esteves da Silva
Cal Viva
Maria Viana Trio
Maria João Trio

1993 (2.ª edição)
Art Farmer & Zé Eduardo Trio
Kaf –Kinteto de António Ferro
Mal Waldron Trio c/ Carlos Barreto
Conrad Herwig & Trio de Bernardo Sassetti
Hermeto Pascoal Trio
Deborah Brown Quartet
Raul Marquez e os Amigos da Salsa

1994 (3.ª edição)
Mulheres do Jazz
Laurent Filipe e Orquestra Som do Mundo c/ Ali Ryerson
Jane Ira Bloom Trio c/ Cameron Brown e Bobby Previte
Ana Alves Quinteto
Cindy Blackman Quarteto c/ Carlos Martins
Sophia Domancich Trio
Upredictable Nature
Maria Anadon, Ana Paula Oliveira e Fátima Serro c/ Trio de Carlos Azevedo

1995 (4.ª edição)
Cinema
Farataos Jazz Band + Melvin Brown
Telectu + Jac Berrocal + Louis Sclavis c/ Filmes de Palolo
Bill Frisell Band + Joey Baron c/ Filmes de Buster Keaton
Kenny Wheeler + Trio de Carlos Bica
Ficções - Septeto de Tomás Pimentel
Betty Carter c/ o seu Trio
Couraçado Potemkine (filme) c/ Big Band Arfi “Marmite Infernale

1996 (5.ª edição)
Gonzalo Rubalcava Cuban Quartet
Oregon
Nguyên Lê
Maria João, Mário Laginha, Kai Eckhardt de Camargo e Martin France
Jorge Pardo c/ Carles Benavent, Chano Domínguez e Rubem Dantas
Django Bates, Delightful Precipice Big Band

1997 (6.ª edição)
Bernardo Sassetti – Mundos
I Compani – Musica de Nino Rota c/ Filmes de Fellini
Cármen Linares, Jean-Marc Padovani e Le Minotaure Orchestra –
Canto de Garcia Lorca
Palace d’Arfi – Festin d’ Oreille
Kenny Baron & Mino Cinelu
Jon Jang Sextet
Vienna Art Orchestra

1998 (7.ª edição)
L’Orkestre des Pas Perdus – Maison Douce Maison
Fareed Haque Quartet – Déjà Vu (Crosby, Stills, Nash & Young)
David Linx & Diederik Wissels Quartet – Bandarkâh
Mário Laginha Quinteto – Nem Guerra Nem Paz
Tous Dehors – Comment Prendre L’air Sans Attraper Froid
Ken Schaphorst Ensemble – When The Moon Jumps
The Either/Orchestra – Across the Omniverse

1999 (8.ª edição)
Michael Gibbs Orchestra – Turn Of The Century (Co-produção Guimarães Jazz / Culturgest)
Ran Blake – Something to live for (solo piano)
Pino Minafra Sud Ensemble
Ivan Paduart Trio
Marc Ducret Trio
Baldo Martinez Grand Ensemble, featuring Maria João – Projecto Minho
Uri Caine Ensemble – Bach Project
D. D. Jackson Trio – Jackson, Cyrille & Jones
Vanguard Jazz Orchestra, Lickety Spilt

2000 (9.ª edição)
Gil Goldstein Big Band – Pastorius & Flamenco Jazz (Co-produção Guimarães Jazz / Culturgest)
Joe Fonda Quintet
Ernest Dawkins, New Horizon Ensemble
Carlos Maza Quartet
Steve Lacy & Roswell Rud Quartet – Monk’s Dream
Cyro Baptista Beat The Donkey & Pedro Moreira Sexteto
Vandermark 5
Ernst Reijseger – solo
Giorgio Occhipinti Heroe Tentetto
David Binney Tentet, Free to Dream Ensemble

2001 (10.ª edição)
Maria Schneider dirige Big Band (Co-produção Guimarães Jazz / Culturgest)
Carlos Azevedo Ensemble
Uri Caine – piano solo
Territory Band c/ Ken Vandermark
Alex von Schlippenbach – piano solo
Italian Instabile Orquestra
João Paulo Esteves da Silva Quarteto
François Corneloupe Quarteto
Bik Bent Braam Big Band
Franz Koglmann Monoblue Quartet
Malcolm Braff Combo

2002 (11.ª edição)
Bob Mintzer Big Band (Co-produção Guimarães Jazz / Culturgest)
Eric Person & Meta Four Quartet
Brad Meldhau – piano solo
Neal Kirkwood Octeto
Marylin Crispell, Gerry Hemingway & Barry Guy
Sheila Jordan & Steve Kuhn Trio
Akim Kaufmann Quarteto
Herb Robertson and The Double Infinitives Sextet
ZPF Quarteto (Carlos Zíngaro, Simon H. Fell, Márcio Mattos & Mark Sanders)
Peter Erskine Trio

2003 (12.ª edição)
Gianluigi Trovesi Big Band (Co-produção Guimarães Jazz / Culturgest)
Danilo Perez Trio
Martial Solal – piano solo
ONJ – Orquestra Nacional de Jazz de França
Matt Wilson Quartet
Jorge Lima Barreto & Eddie Prévost – Palolo Impromptu
Anthony Braxton Quartet
Randy Weston African Rhythms Trio
Bobby Hutcherson Quateto

2004 (13.ª edição)
Kenny Wheeler Big Band
Terence Blanchard Sextet
Cecil Taylor, Bill Dixon & Tony Oxley
Mark Turner + Oam Trio (Marc Miralta, Joe Martin & Aron Goldberg)
Orquestra de Jazz de Matosinhos c/ Mark Turner
Sei Miguel Quarteto
Vienna Art Orchestra
Ron Carter Foursight Quartet
Dewey Redman Quartet

2005 (14.ª edição)
Bob Brookmeyer New Art Orchestra
Ralph Alessi Quartet, Featuring Jason Moran
Jason Moran – piano solo
Sexteto da ESMAE
Art Ensemble of Chicago – Great Black Music “Ancient To The Future”
Jason Lindner, Omer Avital, Bill McHenry, Daniel Freedman
Dave Liebman Quartet
Katrine Madsen and The Orchestra
Big Band da ESMAE dirigida por Jason Lindner
Maria Schneider Orchestra

2006 (15.ª edição)
Wayne Shorter Quartet, Featuring Brian Blade, John Patitucci & Danilo Perez
Projecto TOAP/Guimarães Jazz : Jorge Reis, Nelson Cascais, Bruno Pedroso e Pedro Moreira c/ John Ellis, Alan Ferber & Brad Shepik
Sexteto da ESMAE
Marc Copland Trio c/ Tim Hagans
Abdullah Ibrahim Trio
Alexis Cuadrado, John Ellis, Alan Ferber, Mark Ferber & Brad Shepik
Geri Allen Trio
Brussels Jazz Orchestra, featuring Dave Liebman
Charlie Haden Liberation Music Orchestra, featuring Carla Bley

 


Guimarães Jazz (Festival)

Guimarães

Centro Cultural Vila Flor

Av. D. Afonso Henriques, 701, Urgeses, 4810-431 Guimarães

253 424 700

Bilheteira: Centro Cultural Vila Flor e www.aoficina.pt

Período do ano: Novembro

Director Artístico Actual: Ivo Martins

Anteriores Programadores: António Ferro

Organização/ Proprietário: Câmara Municipal de Guimarães, A Oficina, Convívio – Associação Cultural