Guimarães Jazz

 

2008

Chega o Novembro e com ele o Guimarães Jazz que já vai na 17ª edição. Se a longevidade não é por si só garantia de qualidade, a verdade é que ele há muito que atingiu a maturidade, é um dos grandes se não o maior dos festivais de Jazz nacionais, e ocupa um lugar cativo no calendário anual dos jazzómanos. Entre os quais me incluo, com muito gosto.

Nove concertos (sem contar com as jam sessions diárias), centena e meia de músicos, três grandes formações, workshops, várias actividades paralelas e um cardápio que espanta pelo arrojo e que inclui não poucos nomes cimeiros do Jazz internacional, compõem o Guimarães Jazz 2008, uma vez mais a fazer História.

O festival começa na quinta-feira 13 com Kurt Elling. Discípulo de Mark Murphy, ele é uma das raras vozes masculinas do panorama Jazz actual, mas é um digníssimo representante dessa classe (male vocalist). Kurt Elling impressiona mais que pela técnica (irrepreensível), pela emoção que comunica. Ele é um verdadeiro cantor de canções, que interpreta de forma relativamente straight, mas de forma alguma ao jeito dos crooners. Por outro lado, ele usa pouco dos recursos característicos dos cantores de Jazz do tipo do scat, preferindo ocasionalmente as técnicas vocalese de um Jon Hendricks; mas talvez que a característica principal seja mesmo a densidade e emoção que coloca nas palavras. Simplicidade (aparente) nas formas, elegância e sofisticação, melancolia e sentimento. Coisas que (já) não se esperam num cantor.
Já lhe conhecia os discos de há muito, mas confesso que fiquei literalmente pregado ao chão no Estoril Jazz do ano passado quando Kurt Elling cantou os primeiros versos de (creio que) This Time Is Love, na mais impressionante interpretação que jamais ouvi. A crítica nacional (ver votação em Jazzologia) votou o concerto do Estoril Jazz o melhor concerto de 2007 (ex aequo). Não será descabido dizer que qualquer concerto de Kurt Elling em qualquer festival de Jazz de qualquer local do mundo arrisca sempre a ser o seu melhor. A minha única objecção ao concerto será a sua colocação num dia de menor afluência de público, mas creio que dificilmente o Guimarães Jazz teria melhor abertura.

O concerto de sexta 14 está nos antípodas do dia anterior. Steve Coleman é um saxofonista que procura cruzar a expressão mais genuinamente parkeriana do Jazz com a música pop urbana. A banda que irá tocar em Guimarães (e também na Culturgest no sábado 15) foi criada nos anos 80 como expressão do movimento M-Base que liderou e que era constituído por músicos como Greg Osby, Geri Allen ou Cassandra Wilson, Lonnie Plaxico, Marvin "Smitty" Smith e Graham Haynes. Vigoroso e exímio saxofonista (como Charlie Parker, mas também como Maceo Parker, os seus gurus, ele toca alto), ele procura trazer para o Jazz a popularidade que perdeu quando o bop migrou para as caves dos bares e se intelectualizou, embora ele próprio seja um dos representantes maiores de um certo Jazz intelectualizado (e politizado). Nos mais de trinta anos de actividade, ele tocou tudo entre Rythm & Blues e Free Jazz, tendo tocado com Sam Rivers e Cecil Taylor, Michael Brecker, David Murray e ainda Dave Holland, a cuja banda chegou a pertencer por algum tempo.
Não resta nenhum dos membros originais dos Six Elements de há vinte anos, mas a banda mantém as características desse tempo, algures entre o bebop e a oralidade de África, entre o funk e a pop underground urbana. Música viva e enérgica, ameaça incendiar a plateia do Vila Flor.

Django Bates que encerrará a primeira semana da sala nobre do Centro Cultural Vila Flor destacou-se desde sempre pelo eclectismo e irreverência. De formação clássica, começou por tocar rock, tendo participado de seguida nos movimentos de fusão Jazz-pop urbano onde se destacou Courtney Pine. Os anos seguintes encontramo-lo junto com os nomes maiores da downtown nova-iorquina como Tim Berne ou de novo na fusão com o ex-Yes e ex-King Crimson Bill Brufford, ou ainda como membro da George Gruntz Concert Jazz Band.
A partir dos anos 90 faz-se notado como compositor e arranjador, liderando os seus próprios projectos onde se destacam o quarteto dedicado às estações que teve o epílogo já este ano. Depois do início do milénio - e ao mesmo tempo que começam a chover nomeações e prémios - quase deixou de gravar, tendo-se dedicado ao ensino e principalmente à composição e a trabalhar para as inúmeras encomendas que lhe são solicitadas de todo o mundo, para bandas e orquestras de Jazz, pop, clássica, mas também para cinema e teatro.
Django Bates vem tocar a Guimarães o disco de 2008 Spring Is Here (shall we dance?), à frente da stoRMChaser, uma orquestra de Copenhaga de dezanove membros, entre os quais treze sopros. O título sugere um trabalho sobre música de dança, mas Django Bates é um músico imprevisível.
Se me é permitido, eu sugeria ao público que para o encore lhe exigissem a sua devastadora versão de New York New York.

Entretanto, é já na sexta 14 que toca a Big Band da ESMAE conduzida por Marcus Strickland no Pequeno Auditório. Sobre a Big Band da ESMAE, é redundante voltar a falar-se, dado que ela é presença regular no Guimarães Jazz e o público sabe que conta com o melhor.
Além disso, o quinteto que leva a Guimarães é o responsável pelas jam sessions e pelos workshops que estão a decorrer desde o início da semana.

Enfim, no sábado à tarde, e à semelhança dos últimos anos, a Tone Of A Pitch (TOAP) apresenta o resultado da parceria como Guimarães Jazz. O TOAP Colectivo será este ano composto por Matt Pavolka no contrabaixo, Peter Rende no piano, Alexandre Frazão na bateria e João Moreira trompete, tendo como convidado o singular guitarrista Ben Monder, bem conhecido do público de Guimarães.

Marcus Strickland, que abrirá a segunda semana do festival, é um expressivo saxofonista, um coltraneano que se tem notabilizado na Mingus Big Band ou ao lado de Christian McBride, Tom Harrell, Roy Haynes, ou ainda como ponta de lança do Keystone de Dave Douglas. O quinteto que lidera embalará as altas noites do Guimarães Jazz, que esta semana migra do Convívio para a cave do Vila Flor.

Na quinta 20 é a vez da homenagem ao grande trompetista Lee Morgan, cozinhado por Billy Garper, Bennie Maupin, Cecil McBee, Billy Hart e outros ilustres. No trompete estará David Weiss e The Cookers («The Cooker» é o nome do seminal disco de Lee Morgan de 1957) é o nome do grupo. O percurso de Lee Morgan foi meteórico mas determinante para o Jazz. Ícone maior do Jazz, injustamente esquecido do grande público, ele foi determinante na solidificação da linguagem bop, tendo-se notabilizado ao lado dos Art Messengers, Hank Mobley, John Coltrane, Andrew Hill ou Jimmy Smith, o que atesta a enorme versatilidade e ilustra a enorme responsabilidade do grupo que vai tocar em Guimarães, e em especial do trompetista. Mas David Weiss é um exímio executante, também líder e arranjador, como se verá. Sobre os restantes membros do grupo, o nome fala por eles.

Um clássico incontornável toca na sexta: Kenny Barron, na mais nobre arte do trio. Nomeá-lo de bopper é redutor, ele que é um dos mais finos pianistas do Jazz clássico. Sideman de eleição pela sua capacidade única de ouvir e a empatia que gera, como líder é toda a elegância e sofisticação do mais nobre pianismo Jazz que se solta. Incontornável.

Enfim no sábado a grande Metropole Orchestra dirigida por Vince Mendoza encerra da melhor forma a 17ª edição do festival. Fundada em 1945 (Países Baixos), a instituição Metropole Orchestra acomnpanhou Tony Bennett, Burt Bacharach, Lee Konitz ou Bob Brookmeyer, entre centenas de cantores e músicos e (se contei bem) conta hoje com cinco dezenas de instrumentistas, entre os quais um sólido naipe de cordas que lhe dá um certo cariz clássico. Mas assim quis Vince Mendoza, o actual director (também compositor e orquestrador), um músico profundamente influenciado por Gil Evans, que se notabilizou há alguns anos no projecto «Jazzpaña» onde fundia o Jazz com o flamenco e onde tocavam, entre outros, Michael Brecker, Al Di Meola, Peter Erskine e Carlos Benavent. Na bateria, como convidado, estará o amigo de longa data Peter Erskine.

Um encerramento em grande, como o Guimarães Jazz gosta de fazer.

12 de Novembro de 2008


Qui 13-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz
Kurt Elling Quartet
Kurt Elling (voz), Laurence Hobgood (p), Rob Amster (b), Kobie Watkins (bat)
 
Ass. Cultural Convívio
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sex 14-Nov
Centro Cultural Vila Flor
18.00
Big Band ESMAE + Marcus Strickland
Marcus Strickland (dir)
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Steve Coleman and Five Elements
SC (sa), Jonathan Finlayson (t), Tim Albright (trb), Jen Shyu (voz), Thomas Morgan (ctb), Tyshawn Sorey (bat)
Ass. Cultural Convívio
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sáb 15-Nov
Centro Cultural Vila Flor
17.00
TOAP Colectivo

Ben Monder (g), Matt Pavolka (b), Pete Rende (p), Joao Moreira (t), Alex Frazão (bat)

Centro Cultural Vila Flor
22.00
Django Bates and stoRMChaser

Julie Kjær (f), Bo Skjold Christensen (cl), Magnus Thuelund Hansen (sa), Aske Drasbaek Philipsen (sa, ss), Marius Neset (s), Martin Stender (st), Søren Kristian Karkov (s), Lars Søberg Andersen (t), Jimmy Nyborg (t), Ulrik Kofoed (tro), Sara Madsen (trb), André Jensen (trbb), Daniel Herskedal (tu), Christian Bluhme Hansen (g), Anton Wilhelm Eger (bat), Frans Peter Eld (b-el), Mikkel Schnettler (perc), Josefine Lindstrand (voz, sinos tibetanos), Django Bates (tec, Eb tenor horn)

Ass. Cultural Convívio
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Qua 19-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Guimarães Jazz
Marcus Strickland Quintet
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Qui 20-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
The Cookers
Lee Morgan 70th Birthday Celebration

Billy Harper (st), Bennie Maupin (st, clb), Craig Handy (sa), Larry Willis (p), Cecil McBee (ctb), Billy Hart (bat), David Weiss (t)

Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sex 21-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Kenny Barron Trio
KB (p), Kyioshi Kitagawa (b), Johnathan Blake (bat)
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)
Sáb 22-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
22.00
Metropole Orchestra conducted by Vince Mendoza + Peter Erskine
(bat): Petter Erskine,
1ºs (v): Arlia de Ruiter, Alida Schat, Sarah Koch, Denis Koenders, Pauline Terlouw, Erica Korthals Altes, David Peijnenborgh, Seija Teeuwen,
2ºs (v): Merijn Rombout, Herman van Haaren, Lucja Domski, Wim Kok, Elisabeth Cats, Marianne van den Heuvel, Vera van der Bie
Violas Mieke Honingh, Norman Jansen, Julia Jowett, Iris Schut, Isabella Petersen,
(vcelo): Bastiaan van der Werf, Maarten Jansen, Wim Grin, Jascha Albracht,
(ctb): Erik Winkelmann, Arend Liefkes,
(har): Joke Schonewille,
(f): Janine Abbas, Mariël van den Bos,
(obo): Willem Luijt,
(s): Marc Scholten, Paul van der Feen, Leo Janssen, Jos Beeren, Max Boeree,
(tro): Pieter Hunfeld,
(t): Jan Oosthof, Jan Hollander, Henk Heijink, Ruud Breuls,
(trb): Bart van Lier, Jan Oosting, Jan Bastiani,
(trbb): Martin van den Berg,
(perc): Eddy Koopman, Murk Jiskoot,
(ctb): Aram Kersbergen,
(g): Peter Tiehuis,
(p, sin): Hans Vroomans
Guimarães
Centro Cultural Vila Flor
24.00
Marcus Strickland Quintet - Jam Session
Marcus Strickland (s), Jason Palmer (t), David Bryant (p), Luques Curtis (b), John Davis (bat)

 


Guimarães Jazz 2007

Cumpriu-se mais um Guimarães Jazz. Duas semanas, nove concertos dos quais sete «internacionais», seis (longas) noites de jam sessions, uma workshop de uma semana envolvendo dezenas de jovens estudantes de música, uma produção irrepreensível no apoio aos músicos, público e aos jornalistas e críticos, material de apoio e informação profuso e graficamente elegante, gadgets, etc. Se a tudo isto acrescentarmos bilhetes relativamente acessíveis e duas excelentes salas de espectáculo, temos uma verdadeira festa de Jazz, que faz de Guimarães um local de romaria anual. Enfim, ajuntando à dimensão e à profissional produção, resta acrescentar a criteriosa programação, a cargo de Ivo Martins.
Como referi na antecipação do festival, a programação do Guimarães Jazz sofreu uma (deliberada) inflexão recente no sentido do mainstream, abandonando algum gosto pelo risco que o personalizava. Perdido aqui, ganho em público, argumenta a organização, ele aí está, o Guimarães Jazz.
Na primeira semana, a que não assisti, tocou (terá tocado), melhor o jovem Ravi Coltrane, emocionou o histórico Pharoah Sanders, sem novidade Jan Garbarek; assim me contaram.

A energia da juventude (do Orrin Evans Quintet)
A segunda semana abriu com o Orrin Evans Quintet, o grupo responsável também pelas workshops e, como é hábito, pela animação das noites no «Convívio».
Orrin Evans é o talentoso músico que se tem vindo a fazer notar como um dos pianistas da Mingus Big Band. No palco do «Vila Flor», revelou-se um sólido e consistente leader. Numa banda composta por músicos relativamente jovens, a irreverência corria, servida por um sólido conhecimento da tradição Jazz; o que não significou de todo passadismo. Este terá sido talvez o mais coeso e equilibrado dos grupos que já veio a Guimarães animar as jams e as workshops.
O quinteto abriu a segunda semana da melhor forma. Tinha chamado a atenção na antevisão do festival para o trompete luminoso de Sipiagin, mas todos os músicos se revelaram exímios executantes. A começar, claro, por Orrin Evans como era expectável, mas também surpreendente pelo ímpeto coltraneano do saxofonismo Stacey Dillard ou a dupla imparável Donald Edwards - Darryl Hall, bateria – contrabaixo.


O Jazz Real (do John Scofield Trio)
A noite seguinte trouxe a Guimarães outro momento alto e, como tinha previsto, energia. Os méritos de John Scofield nunca estiveram em causa – ele que foi um dos meninos bonitos de Miles -, mas a verdade é que o seu percurso vem sendo bastante irregular. Ainda assim, o projecto – o Real Jazz Trio - que trouxe a Guimarães era à partida um projecto ganhador; até pelos constituintes, Scofield mais o grande Steve Swallow e a subtileza das baquetas de Bill Stewart (acrescido de um trio de sopros que se limitaram quase sempre a fazer os voicings, sem sair da pauta). Energia, blues, R&B e funky encheram a sala ao longo das duas horas do concerto, levando o público ao rubro.
O «Real Jazz Trio» pratica uma música rude e impulsiva, de grande intensidade. Ao contrário da secção de sopros, aos titulares é deixada toda a liberdade: Scofield alterna nos solos entre a sonoridade country quase quase Bill Frisell em «The House Of The Rising Sun» e a crueza dos blues em «Over Big Top» e... «I Can’t Get No Satisfaction». Mas a quietude e lirismo de Jim Hall pareceu andar por aí em «Memorette» e o humor esteve sempre presente nos temas mais bop. A guitarra de Scofield é realmente enciclopédica e nem faltou a electricidade de Jimi Hendrix ou um cáustico sabor a acid-jazz. Sobre o lendário baixo de cinco cordas de Steve Swallow, ele é sempre um deslumbramento, e até a delicada bateria de Bill Stewart se permitiu mais estridentes e rasgadas intervenções.

O virtuoso egocêntrico (:Ahmad Jamal)
Ahmad Jamal foi o responsável pela noite mais polémica da segunda semana, dividindo as opiniões entre o público e a crítica. O Ahmad Jamal, que exerceu profunda influência sobre Miles Davis nos anos 60, não tem nada a ver com o pianista que tocou em Guimarães. A História notou-lhe a «invenção» do silêncio e o equilaterismo absoluto do trio desse tempo. Mas o Ahmad Jamal que veio ao Estoril em 94, era já outro: tornar-se-ia impossível reconhecê-lo apenas mela música! Desde então para cá, o processo de recentramento da música na sua pessoa (apesar do combo de suporte se manter praticamente inalterado) foi absoluto, e a sua música tornou-se vertiginosa. Para o público o virtuosismo é um valor, e daí os aplausos incondicionais; mas a crítica não reconhece a bondade da virtuose por si. Que a crítica também não é unânime; se bem que alguns comentadores pareceram não ter estado no concerto, tendo-se limitado a debitar os textos das enciclopédias... Sarcasmo à parte, as críticas mais pertinentes parecem-me vir dos que acusam Jamal de frieza e despropósito que resultam numa espécie de discurso fragmentado e desconexo. O virtuosismo excessivo de Jamal, mas também alguns maneirismos e truques primários destinados a provocar a adesão do público não ajudam...
É claro que as críticas que vêm sendo feitas a Ahmad Jamal são pertinentes: é verdade que a sua música é fria e é verdade que o seu discurso é fragmentário. E é verdade também que alguns «truques» que usa são artifícios espúrios destinados a agradar ou, talvez melhor, a impressionar o público.
A minha observação é que Ahmad Jamal padece bastante da vaidade dos virtuosos, e estamos a falar de um patamar para além do qual toda a música tende a parecer rotina. Recordemos por exemplo o excelente concerto de Keith Jarrett no CCB: não poucas vezes cogitei como estava desprovido de emoção; quantas vezes fechei os olhos à procura da alma. Mas quem sou eu para avaliar o coração destes músicos para além do entendimento? Como não amar aquela música tão, perfeita? Não raras vezes observamos como os instrumentos já parecem tocar sozinhos e quantas vezes aqueles fantásticos músicos simulam até a emoção (como orgasmos?)?
Ahmad Jamal é um virtuoso para além das classificações. O seu discurso é fragmetário/ fragmentado; mas esse discurso é exactamente assim por opção: coerente, se o compreendermos no todo da composição. Alucinante e excessivo; economia é palavra escusa no seu vocabulário. Ausente de subtileza, dirão: eu diria explícito. Redundante: eu diria conclusivo. Ele executa uma e outra figura, experimenta um e outro efeito, ele liberta duendes e fantasmas que recolhe adiante. Como poucos, Jamal é um pianista total (totalizante) e usa a todo o momento todos os recursos do piano, mas o excesso é o privilégio dos virtuosos.
Se o instrumento de Ahmad Jamal foi no passado, talvez mais do que o piano, o trio; ele assim permanece, mas por perversidade agora desmesuradamente desequilibrado sobre o seu lado. Os músicos que o acompanham revelam-se efectivamente acompanhantes e, com frequência pouco mais que complementos; e aqui reside o fundamental da minha crítica à música de Ahmad Jamal de hoje.
Irrepreensível e seguro esteve sempre James Cammack, denotando até a sua persistência como sideman do mestre; mas o mesmo não se poderá dizer de Idris Muhammad, cuja pertinência questiono. A começar pelo uso de umas baquetas muito duras, creio que de carbono, semelhantes às dos (que pensam que são) bateristas de heavy metal; muito duras e sem ressalto. O efeito resultante é uma batida violenta, sem laivos de sensibilidade e falho de swing. E é aqui que o percussionista entra: para dar cor ao árido pano de fundo rítmico da bateria. Manolo Badrena é exactamente isso: um percussionista colorido cujo papel é o de insuflar alma na música de Ahmad Jamal. Ainda assim, sem se revelar um percussionista extraordinário, Badrena cumpre bem o seu papel.
Repertório quase sempre contemporâneo e próprio, não deixou de recorrer ao mítico (belíssimo) «Poinciana» antes do encore.
Enfim, apesar das minhas observações, Ahmad Jamal permanece um grande pianista e foi para mim um dos grandes momentos do festival.

O sólido Jazz (de Charles Tolliver)
Bem ancorada num sólido hard-bop esteve a Charles Tolliver Big Band, que estava reservada para o encerramento do Guimarães Jazz 2007. Esclarecedor foi desde logo o primeiro tema da noite: poder, mais do especial engenho nos arranjos, punch, mais que subtileza, disciplina e solistas de elevado gabarito.
Charles Tolliver no trompete, mais que na direcção, e um extraordinário Billy Harper no saxofone tenor, estiveram em destaque em temas como «On The Nile». Noutros momentos toda a secção de palhetas estaria em especial evidência: Bruce Williams num demolidor solo parkeriano em «Mournin’var» e de novo no clássico «Round Midnight», e Todd Bashore e Bill Saxton em «Suspiction».
«Suspiction», o encore, com um desfilar de saxofonistas foi, apesar da simplicidade da estrutura um dos momentos da noite, a par do tema de abertura e do clássico «Round Midnight», em vários andamentos, onde toda a classe de um pianista veterano como Kirk Lightsey se revelou.
Energia a rodos, simples nas formas mas dinâmico. Jazz sólido e saboroso.

O silêncio e a poesia (no TOAP Colectivo)
À margem do palco principal realizou-se o concerto do TOAP Colectivo, da Big Band da ESMAE dirigida por Orrin Evans e ainda as jam sessions animadas pelo quinteto do mesmo Orrin Evans, e que decorreram, na primeira semana no Café Concerto do Vila Flor e na segunda no exíguo mas animado espaço da Associação Convívio.
O TOAP Colectivo (2007), cujo primeiro concerto deverá dar origem a um disco a editar em breve, realizou um concerto inesperado: ao neo-bop anguloso do ano passado sucedeu uma música dificilmente classificável, privilegiando o quase silêncio em movimentos aparentemente aleatórios. Os quatro artífices praticam uma música que remete para áreas da música erudita europeia exterior ao Jazz, tanto quanto algumas peças mais abstractas da Creative Orchestra Music do Anthony Braxton dos anos 70. Música de rara beleza conceptual a produzida pelo renovado TOAP composto por Jacob Sacks, Matt Renzi, Bernardo Moreira e André Sousa Machado.

A oficina (workshop) do Jazz (prédica moralista)
Já o produto das workshops do quinteto de Orrin Evans se revelou bem alcandorado num sólido mas moderno hard-bop. Sob a batuta de Orrin Evans a excelente Big Band da ESMAE esteve no seu melhor.
O trabalho da orquestra é um trabalho a que reconheço um enorme mérito: o estudo enquadrado numa orquestra e sob a direcção de professores qualificados é fundamental (não o único instrumento/ local, evidentemente, mas é fundamental) para a formação dos jovens músicos. Ou não será também por acaso que o exercício coral colectivo é considerado fundamental nas escolas de música clássica, como nas escolas de música negra. Os músicos de New Orleans tarimbavam nas grandes orquestras de rua e todos os grandes mestres sem excepção por lá passaram. Mas atenção: uma orquestra de Jazz é um colectivo com objectivos bem definidos, onde os actores cumprem papéis e crescem na colaboração e na competição, e não um aglomerado de curtidos em exercícios onanísticos colectivos.
Sobre as escolas de Jazz, também já tenho tido oportunidade de me manifestar; e é por isso com grande entusiasmo que todos as Primaveras aplaudo o acontecimento da «Grande Festa do Jazz no S. Luiz», por onde passam as escolas de Jazz de todo o país em concurso ao longo de dois dias. É um exercício que aconselho a todos os amantes do Jazz: ver o espectáculo da alegria (e nervosismo como tantas vezes...) de tocar Jazz daquelas centenas de jovens (pretendentes a) músicos de Jazz. As escolas de Jazz são fundamentais, e quem o não reconhece, não sabe nada. Pretender que se pode ir para o palco e tocar sem ter passado pela escola, em 2007, é no mínimo ridículo. Mas não original...
Vem isto tudo a propósito da semana de workshop que sempre acontece no Guimarães Jazz; um trabalho invisível, mas de enorme mérito. O mérito principal, concluo agora, é o de permitir que jovens aprendizes da nobre arte do Jazz contactem com músicos estrangeiros (e perdoem-me que privilegie os norte-americanos; não apenas porque os EUA é a pátria do Jazz, mas também porque o seu nível é excepcionalmente elevado, como foi observável até mesmo nos mais jovens dos membros do Orrin Evans 5tet!) e com ele aprendam. Creio que é um aspecto que alguns directores de escolas e professores descuram; mas deveriam acautelar, até para contornar o normal processo de enquistamento de vícios provocados até pelo inevitável isolamento das escolas de música num país onde a música é o fado (a desgraça). O contrato de professores e músicos estrangeiros capazes de confrontar os jovens estudantes com outros métodos e outras realidades é fundamental (e aqui vai em nota de rodapé mais um pouco do meu veneno: eu creio que existe também muita arrogância nalguns professores e directores que se consideram a si próprios os melhores e não gostariam nada do confronto. Estou enganado?).
Enfim, a semaninha de workshop proporcionada pelo Guimarães Jazz não resolve o problema; mas aponta uma direcção. Experimentem perguntar aos jovens que por lá passam o que pensam da experiência...
Enfim, perdoem-me a toada moralista, mas creio que seria uma boa ideia que outros festivais proporcionassem este tipo de encontros imediatos de 3.º grau aos jovens aprendizes de Jazz, que escolas e orquestras o fizessem e que mecenas o proporcionassem ... Como aliás o já fez a Culturgest no passado... Mas ouvi dizer que a banca em Portugal andava com problemas financeiros...
Uma última nota nesta já longa conversa: sempre há um concerto no final das workshops, resultado do trabalho dessa semana. Mas dado que ele é relegado para a tarde de sexta ou sábado no Auditório 2 do Centro Cultural Vila Flor, muito pouca gente acaba por assistir. Não mereceria ele outra visibilidade? E não mereceria Guimarães saber o que estiveram a fazer aqueles jovens dia e noite naquela semana? Será que não era interessante pô-los a fazer a primeira parte do concerto da última noite? Ou pô-los a tocar nos coretos da cidade? Ou no mercado no sábado de manhã? Ou na feira! Ou espalhá-los pelas freguesias do concelho? Sei lá!, dar-lhes visibilidade!
Ah!, mas é verdade!, sobre o concerto!: Claro que se estava em presença de uma das melhores escolas de Jazz do país (a ESMAE) e isso faz bastante a diferença. É interessante observar como eles são capazes de enfrentar algumas peças mais clássicas como «Someday My Prince Will Come», como outras de cariz mais imprevisível como o «Oh Lord! Don’t Let Them Drop That Atomic Bomb on Me» do sarcástico Charles Mingus, ou ainda inéditos de Orrin Evans, Eric Revis ou Bobby Watson. A orquestra revelou plasticidade e disciplina e apresentou quase sempre bons solistas (nem todos, mas não esqueçamos que estamos ainda assim perante uma escola). A jovem (veterana) Susana Silva esteve em evidência, excelente no uso da surdina; mas também o saxofone alto de João Mortágua em «Easy Now» e essa outra revelação, Ivan Silvestre, em «Conservations» de Bobby Watson.

Noites de magia (:as jams do Convívio)

Por fim as jam sessions. Eu sou fã das jam sessions do Guimarães Jazz. Creio que é o único momento do ano (a única cidade do país, o único festival) onde se recria um pouco o espírito que se vivia no Hot Club nos anos 70: muitos músicos de origens diferentes a tocar, muita gente nova (e gira) a aplaudir entusiasticamente e a circular, muita loucura noite fora. Como já vos disse, apenas estive em Guimarães na segunda semana do festival. Na primeira, as jam sessions decorreram no Café Concerto do Vila Flor onde existem algumas condições acústicas e algum espaço para se circular. No Convívio, situado na zona histórica da cidade, o espaço é exíguo e as condições acústicas são deficientes, mas tem outro encanto. Não vou descrever, o que até já fiz um pouco no passado. Apenas referir que nas últimas noites chegaram a estar no reduzido «palco» do Convívio quase duas dezenas de músicos, onde fisicamente apenas caberiam talvez um terço. E que músicos, senhores! Aos jovens aguerridos do quinteto de serviço foram-se juntando os alunos das workshops e toda a Big Band de Charles Tolliver! Quanto ao público... Mas para que é preciso espaço quando há aquela música e calor humano e cerveja? Uma jam session é uma jam session, mas as do Guimarães Jazz são outra coisa!
Enfim, para o ano há mais. Aqui fica uma pequena reportagem fotográfica. Clique na imagem!

Dezembro 2007

(Fotos de Ahmad Jamal, Charles Tolliver Big Band, John Sofield, Billy Harper, TOAP Colectivo e Orrin Evans, por MÁRCIA LESSA, gentilmente cedidos por Guimarães Jazz.)


Antecipação do Guimarães Jazz 2007

O acontecimento da semana é o início do Guimarães Jazz que decorrerá até dia 17. De longe o mais importante festival de Jazz nacional, pela dimensão e pelo critério, a programação prossegue a linha mais mainstream dos anos anteriores, longe das polémicas e de algum risco de outrora. Maturo e equilibrado, creio que apesar do inquestionável acerto dos nomes escolhidos - todos eles de primeiríssimo plano -, se perdeu algum gosto pela aventura e pela novidade que personalizava o festival. Os nomes, uma boa parte ajudaram a cosntruir a história do Jazz dos últimos 40 anos e alguns outros são já nomes seguros do moderno mainstream. Vamos a eles.

Já na quinta toca o lendário Pharoah Sanders, um dos últimos companheiros de John Coltrane; um músico intenso, que sempre imprime na sua música as convicções ascéticas e religiosas. Algo distante das formas mais radicais que experimentou com Trane, Sanders amenizou as formas, balanceando a rudeza do free com o lirismo e místicismo numa espécie de síntese que faz dele uma das sonoridades mais imediatamente reconhecíveis.
Acompanha-o um trio de músicos experientes, com quem toca há largos anos, Nat Reeves no contrabaixo, William Henderson no piano e Joe Farnsworth à bateria.

Pois na sexta toca exactamente Ravi, o filho de Coltrane, que não escolheu o estilo nem a forma de tocar do pai nem vive à sua sombra. Ele pratica um estilo híbrido algo herdeiro do hard-bop, mas também do M-Base onde «militou» nos anos 70; e é por direito próprio um dos nomes maiores da sua geração. Curiosamente, nos últimos tempos, tem-se notado uma aproximação ao estilo do pai, mais arrebatado e intenso. A acompanhá-lo estarão três outros sólidos músicos, Drew Gress, Luis Perdomo e E.J Strickland, dos quais o pianista (Perdomo) será o menos conhecido do público nacional, mas é será muito provavelmente sobre quem se deverão dirigir as atenções. Drew Gress, cerebral e rigorroso, realizou em Oeiras e em Leiria dois dos grandes concertos do ano e Strickland é um eficiente e impressivo baterista.

No sábado toca Jan Garbarek, um dos nomes maiores do catálogo ECM, bastante popular entre nós. A acompanhá-lo estão dois músicos que o conhecem bem, Manu Katché e Rainer Brüninghaus e Yuri Daniel que substitui Eberhard Weber.
Músico de muitas músicas, Garbarek é um músico de Jazz atípico que explora desde há muito as músicos do mundo e do tempo, com colaborações que vão de Agnes Buen Garnas a Bugge Wesseltoft, Ustad Nazim Ali Khan, Mari Boine ou os Hilliard Ensemble. Ele possui um som límpido que evoca os grandes espaços, bastante dramático, igualmente capaz de tocar «o grande Jazz» ou a folk universal. O grupo que se apresentará em Guimarães no entanto será o clássico quarteto que o acompanha há vinte anos onde, como referi, Weber, que se encontra doente, será substituido por Yuri Daniel. Outro concerto ganhador.

As noites prolongam-se como é hábito, esta semana no Café Concerto e para a semana no Convívio, sempre «até às tantas». A banda residente nas jams é este ano o quarteto do pianista Orrin Evans, com o irredutível Alex Sipiagin no trompete, Donald Edwards na bateria, Darryl Hall no contrabaixo e Stacy Dillard no saxofone.

5 de Novembro de 2007

Esta semana prossegue o Guimarães Jazz. Os nomes grandes são o lendário Ahmad Jamal, John Scofield, o guitarrista que acompanhou Miles no início dos anos 70, e Charles Tolliver e a sua Big Band. Claro que quem já esteve em Guimarães sabe que o festival não começa nem acaba nos concertos e se prolonga pelas workshops e pelas noites no Convívio, entre outros acontecimentos. Este ano, «outros» são a gravação de um disco para a Tone Of A Pitch (TOAP Colectivo) num concerto no sábado à tarde ou o concerto da Big Band da ESMAE dirigida por Orrin Evans na sexta.

Orrin Evans é o jovem e talentoso pianista que lidera o grupo responsável pelas longas noites no Convívio que sempre se prolongam até não haver gente ou acabar a cerveja; mas também o grupo que dirigirá as workshops e que abre as hostilidades esta semana, já na noite de quarta-feira. Atenção para o trompete de Sipiagin!

Na quinta então, cabem as honras ao «Real Jazz Trio» de John Scofield, que tem como membros nada menos que o exuberante Steve Swallow e o sensível Bill Stewart.
Scofield é um músico algo irregular (ou se preferirmos, camaleónico), capaz de apresentar sob os mais diversos rostos, entre a fusão jazz-rock e o jazz puro e duro. O grupo que se apresenta em Guimarães pertence a esta última classificação. Para além do trio de virtuosos, fazem ainda parte do grupo três sopros, a acrescentar densidade ao Jazz Real de Scofield. Prometem-se emoções fortes para quinta-feira.

Na noite seguinte é a vez da lenda Ahmad Jamal, o pianista que Miles Davis considerava «o mais modernista dos pianistas». Miles admirava-lhe sobretudo o engenhoso uso do silêncio e o perfeito equilíbrio do triângulo que o notabilizava. Longe das formas elegantes desses longínquos anos 60, Jamal tornou-se um pianista vertiginoso. Tudo se concentra nele e até mesmo na designação do espectáculo desapareceram os nomes dos acólitos. Do grupo de suporte, James Cammack e Idris Muhammad acompanham-no há bastante tempo e são dois mais que eficientes sidemen, que contribuem para o efeito «totalizante» do som do grupo. Acompanham-no um percussionista desconhecido (para mim). Apesar da já proventa idade – 77 anos -, auspicia-se um grande concerto.

Para o encerramento do festival, e como é tradição em Guimarães, apresentar-se-á uma big band, este ano dirigida por Charles Tolliver; um músico que nos últimos anos se distinguiu como acompanhante de Andrew Hill, até ao seu recente desaparecimento. Tolliver professa um bop erudito: enquanto instrumentista, ele estará na escola dos grandes virtuosos como Freddie Hubbard. A orquestra de vinte elementos que dirige, onde predominam os metais, tem reputação de poderosa e sofisticada. A ouvir vamos.

12 de Novembro de 2007

Qui 8-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
24.00
Guimarães Jazz
Jam Sessions - 8 a 10
Orrin Evans Group
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s)
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Pharoah Sanders Quartet

PS (s), William Henderson (p), Nat Reeves (ctb), Joe Farnsworth (bat)

Sex 9-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Ravi Coltrane Quartet
RC (ts, ss), Drew Gress (ctb), Luis Perdomo (p), E.J Strickland (bat)
Sáb 10-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Jan Garbarek Group
JG (s), Manu Katché (perc), Yuri Daniel (ctb), Rainer Brüninghaus (p)
Seg 12-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
Guimarães Jazz
Workshops de Jazz: 12 a 17

Orrin Evans: bb, p
Alex Sipiagin: t,
Donald Edwards: bat,
Darryl Hall: b,
Stacey Dillard: s

Qua 14-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
Orrin Evans Quintet
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s)
Qui 15-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz
John Scofield «Real Jazz» Trio

Steve Swallow + Bill Stewart - JS (g), SS (b), BS (bat), Phil Grenadier (t, flug), Eddie Salkin (st, f, cl-b), Frank Vacin (sb, cl-b)

Guimarães
Associação Cultural Convívio
22.00
Guimarães Jazz
Jam Sessions - 15 a 17
Orrin Evans Group
OE (p), Alex Sipiagin (t), Donald Edwards (bat), Darryl Hall (ctb), Stacy Dillard (s
Sex 16-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
18.00
Guimarães Jazz

Big Band ESMAE
Big Band ESMAE conduzida por Orrin Evans
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz

Ahmad Jamal
AJ (p), James Cammack (ctb), Idris Muhammad (bat), Manolo Badrena (perc)
Sáb 17-Nov
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
18.00
Guimarães Jazz

TOAP Colectivo
Matt Renzi (st, cl) Jacob Sacks (p), Bernardo Moreira (ctb), André Sousa Machado (bat)
Guimarães
Centro Cultural Vila-Flor
22.00
Guimarães Jazz

Charles Tolliver Big Band
CT (dir), David Guy (t), Chris Albert (t), Keyon Harrold (t), David Weiss (t), James Zollar (t), Joe Fiedler (trb), Clark Gayton (trb), Stafford Hunter (trb), Jason Jackson (trb), Aaron Johnson (trb), Todd Bashore (s), Jimmy Cozier (s), Craig Handy (s), Billy Harper (s), Bill Saxton (s), Howard Johnson (s), Stanley Cowell , Cecil McBee (ctb), Victor Lewis (bat), Ched Tolliver (g).

 

 

 


Nome: Guimarães Jazz (Festival)

Localidade: Guimarães

Sala dos Espectáculos: Centro Cultural Vila Flor

Morada: Av. D. Afonso Henriques, 701, Urgeses, 4810-431 Guimarães

Telefone: 253 424 700

Bilheteira: Centro Cultural Vila Flor e www.aoficina.pt

Período do ano: Novembro

Programador/ Director Artístico Actual: Ivo Martins

Anteriores Programadores: António Ferro

Organização/ Proprietário: Câmara Municipal de Guimarães, A Oficina, Convívio – Associação Cultural

Festivais: Músicos que já tocaram (por edições, se possível)2006 (15ª edição): Wayne Shorter Quartet, Marc Copland Trio & Tim Hagans, Abdullah Ibrahim’s Trio, Alexis Cuadrado, Alan Ferber, John Ellis, Mark Ferber, Brad Shepik, Geri Allen, Eric McPherson, John Hebert, Brussels Jazz Orchestra Featuring Dave Liebman, Charlie Haden Liberation Music Orchestra Featuring Carla Bley2005 (14ª edição): Bob Brookmeyer New Art Orchestra, Jason Moran, Ralph Alessi Quartet, Art Ensemble of Chicago, Dave Liebman Quartet, Katrine Madsen and the Orchestra, Maria Schneider Orchestra2004 (13ªedição): Kenny Wheeler, Terence Blanchard, Cecil Taylor, Tony Oxley, Bill Dixon, Mark Turner, Vienna Art Orchestra, Big Band Poesie, Ron Carter, Dewey Redman2003 (12ª edição): Gianluigi Trovesi e Big Band, Danilo Perez Trio, Martial Solal,ONJ – Orquestra Nacional de França, Anthony Braxton Quarteto, Randy Weston African Rhythms Trio, Bobby Hutcherson Quarteto2002 (11ª edição): Bob Mintzer e Big Band, Eric Person Meta-Four Quarteto, Brad Mehldau, Neal Kirkwood Octeto, Marilyn Crispell, Barry Guy & Gerry Hemingway, Sheila Jordan & Steve Kuhn Trio, Achim Kaufmann Quarteto, Herb Robertson Sexteto, ZFP Quarteto, Peter Erskine Trio2001 (10 edição): Maria Schneider, Carlos Azevedo Ensemble, Uri Caine, Territtory Band c/ Ken Vandermark, bAlex von Schlippenbach, Italian Instabile Orquestra, João Paulo Esteves da Silva Quarteto, François Corneloup Quarteto, Bik Bent Braam Orquestra, Franz Koglmann Quarteto, Malcolm Braff Combo

A programação é apenas Jazz? sim

Outra informação que considerem pertinente: Paralelamente aos concertos, o Guimarães Jazz promove Oficinas de Jazz que, durante o festival, são um espaço de aprendizagem e troca de experiências entre jovens músicos e músicos de jazz consagrados.


Concertos

Guimarães Jazz 2006
O Guimarães Jazz vem-se afirmando desde há anos o melhor festival de Jazz nacional. Pela programação – criteriosa e sabedora – à dimensão, entre concertos e eventos paralelos. No ano passado ganhou uma nova dimensão no novíssimo Centro Cultural Vila Flor, a rivalizar com as melhores salas de espectáculo nacionais.
Apenas assisti aos concertos da segunda semana, mas gostaria de recordar algumas das coisas escrevi como apresentação da primeira semana do festival no início de Novembro.

«A programação deste ano é verdadeiramente luxuosa. Na quarta-feira, tem lugar o concerto de uma das lendas vivas do Jazz, Wayne Shorter. Companheiro de Miles Davis e um dos seus compositores privilegiados, Shorter é também um dos mais influentes saxofonistas da actualidade, mesmo se ele nunca apareceu ao público como um músico de primeiro plano. Até ao ano de 2002 quando reuniu um quarteto de luxo para explicar ao mundo o porquê da sua autoridade entre os músicos de Jazz. "Footprints", como se chamou o disco, reuniu Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade na bateria, numa recuperação que muitos pensariam impossível do Jazz mainstream dos anos 60, onde Miles Davis (pré-eléctrico) era figura maior. Escrevi na altura:
" Espírito do Jazz. Se existe essa coisa a que alguns dão o nome de 'espírito do Jazz', então ele passou por aqui. 'Footprints' é inequivocamente Jazz no seu estado mais puro e Wayne Shorter um dos seus mais dignos representantes. 'Footprints' foi gravado ao vivo por um quarteto em estado de graça, acústico, durante uma tournée de 2001 ... ".
Cinco anos depois e mais dois discos, Shorter "Footprints" – o quarteto e o projecto - toca (de novo) em Portugal. Em Guimarães (quarta, 8) e na Culturgest (quinta, 9). Imperdível.

Quinta também, em Guimarães toca o Tone Of A Pitch Colectivo, nome da activa editora de Jazz nacional, com três dos excelsos convidados do festival às workshops: John Ellis, Alan Ferber e Brad Shepik. A actuação do quarteto composto (este ano) por Nelson Cascais, Pedro Moreira, Jorge Reis e Bruno Pedroso inicia uma colaboração que se pretende frutuosa com o Guimarães Jazz.

Marc Copland é um pianista subtil e lírico, insinuante e impressivo. A sua forma mais reconhecida, a sua "especialidade" e a sua "marca" são os encontros, os duos ou trios, os diálogos. Tim Haggans, por exemplo, com quem se apresenta em Guimarães na sexta-feira, já protagonizou com Copland um dos raros discos de piano-trompete da história do Jazz, em 2000. Mas já tocou em trio com John Abercrombie (g) e Kenny Wheeler (t) e em duo com Gary Peacock (ctb) ou Greg Osby (sa), com Dave Liebman (ss, st), ou já este ano com Bill Carrothers, num lindíssimo duo de pianos.
Comunhão, afinidades, empatia, parece ser a obsessão deste grande pianista de Jazz. Com ele, Tim Hagans que tocou já este ano no Estoril Jazz, uma espécie de bopper inconformado, também como Copland capaz de se revelar lírico e apaixonado. A completar o quarteto um grande irreverente contrabaixista, Drew Gress e ainda o competente Jochen Ruckert na bateria. De referir que estes dois últimos músicos gravaram recentemente com Copland um disco com um nome significativo: Some Love Songs. Um concerto muito bonito em perspectiva. Na sexta.

Na tarde de sábado toca o Sexteto de Jazz da ESMAE - Porto, que ganhou o prémio do melhor combo na Festa do Jazz (S. Luiz, Lisboa), em 2006. Na boca de cena estarão os dois músicos que ganharam o prémio do melhor instrumentista: os saxofonistas Ivan Silvestre e João Pedro Brandão.

No sábado ainda, à noite, toca o trio regular de Abdulah Ibrahim, composto por Belden Bullock (ctb) e George Gray (bat). Será provavelmente um Abdulah Ibrahim mais Jazz que o que se apresentou em Março na Casa da Música o que tocará em Guimarães.
Relembro o que escrevi por essa ocasião: "Ibrahim dispensa apresentações: ele é um aclamado pianista de Jazz, sul-africano de nascença, por longos anos – até ao fim do apartheid – exilado. Ele possui uma sonoridade reconhecível, densa e quente, fortemente melódica, mesmo ‘dançável’, mas de forma alguma vulgar ou fácil. O percurso de Abdulah Ibrahim é longo, desde os tempos em que era influenciado por Monk (quando ainda dava pelo nome de Dollar Brand) até à pontuação grave da savana, religiosidade e serenidade (AI converteu-se ao islamismo) que hoje faz brotar dos dedos. Não será um Abdulah Ibrahim inovador que se irá apresentar no Domingo na Casa da Música, mas a sua música possui algo se mágico que é eterno."
Magia é uma vez mais o que se espera do concerto do grande pianista.

E o Guimarães Jazz continua para a semana. Mais ou menos, porque do que eu não falei foram das workshops dirigidas por Alexis Cuadrado, Alan Ferber,John Ellis, Mark Ferber e Brad Shepik a várias dezenas de jovens e que terminarão no final da próxima semana e ainda as lendárias Jam Sessions noite afora no Convívio. E mais não digo. »

A segunda semana do Guimarães Jazz começou com o concerto dos músicos convidados para dirigir as Oficinas de Jazz deste ano: Alexis Cuadrado, Alan Ferber, John Ellis, Mark Ferber e Brad Shepik. Foi um concerto onde a surpresa este ausente, mas descontraído e competente. E como eu suspeitava os momentos mais interessantes foram protagonizados pelo guitarrista. Shepik mostrou toda a sua originalidade e fogosidade nos solos, e as suas intervenções no seio do grupo foram sempre oportunas.

A «solução de recurso» encontrada para substituir o lendário Andrew Hill, Geri Alen fez um excelente concerto. Allen chegou a Guimarães na tarde de quinta, quando conheceu os dois músicos que a iriam acompanhar, o baterista e contrabaixista do grupo de Hill, e apesar de apenas terem tido algumas horas para ensaiar o repertório, o grupo demonstrou ao vivo o que são três verdadeiros músicos de Jazz a funcionar. Notaram-se por vezes algumas discretas indicações da pianista ao baterista e baixista e num ou outro tema ela teve que recorrer à pauta – afinal ela fez questão de interpretar algumas das composições de Andrew Hill -, mas ainda assim, aquela era a sua música. Jazz puro, quero eu dizer, na sua versão mais erudita. Como eu referi na apresentação de Allen, a pianista possui toda a história do piano Jazz nos dedos, do bebop a Cecil Taylor. O seu estilo é voluptuoso e elegante, orquestral e impressivo. Erudição, erudição, era a palavra que me soava no cérebro enquanto me deliciava com a inteligência das suas soluções. Espantoso era observar como os três reagiam aos estímulos mas subtis dos companheiros, como pareciam tocar juntos desde sempre, de como as mais complexas linhas delineadas pelo piano eram replicadas ou completadas. Já tinha ouvido Geri Allen e a sua música não me surpreendeu, como também não me surpreendeu a habilidade e energia criativa do baterista Eric McPherson, mas não me recordo de ter alguma vez visto o contrabaixista actuar. John Herbert foi uma boa surpresa. Mas mais do que a prestação das três personalidades, o espectáculo foi observar a empatia que se foi criando entre eles ao longo das duas horas. Um grande concerto!

Guimarães já tinha visto no ano passado o grande saxofonista que é Dave Liebman. Apesar disso, a dúvida sobre a eventual «artificialidade» da reunião Dave Liebman Liebman / Brussels Jazz Orchestra era de certa forma legítima: não são raros os exemplos mais ou menos oportunistas deste modelo, associando orquestra com «vedetas». Não foi de todo o que se passou em Guimarães e o mérito cabe em igual medida a ambas as partes. Liebman surgiu aos olhos (ouvidos) do público como um verdadeiro membro da orquestra! O entendimento foi sempre perfeito mercê também da maleabilidade da orquestra - uma espécie de organismo vivo a funcionar como um instrumento de onde pontualmente saíam solistas – e do elevadíssimo nível das prestações dos músicos, como membros da orquestra ou solistas, da alegria que comunicavam, do rigor e da inteligência dos arranjos. A noite foi assim quase quase perfeita. Quase quase: achei a prestação de Nathalie Loriers, a pianista, algo contida (ao contrário da fogosidade do resto da orquestra) e toda a secção rítmica poderia ser um pouco mais interventiva. Outro aspecto que acabou por prejudicar o concerto, e até porque ele se prolongou bastante, até pelo entusiasmo dos participantes e do público, foi o a incidência excessiva de Liebman no saxofone soprano.
Ainda assim o nível do concerto foi sempre elevadíssimo, com uma orquestra a funcionar quase sem director (que se relegava para o papel de simples instrumentista). Perfeição na execução, força, engenho e fulgor na interpretação de orquestrações de grande complexidade, naturalidade na adaptação do «elemento estranho», um naipe de instrumentistas de grande gabarito, à altura - nos solos e nos duelos – do convidado.
Dave Liebman foi simplesmente fabuloso (à parte o meu senão «técnico»). Como me diria Carla Bley no dia seguinte «provavelmente o melhor saxofonista da actualidade». E notável também, além das suas artes como instrumentista, a capacidade de interagir com outros músicos (o que explica a profícua e diversa produção artística em combos dos mais diversos formatos, do intimista ao orquestral), que o revelou como o solista perfeito e um verdadeiro membro da Brussels.
O repertório percorreu autores e arranjadores tão distintos quanto Hermeto Pascoal, Vince Mendonza, George Gruntz, Dave Holland, Duke Ellington ou o próprio Dave Liebman.

O encerramento do Guimarães Jazz 2006 esteve a cargo da Liberation Music Orchestra de Charlie Haden. Charlie Haden é «um amigo de Portugal». Faz parte da História a sua «conturbada» participação no 1.º Cascais Jazz de 1971, onde acabou por ganhar uma viagem de borla para o aeroporto escoltado pela PIDE. Mas também o igualmente histórico concerto de Haden com Carlos Paredes, o duo com Paul Motian no disco Closeness em «For a Free Portugal» (com uma introdução com a gravação do momento em que em Cascais dedicou a sua composição «Song For Che» aos movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné) e ainda a interpretação pela Liberation em 1982 do Grândola Vila Morena de José Afonso, registado em The Ballad Of The Fallen (Haden veio a Portugal por diversas outras vezes).
O concerto de Charlie Haden em Guimarães, exactamente 35 anos após a sua participação no 1.º Cascais Jazz estava por tudo isto carregado de expectativa, mas também emotividade.
A renovada Liberation Music Orchestra integra alguns dos melhores músicos de New York, entre os quais gostaria de destacar Chris Cheek, Miguel Zénon, Tony Malaby, Matt Wilson e Steve Cardenas. Cheek esteve em destaque; ele possui um fraseado e uma sonoridade característicos, com um vibrato muito peculiar que o torna distinto. Zénon que «conhecemos» no Seixal Jazz 2005 é já uma certeza entre a nova geração de saxofonistas. E seria displicente falar de cada um dos músicos da banda, todos eles escolhidos a dedo por Carla Bley de entre a nata dos músicos de New York, creio que quase todos.
Este é outro aspecto assinalável na Liberation: a omnipresença de Carla Bley, já que esta quase poderia ser a sua orquestra. Claro que o projecto é de Haden e esta é a sua música; mas são dela os arranjos, é dela a direcção, ela escolheu os músicos, a sua já longa amizade e colaboração com Haden acabou por influenciar o contrabaixista. A própria concepção «vampírica» de composição e orquestração de Carla Bley é desde há muito partilhada por Haden (ou será afinal o contrário?) e ela não pode ser ignorada na sua música.
O repertório do concerto baseou-se fundamentalmente no disco da Liberation Not In Our Name, que é também o lema dos opositores à intervenção americana no Iraque. De notar que o disco apenas contém temas escritos por compositores norte-americanos, numa forma de afirmar que na América nem todos estão de acordo com a política da administração Bush. Pat Metheny, Lyle Mays, Davis Bowie, Bill Frisell, Ornette Coleman ou os próprios Carla Bley e Charlie Haden passaram por Guimarães pela música da Liberation que terminou com um emocionante «Grandola/ We Shall Overcome».
A emoção marcou todo o concerto desde o primeiro minuto. Esse é mesmo um dos cunhos da música de Haden, seja no repertório que procura a provocação no enfoque militante às músicas populares do mundo, no tratamento orquestral excitante, diria épico, e que termina no próprio walking denso característico do seu contrabaixo. Em Guimarães o tom emotivo não parou de subir até ao último momento do concerto e isso era notório na forma entusiasmada como o público aplaudia. E eu mesmo fui apanhado de surpresa quando, já no encore, Tony Malaby e Matt Wilson surgem dos dois lados do palco a tocar o Grândola nos tambores. Confesso, aqui que ninguém mais nos ouve, que as lágrimas me explodiram nos olhos e não mais parei de chorar até ao fim do concerto. Eu sei que é completamente estúpido porque de certa forma eu já sabia que eles não poderiam deixar de tocar o Grândola. O que me perdeu foi talvez a forma dramática (lindíssima, e forte; Haden tem realmente jeito para dramatizar) como os dois músicos entraram em palco marcando de forma pesada o Grândola e depois como prosseguiu até se transformar no significante e cantável We Shall Overcome. Devo estar velho que me emociono com facilidade, mas reconfortei-me quando à saída observei outros velhos tontos como eu a fungar disfarçadamente.
Enfim, a emoção também faz parte da música e do Jazz muito em especial, sempre pensei. E o concerto que encerrou o Guimarães Jazz 2006 teve tudo: grandes composições, grandes músicos, grandes prestações e muita muita emoção.