Guimarães Jazz
2008
Chega o Novembro e com ele o Guimarães Jazz que já vai na 17ª edição. Se a longevidade não é por si só garantia de qualidade, a verdade é que ele há muito que atingiu a maturidade, é um dos grandes se não o maior dos festivais de Jazz nacionais, e ocupa um lugar cativo no calendário anual dos jazzómanos. Entre os quais me incluo, com muito gosto.
Nove concertos (sem contar com as jam sessions diárias), centena e meia de músicos, três grandes formações, workshops, várias actividades paralelas e um cardápio que espanta pelo arrojo e que inclui não poucos nomes cimeiros do Jazz internacional, compõem o Guimarães Jazz 2008, uma vez mais a fazer História.
O festival começa na quinta-feira 13 com Kurt
Elling. Discípulo
de Mark Murphy, ele é uma das raras vozes masculinas do panorama Jazz
actual, mas é um digníssimo representante dessa classe (male
vocalist). Kurt Elling impressiona mais que pela técnica (irrepreensível),
pela emoção que comunica. Ele é um verdadeiro cantor de
canções, que interpreta de forma relativamente straight, mas
de forma alguma ao jeito dos crooners. Por outro lado, ele usa pouco dos recursos
característicos dos cantores de Jazz do tipo do scat, preferindo ocasionalmente
as técnicas vocalese de um Jon Hendricks; mas talvez que a característica
principal seja mesmo a densidade e emoção que coloca nas palavras.
Simplicidade (aparente) nas formas, elegância e sofisticação,
melancolia e sentimento. Coisas que (já) não se esperam num cantor.
Já lhe conhecia os discos de há muito, mas confesso que fiquei
literalmente pregado ao chão no Estoril Jazz do ano passado quando Kurt
Elling cantou os primeiros versos de (creio que) This Time Is Love, na mais
impressionante interpretação que jamais ouvi. A crítica
nacional (ver votação em Jazzologia) votou o concerto do Estoril
Jazz o melhor concerto de 2007 (ex aequo). Não será descabido
dizer que qualquer concerto de Kurt Elling em qualquer festival de Jazz de
qualquer local do mundo arrisca sempre a ser o seu melhor. A minha única
objecção ao concerto será a sua colocação
num dia de menor afluência de público, mas creio que dificilmente
o Guimarães Jazz teria melhor abertura.
O concerto de sexta 14 está nos antípodas do dia anterior. Steve
Coleman é um saxofonista que procura cruzar a expressão mais
genuinamente parkeriana do Jazz com a música pop urbana. A banda que
irá tocar em Guimarães (e também na Culturgest no sábado
15) foi criada nos anos 80 como expressão do movimento M-Base que liderou
e que era constituído por músicos como Greg Osby, Geri Allen
ou Cassandra Wilson, Lonnie Plaxico, Marvin "Smitty" Smith e Graham
Haynes. Vigoroso e exímio saxofonista (como Charlie Parker, mas também
como Maceo Parker, os seus gurus, ele toca alto), ele procura trazer para o
Jazz a popularidade que perdeu quando o bop migrou para as caves dos bares
e se intelectualizou, embora ele próprio seja um dos representantes
maiores de um certo Jazz intelectualizado (e politizado). Nos mais de trinta
anos de actividade, ele tocou tudo entre Rythm & Blues e Free Jazz, tendo
tocado com Sam Rivers e Cecil Taylor, Michael Brecker, David Murray e ainda
Dave Holland, a cuja banda chegou a pertencer por algum tempo.
Não resta nenhum dos membros originais dos Six Elements de há vinte
anos, mas a banda mantém as características desse tempo, algures
entre o bebop e a oralidade de África, entre o funk e a pop underground
urbana. Música viva e enérgica, ameaça incendiar a plateia
do Vila Flor.
Django
Bates que encerrará a primeira semana da sala nobre do Centro
Cultural Vila Flor destacou-se desde sempre pelo eclectismo e irreverência.
De formação clássica, começou por tocar rock, tendo
participado de seguida nos movimentos de fusão Jazz-pop urbano onde
se destacou Courtney Pine. Os anos seguintes encontramo-lo junto com os nomes
maiores da downtown nova-iorquina como Tim Berne ou de novo na fusão
com o ex-Yes e ex-King Crimson Bill Brufford, ou ainda como membro da George
Gruntz Concert Jazz Band.
A partir dos anos 90 faz-se notado como compositor e arranjador, liderando
os seus próprios projectos onde se destacam o quarteto dedicado às
estações que teve o epílogo já este ano. Depois
do início do milénio - e ao mesmo tempo que começam a
chover nomeações e prémios - quase deixou de gravar, tendo-se
dedicado ao ensino e principalmente à composição e a trabalhar
para as inúmeras encomendas que lhe são solicitadas de todo o
mundo, para bandas e orquestras de Jazz, pop, clássica, mas também
para cinema e teatro.
Django Bates vem tocar a Guimarães o disco de 2008 Spring Is Here (shall
we dance?), à frente da stoRMChaser, uma orquestra de Copenhaga de dezanove
membros, entre os quais treze sopros. O título sugere um trabalho sobre
música de dança, mas Django Bates é um músico imprevisível.
Se me é permitido, eu sugeria ao público que para o encore lhe
exigissem a sua devastadora versão de New York New York.
Entretanto, é já na
sexta 14 que toca a Big
Band da ESMAE conduzida
por Marcus Strickland no Pequeno
Auditório. Sobre a Big Band da ESMAE, é redundante
voltar a falar-se, dado que ela é presença regular no Guimarães
Jazz e o público sabe que conta com o melhor.
Além disso, o quinteto que leva a Guimarães é o responsável
pelas jam sessions e pelos workshops que estão a decorrer desde o início
da semana.
Enfim, no sábado à tarde, e à semelhança dos últimos anos, a Tone Of A Pitch (TOAP) apresenta o resultado da parceria como Guimarães Jazz. O TOAP Colectivo será este ano composto por Matt Pavolka no contrabaixo, Peter Rende no piano, Alexandre Frazão na bateria e João Moreira trompete, tendo como convidado o singular guitarrista Ben Monder, bem conhecido do público de Guimarães.
Marcus Strickland, que abrirá a segunda semana do festival, é um expressivo saxofonista, um coltraneano que se tem notabilizado na Mingus Big Band ou ao lado de Christian McBride, Tom Harrell, Roy Haynes, ou ainda como ponta de lança do Keystone de Dave Douglas. O quinteto que lidera embalará as altas noites do Guimarães Jazz, que esta semana migra do Convívio para a cave do Vila Flor.
Na quinta 20 é a vez da homenagem ao grande trompetista Lee Morgan, cozinhado por Billy Garper, Bennie Maupin, Cecil McBee, Billy Hart e outros ilustres. No trompete estará David Weiss e The Cookers («The Cooker» é o nome do seminal disco de Lee Morgan de 1957) é o nome do grupo. O percurso de Lee Morgan foi meteórico mas determinante para o Jazz. Ícone maior do Jazz, injustamente esquecido do grande público, ele foi determinante na solidificação da linguagem bop, tendo-se notabilizado ao lado dos Art Messengers, Hank Mobley, John Coltrane, Andrew Hill ou Jimmy Smith, o que atesta a enorme versatilidade e ilustra a enorme responsabilidade do grupo que vai tocar em Guimarães, e em especial do trompetista. Mas David Weiss é um exímio executante, também líder e arranjador, como se verá. Sobre os restantes membros do grupo, o nome fala por eles.
Um clássico incontornável toca na sexta: Kenny Barron, na mais nobre arte do trio. Nomeá-lo de bopper é redutor, ele que é um dos mais finos pianistas do Jazz clássico. Sideman de eleição pela sua capacidade única de ouvir e a empatia que gera, como líder é toda a elegância e sofisticação do mais nobre pianismo Jazz que se solta. Incontornável.
Enfim no sábado a grande Metropole Orchestra dirigida por Vince Mendoza encerra da melhor forma a 17ª edição do festival. Fundada em 1945 (Países Baixos), a instituição Metropole Orchestra acomnpanhou Tony Bennett, Burt Bacharach, Lee Konitz ou Bob Brookmeyer, entre centenas de cantores e músicos e (se contei bem) conta hoje com cinco dezenas de instrumentistas, entre os quais um sólido naipe de cordas que lhe dá um certo cariz clássico. Mas assim quis Vince Mendoza, o actual director (também compositor e orquestrador), um músico profundamente influenciado por Gil Evans, que se notabilizou há alguns anos no projecto «Jazzpaña» onde fundia o Jazz com o flamenco e onde tocavam, entre outros, Michael Brecker, Al Di Meola, Peter Erskine e Carlos Benavent. Na bateria, como convidado, estará o amigo de longa data Peter Erskine.
Um encerramento em grande, como o Guimarães Jazz gosta de fazer.
12 de Novembro de 2008
| Qui 13-Nov | Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
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22.00
|
Kurt Elling Quartet
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Kurt Elling (voz), Laurence Hobgood (p), Rob Amster
(b), Kobie Watkins (bat)
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Ass. Cultural Convívio
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24.00
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Marcus Strickland Quintet - Jam Session
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Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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Sex
14-Nov
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Centro Cultural Vila Flor
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18.00
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Big Band ESMAE + Marcus Strickland
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Marcus Strickland (dir)
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Centro Cultural Vila Flor
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22.00
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Steve Coleman and Five Elements
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SC (sa), Jonathan Finlayson (t), Tim Albright (trb),
Jen Shyu (voz), Thomas Morgan (ctb), Tyshawn Sorey (bat)
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Ass. Cultural Convívio
|
24.00
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Marcus Strickland Quintet - Jam Session
|
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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Sáb
15-Nov
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Centro Cultural Vila Flor
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17.00
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TOAP Colectivo
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Ben Monder (g), Matt Pavolka (b), Pete Rende (p), Joao Moreira (t), Alex Frazão (bat) |
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Centro Cultural Vila Flor
|
22.00
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Django Bates and stoRMChaser
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Julie Kjær (f), Bo Skjold Christensen (cl), Magnus Thuelund Hansen (sa), Aske Drasbaek Philipsen (sa, ss), Marius Neset (s), Martin Stender (st), Søren Kristian Karkov (s), Lars Søberg Andersen (t), Jimmy Nyborg (t), Ulrik Kofoed (tro), Sara Madsen (trb), André Jensen (trbb), Daniel Herskedal (tu), Christian Bluhme Hansen (g), Anton Wilhelm Eger (bat), Frans Peter Eld (b-el), Mikkel Schnettler (perc), Josefine Lindstrand (voz, sinos tibetanos), Django Bates (tec, Eb tenor horn) |
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Ass. Cultural Convívio
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24.00
|
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
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Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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Qua
19-Nov
|
Guimarães
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Centro Cultural Vila Flor
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22.00
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Marcus Strickland Quintet
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Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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Qui
20-Nov
|
Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
|
22.00
|
The Cookers
Lee Morgan 70th Birthday Celebration |
Billy Harper (st), Bennie Maupin (st, clb), Craig Handy (sa), Larry Willis (p), Cecil McBee (ctb), Billy Hart (bat), David Weiss (t) |
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Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
|
24.00
|
Marcus Strickland Quintet - Jam
Session
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Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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| Sex 21-Nov | Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
|
22.00
|
Kenny Barron Trio
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KB (p), Kyioshi Kitagawa (b), Johnathan Blake (bat)
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Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
|
24.00
|
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
|
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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| Sáb 22-Nov | Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
|
22.00
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Metropole Orchestra conducted by
Vince Mendoza + Peter Erskine
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(bat): Petter Erskine,
1ºs (v): Arlia de Ruiter, Alida Schat, Sarah Koch, Denis Koenders, Pauline Terlouw, Erica Korthals Altes, David Peijnenborgh, Seija Teeuwen, 2ºs (v): Merijn Rombout, Herman van Haaren, Lucja Domski, Wim Kok, Elisabeth Cats, Marianne van den Heuvel, Vera van der Bie Violas Mieke Honingh, Norman Jansen, Julia Jowett, Iris Schut, Isabella Petersen, (vcelo): Bastiaan van der Werf, Maarten Jansen, Wim Grin, Jascha Albracht, (ctb): Erik Winkelmann, Arend Liefkes, (har): Joke Schonewille, (f): Janine Abbas, Mariël van den Bos, (obo): Willem Luijt, (s): Marc Scholten, Paul van der Feen, Leo Janssen, Jos Beeren, Max Boeree, (tro): Pieter Hunfeld, (t): Jan Oosthof, Jan Hollander, Henk Heijink, Ruud Breuls, (trb): Bart van Lier, Jan Oosting, Jan Bastiani, (trbb): Martin van den Berg, (perc): Eddy Koopman, Murk Jiskoot, (ctb): Aram Kersbergen, (g): Peter Tiehuis, (p, sin): Hans Vroomans |
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Guimarães
|
Centro Cultural Vila Flor
|
24.00
|
Marcus Strickland Quintet - Jam
Session
|
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant
(p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
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Guimarães Jazz 2007
Cumpriu-se mais um Guimarães Jazz. Duas semanas, nove concertos dos
quais sete «internacionais», seis (longas) noites de jam sessions,
uma workshop de uma semana envolvendo dezenas de jovens estudantes
de música,
uma produção irrepreensível no apoio aos músicos,
público e aos jornalistas e críticos, material de apoio e informação
profuso e graficamente elegante, gadgets, etc. Se a tudo isto acrescentarmos
bilhetes relativamente acessíveis e duas excelentes salas de espectáculo,
temos uma verdadeira festa de Jazz, que faz de Guimarães um local de
romaria anual. Enfim, ajuntando à dimensão e à profissional
produção, resta acrescentar a criteriosa programação,
a cargo de Ivo Martins.
Como referi na antecipação do festival, a programação
do Guimarães Jazz sofreu uma (deliberada) inflexão recente
no sentido do mainstream, abandonando algum gosto pelo risco que
o personalizava. Perdido aqui, ganho em público, argumenta a organização,
ele aí está, o Guimarães Jazz.
Na primeira semana, a que não assisti, tocou (terá tocado), melhor
o jovem Ravi Coltrane, emocionou o histórico Pharoah Sanders, sem
novidade Jan Garbarek; assim me contaram.
A energia da juventude (do Orrin Evans Quintet)
A segunda semana abriu com o Orrin Evans Quintet, o grupo responsável
também pelas workshops e, como é hábito, pela animação
das noites no «Convívio».
Orrin Evans é o talentoso músico que se tem vindo a fazer notar
como um dos pianistas da Mingus Big Band.
No palco do «Vila Flor»,
revelou-se um sólido e consistente leader. Numa banda composta por músicos
relativamente jovens, a irreverência corria, servida por um sólido
conhecimento da tradição Jazz; o que não significou de
todo passadismo. Este terá sido talvez o mais coeso e equilibrado dos
grupos que já veio a Guimarães animar as jams e as workshops.
O quinteto abriu a segunda semana da melhor forma. Tinha chamado a atenção
na antevisão do festival para o trompete luminoso de Sipiagin, mas todos
os músicos se revelaram exímios executantes. A começar,
claro, por Orrin Evans como era expectável, mas também surpreendente
pelo ímpeto coltraneano do saxofonismo Stacey Dillard ou a dupla imparável
Donald Edwards - Darryl Hall, bateria – contrabaixo.
O Jazz Real (do John Scofield Trio)
A noite seguinte trouxe a Guimarães outro momento alto e, como tinha
previsto, energia. Os méritos de John Scofield nunca estiveram em causa – ele
que foi um dos meninos bonitos de Miles -, mas a verdade é que o seu
percurso vem sendo bastante irregular. Ainda assim, o projecto – o Real
Jazz Trio - que trouxe a Guimarães era à partida um projecto
ganhador; até pelos constituintes, Scofield mais o grande Steve Swallow
e a subtileza das baquetas de Bill Stewart (acrescido de um trio de sopros
que se limitaram quase sempre a fazer os voicings, sem sair da pauta). Energia,
blues, R&B e funky encheram a sala ao longo das duas horas do concerto,
levando o público ao rubro.
O «Real Jazz Trio» pratica uma música rude e impulsiva,
de grande intensidade. Ao contrário da secção de sopros,
aos titulares é deixada toda a liberdade: Scofield alterna nos solos
entre a sonoridade country quase quase Bill Frisell em «The House Of
The Rising Sun» e a crueza dos blues em «Over Big Top» e... «I
Can’t Get No Satisfaction». Mas a quietude e lirismo de Jim Hall
pareceu andar por aí em «Memorette» e o humor esteve sempre
presente nos temas mais bop. A guitarra de Scofield é realmente enciclopédica
e nem faltou a electricidade de Jimi Hendrix ou um cáustico sabor a
acid-jazz. Sobre o lendário baixo de cinco cordas de Steve Swallow,
ele é sempre
um deslumbramento, e até a delicada bateria de Bill Stewart se permitiu
mais estridentes e rasgadas intervenções.
O virtuoso egocêntrico (:Ahmad
Jamal)
Ahmad Jamal foi o responsável pela noite mais polémica
da segunda semana, dividindo as opiniões entre o público e a crítica.
O Ahmad Jamal, que exerceu profunda influência sobre Miles Davis nos
anos 60, não tem nada a ver com o pianista que tocou em Guimarães.
A História notou-lhe a «invenção» do silêncio
e o equilaterismo absoluto do trio desse tempo. Mas o Ahmad Jamal que veio
ao Estoril em 94, era já outro: tornar-se-ia impossível reconhecê-lo
apenas mela música! Desde então para cá, o processo de
recentramento da música na sua pessoa (apesar do combo de suporte se
manter praticamente inalterado) foi absoluto, e a sua música tornou-se
vertiginosa. Para o público o virtuosismo é um valor, e daí os
aplausos incondicionais; mas a crítica não reconhece a bondade
da virtuose por si. Que a crítica também não é unânime;
se bem que alguns comentadores pareceram não ter estado no concerto,
tendo-se limitado a debitar os textos das enciclopédias... Sarcasmo à parte,
as críticas mais pertinentes parecem-me vir dos que acusam Jamal de
frieza e despropósito que resultam numa espécie de discurso fragmentado
e desconexo. O virtuosismo excessivo de Jamal, mas também alguns maneirismos
e truques primários destinados a provocar a adesão do público
não ajudam...
É
claro que as críticas que vêm sendo feitas a Ahmad Jamal são
pertinentes: é verdade que a sua música é fria e é verdade
que o seu discurso é fragmentário. E é verdade também
que alguns «truques» que usa são artifícios espúrios
destinados a agradar ou, talvez melhor, a impressionar o público.
A minha observação é que Ahmad Jamal padece bastante da
vaidade dos virtuosos, e estamos a falar de um patamar para além do
qual toda a música tende a parecer rotina. Recordemos por exemplo o
excelente concerto de Keith Jarrett no CCB: não poucas vezes cogitei
como estava desprovido de emoção; quantas vezes fechei os olhos à procura
da alma. Mas quem sou eu para avaliar o coração destes músicos
para além do entendimento? Como não amar aquela música
tão, perfeita? Não raras vezes observamos como os instrumentos
já parecem tocar sozinhos e quantas vezes aqueles fantásticos
músicos simulam até a emoção (como orgasmos?)?
Ahmad Jamal é um virtuoso para além das classificações.
O seu discurso é fragmetário/ fragmentado; mas esse discurso é exactamente
assim por opção: coerente, se o compreendermos no todo da composição.
Alucinante e excessivo; economia é palavra escusa no seu vocabulário.
Ausente de subtileza, dirão: eu diria explícito. Redundante:
eu diria conclusivo. Ele executa uma e outra figura, experimenta um e outro
efeito, ele liberta duendes e fantasmas que recolhe adiante. Como poucos, Jamal é um
pianista total (totalizante) e usa a todo o momento todos os recursos do piano,
mas o excesso é o privilégio dos virtuosos.
Se o instrumento de Ahmad Jamal foi no passado, talvez mais do que o piano,
o trio; ele assim permanece, mas por perversidade agora desmesuradamente desequilibrado
sobre o seu lado. Os músicos que o acompanham revelam-se efectivamente
acompanhantes e, com frequência pouco mais que complementos; e aqui reside
o fundamental da minha crítica à música de Ahmad Jamal
de hoje.
Irrepreensível e seguro esteve sempre James Cammack, denotando até a
sua persistência como sideman do mestre; mas o mesmo não se poderá dizer
de Idris Muhammad, cuja pertinência questiono. A começar pelo
uso de umas baquetas muito duras, creio que de carbono, semelhantes às
dos (que pensam que são) bateristas de heavy metal; muito duras e sem
ressalto. O efeito resultante é uma batida violenta, sem laivos de sensibilidade
e falho de swing. E é aqui que o percussionista entra: para dar cor
ao árido pano de fundo rítmico da bateria. Manolo Badrena é exactamente
isso: um percussionista colorido cujo papel é o de insuflar alma na
música de Ahmad Jamal. Ainda assim, sem se revelar um percussionista
extraordinário, Badrena cumpre bem o seu papel.
Repertório quase sempre contemporâneo e próprio, não
deixou de recorrer ao mítico (belíssimo) «Poinciana» antes
do encore.
Enfim, apesar das minhas observações, Ahmad Jamal permanece um
grande pianista e foi para mim um dos grandes momentos do festival.
O sólido Jazz (de Charles
Tolliver)
Bem ancorada num sólido hard-bop esteve a Charles Tolliver Big Band,
que estava reservada para o encerramento do Guimarães Jazz 2007. Esclarecedor
foi desde logo o primeiro tema da noite: poder, mais do especial engenho nos
arranjos, punch, mais que subtileza, disciplina e solistas de elevado gabarito.
Charles Tolliver no trompete, mais que na direcção, e um extraordinário
Billy Harper no saxofone tenor, estiveram em destaque
em temas como «On
The Nile». Noutros momentos toda a secção de palhetas estaria
em especial evidência: Bruce Williams num demolidor solo parkeriano em «Mournin’var» e
de novo no clássico «Round Midnight», e Todd Bashore e Bill
Saxton em «Suspiction».
«Suspiction», o encore, com um desfilar de saxofonistas foi, apesar
da simplicidade da estrutura um dos momentos da noite, a par do tema de abertura
e do clássico «Round Midnight», em vários andamentos,
onde toda a classe de um pianista veterano como Kirk Lightsey se revelou.
Energia a rodos, simples nas formas mas dinâmico. Jazz sólido
e saboroso.
O silêncio e a poesia (no
TOAP Colectivo)
À
margem do palco principal realizou-se o concerto do TOAP Colectivo, da Big
Band da ESMAE dirigida por Orrin Evans e ainda as jam sessions animadas pelo
quinteto do mesmo Orrin Evans, e que decorreram, na primeira semana no Café Concerto
do Vila Flor e na segunda no exíguo mas animado espaço
da Associação Convívio.
O
TOAP Colectivo (2007), cujo primeiro concerto deverá dar origem a
um disco a editar em breve, realizou um concerto inesperado: ao neo-bop anguloso
do ano passado sucedeu uma música dificilmente classificável,
privilegiando o quase silêncio em movimentos aparentemente aleatórios.
Os quatro artífices praticam uma música que remete para áreas
da música erudita europeia exterior ao Jazz, tanto quanto algumas peças
mais abstractas da Creative Orchestra Music do Anthony Braxton dos anos 70.
Música de rara beleza conceptual a produzida pelo renovado TOAP composto
por Jacob Sacks, Matt Renzi, Bernardo Moreira e André Sousa Machado.
A oficina (workshop) do Jazz (prédica
moralista)
Já o produto das workshops do quinteto de Orrin Evans se revelou bem
alcandorado num sólido mas moderno hard-bop. Sob a batuta de Orrin Evans
a excelente Big Band da ESMAE esteve no seu melhor.
O trabalho da orquestra é um trabalho a que reconheço um enorme
mérito: o estudo enquadrado numa orquestra e sob a direcção
de professores qualificados é fundamental (não o único
instrumento/ local, evidentemente, mas é fundamental) para a formação
dos jovens músicos. Ou não será também por acaso
que o exercício coral colectivo é considerado fundamental nas
escolas de música clássica, como nas escolas de música
negra. Os músicos de New Orleans tarimbavam nas grandes orquestras de
rua e todos os grandes mestres sem excepção por lá passaram.
Mas atenção: uma orquestra de Jazz é um colectivo com
objectivos bem definidos, onde os actores cumprem papéis e crescem na
colaboração e na competição, e não um aglomerado
de curtidos em exercícios onanísticos colectivos.
Sobre as escolas de Jazz, também já tenho tido oportunidade de
me manifestar; e é por isso com grande entusiasmo que todos as Primaveras
aplaudo o acontecimento da «Grande Festa do Jazz no S. Luiz», por
onde passam as escolas de Jazz de todo o país em concurso ao longo de
dois dias. É um exercício que aconselho a todos os amantes do
Jazz: ver o espectáculo da alegria (e nervosismo como tantas vezes...)
de tocar Jazz daquelas centenas de jovens (pretendentes a) músicos de
Jazz. As escolas de Jazz são fundamentais, e quem o não reconhece,
não sabe nada. Pretender que se pode ir para o palco e tocar sem ter
passado pela escola, em 2007, é no mínimo ridículo. Mas não original...
Vem isto tudo a propósito da semana de workshop que sempre
acontece no Guimarães Jazz; um trabalho invisível, mas de enorme
mérito.
O mérito principal, concluo agora, é o de permitir que jovens
aprendizes da nobre arte do Jazz contactem com músicos estrangeiros
(e perdoem-me que privilegie os norte-americanos; não apenas porque
os EUA é a pátria do Jazz, mas também porque o seu nível é excepcionalmente
elevado, como foi observável até mesmo nos mais jovens dos membros
do Orrin Evans 5tet!) e com ele aprendam. Creio que é um aspecto que
alguns directores de escolas e professores descuram; mas deveriam acautelar,
até para contornar o normal processo de enquistamento de vícios
provocados até pelo inevitável isolamento das escolas de música
num país onde a música é o fado (a desgraça). O
contrato de professores e músicos estrangeiros capazes de confrontar
os jovens estudantes com outros métodos e outras realidades é fundamental
(e aqui vai em nota de rodapé mais um pouco do meu veneno: eu creio
que existe também muita arrogância nalguns professores e directores
que se consideram a si próprios os melhores e não gostariam nada
do confronto. Estou enganado?).
Enfim, a semaninha de workshop proporcionada
pelo Guimarães Jazz não
resolve o problema; mas aponta uma direcção. Experimentem perguntar
aos jovens que por lá passam o que pensam da experiência...
Enfim, perdoem-me a toada moralista, mas creio que seria uma boa ideia que
outros festivais proporcionassem este tipo de encontros imediatos de 3.º grau
aos jovens aprendizes de Jazz, que escolas e orquestras o fizessem e que mecenas
o proporcionassem ... Como aliás o já fez a Culturgest no passado...
Mas ouvi dizer que a banca em Portugal andava com problemas financeiros...
Uma última nota nesta já longa conversa: sempre há um
concerto no final das workshops, resultado do trabalho dessa semana. Mas dado
que ele é relegado para a tarde de sexta ou sábado no Auditório
2 do Centro Cultural Vila Flor, muito pouca gente acaba por assistir. Não
mereceria ele outra visibilidade? E não mereceria Guimarães saber
o que estiveram a fazer aqueles jovens dia e noite naquela semana? Será que
não era interessante pô-los a fazer a primeira parte do concerto
da última noite? Ou pô-los a tocar nos coretos da cidade? Ou no
mercado no sábado de manhã? Ou na feira! Ou espalhá-los
pelas freguesias do concelho? Sei lá!, dar-lhes visibilidade!
Ah!, mas é verdade!, sobre o concerto!: Claro que se estava em presença
de uma das melhores escolas de Jazz do país (a ESMAE) e isso faz bastante
a diferença. É interessante
observar como eles são capazes de enfrentar algumas peças mais
clássicas como «Someday My Prince Will Come», como outras
de cariz mais imprevisível como o «Oh Lord! Don’t Let Them
Drop That Atomic Bomb on Me» do sarcástico Charles Mingus, ou
ainda inéditos de Orrin Evans, Eric Revis ou Bobby Watson. A orquestra
revelou plasticidade e disciplina e apresentou quase sempre bons solistas (nem
todos, mas não esqueçamos que estamos ainda assim perante uma
escola). A jovem (veterana) Susana Silva esteve em evidência, excelente
no uso da surdina; mas também o saxofone alto de João Mortágua
em «Easy Now» e essa outra revelação, Ivan Silvestre,
em «Conservations» de Bobby Watson.
Noites de magia
(:as jams do Convívio)
![]() |
Por fim as jam sessions. Eu sou fã das jam sessions do
Guimarães
Jazz. Creio que é o único momento do ano (a única cidade
do país, o único festival) onde se recria um pouco o espírito
que se vivia no Hot Club nos anos 70: muitos músicos de origens diferentes
a tocar, muita gente nova (e gira) a aplaudir entusiasticamente e a circular,
muita loucura noite fora. Como já vos disse, apenas estive em Guimarães
na segunda semana do festival. Na primeira, as jam sessions decorreram
no Café Concerto
do Vila Flor onde existem algumas condições acústicas
e algum espaço para se circular. No Convívio, situado na zona
histórica da cidade, o espaço é exíguo e as condições
acústicas são deficientes, mas tem outro encanto. Não
vou descrever, o que até já fiz um pouco no passado. Apenas
referir que nas últimas noites chegaram a estar no reduzido «palco» do
Convívio quase duas dezenas de músicos, onde fisicamente apenas
caberiam talvez um terço. E que músicos, senhores! Aos jovens
aguerridos do quinteto de serviço foram-se juntando os alunos das workshops
e toda a Big Band de Charles Tolliver! Quanto ao público... Mas para
que é preciso espaço quando há aquela música
e calor humano e cerveja? Uma jam session é uma jam session,
mas as do Guimarães Jazz são outra coisa!
Enfim, para o ano há mais. Aqui fica uma pequena reportagem fotográfica.
Clique na imagem!
Dezembro 2007
(Fotos de Ahmad Jamal, Charles Tolliver Big Band, John Sofield, Billy Harper, TOAP Colectivo e Orrin Evans, por MÁRCIA LESSA, gentilmente cedidos por Guimarães Jazz.)
Antecipação do Guimarães Jazz 2007
O acontecimento da semana é o início
do Guimarães Jazz que decorrerá até dia 17.
De longe
o mais importante festival de Jazz nacional, pela dimensão e pelo
critério, a programação prossegue a linha mais mainstream
dos anos anteriores, longe das polémicas e de algum risco de outrora.
Maturo e equilibrado, creio que apesar do inquestionável acerto dos
nomes escolhidos - todos eles de primeiríssimo plano -, se perdeu
algum gosto pela aventura e pela novidade que personalizava o festival. Os
nomes, uma boa parte ajudaram a cosntruir a história do Jazz dos últimos
40 anos e alguns outros são já nomes seguros do moderno mainstream.
Vamos a eles.
Já na quinta toca o lendário Pharoah
Sanders, um dos últimos
companheiros de John Coltrane; um músico intenso, que sempre imprime
na sua música as convicções ascéticas e religiosas.
Algo distante das formas mais radicais que experimentou com Trane, Sanders
amenizou as formas, balanceando a rudeza do free com o lirismo e místicismo
numa espécie de síntese que faz dele uma das sonoridades mais
imediatamente reconhecíveis.
Acompanha-o um trio de músicos experientes, com quem toca há largos
anos, Nat Reeves no contrabaixo, William Henderson no piano e Joe Farnsworth à bateria.
Pois na sexta toca exactamente Ravi, o filho de Coltrane, que não escolheu o estilo nem a forma de tocar do pai nem vive à sua sombra. Ele pratica um estilo híbrido algo herdeiro do hard-bop, mas também do M-Base onde «militou» nos anos 70; e é por direito próprio um dos nomes maiores da sua geração. Curiosamente, nos últimos tempos, tem-se notado uma aproximação ao estilo do pai, mais arrebatado e intenso. A acompanhá-lo estarão três outros sólidos músicos, Drew Gress, Luis Perdomo e E.J Strickland, dos quais o pianista (Perdomo) será o menos conhecido do público nacional, mas é será muito provavelmente sobre quem se deverão dirigir as atenções. Drew Gress, cerebral e rigorroso, realizou em Oeiras e em Leiria dois dos grandes concertos do ano e Strickland é um eficiente e impressivo baterista.
No sábado toca Jan
Garbarek, um
dos nomes maiores do catálogo ECM, bastante popular entre nós.
A acompanhá-lo estão dois músicos que o conhecem bem,
Manu Katché e Rainer Brüninghaus e Yuri Daniel que substitui
Eberhard Weber.
Músico de muitas músicas, Garbarek é um músico
de Jazz atípico que explora desde há muito as músicos
do mundo e do tempo, com colaborações que vão de Agnes
Buen Garnas a Bugge Wesseltoft, Ustad Nazim Ali Khan, Mari Boine ou os Hilliard
Ensemble. Ele possui um som límpido que evoca os grandes espaços,
bastante dramático, igualmente capaz de tocar «o grande Jazz» ou
a folk universal. O grupo que se apresentará em Guimarães no
entanto será o clássico quarteto que o acompanha há vinte
anos onde, como referi, Weber, que se encontra doente, será substituido
por Yuri Daniel. Outro concerto ganhador.
As noites prolongam-se como é hábito, esta semana no Café Concerto e para a semana no Convívio, sempre «até às tantas». A banda residente nas jams é este ano o quarteto do pianista Orrin Evans, com o irredutível Alex Sipiagin no trompete, Donald Edwards na bateria, Darryl Hall no contrabaixo e Stacy Dillard no saxofone.
5 de Novembro de 2007
Esta
semana prossegue o Guimarães
Jazz.
Os
nomes grandes são o lendário Ahmad
Jamal, John Scofield, o guitarrista
que acompanhou Miles no início dos anos 70, e Charles
Tolliver e a sua Big Band. Claro que quem já esteve em Guimarães
sabe que o festival não começa nem acaba nos concertos e
se prolonga pelas workshops e pelas noites no Convívio, entre outros
acontecimentos. Este ano, «outros» são a gravação
de um disco para a Tone Of A Pitch (TOAP Colectivo) num
concerto no sábado à tarde
ou o concerto da Big Band da ESMAE dirigida
por Orrin Evans na sexta.
Orrin Evans é o jovem e talentoso pianista que lidera o grupo responsável pelas longas noites no Convívio que sempre se prolongam até não haver gente ou acabar a cerveja; mas também o grupo que dirigirá as workshops e que abre as hostilidades esta semana, já na noite de quarta-feira. Atenção para o trompete de Sipiagin!
Na quinta então,
cabem as honras ao «Real Jazz Trio» de John
Scofield, que tem como membros nada menos que o exuberante Steve Swallow
e o sensível Bill Stewart.
Scofield é um músico
algo irregular (ou se preferirmos, camaleónico), capaz de apresentar
sob os mais diversos rostos, entre a fusão jazz-rock e o jazz puro e
duro. O grupo que se apresenta em Guimarães pertence a esta última
classificação. Para além do trio de virtuosos, fazem ainda
parte do grupo três sopros, a acrescentar densidade ao Jazz Real de Scofield.
Prometem-se emoções fortes para quinta-feira.
Na noite seguinte é a vez da lenda Ahmad Jamal, o pianista que Miles Davis considerava «o mais modernista dos pianistas». Miles admirava-lhe sobretudo o engenhoso uso do silêncio e o perfeito equilíbrio do triângulo que o notabilizava. Longe das formas elegantes desses longínquos anos 60, Jamal tornou-se um pianista vertiginoso. Tudo se concentra nele e até mesmo na designação do espectáculo desapareceram os nomes dos acólitos. Do grupo de suporte, James Cammack e Idris Muhammad acompanham-no há bastante tempo e são dois mais que eficientes sidemen, que contribuem para o efeito «totalizante» do som do grupo. Acompanham-no um percussionista desconhecido (para mim). Apesar da já proventa idade – 77 anos -, auspicia-se um grande concerto.
Para o encerramento do festival, e como é tradição em Guimarães, apresentar-se-á uma big band, este ano dirigida por Charles Tolliver; um músico que nos últimos anos se distinguiu como acompanhante de Andrew Hill, até ao seu recente desaparecimento. Tolliver professa um bop erudito: enquanto instrumentista, ele estará na escola dos grandes virtuosos como Freddie Hubbard. A orquestra de vinte elementos que dirige, onde predominam os metais, tem reputação de poderosa e sofisticada. A ouvir vamos.
12 de Novembro de 2007
| Qui 8-Nov | Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
24.00
|
Guimarães Jazz
|
Jam Sessions - 8 a 10
Orrin Evans Group |
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s) |
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
PS (s), William Henderson (p), Nat Reeves (ctb), Joe Farnsworth (bat) |
||
Sex 9-Nov
|
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
RC (ts, ss), Drew Gress (ctb), Luis Perdomo (p), E.J Strickland (bat) | |
| Sáb 10-Nov | Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
JG (s), Manu Katché (perc), Yuri Daniel (ctb), Rainer Brüninghaus (p) | |
Seg 12-Nov
|
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
Guimarães Jazz
|
Workshops de Jazz: 12 a 17
|
Orrin Evans: bb, p |
|
| Qua 14-Nov | Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s) | |
Qui 15-Nov
|
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
Steve Swallow + Bill Stewart - JS (g), SS (b), BS (bat), Phil Grenadier (t, flug), Eddie Salkin (st, f, cl-b), Frank Vacin (sb, cl-b) |
|
Guimarães
|
Associação Cultural Convívio
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
Jam Sessions - 15 a 17 Orrin Evans Group |
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s | |
Sex 16-Nov
|
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
18.00
|
Guimarães Jazz
|
Big Band ESMAE |
Big Band ESMAE conduzida por Orrin Evans |
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
Ahmad Jamal |
AJ (p), James Cammack (ctb), Idris Muhammad (bat), Manolo Badrena (perc) | |
|
Sáb 17-Nov
|
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
18.00
|
Guimarães Jazz
|
TOAP Colectivo |
Matt Renzi (st, cl) Jacob Sacks (p), Bernardo Moreira (ctb), André Sousa Machado (bat) |
Guimarães
|
Centro Cultural Vila-Flor
|
22.00
|
Guimarães Jazz
|
Charles Tolliver Big Band |
CT (dir), David Guy (t), Chris Albert (t), Keyon Harrold (t), David Weiss (t), James Zollar (t), Joe Fiedler (trb), Clark Gayton (trb), Stafford Hunter (trb), Jason Jackson (trb), Aaron Johnson (trb), Todd Bashore (s), Jimmy Cozier (s), Craig Handy (s), Billy Harper (s), Bill Saxton (s), Howard Johnson (s), Stanley Cowell , Cecil McBee (ctb), Victor Lewis (bat), Ched Tolliver (g). |
Nome: Guimarães Jazz (Festival)
Localidade: Guimarães
Sala dos Espectáculos: Centro Cultural Vila Flor
Morada: Av. D. Afonso Henriques, 701, Urgeses, 4810-431 Guimarães
Telefone: 253 424 700
Bilheteira: Centro Cultural Vila Flor e www.aoficina.pt
Período do ano: Novembro
Programador/ Director Artístico Actual: Ivo Martins
Anteriores Programadores: António Ferro
Organização/ Proprietário: Câmara Municipal de Guimarães, A Oficina, Convívio – Associação Cultural
Festivais: Músicos que já tocaram (por edições, se possível)2006 (15ª edição): Wayne Shorter Quartet, Marc Copland Trio & Tim Hagans, Abdullah Ibrahim’s Trio, Alexis Cuadrado, Alan Ferber, John Ellis, Mark Ferber, Brad Shepik, Geri Allen, Eric McPherson, John Hebert, Brussels Jazz Orchestra Featuring Dave Liebman, Charlie Haden Liberation Music Orchestra Featuring Carla Bley2005 (14ª edição): Bob Brookmeyer New Art Orchestra, Jason Moran, Ralph Alessi Quartet, Art Ensemble of Chicago, Dave Liebman Quartet, Katrine Madsen and the Orchestra, Maria Schneider Orchestra2004 (13ªedição): Kenny Wheeler, Terence Blanchard, Cecil Taylor, Tony Oxley, Bill Dixon, Mark Turner, Vienna Art Orchestra, Big Band Poesie, Ron Carter, Dewey Redman2003 (12ª edição): Gianluigi Trovesi e Big Band, Danilo Perez Trio, Martial Solal,ONJ – Orquestra Nacional de França, Anthony Braxton Quarteto, Randy Weston African Rhythms Trio, Bobby Hutcherson Quarteto2002 (11ª edição): Bob Mintzer e Big Band, Eric Person Meta-Four Quarteto, Brad Mehldau, Neal Kirkwood Octeto, Marilyn Crispell, Barry Guy & Gerry Hemingway, Sheila Jordan & Steve Kuhn Trio, Achim Kaufmann Quarteto, Herb Robertson Sexteto, ZFP Quarteto, Peter Erskine Trio2001 (10 edição): Maria Schneider, Carlos Azevedo Ensemble, Uri Caine, Territtory Band c/ Ken Vandermark, bAlex von Schlippenbach, Italian Instabile Orquestra, João Paulo Esteves da Silva Quarteto, François Corneloup Quarteto, Bik Bent Braam Orquestra, Franz Koglmann Quarteto, Malcolm Braff Combo
A programação é apenas Jazz? sim
Outra informação que considerem pertinente: Paralelamente
aos concertos, o Guimarães Jazz promove Oficinas de Jazz que, durante o
festival, são um espaço de aprendizagem e troca de experiências
entre jovens músicos e músicos de jazz consagrados.
Concertos
Guimarães
Jazz 2006
O Guimarães Jazz vem-se afirmando desde há anos o melhor festival
de Jazz nacional. Pela programação – criteriosa e sabedora – à dimensão,
entre concertos e eventos paralelos. No ano passado ganhou uma nova dimensão
no novíssimo Centro Cultural Vila Flor, a rivalizar com as melhores
salas de espectáculo nacionais.
Apenas assisti aos concertos da segunda semana, mas gostaria de recordar algumas
das coisas escrevi como apresentação da primeira semana do festival
no início de Novembro.
«A programação deste ano é verdadeiramente luxuosa.
Na quarta-feira, tem lugar o concerto de uma das lendas vivas do Jazz, Wayne
Shorter. Companheiro de Miles Davis e um dos seus compositores privilegiados,
Shorter é também um dos mais influentes saxofonistas da actualidade,
mesmo se ele nunca apareceu ao público como um músico de primeiro
plano. Até ao ano de 2002 quando reuniu um quarteto de luxo para explicar
ao mundo o porquê da sua autoridade entre os músicos de Jazz. "Footprints",
como se chamou o disco, reuniu Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo
e Brian Blade na bateria, numa recuperação que muitos pensariam
impossível do Jazz mainstream dos anos 60, onde Miles Davis (pré-eléctrico)
era figura maior. Escrevi na altura:
"
Espírito do Jazz. Se existe essa coisa a que alguns dão o nome
de 'espírito do Jazz', então ele passou por aqui. 'Footprints' é inequivocamente
Jazz no seu estado mais puro e Wayne Shorter um dos seus mais dignos representantes.
'Footprints' foi gravado ao vivo por um quarteto em estado de graça,
acústico, durante uma tournée de 2001 ... ".
Cinco anos depois e mais dois discos, Shorter "Footprints" – o
quarteto e o projecto - toca (de novo) em Portugal. Em Guimarães (quarta,
8) e na Culturgest (quinta, 9). Imperdível.
Quinta também, em Guimarães toca o Tone Of A Pitch Colectivo, nome da activa editora de Jazz nacional, com três dos excelsos convidados do festival às workshops: John Ellis, Alan Ferber e Brad Shepik. A actuação do quarteto composto (este ano) por Nelson Cascais, Pedro Moreira, Jorge Reis e Bruno Pedroso inicia uma colaboração que se pretende frutuosa com o Guimarães Jazz.
Marc Copland é um pianista subtil e lírico, insinuante e impressivo.
A sua forma mais reconhecida, a sua "especialidade" e a sua "marca" são
os encontros, os duos ou trios, os diálogos. Tim Haggans, por exemplo,
com quem se apresenta em Guimarães na sexta-feira, já protagonizou
com Copland um dos raros discos de piano-trompete da história do Jazz,
em 2000. Mas já tocou em trio com John Abercrombie (g) e Kenny Wheeler
(t) e em duo com Gary Peacock (ctb) ou Greg Osby (sa), com Dave Liebman (ss,
st), ou já este ano com Bill Carrothers, num lindíssimo duo de
pianos.
Comunhão, afinidades, empatia, parece ser a obsessão deste grande
pianista de Jazz. Com ele, Tim Hagans que tocou já este ano no Estoril
Jazz, uma espécie de bopper inconformado, também como Copland
capaz de se revelar lírico e apaixonado. A completar o quarteto um grande
irreverente contrabaixista, Drew Gress e ainda o competente Jochen Ruckert
na bateria. De referir que estes dois últimos músicos gravaram
recentemente com Copland um disco com um nome significativo: Some Love Songs.
Um concerto muito bonito em perspectiva. Na sexta.
Na tarde de sábado toca o Sexteto de Jazz da ESMAE - Porto, que ganhou o prémio do melhor combo na Festa do Jazz (S. Luiz, Lisboa), em 2006. Na boca de cena estarão os dois músicos que ganharam o prémio do melhor instrumentista: os saxofonistas Ivan Silvestre e João Pedro Brandão.
No sábado ainda, à noite, toca o trio regular de Abdulah Ibrahim,
composto por Belden Bullock (ctb) e George Gray (bat). Será provavelmente
um Abdulah Ibrahim mais Jazz que o que se apresentou em Março na Casa
da Música o que tocará em Guimarães.
Relembro o que escrevi por essa ocasião: "Ibrahim dispensa apresentações:
ele é um aclamado pianista de Jazz, sul-africano de nascença,
por longos anos – até ao fim do apartheid – exilado. Ele
possui uma sonoridade reconhecível, densa e quente, fortemente melódica,
mesmo ‘dançável’, mas de forma alguma vulgar ou fácil.
O percurso de Abdulah Ibrahim é longo, desde os tempos em que era influenciado
por Monk (quando ainda dava pelo nome de Dollar Brand) até à pontuação
grave da savana, religiosidade e serenidade (AI converteu-se ao islamismo)
que hoje faz brotar dos dedos. Não será um Abdulah Ibrahim inovador
que se irá apresentar no Domingo na Casa da Música, mas a sua
música possui algo se mágico que é eterno."
Magia é uma vez mais o que se espera do concerto do grande pianista.
E o Guimarães Jazz continua para a semana. Mais ou menos, porque do
que eu não falei foram das workshops dirigidas por Alexis Cuadrado,
Alan Ferber,John Ellis, Mark Ferber e Brad Shepik a várias dezenas de
jovens e que terminarão no final da próxima semana e ainda as
lendárias Jam Sessions noite afora no Convívio. E mais não
digo. »
A segunda semana do Guimarães Jazz começou com o concerto dos
músicos convidados para dirigir as Oficinas de Jazz deste ano: Alexis
Cuadrado, Alan Ferber, John Ellis, Mark Ferber e Brad Shepik. Foi um concerto
onde a surpresa este ausente, mas descontraído e competente. E como
eu suspeitava os momentos mais interessantes foram protagonizados pelo guitarrista.
Shepik mostrou toda a sua originalidade e fogosidade nos solos, e as suas
intervenções no seio do grupo foram sempre oportunas.
A «solução de recurso» encontrada para substituir o lendário Andrew Hill, Geri Alen fez um excelente concerto. Allen chegou a Guimarães na tarde de quinta, quando conheceu os dois músicos que a iriam acompanhar, o baterista e contrabaixista do grupo de Hill, e apesar de apenas terem tido algumas horas para ensaiar o repertório, o grupo demonstrou ao vivo o que são três verdadeiros músicos de Jazz a funcionar. Notaram-se por vezes algumas discretas indicações da pianista ao baterista e baixista e num ou outro tema ela teve que recorrer à pauta – afinal ela fez questão de interpretar algumas das composições de Andrew Hill -, mas ainda assim, aquela era a sua música. Jazz puro, quero eu dizer, na sua versão mais erudita. Como eu referi na apresentação de Allen, a pianista possui toda a história do piano Jazz nos dedos, do bebop a Cecil Taylor. O seu estilo é voluptuoso e elegante, orquestral e impressivo. Erudição, erudição, era a palavra que me soava no cérebro enquanto me deliciava com a inteligência das suas soluções. Espantoso era observar como os três reagiam aos estímulos mas subtis dos companheiros, como pareciam tocar juntos desde sempre, de como as mais complexas linhas delineadas pelo piano eram replicadas ou completadas. Já tinha ouvido Geri Allen e a sua música não me surpreendeu, como também não me surpreendeu a habilidade e energia criativa do baterista Eric McPherson, mas não me recordo de ter alguma vez visto o contrabaixista actuar. John Herbert foi uma boa surpresa. Mas mais do que a prestação das três personalidades, o espectáculo foi observar a empatia que se foi criando entre eles ao longo das duas horas. Um grande concerto!
Guimarães já tinha visto no ano passado o grande saxofonista
que é Dave Liebman. Apesar disso, a dúvida sobre a eventual «artificialidade» da
reunião Dave Liebman Liebman / Brussels Jazz Orchestra era de certa
forma legítima: não são raros os exemplos mais ou menos
oportunistas deste modelo, associando orquestra com «vedetas».
Não foi de todo o que se passou em Guimarães e o mérito
cabe em igual medida a ambas as partes. Liebman surgiu aos olhos (ouvidos)
do público como um verdadeiro membro da orquestra! O entendimento foi
sempre perfeito mercê também da maleabilidade da orquestra - uma
espécie de organismo vivo a funcionar como um instrumento de onde pontualmente
saíam solistas – e do elevadíssimo nível das prestações
dos músicos, como membros da orquestra ou solistas, da alegria que comunicavam,
do rigor e da inteligência dos arranjos. A noite foi assim quase quase
perfeita. Quase quase: achei a prestação de Nathalie Loriers,
a pianista, algo contida (ao contrário da fogosidade do resto da orquestra)
e toda a secção rítmica poderia ser um pouco mais interventiva.
Outro aspecto que acabou por prejudicar o concerto, e até porque ele
se prolongou bastante, até pelo entusiasmo dos participantes e do público,
foi o a incidência excessiva de Liebman no saxofone soprano.
Ainda assim o nível do concerto foi sempre elevadíssimo, com
uma orquestra a funcionar quase sem director (que se relegava para o papel
de simples instrumentista). Perfeição na execução,
força, engenho e fulgor na interpretação de orquestrações
de grande complexidade, naturalidade na adaptação do «elemento
estranho», um naipe de instrumentistas de grande gabarito, à altura
- nos solos e nos duelos – do convidado.
Dave Liebman foi simplesmente fabuloso (à parte o meu senão «técnico»).
Como me diria Carla Bley no dia seguinte «provavelmente o melhor saxofonista
da actualidade». E notável também, além das suas
artes como instrumentista, a capacidade de interagir com outros músicos
(o que explica a profícua e diversa produção artística
em combos dos mais diversos formatos, do intimista ao orquestral), que o revelou
como o solista perfeito e um verdadeiro membro da Brussels.
O repertório percorreu autores e arranjadores tão distintos quanto
Hermeto Pascoal, Vince Mendonza, George Gruntz, Dave Holland, Duke Ellington
ou o próprio Dave Liebman.
O encerramento do Guimarães Jazz 2006 esteve a cargo da Liberation
Music Orchestra de Charlie Haden. Charlie Haden é «um amigo de
Portugal». Faz parte da História a sua «conturbada» participação
no 1.º Cascais Jazz de 1971, onde acabou por ganhar uma viagem de borla
para o aeroporto escoltado pela PIDE. Mas também o igualmente histórico
concerto de Haden com Carlos Paredes, o duo com Paul Motian no disco Closeness
em «For a Free Portugal» (com uma introdução com
a gravação do momento em que em Cascais dedicou a sua composição «Song
For Che» aos movimentos de libertação de Angola, Moçambique
e Guiné) e ainda a interpretação pela Liberation em 1982
do Grândola Vila Morena de José Afonso, registado em The Ballad
Of The Fallen (Haden veio a Portugal por diversas outras vezes).
O concerto de Charlie Haden em Guimarães, exactamente 35 anos após
a sua participação no 1.º Cascais Jazz estava por tudo isto
carregado de expectativa, mas também emotividade.
A renovada Liberation Music Orchestra integra alguns dos melhores músicos
de New York, entre os quais gostaria de destacar Chris Cheek, Miguel Zénon,
Tony Malaby, Matt Wilson e Steve Cardenas. Cheek esteve em destaque; ele possui
um fraseado e uma sonoridade característicos, com um vibrato muito peculiar
que o torna distinto. Zénon que «conhecemos» no Seixal Jazz
2005 é já uma certeza entre a nova geração de saxofonistas.
E seria displicente falar de cada um dos músicos da banda, todos eles
escolhidos a dedo por Carla Bley de entre a nata dos músicos de New
York, creio que quase todos.
Este é outro aspecto assinalável na Liberation: a omnipresença
de Carla Bley, já que esta quase poderia ser a sua orquestra. Claro
que o projecto é de Haden e esta é a sua música; mas são
dela os arranjos, é dela a direcção, ela escolheu os músicos,
a sua já longa amizade e colaboração com Haden acabou
por influenciar o contrabaixista. A própria concepção «vampírica» de
composição e orquestração de Carla Bley é desde
há muito partilhada por Haden (ou será afinal o contrário?)
e ela não pode ser ignorada na sua música.
O repertório do concerto baseou-se fundamentalmente no disco da Liberation
Not In Our Name, que é também o lema dos opositores à intervenção
americana no Iraque. De notar que o disco apenas contém temas escritos
por compositores norte-americanos, numa forma de afirmar que na América
nem todos estão de acordo com a política da administração
Bush. Pat Metheny, Lyle Mays, Davis Bowie, Bill Frisell, Ornette Coleman ou
os próprios Carla Bley e Charlie Haden passaram por Guimarães
pela música da Liberation que terminou com um emocionante «Grandola/
We Shall Overcome».
A emoção marcou todo o concerto desde o primeiro minuto. Esse é mesmo
um dos cunhos da música de Haden, seja no repertório que procura
a provocação no enfoque militante às músicas populares
do mundo, no tratamento orquestral excitante, diria épico, e que termina
no próprio walking denso característico do seu contrabaixo. Em
Guimarães o tom emotivo não parou de subir até ao último
momento do concerto e isso era notório na forma entusiasmada como o
público aplaudia. E eu mesmo fui apanhado de surpresa quando, já no
encore, Tony Malaby e Matt Wilson surgem dos dois lados do palco a tocar o
Grândola nos tambores. Confesso, aqui que ninguém mais nos ouve,
que as lágrimas me explodiram nos olhos e não mais parei de chorar
até ao fim do concerto. Eu sei que é completamente estúpido
porque de certa forma eu já sabia que eles não poderiam deixar
de tocar o Grândola. O que me perdeu foi talvez a forma dramática
(lindíssima, e forte; Haden tem realmente jeito para dramatizar) como
os dois músicos entraram em palco marcando de forma pesada o Grândola
e depois como prosseguiu até se transformar no significante e cantável
We Shall Overcome. Devo estar velho que me emociono com facilidade, mas reconfortei-me
quando à saída observei outros velhos tontos como eu a fungar
disfarçadamente.
Enfim, a emoção também faz parte da música e do
Jazz muito em especial, sempre pensei. E o concerto que encerrou o Guimarães
Jazz 2006 teve tudo: grandes composições, grandes músicos,
grandes prestações e muita muita emoção.